Bendita cocaína

Uma das patranhas mais comuns é a da efemeridade da paixão. A paixão passa rápido e, com sorte, depois vem o amor. Dizem-nos, dizemos, como quem se conforma com um último Inverno sem Primavera. São duas, ou três, mentiras seguidas: (i) a paixão pode ser longa; (ii) o que se segue pode não ser o amor; (iii) se passa rápido, talvez nem paixão tenha chegado a ser. É a ciência que o diz, para convencer os tristes e calar os cínicos. Estudando casais que testemunhavam estar apaixonados pela mesma pessoa após 20 anos, descobriram-se estes pequenos-nadas:

A paixão mantém-se no mesmo nível de intensidade inicial.
As áreas do cérebro relacionadas com estados de calma e supressão da dor têm mais actividade nas pessoas com paixões de longa duração.
Pessoas incapazes de paixões longas exibem maior actividade em áreas do cérebro relacionadas com estados de ansiedade e obsessão.

Estás a ver bem o que está em causa? Pessoas apaixonadas vivem com menos ansiedade, menos desgaste, menos problemas de saúde e nos relacionamentos. Vou dizer-te de outro modo: pessoas apaixonadas durante muito tempo vivem muito tempo e, ainda por cima, apaixonadas.

E a cocaína? Larga a fruta ou nem a experimentes. A área do cérebro que a cocaína estimula é precisamente a mesma que está activada na paixão. Se não tens vocação para aspirador, mas sentes curiosidade quanto à experiência, basta que recordes uma paixão e ficas a saber tudo. A cocaína oferece uma versão fatela da paixão, e ainda te deixa paranóico, cardíaco e com muito menos dinheiro. Ah, e também não te voltarás a apaixonar, suprema maldição.

25 thoughts on “Bendita cocaína”

  1. Ah ganda Valupi, quem te fala é um velho. Comungo da tua opinião.É a paixão que me faz continuar a sair da cama. Não concebo a vida sem ela!

  2. Jon Stewart – A especulação de Wall Street, concerteza. A produção de Detroit, nem pensar!

    Jon Stewart, do Daily Show, explica, com elevado sentido de humor, como o Congresso Americano emprestou, sem fazer perguntas, 700 mil milhões de dólares à indústria financeira, e se recusa a emprestar 25 mil milhões de dólares à indústria automóvel:

    Jon Stewart: Há umas semanas, os presidentes da Ford, GM e Chrysler foram a Washington pedir 25 mil milhões de dólares no programa do Governo «Dinheiro para os Incompetentes». Mas não contavam apanhar o Senador Sherman.

    Senador Sherman: Vou pedir aos três executivos que aqui estão para levantarem a mão, se vieram num vôo comercial. Que fique registado que nenhuma mão foi levantada. Em segundo lugar, peço-vos que levantem a mão se tencionam vender agora o vosso jacto privado, e voltarem para casa num vôo comercial. Que fique registado que nenhuma mão foi levantada.

    (…)

    Jon Stewart: Congresso, acho que sei o que se passa aqui. Deram 700 mil milhões de dólares à indústria financeira mas podem não dar à indústria automóvel 34 mil milhões porque não sabem exactamente o que a nossa indústria financeira faz, pois não? Portanto deram-lhes o dinheiro porque não querem parecer estúpidos.

    O problema é o seguinte: a indústria automóvel tem um produto tangível e fácil de criticar. Os carros são mesmo assim. Até os maus são úteis. Mas vocês não vão salvar as pessoas que fabricam carros. Só vão salvar as pessoas que fazem empréstimos para comprar carros. Nem sequer empréstimos. As pessoas que vocês vão salvar fazem derivados de transferências de papel, que especulam sobre o futuro valor da vasta distribuição dos ditos empréstimos para a China.

    Pronto, o modelo de negócio em Detroit é fraco. Sabemos que perdem 2 mil dólares por cada carro que vendem, mas Wall Street perdeu 7 biliões sem vender absolutamente nada! Pelo menos, quando Detroit perde dinheiro nós ganhamos carros!

    VÍDEO (legendado em português)

  3. penso que não estarás preocupado comigo, não? É que eu não uso mesmo isso da coca e estou é quase sempre a modos que apaixonado, às vezes cúspide, sei que é um exagero mas não tenho culpa: tenho Vénus em Leão.

