Bendita cocaína

Uma das patranhas mais comuns é a da efemeridade da paixão. A paixão passa rápido e, com sorte, depois vem o amor. Dizem-nos, dizemos, como quem se conforma com um último Inverno sem Primavera. São duas, ou três, mentiras seguidas: (i) a paixão pode ser longa; (ii) o que se segue pode não ser o amor; (iii) se passa rápido, talvez nem paixão tenha chegado a ser. É a ciência que o diz, para convencer os tristes e calar os cínicos. Estudando casais que testemunhavam estar apaixonados pela mesma pessoa após 20 anos, descobriram-se estes pequenos-nadas:

A paixão mantém-se no mesmo nível de intensidade inicial.
As áreas do cérebro relacionadas com estados de calma e supressão da dor têm mais actividade nas pessoas com paixões de longa duração.
Pessoas incapazes de paixões longas exibem maior actividade em áreas do cérebro relacionadas com estados de ansiedade e obsessão.

Estás a ver bem o que está em causa? Pessoas apaixonadas vivem com menos ansiedade, menos desgaste, menos problemas de saúde e nos relacionamentos. Vou dizer-te de outro modo: pessoas apaixonadas durante muito tempo vivem muito tempo e, ainda por cima, apaixonadas.

E a cocaína? Larga a fruta ou nem a experimentes. A área do cérebro que a cocaína estimula é precisamente a mesma que está activada na paixão. Se não tens vocação para aspirador, mas sentes curiosidade quanto à experiência, basta que recordes uma paixão e ficas a saber tudo. A cocaína oferece uma versão fatela da paixão, e ainda te deixa paranóico, cardíaco e com muito menos dinheiro. Ah, e também não te voltarás a apaixonar, suprema maldição.

Concerteza, Dr. Hortelão

Rui Hortelão, Director-Adjunto do Diário de Notícias, está certo da legitimidade de concerteza. Os revisores do DN, se os houver, concordaram com o chefe ou abafaram a incerteza. No Público, alguém achou por bem validar o neologismo. E os revisores do Público, se os houver, não quiseram provocar um conflito diplomático ao corrigirem o trabalho da concorrência. Maneiras que, após a consagração por estes dois jornais de referência [hahaha!], é fartar vilanagem.

Concertezamania: I, II, III

Infelizmente, a crise ainda não chegou

Quando a crise chegar, vai ser o bom e o bonito. Bom, porque ela teria de chegar para se dar mais um salto evolutivo. A história da evolução é a história de crises sucessivas e respectivas respostas da pulsão vital. Bonito, porque finalmente a Humanidade se irá unir como ainda não o conseguiu fazer em 200.000 anos de existência neste planeta. A crise será ecológica ou nuclear-bio-terrorista, talvez as duas em simultâneo. A rapidez das alterações climáticas superando todos os cálculos dos imperfeitos modelos à disposição, e a proliferação de material nuclear, tecnologias biológicas e ideologias fundamentalistas, eis uma equação que permite antecipar como inevitável a ocorrência de desastres a uma escala de destruição e violência nunca antes conhecida.

Perante a ameaça de se pertencer à última geração de humanos, ou perante o desaparecimento de cidades, multidões e memória para satisfação da psicose de alguns, a civilização irá unir-se em inteligência e vontade. As diferenças de política, religião, epiderme, género, idade, condição social, sexualidade, profissão, nacionalidade, seja o que for, não desaparecem, mas serão postas no seu lugar: acidentes. Na essência, todos somos inteligências amantes, e amores inteligíveis, sem excepção. Ligamo-nos às coisas e aos outros através da razão, mesmo quando apenas as sentimos. Quem as sente é a consciência, não o corpo, não os sentidos. A consciência é racional, inteligente, volitiva, imaginadora, criativa. E daí percorre todos os tecidos e espaços, onda de liberdade. Ao que sabemos, demorou 13, 5 mil milhões de anos até aparecer no Universo, ou 4,5 mil milhões de anos a aparecer na Terra. Não se deixará destruir sem ir à luta, sem dar o melhor de si, sem cumprir a esperança.

