A alma é a forma do corpo

Não há nenhuma dicotomia entre forma e conteúdo na problemática das escutas, pese a facilidade com que se compreendem as palavras do João Galamba. A violação do segredo de Justiça não é uma formalidade, é em si um conteúdo, é substantiva. Trata-se de um acto ao serviço de interesses que colidem com direitos dos implicados e a segurança da comunidade. As escutas até poderiam incluir passagens onde Sócrates fosse dado como um serial killer, para o caso era igual. Pura e simplesmente, não temos os materiais, os meios e os conhecimentos para nos substituirmos à Justiça. Assim, qual o resultado da publicação de um despacho cujo desfecho ainda é desconhecido? Apenas a criação de um ambiente perverso onde se explora a suspeição. Como está em causa o Primeiro-Ministro e o Governo, e os seus adversários políticos estão a usar a publicação para lançarem ataques, a situação é gravíssima.

Caso não consigamos estancar a instrumentalização da Justiça pelo poder político e mediático, a democracia deixa de ter condições para subsistir.

17 thoughts on “A alma é a forma do corpo”

  1. João quê? O tipol
    é jogador da bola? E joga onde no Alcoentrense?
    Dá gosto ver a tua tentativa de dramatização. É aliás sintomática da falta de argumentos que que confiram substância ao teu/vosso objectivo.

    Mas já que falas nisso, eu não consigo compreeder como é que há democracias que sobrevivem à sem um segredo de justiça como o português. Serve a quem este estado de coisas?

  2. Louve-se no entanto a coerência do ticket Psd cavaquista/justiça. Combate não só os inimigos externos (Sócrates) mas tambem os internos . Na luta interna pela liderança e apos a candidatura do Pinguim (que foi devidamente preparada tendo como ultimo acto a transmissão em directo por parte da SIC de um comício/soliloquio no Parlamento Europeu) aparecem agora na Sabado as ligações perigosas do Grupo de empresas onde PPCoelho é administrador financeiro. Um aviso a que se sucederão as eventuais escutas e divulgação de peças dos processos, se for caso disso, provavelmente por um qualquer procurador perto de si. Se assim for dar-me-á algum gozo ver alguns apoiantes de PPcoelho que tanto se indignam com os esquemas do engenheiro a terem que lidar com a mesma noja. Por outro lado pergunto, e Cavaco não sabe, ou por outra, não quer saber disto?
    Alguem acredita na sua equidistância ou afastamento dos métodos terroristas utilizados pela sua facção dentro do Partido?
    Conseguira o coelho fugir ao destino tragico da fabula e derrotar desta feita um pinguim ?

  3. Ibn Erriq,

    Porque são democracias com maturidade, onde o respeito pelas instituições prevalece e todos os actores políticos compreendem o sentido da palavra ética;

    Onde o debate politico é feito com base em ideias que favorecem todos e não apenas alguns

  4. Peço ao administrador deste blogue o obséquio de não apagar este comentário.

    K

    Diz-me com quem andas… Keu digo quem tu és.
    Aprende a poupar. Não precisavas desse monstro de comentário para concordares com o Valupi na honrosa demanda do remédio santo para salvares o premier, bastava dizeres: That`s the ticket!

    Valupi,

    Num outro post já admitiste as tuas virtudes de fantasista e que de facto não tens puta de ideia de quem é criminoso ou culpado. Agora admites que “a situação é gravíssima”. E para a próxima? Na pastelaria de Versalhes, a assoares o nariz e pronto a assinar as humilhantes condições do derrotado?

    Desabafa, antes que eu comece pràqui a falar da batalha dos camaleões, isto é, dos leões que não têm onde dormir se isto der uma volta.. Sem ofensa, pois, eu também gosto de fantasiar.

  5. Caro Valupi,

    Alguns reparos.

    1. Constato que afinal acabas por reconhecer que é preciso ler Aristoteles. Muito bem.

    2. O que aqui escreves é radicalmente incompativel com o que dizias aquando da nossa conversa sobre a entrevista televisiva de Vara. Afinal, vejo que compreendes hoje melhor os meus argumentos.

    3. Mas a tua posição continua extremada, desta vez no sentido inverso. Repara que a alma é a forma DO CORPO. Não é uma fantasia que paira nas nuvens. E’ unidade do corpo, material, porque é o que lhe permite viver, com tudo que isto implica, incluindo a satisfação das suas necessidades materiais. Uma alma que não se ajeita ao corpo, que não procura dar expressão e conteudo, e perfeição (ou seja felicidade), ao corpo, não passa de um trapo inutil, sem sentido.