  4. A ciência diz muita coisa contraditória. Há várias ciências, com diferentes graus de fiabilidade e diferentes prazos de validade. E há ciências aldrabonas.

    Eu não sou adepto da tal ciência antiga nem dessa tua coisa nova, que ainda não fui ver. Já leste o Stendhal? Às vezes um autor antigo é mais perspicaz que uma universidade moderna, passe a publicidade. Para começar, a paixão, que eu entendo como aquele estado que se manifesta tipicamente no coup de foudre e na obsessão que se lhe segue, é certamente uma forma de amor. Não há oposição entre paixão e amor. A paixão é uma espécie de amor. Paixão amorosa, é como lhe chamam. Não disse que é uma fase, mas sim uma forma ou espécie de amor. Se dissesse uma fase, estaria a excluir que a paixão possa sobreviver, estar lá e reaparecer sempre que lhe der na real gana.

    Numa relação amorosa, o momento fundador está sempre imerso em paixão, mas esta não morre quando o conhecimento mútuo e a vivência a dois geram uma nova forma de amor menos obsessiva. Quando a julgam desaparecida, ela pode estar somente adormecida. A paixão amorosa, segundo Karl Jaspers, tem semelhanças com um estado esquizofrénico. As paixões podem levar a cometer crimes que nem a paixão desculpa. As paixões podem tornar-nos muito maus e infelizes. A paixão não é um valor em si, um padrão absoluto, um fim ideal. É apenas uma forma de amor, que nem sempre é boa, que nem sempre nos torna melhores nem mais felizes. Não é possível evitá-la, mas é preciso ter cuidado com ela.

  5. Z, a referência à cocaína vem da investigação, faz parte da notícia.
    __

    teofilo m., és um felizardo.
    __

    Pois é, explica lá isso. Rápido ou devagar.
    __

    Nik, estás a falar do amor. Nas relações de amor, mesmo sem aquilo a que chamaríamos “paixão”, há dependências e “irracionalidades”, as tais causas para violências e crimes, etc. Curiosamente, o mesmo grupo de investigação que anunciou estes resultados já no princípio do ano tinha publicado outros dados que permitiam ver o amor não como relativo ao domínio emocional, antes como sendo algo análogo a uma necessidade básica, como a sede, para dar o exemplo referido nesse estudo.

    Stendhal? Sim, claro. Mas essa analítica passa ao lado do que está aqui em causa. Aliás, o que está patente no estudo desmente essa normalidade (essa modernidade literária) que o autor desenvolveu. Porque se descobre que para alguns é possível manter certas características típicas de todas as paixões por um tempo longo e indeterminado. Isso não invalida que para muitos outros a paixão seja passageira.

  6. Para exemplificar a tua última frase, Nik, cito Rousseau: “Or je trouverais celui qui voudrait empêcher les passions de naître presque aussi fou que celui qui voudrait les anéantir ; (…)”

  7. O Vermelho e o Negro,

    estudei a paixão há pouco tempo porque andava com a cabeça a bater no céu e queria desembraiar-me qb e não fazer merda, e então fui à semiótica das paixões no Tensão e Significação do Fontanille e Zilberberg, o esquema do desdobramento é este:

    emoção -> inclinação -> paixão -> sentimento

    portanto termina no sentimento de amor. Cá por mim vai realimentando a paixão, mas a partir do momento que incorpora a liberdade do outro fica lareira e já não mata a arder. Ou pelo menos faz-se por isso e parece funcionar.

    Deixo isso aí porque pode dar jeito a alguém, também.

  8. Sempre achei as teorias sobre o amor/paixão um exercício académico e nada mais, teoricamente aplicáveis a toda a gente e na prática a ninguém.

    Todos temos práticas individuais e temperamentos muito diferentes e nunca viremos a saber a que corresponde em nós exactamente o que os outros nos dizem. A definição de amor para Camões é para muito boa gente a da paixão.

    E se perguntássemos ao trágico Alberoni?
    Brrrrrrrrr!!!

  9. O livro De l’amour é considerado por um necas qualquer como a coisa mais seca (menos húmida) jamais escrita sobre o amor. Claro que não é um livro cor de rosa, Stendhal tenta compreender um sentimento, não transmiti-lo por contágio. Ainda não li melhor descrição do mecanismo da paixão.