Antes disso, na faustosa e luxuriante Europa, não me venhas falar de crise. Há irmãos nossos que se fazem ao mar sem qualquer garantia de chegarem vivos à costa de Espanha ou Itália, em actos desesperados para fugir da miséria secular onde calhou nascerem, e nós estamos em crise? Nós, que temos constituições democráticas, sistemas de justiça, instituições e serviços públicos em permanente e quase perfeito funcionamento, sistemas de ensino, universidades e organismos de investigação cada vez mais pujantes, liberdades variadas e crescentemente acrescidas, protecções e direitos legais de fazer inveja no Olimpo, desvairada oferta de produtos, bens e serviços especializados, estamos em crise? Só se for uma crise dentária, cercados por toneladas de nozes.

Um livro por semana 48

«Primeira pessoa» de Pedro Mexia

Todo o cronista aspira a ultrapassar o efémero do jornal ou da revista e juntar as suas crónicas em livro. Antes publicadas na «Grande Reportagem», há neste conjunto de tudo um pouco. A começar pela crónica em si: «Os textos de quem escreve vêm do mesmo sítio das conversas dos conversadores ou das recordações dos anciãos: desse sótão no qual se empilham murmúrios, recortes, quinquilharia.» E passando pelo autor, ele mesmo, o próprio: «Um gordo não é exactamente um homem: é um bom amigo. Um bom tipo. Horrorizado, chego à conclusão de que quase todas as pessoas que me conhecem me acham confiável, compreensivo e relativamente inofensivo.» Entre a crónica e o autor surge o Mundo: «O nosso mundo compõe-se de três categorias: aqueles de quem gostamos, aqueles de quem não gostamos e aqueles de quem gostamos porque gostam de nós.» Nem tudo é bom; às vezes aparecem inimigos: «O inimigo, na sua cabeça, vê a outra pessoa como uma caricatura demoníaca, desprovida de méritos, de atenuantes, mesmo de humanidade. O inimigo espreita cada passo. Constrói em negativo, uma relação quase amorosa.» E, se estamos no Mundo, há nele lugares: «Há quem deteste o «Snob». Sei de duas ou três pessoas que dizem, enojadas: «Nem pensar, não quero ir a um lugar frequentado por jornalistas.» Não anuncio grande novidade se disser que são os jornalistas que dizem frases assim. Compreendo que as manchetes devem ser lidas de manhã, quando compramos os jornais na banca da esquina e não espiolhadas de véspera na maré das redacções que desaguam para um bife tardio e um copo reparador.»

(Editora: Casa das Letras, Capa: Neusa Dias, Foto: Pedro Loureiro, Prefácio: Francisco José Viegas)

Mais de 1 milhão de razões para ter vergonha

Votei Alegre nas presidenciais. Por um lado, jamais votaria Cavaco, nem que tal desse o título de campeão ao Sporting. Por outro lado, jamais votaria Soares, havendo ainda a forte motivação para o castigar, bastando ficar atrás de Alegre por 1 voto. O que eu não tinha era o mínimo interesse em Alegre, embora a sua mediocridade, ao tempo, lhe desse uma caução simpática em estrita correspondência com a sua irrelevância. Ter sido herói da luta contra Salazar e Caetano não impedia a constatação de ser agora um tonto balofo, mais um entre tantos.

Acontece que Alegre tem um passado, e ninguém se preocupa mais com ele do que ele próprio enquanto seu protagonista, realizador e projeccionista. O passado é sempre uma qualquer versão alternativa, nunca a definitiva. Ora, é evidente que Alegre está muito satisfeito com a versão que escolheu e publicita. Por isso, e por não ter qualquer ideia política que valesse a pena discutir entre a população, foi para as eleições presidenciais plebiscitar a sua biografia em versão oficial. O resultado obtido fez-lhe muito mal à caixa dos trocos, passou a acreditar que tinha 1 milhão de portugueses (Mais!) a validar a sua pessoa tal como ele a imagina. Essa infecção narcísica tem vindo a gangrenar, e pode levar a uma amputação. As duas últimas entrevistas, SIC e RTP, exibem uma pessoa gravemente fragilizada, sem as mínimas competências para a gestão de cargos de exigência política complexa, incapaz de pensar as questões nos planos teóricos e técnicos, vítima de distorções cognitivas e perversões emocionais. Neste quadro, o seu discurso resume-se ao anedotário do quotidiano (almoçou com este, falou com aquele, ouviu o outro, os apoios na rua, os que lhe pedem para fazer qualquer coisa) e à repetição maníaca de clichés escandalosamente grosseiros, inanes.