    4. Voltando à terra, o legalismo tem limites, porque as normas juridicas são (e devem ser) instrumentais. Devemos respeita-las, mas não ao ponto de aceitar que elas encubram injustiças flagrantes. As normas que vigoravam nos campos de concentração, não eram normas aceitaveis, não que lhes faltasse alguma das caracteristicas formais das outras normas, mas porque eram completamente avessas à função que queremos que as normas tenham… E as normas que vigoram sem qualquer aplicação – como tantas ha em Portugal, a começar pelas que abrogaram a pena de morte em 1867 (mas as pessoas constipavam-se muito nas prisões fascistas…) – também não cumprem a sua função.

    5. No caso que te preocupa, compreendo o que dizes e, obviamente, parece-me inquestionavel que escutas ilicitas não têm qualquer valor judicial. Parece-me também importante apurar, e sancionar, as violações do segredo que permitiram a sua publicação. Mas não me parece que esta posição deva servir de impedimento à discussão da questão de fundo. Até porque das duas uma : ou não temos motivo (de fundo) para preocupar-nos, e nesse caso não devemos temer o debate, ou temos, e então devemos mesmo preocupar-nos.

    6. Em conclusão, concordo com o que diz o Rui Tavares (e provavelmente outros), que me parece ser também o que diz o João Galamba.

  6. joão viegas, medras em vários equívocos. O principal, esse de presumires que estou contra a exigência de investigação de qualquer facto suspeito, venha ele de onde vier. Pelo contrário, espero é que a Justiça funcione em pleno. Por isso, se há relevância criminal seja no que for, exijo a inerente consequência no plano da legalidade.

    Acontece que a publicação de informações parcelares, já na posse dos agentes de Justiça, não configura um bem. A menos que consideres iníquo esse mesmo sistema de Justiça. Mas, nesse caso, o problema deslocar-se-ia da questão presente para os próprios fundamentos de toda e qualquer decisão judicial. É por isso que estar a invocar o putativo interesse em denunciar putativos crimes apenas esconde uma factual calúnia contra os envolvidos. Que é feito da presunção de inocência e demais direitos consagrados na Constituição?

    Em suma, não vejo ninguém a querer impedir a discussão de fundo, antes a que ela seja feita como lícita discussão, não como ilícita acusação.

    Já quanto a Aristóteles, tens de rever a matéria. Estás demasiado materialista para o seu gosto, por isso ignoras a enteléquia.

  7. OK Valupi,

    Menos mal.

    O que eu quero dizer é que a presunção de inocência, que é obviamente para respeitar de forma intransigente, não deve impedir de pedir esclarecimentos acerca de factos quando existem suspeitas legitimas de existir um problema relevante politicamente. Obviamente, os esclarecimentos terão unicamente relevância politica, mas também é natural, ou antes innevitavel, que essa relevância seja função daquilo que se consegue saber sobre os factos, ainda que extra-judicialmente e por mas razões…

    Quanto a Aristoteles, não ignoro a enteléquia, digo é que tu ignoras que ela é, também, perfeição material. Não ha forma sem conteudo. Ha, apenas, no céu e não so, formas cujo conteudo não conhecemos.

  8. Não, joão, não existe “perfeição material” em Aristóteles. Isso, de resto, seria absurdo para quem desenvolveu um sistema que pressupõe um “motor imóvel” e a supremacia da “causa final”. É nesse plano que se coloca a alma, como potencialidade realizável da entidade “corpo”. Estás a insistir num plano dualista que é moderno, cartesiano, não aristotélico ou Grego.

  9. O que eu estou a procurar dizer é precisamente que a alma é “potencialidade realizável da entidade “corpo””. Portanto, não sou eu que estou a ser dualista, muito pelo contrario…

    E não sei se é apropriado falar de “supremacia da causa final”. Não vejo que haja supremacia. Vejo antes que, para Aristoteles, a unidade percebe-se como uma forma de acabamento, de perfeição, e é apenas isso (quanto a mim) que ele entende por causa final.

    Dito isto, concedo que alguns textos (nomeadamente aqueles em que ele diz que a vida contemplativa é melhor, assim como, de facto, o ultimo livro do tratado da alma, que é de compreensão muito dificil) se prestam a uma interpretação um pouco mais “platonica”.