    Georges Bataille dizia que era impossível estudar o amor, a paixão ou o erotismo. Para ele, eram mistérios reais: existem, mas não podemos estudá-los. Como a pedra de lua, exemplificava. Bataille disse isso poucos anos antes de o homem começar a investigar o espaço e chegar à lua.

  10. M, mas também é verdade que temos uma mesma natureza humana, pelo que há coincidências, análogos, similitudes ou mesmo, quiçá, experiência do mesmo, apesar (ou por causa) da alteridade.
    __

    Nik, atenção ao que está em causa nesta investigação: medições da actividade neuronal. Ou seja, trata-se de pura visão, sem mediadores culturais, intelectuais, filosóficos, literários e psicológicos.
    __

    Pois é, tens de ir a estes dois locais, gastar 3 minutos, e voltar para contar o que viste:

    http://www.priberam.pt/dlpo/definir_resultados.aspx

    http://ciberduvidas.sapo.pt/pergunta.php?id=16230

  11. Ficamos na mesma.

    O que chamarias a isto?

    … é fogo que arde sem se ver;
    É ferida que dói e não se sente;
    É um contentamento descontente;
    É dor que desatina sem doer;

    É um não querer mais que bem querer;
    É solitário andar por entre a gente;
    É nunca contentar-se de contente;
    É cuidar que se ganha em se perder;

    É querer estar preso por vontade;
    É servir a quem vence, o vencedor;
    É ter com quem nos mata lealdade.

    Mas como causar pode seu favor
    Nos corações humanos amizade,
    Se tão contrário a si é o mesmo…?

    Só a rima final denuncia o que Camões sentia, independentemente da classificação.

  12. É uma descrição típica da psicologia da paixão. As polaridades, os estados inflamados, a suspensão da lógica ou a irrupção de uma outra lógica.

    E então? Qual a tese? Achas que o amor não existe, apenas as paixões?

  13. mas olha que a relêr acima Valupi, obrigado M!, há que anos, pensei eu: é paixão, fosga-se, e cheguei ao fim e reli e disse: é amor, tou f*dido,

    mas aquele esquemazinho do F&Z para mim está bom,

    portanto:

    1. a faca não corta o fogo (HH)
    2. é fogo que arde sem se ver (LC)

    logo: a faca não corta o ver

  14. Amor apaixonado parece-me bem, não há meios de se saber onde começa um e acaba outro.
    Camões, como era pré-psicólogos, baralhou os conceitos.

  15. Olá. Espero que percebas agora o falhanço das políticas anti drogas : o objecto da minha paixão a tostões de distância ? nenhum apaixonado resistia , e resiste.
    Nesse estudo esqueceram um ponto fundamental , ou tu não o incluiste , o papel do sexo. Boas f… , a par de uma relação afin ,agarram tanto como coca. Anos a fio. Mas claro , depois aparecem umas coisas assim como andropausa ( e se a garina é mais nova…) e a paixão começa assim a arrefecer. Começa , pois. Claro , agora há viagra , mas há também uma data de tótós que nem percebem que tomá-lo é uma obrigação , não opção. Não põe a sua virilidade em causa , põe de manifesto a grande ( ou pouca ) vontade de dar prazer .
    É tomá-lo , isto se querem continuar a ter a boa pele e grande resistência à dor e bla , bla , que o sexo apaixonado dá. Da PDI ( puta da idade , caso não saibas ) não escapa ninguém.
    E sexo apaixonado duradouro não é grátis : requer muita imaginação e interesse pela coisa. Tens de pensar muito no que vais fazer hoje à noite. Abrir a perna não chega.

  16. amor sem paixão é irmandade. aliás, a cantiga explica bem isso à rita lee. e camões havia de arregalar o olho, o outro, em concordância.

  17. Val

    Valeu!
    Só nao compreendo uma coisa, o Guterres com tantas paixoes, tinha sempre aquele ar doente, cansado, de tal maneira que fugiu! Será que era mesmo paixao, ou o rapaz também sofria de ansiedade e era obsessivo? Ou nao é nada disto e o que está errado é esta teoria. Também, pode ter acontecido que fugiu atrás de novas paixoes, quem sabe…
    A única certeza que eu tenho é que nao deixou saudade…

    http://www.youtube.com/watch?v=99rP_DA3g6w

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