É esta pessoa – muito provavelmente até a precisar de ajuda psicológica – que o BE explora com um cinismo assustador. Ver Louçã a colar-se ao seu desvario egóico – em que Alegre fala do PS e da esquerda exactamente como o Toni fala do Benfica e de futebol – e a manipular as debilidades intelectuais do coitado, arrepia-me. Ouvir Rui Tavares a fazer contas a deputados num cenário de fractura do PS pela saída de Alegre – reduzindo a política ao calculismo acéfalo e desbragado – causa-me asco. E se, num milagre, estes dois ninjas vermelhuscos se arrependessem 1 milhão de vezes do mal que andam a tentar fazer à democracia e ao velhote, ainda não seria suficiente: teriam de se arrepender 1.125.077 vezes.

A química do digital

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Cinco elegantes num concurso hípico em 1928. Na mesa estão frutos que têm de ser tomates. Têm porque assim me parece melhor para escrever o resto, mesmo que sejam óbvias e lógicas maçãs. E têm porque a elegante à nossa esquerda ostenta um par deles nas mãos, coroado por um sorriso muito maroto. A elegante ao centro também agarrou o seu par de bolas e apresenta um sorriso não menos corado. À volta há janotas, homens fardados, cavalheiros de indústria e cavalos. Para os conseguirmos ver temos de olhar com muita atenção para as meninas dos olhos das senhoritas. Esta fotografia tem as cores ofuscantes de uma lubricidade pré-Crash, fatal destino de todos os ciclos lúbricos. Mas depois a coisa volta a arrebitar, a fruta volta a crescer.

Graças ao maradona, descobri esta graça: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian’s photostream. Ontem liguei para a Biblioteca de Arte, queria falar com alguém que tivesse informações sobre a iniciativa. Deixe contactos de telefone e email, vamos ver se descobrimos quem é a pessoa indicada e entraremos em contacto consigo. Minutos depois conhecia um novo número de telefone e respectivo nome: Dr. Paulo Leitão. De imediato liguei, de imediato fiquei a saber tudo de viva voz, bastando ter informado que era um cidadão interessado e que ia escrever sobre o assunto num blogue. O Paulo, que só conheço desse telefonema, foi inexcedível em simpatia e disponibilidade, ao ponto de eu começar a suspeitar que Portugal se tinha tornado num local civilizado entre os dois telefonemas. Para além de informações que já estavam espalhadas em vários locais, fiquei a saber que todos os dias entram 10 a 12 fotografias novas para as colecções actualmente disponíveis. Tendo em conta que há dezenas de milhares de potenciais novas entradas, não tem fim a maravilha. Depois do lançamento do arquivo da Colóquio/Letras, aqui celebrado, estão reunidas as condições para gastar duas das nossas nove vidas sentados só a olhar para os tesouros da Gulbenkian.

A fotografia não reproduz um passado, mas um presente imune ao futuro. O que nos parece imóvel, paralisado no instante enterrado na película, é antes uma vibração da eternidade. Aquelas paisagens e rostos que se deixam ver nunca existiram fora da fotografia. Vieram de uma outra dimensão inapreensível pelos sentidos ou artefactos de registo sensorial. Ali esperavam a salvação, a luz. Em nós, agora, habitam por metempsicose. São uma ponte entre o mundo visível, o da fotografia, e o mundo invisível, o nosso. Pela fotografia podemos ir até ao meio da ponte. E contemplar as margens do tempo.