    Mas debativel…

  10. João Miranda:

    As escutas são uma espécie de elefante no meio da sala. Está um elefante no meio da sala e as pessoas discutem se está um elefante no meio da sala. A facção que diz que não está elefante nenhum no meio da sala vai dizendo:

    1. Não tomei conhecimento oficial do elefante no meio da sala por isso ele não pode estar lá

    2. A minha religião proíbe-me de ver elefantes, por isso vamos falar como se o elefante no meio da sala não existisse

    3. Se ignorarmos as provas visuais (que são nulas), o que lhe garante que está um elefante no meio da sala?

    4. Tenho aqui uma notícia da Lusa que prova que eu fui informado do elefante no meio da sala pelo presidente da Confederação dos Elefantes. Ele diz que não recebeu ordem do governo para colocar elefantes no meio da sala. Logo não fui eu que mandei colocar o elefante no meio da sala.

    5. Não está elefante nenhum no meio da sala. Eu só estou a ir à volta porque gosto de caminhar.

    6. Se mandei colocar um elefante no meio da sala? Não existe nenhum despacho do meu governo a mandar colocar um elefante no meio da sala. Consultem o Diário da República.

    7. Olha! Está uma formiga no meio da sala!

    8. Tenho aqui um acórdão no Supremo que diz que não há elefante nenhum no meio da sala.

    PROVIDÊNCIA CAUTELAR

    Está um enorme elefante no meio da sala e alguém decidiu tapá-lo com um pano. Pode ser que ninguém repare que está uma coisa enorme no meio da sala.

    DO FORMALISMO

    Um homem andava desconfiado que a mulher lhe era infiel. Um dia, não aguentando mais, decidiu contratar um detective. O detective começa a seguir a mulher. Passados vários dias o detective apresenta ao homem várias fotografias. A primeira fotografia mostra a mulher a encontrar-se com outro homem num café. A segunda mostra a mulher com esse outro homem a entrar num carro. A terceira mostra-os num bar. A quarta mostra-os a entrar num quarto de motel. A quinta mostra-os juntos dentro do quarto de Motel. A sexta fotografia está totalmente preta.

    – “O que aconteceu a esta foto? Está preta porquê? O que aconteceu a seguir?”, pergunta o homem ao detective.

    – “Apagaram a luz”, diz o detective.

    – “Merda! Fica sempre aquela dúvida …”, conclui o homem.

  11. Enquanto a ciência não esgotar a metafísica convém olhar em volta, e estar atento para ver como é. Na minha opinião um princípio básico, mas muito razoável, deve ser tido em conta e é o seguinte; o homem não deve separar o que a Natureza juntou.

    Quando a forma deixar o conteúdo, manda o bom-senso que então as pedrinhas devem ficar bem juntinhas, porque desta forma o trabalho pode estar facilitado, tendo em conta um dado obectivo que é; se tu existes depois de não teres existido, porque razão não hás-de existir depois de teres existido?

    A dualidade onda-partícula de Newton/ Huygens e que Heisenberg tornou doutrina, coloca a questão; a alma está para o corpo assim como a energia está para a matéria. Nesta conformidade cada partícula que nos forma, contém em si mesma o Universo, mas enquanto isto não for verdade científica, o único sentido da vida é viver. Mas por favor não se lixem uns aos outros!

  12. Preclaros Pinto e João Miranda, esquecem o mais importante:

    advirto-os a ambos de que a estrutura da Sala não foi calculada para suportar o peso de um elefante! Concordo que esteja claro que parece haver um proboscídeo qualquer dentro da Sala. Mas eu quero é saber se ele é uma miragem, ou se é mesmo real e, neste caso, quem lá o pôs e como (porque ele também não cabe pela porta!), para amanhã mesmo ir exigir responsabilidades pelos danos que irá provocar o iminente colapso de toda a estrutura da Casa, se não se concluir que, afinal, o elefante que está na Sala não passa de um holograma, produzido e apresentado por uma conhecida empresa de efeitos especiais…

    O Engenheiro.

  13. Alto nível. Imagino que a seguir se convoca Hjelmslev. para profetizar posso afirmar que já está devidamente demonstrado que é coisa ao alcance de qualquer um, segundo o Vieira, embora com umas nuances de verosimilhança.

    Não ouvi nem li nada das escutas transcritas e das palavras, eventualmente, ou alegadamente, proferidas pelo pm. Nem sei se se podem tomar por verdadeiras porque a partir do momento que o problema está viciado não lhe posso conhecer os contornos absolutos, ou posso? Será que vou ler coisas que não foram proferidas? Ou será que vou ler coisas que foram proferidas por outro a fingir que era aquele? Como é que eu sei? Realmente, às tantas, a verdade basta-se a si própria, mas às vezes demora a assentar.

    Quanto a Governos a mexerem na CS ou tentarem foi coisa que sempre houve, faz parte. Digam lá qual não? Há um mundo em que o elefante está na sala e há outro em que ele não está e haverá várias portas entre mundos. Não?

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