Predilectos:

Marginais
Estoril a banhos
Montra
Queques de 1928
Dançar à tarde
Éden
Cinema Europa
Cinema Alvalade
Cacilhas
Feira da Ladra
Exposição do Mundo Português
Mamada
Pernoitar
Lucie de Souza Cardoso
Lisboa Nazi
Descalços em Alfama

Nota: as imagens podem saber melhor, e ser mais nutritivas, quando consumidas no seu tamanho máximo.

O programa das 21:40

Ontem, tive um dia pouco banal mesmo. Entrei de serviço às 16h. Tinha feito travessas para os pequenos-almoços do dia seguinte, tinha posto as mesas e estava a iniciar o tratamento das facturas para companhias de seguro, quando me telefonam de uma rádio para eu participar no concurso das 21:40.
O concurso consistia em duas etapas. Na primeira, punham-me uma música e eu tinha de dizer quem a fez. Na segunda etapa, colocar-me-iam uma pergunta e eu teria de responder. A primeira valia 1000 Eur.; a segunda, 500 Eur.
Concordei. Meteram a música. Comecei-me a rir e respondi: “Tudo o que sei é que é a banda sonora do desenho animado A Pantera Cor-de-Rosa.”
– Cláudia, diga só quatro palavras! Já as disse! Diga, diga!!!
– Quatro palavras? Pantera Cor-de-Rosa.
– É isso!!! Ganhou, Cláudia! Os 1000 Eur. são seus!!! Quer então responder à pergunta dos 500 Eur.?
(Eu ainda estive para lhe perguntar se me arriscava a perder tudo caso eu não acertasse na resposta, mas aquiescei.)
– Cláudia, a que horas o João foi a casa da Juliana?
Não me recordo muito bem, mas a pergunta apresentava-se nesses termos. Ocorreu-me que poderia ser algo ligado ao programa da rádio ou uma novela qualquer e respondi:
– Ai, isso já não sei.
– Diga, diga, diga, Cláudia!
– Sei lá, meio-dia?
– Nãããão, mais.
– 14h?
– Mais.
– 19h?
– Ai, menos!
De repente, ribombou um alarme.
– Ai, Cláudia, passou o tempo! Não ganhou estes 500 Eur. Mas os 1000 Eur. são seus!!!
Ouvi-os a arrumarem tudo.
– E agora? Tenho que ir a algum sítio levantar o dinheiro?
– Sim, claro. Quer receber em notas ou em cheque?
– Sei lá, pode ser em notas. Onde é que tenho de ir?
– Tem que ir à Caixa Geral de Depósitos e diga que é do programa das 21:40. Para receber, vai ter que dar uma senha. Tem aí onde apontar? É que a senha não é comum.
Peguei muito apressadamente no primeiro rascunho à minha frente, ajeitei a caneta.
– Diga, eu já tenho onde apontar.
Então, muito pausadamente, a apresentadora soletrou palavra a palavra:
“O Rex dela abriu às 8 mas o João no sobe e desce foi de 4.”
Agradeci. Desliguei. Passados 5 minutos, é que entendi a dimensão de eu ir a uma CGD dizer a um empregado: “O Rex dela abriu às 8 mas o João no sobe e desce foi de 4.”

Disseram-me que daqui a uma semana me voltavam a contactar para outro concurso.

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Oferta da nossa amiga claudia.

Um livro por semana 49

«O nosso reino» de Valter Hugo Mãe

Por oposição ao reino de Deus («o seu reino não terá fim») este reino do narrador (Benjamim) é o reino dos Homens, uma vila de pescadores: «aos domingos, quando descíamos para a missa e o caminho até ao centro da vila se enchia de vizinhos, parecíamos todos felizes». Na vila estão o padre Filipe (que assustava), o senhor Luís (sacristão), o senhor Hegarty (que cantava) e o Carlos que veio da guerra: «em Angola tudo podia acontecer, porque os lugares eram ermos, esquecidos de tudo e de todos.» Havia também a Dona Darci («fugiu de Moçambique porque uma velha branca e misteriosa lhe rogou uma praga») e os tios de França: «eram dois, o rio João e o tio Saúl, mais velhos que a minha mãe e a minha tia Cândida, estavam em França como se estivessem mortos, excepto quando foi da herança». Benjamim queria ser santo («a vontade de me manter santo não me assistia perante todos da mesma forma, alguns conseguiam destruir-me por dentro a esperança de os salvar». Surge inesperado o «25 de Abril» na escola primária: «a professora Blandina explicou que ontem os senhores que mandavam no país foram mandados embora. Nessa altura muitas pessoas pensaram que as liberdades eram maiores, muito maiores, do que o esperado.» A professora queria motivar o narrador para a realidade: «parecia querer dizer que na minha vida tudo era mentira mas não era exactamente.» Entre verdade e mentira, entre morte e vida, vence a vida: «No dia seguinte a vila acordou cheia de milagres, as pessoa vieram à ruas , quem não andava corria, quem não via pintava de todas as cores, quem emudecera cantava como os pássaros e o sol abrira em pleno Inverno e não havia chuva nem frio».

(Editora: Temas e Debates, Capa: Rochinha Diogo sobre óleo de Cruzeiro Seixas)

Foodismo

Sabe tão bem ser foodista. Especialmente por alturas do Natal, com frio, numa cabana, em frente à lareira, hummm… (com frio e frente à lareira?! enfim, talvez se tenha acabado a lenha). Ou de manhã, depois de um sono tranquilo e revigorante, começar o dia a celebrar o foodismo na cama. Ou em cima da mesa da cozinha, a manteiga e a margarina ali mesmo à mão (questão de gosto, resultados cada vez mais parecidos). Ou de pé, encostado à janela ou debruçado na varanda, acenando para os vizinhos. São coisas do caraças, capazes de deixar um gajo (pelo menos, o gajo) satisfeito durante 24 horas. O foodismo nunca falha, prazer que se repete vezes sem conta como se fosse a primeira vez, nalguns casos aumentando de intensidade e refinamento com a idade. Aliás, quão menor a vergonha, maior o proveito que os foodistas obtêm do exercício desta ancestral arte dos sentidos. Já para não falar naquelas ocasiões festivas em que se juntam os familiares, os amigos, até estranhos (sim, pode ser belo ir para o foodismo com uma pessoa estranha – ou mais do que uma, assim duas ou três, vá lá, quatro, prontos – dessa forma estabelecendo laços de súbita e mágica intimidade). São momentos inesquecíveis; esses em que grupos inteiros se entregam à pulsão foodista entre risos e algazarra geral.

Desfruta o melhor que puderes do foodista que há em ti.

Sabedoria de Teófilo

Interessante é andar nos transportes públicos e ouvir as comadres a louvar o Manel como se ele fosse o Sebastião regressado do nevoeiro, a igreja católica a fazer-se passar pelo que não é e a dar a impressão que concorda com os que não acreditam nela, os analistas económicos a interpretarem gráficos às avessas, os liberais a gritar por nacionalizações, a esquerda de casaquinho de veludo ou blusão de pele fina a falar sobre a fome e o desemprego que desconhecem, a alta burguesia a gozar que nem nababos, os políticos a degladiarem-se pelo poder, jornalistas pagos a peso de ouro a falar na televisão sobre os seus colegas desempregados, comentadores que negam que os nossos problemas estejam afectados por uma crise que afectou globalmente o mundo industrializado, juízes a queixarem-se da falta de respeito enquanto soltam catilinárias sobre convidados para as suas casas, procuradores que se esquecem das virtudes do laconismo e se pelam pela exposição mediática, presidentes que se apressam a fazer comunicados ao País sobre questões que deveriam ser tratadas nos gabinetes e que calam opiniões sobre o que se passa no País, ministros que são expulsos por pressão dos jornais e outros que se vão deixando ficar porque são inócuos, um primeiro-ministro que apanha de todos se faz bem e volta a apanhar se faz mal, e um povo desnorteado que diz que nas próximas eleições sabe o que vai fazer, sem saber que o seu destino está preso por um fio.

Isto é o que se passa, só espero que o desnorte e a má-informação não arrastem este pobre povo, que vive do seu trabalho, que labuta e sofre na carne as agruras da crise que caíu em cima da nossa pobre Pátria, para um beco sem saída, onde os arautos da desgraça continuarão a debitar o seu discurso beberricando os seus vícios e gozando dos seus privilégios, sempre, sempre, pensando nos mais desfavorecidos.

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Oferta do nosso amigo teofilo m.

Vinte Linhas 302

Furgonetas, gralhas e fotógrafos de Estaline

Retiro a moral da história dos recentes ataques de que fui alvo aqui no «aspirinab» como um mote explícito para continuar – apesar de tudo. Contei a história de ter visto no Chiado, na montra da Livraria Sá da Costa, uma edição especial do «Levantado do Chão», um livro com ilustrações de Armando Alves, um objecto estético especial dentro de uma caixa castanha que custa uma pipa de massa mas que tem uma gralha terrível: na citação da A. Garrett aparece a palavra «infância» onde deveria estar «infâmia» – isto a propósito de saber quantos pobres são precisos para fazer um rico. Logo saltaram uns espertalhões tentando desvalorizar o erro crasso cometido pelos editores e tentando fazer crer que o meu lapso (ter escrito mal a palavra furgoneta) podia fazer esquecer o grande lapso dos editores de uma obra tão especial. Isto é a demagogia em estado puro. Então o meu pequeno erro (tão pequeno que na rádio passou completamente despercebido) servia para anular o grande erro dos editores tão especiais de um livro tão especial. Também estes são aprendizes dos fotógrafos de Estaline, tentando apagar a verdade e fazendo buracos nas fotografias para que nos próximos anos lectivos os alunos já não vejam os retratos dos proscritos. Se bem se lembram os (e as) que leram esse texto, eu falava apenas de gralhas e não de infâmias – que é outra coisa. A infâmia está noutra página mas a mim naquele momento interessava-me discorrer sobre o facto de uma vasta equipa ter tido em mãos uma reedição de um livro de 1980 e de ninguém ter visto a palavra que distorce por completo a ideia de A. Garrett. A infâmia é outra coisa mas pelos vistos isso é uma situação que os fotógrafos de Estaline não são capazes de perceber.

Um livro por semana 51

«Contos de Médicos Portugueses»

São 25 contos de 25 autores: António Mendes Moreira, A. Bacelar Antunes, António Marques Leal, António Lourenço Faria, António Maurício Pecegueiro, Armando Oliveira Moreno, Carlos Cidrais, Carlos Manuel da Silva Arruda, Cláudio do Souto Plácido, João-Maria Nabais, Jorge Marinho, Jorge Tavares, José Dias Egipto, José Ferraz Alçada, José Pepo, Luís Carlos Bronze S. Carvalho, Luís Esperança Ferreira Lourenço, Maria Eduarda C.D.S., Maria João E.A.P. Vasconcelos, Maria Manuela de Mendonça, Mário J.F. Agualuza, O.F., Patrícia Matthioli Luís, Rui Afonso Cernadas e Salvador António S. e Q. Pereira Coelho. Sendo impossível abordar todos os contos, fazemos referência a um – «A estrelinha no céu» de Luís Carvalho. Trata-se duma narrativa na qual o choque entre duas culturas e duas concepções do Mundo se torna evidente. Num navio em viagem vemos de um lado o médico («No seu caso eu seguia em frente com a operação»), do outro lado o «Gerês» com a filha a sofrer dum tumor no cérebro: «Parece que andava a tratar a filha com um ervanário lá da terra.» A menina acabou por morrer e o médico ficou a saber do facto pela licença concedida pelo comandante ao «Gerês» para acompanhar o funeral da criança. Moral da história: «cada um tem o direito de gerir as suas angústias da maneira que lhe aprouver».

(Editora: CELOM, Capa: Carlos Rodrigues, Prefácio: Carlos Vieira Reis, Colaboração: SOPEAM, Apoio: MSD)

A alegria do Rui Tavares

Nunca me ri tanto numa entrevista política como nesta de Manuel Alegre na Sic Notícias ontem. Mas, a abrir, uma palavra para Augusto Santos Silva, entrevistado por Mário Crespo no Jornal das 9 meia-hora antes: cromo. Tão cromo que Crespo se foi derretendo aos poucos, tendo começado tonto e acabado rendido. Porque Santos Silva é um excelente comunicador: poder de síntese, descontracção, acutilância, veneno, humor. Voltando ao Alegre, foi um fartote: o PS é ele, a esquerda é ele, a nova esquerda é ele, a antiga esquerda é ele, a actual maioria do PS é dele, o futuro do País é com ele. A pobre da Ana Lourenço cometeu a imprudência de se ter referido à sua votação nas presidenciais como tendo sido de 1 milhão de votos só para ser de imediato corrigida e admoestada: Mais de 1 milhão!, com direito a gesto de mão e sorriso triunfal. Ficámos a saber que Sócrates já está avisado quanto aos poderes demiúrgicos desta força da Natureza. Não há nada que ele não consiga fazer, basta que se lhe meta na cabeça uma qualquer intuição poética [sic e sick]. Também se pronunciou sobre certos militantes do PS que entraram para o partido mas que não têm os mínimos: não conhecem a História nem têm cultura. Que o mesmo é dizer: não têm respeito pela gerontocracia nem aparecem nas reuniões com os seus livros na mão. Eis a esquerda ideal para Alegre: organizada por ordem de entrada, fundadores no topo da cadeia alimentar. O resto é indiferente, pois, basta lembrar o seu percurso.

Continuar a lerA alegria do Rui Tavares

Sakharov by Nik

Uma das facetas menos conhecidas deste grande Russo do século XX é a de visionário da liberdade de informação e, correlativamente, de profeta da internet! Eis como, num artigo publicado num semanário liberal americano, em 1974, o então já “dissidente” soviético Sakharov previu o advento, à escala planetária, de uma rede de informação livre, acessível por toda a gente, que hoje, 32 anos depois, sob o nome de internet ou world wide web se tornou já numa realidade indispensável para todos nós – ou quase:

Antevejo um sistema universal de informação (SUI) que dará a toda a gente, a todo o momento, acesso ao conteúdo de qualquer livro publicado ou a qualquer revista ou a qualquer facto. O SUI será composto por terminais de computadores miniaturizados, centros de controlo do fluxo de informação e canais de comunicação veiculando milhares de comunicações artificiais através de satélites, cabos e linhas laser. Mesmo uma realização parcial do SUI afectará profundamente as pessoas, os seus tempos livres e o seu desenvolvimento intelectual e artístico. Contrariamente à televisão, o SUI proporcionará a cada pessoa uma liberdade máxima de escolha e implicará uma acção individual. Contudo, o papel verdadeiramente histórico do SUI será o de quebrar as barreiras à livre troca de informação entre países e entre pessoas.” (Saturday Review / World, Nova Iorque, 24 de Agosto de 1974.)

Por este texto visionário se pode também ver distintamente quais eram as preocupações, os ideais e os valores (igualdade de acesso à cultura, liberdade de escolha, papel da indivualidade) que guiavam o pensamento e a acção cívico-política de Sakharov. Pensamento certamente muito mais avançado, muito mais socialista, muito mais revolucionário até do que a vulgata pseudo-marxista e opressora posta a circular pelo Partido Comunista da União Soviética e divulgada pelo nosso obediente PCP durante 70 ou 80 anos. Sakharov teve uma vida exemplar de socialista autêntico e, quando deixou de o ser, foi principalmente para se afastar e diferenciar da nomenklatura do regime opressivo e liberticida fundado por Lenine, Trotsky e Staline. Ele e Brejnev não partilhavam nem podiam partilhar a mesma doutrina nem os mesmos ideais.

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Oferta do nosso amigo Nik.

Porque será?

Porque será que quando Mário Soares, Garcia Leandro, Loureiro dos Santos, Manuel Alegre, Pacheco Pereira, Santana Lopes, Marinho Pinto e a SEDES, entre outros passarões que não tenho paciência para recordar neste momento, fazem alertas para revoltas sociais iminentes nós ficamos com a nítida sensação de estarem a expressar um melífluo desejo?

E quem gostariam eles que se revoltasse? Só os desempregados e os estudantes cábulas? Ou também gostariam de ver as donas-de-casa e os reformados a atirar pedras à polícia e às montras? A que tipo e grau de destruição gostariam de assistir para poderem gritar Eu avisei? Será que até sorririam de satisfação se um ricochetezinho acertasse num miúdo, de modo a que PC e BE pudessem barricar ruas e soltar a fúria do povo?

Este grupo de pessoas, a quem a comunicação social empola a importância, tem estado no poder desde o 25 de Abril. Nestes 34 anos fizeram as suas vidas à custa do Estado ou dos negócios com ele, acumularam riquezas para si e para a família, tiveram acesso a experiências de privilégio e luxo correspondentes ao estatuto de elite. Têm 60, 70 e 80 anos e comportam-se agora como inimputáveis e irresponsáveis, possuídos pelo egoísmo e ofuscados por tanatos. O problema não é a idade, antes a completa falta de sabedoria e carácter. Completa falta de amor pátrio, incapazes de fortalecer a comunidade e apostando tudo na sua fragilização. Comportam-se como se não valesse a pena confiar nas instituições e nas pessoas, como se apenas a diabolização dos adversários fizesse sentido.

Porque será que ninguém corre com eles?

Citações de ESTACA

O Manuel é um socialista de gema, à antiga, com frases curtas que bem em purradas entram no coração dos descontentes que arrastam corpos entorpecidos pelas vielas do desemprego e becos sem saída dos salários mínimos, trovejantes palavras, sons de cascos de cavalo a morderem o basalto que servirá de base de sustentação às futuras barricadas por onde correrá certamente muito do sangue pisado que as comunas anti-comunas comerão na forma sólida de chouriço demo-socialista. Que mais quereis, Valupi, le optimiste?

O homem lembrou e homenageou os deuses do passado, o pedreiro-livre americano e o novo limpa-chaminés, e o Blum francês, camarada do Churchill e do Konrad, que fugiu para Bordéus assim que ouviu os patos de ganso dos hunos em Dunquerque, bravura que ele imitaria anos mais tarde quando se agarrou à labita do Mário e procuraram os dois refúgio no quartel da maçonada nortenha. Se isto não é prova de coragem, o que é então?

Sejamos humanos. Ninguém pode roubar a um homem o direito de ter três metros de altura um dia por ano e uma barba espessa o resto da vida, né?

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Oferta do nosso amigo CHICO.

Um livro por semana 50

«Angústia fragmentária» de Luísa Santos

A partir da memória de uma infância vivida em clima de repressão familiar («Não quero que te dês com rapazes. Uma menina deve dar-se apenas com meninas e da sua idade. Não me contraries nunca, eu sou o teu pai.») e de uma vocação contrariada («Pai, quero ser bailarina. Pai, porque não posso?») surge uma adolescência povoada pela solidão e pela morte desejada: «Sinto-me só, sem ninguém ao fim de quinze anos de existência. A solução é matar-me.» Muito tempo depois da crise dos quinze anos a problemática é a mesma «apenas algumas palavras mudaram» na relação da jovem (hoje mulher) com a sociedade: «Tudo é material. Primeiro são as notas e a competição desenfreada na Escola. Depois o casamento, institucionalização hipócrita da vida a dois e do juro bonificado. Na profissão rodeia-nos a falsidade, a inveja sobretudo. Vivemos mergulhados numa cultura de maledicência e ciúme doentio.» Depois de perguntar num fragmento «Porque estou sozinha?!» a autora responde noutro fragmento: «Tenho mais medo da solidão dos outros do que da minha. Conheço bem o meu deserto, aprendi a orientar-me nele e hoje anseio pelo seu silêncio.» Mais à frente constata noutro fragmento a mesma solidão: «Fui beber um café comigo ao fim da tarde». E por fim surge a moral desta história desenhada em fragmentos de angústia: «Nada mais ilusório do que pensarmos que podemos despojar-nos tão facilmente do baú das recordações.»

(Editora: Bico de Lacre, Capa: Roberto Medeiros, Foto: Henrique Coelho, Ilustrações: Artur Campos)