A ágora não é uma rua

É uma praça. Um local onde se pára e fala. Fala e pensa. Só depois se julga. E ainda se compram umas coisinhas; seja para a janta, seja para a vaidade que também deve ser alimentada.

A rua é para passar, para atravessar. Os que se deleitam com o poder da rua não gostam de estar na ágora. Nem gostam de pensar antes de julgar. Preferem ir para a rua interromper o trânsito. Mas só conseguem provocar obstipação cívica, seguida de diarreia ideológica. São uns democratas de merda.

Alegretes

A reconfiguração da esquerda implica a capacidade e a vontade de construir uma perspectiva alternativa de poder. Esta é a nova coragem que é preciso ter. Não só a coragem de resistir e persistir, de que muitos de nós temos experiência, mas a coragem de virar a página e construir uma nova esperança e uma nova alternativa.

O discurso de Manuel Alegre no Fórum das Esquerdas serviu-se de 2294 palavras, as quais gastaram 14329 caracteres. Se alguém ler o discurso à procura do que o autor entenda pelas expressões virar a página, nova esperança e nova alternativa vai ficar com a mesma informação que se encontra no espaço em branco entre as letras. E se alguém perguntar aos restantes intervenientes e apologistas do evento pelo significado das mesmas expressões, as respostas arriscam-se a serem variações de meter dó e marcha à ré. No entanto, é com este vazio que se estão a fazer as notícias a respeito do acontecimento.

A oposição em Portugal continua sem inteligência, seja à esquerda ou à direita. O discurso alucinado, feito de abstracções e descontextualizações, convoca paranóicos, deprimidos, esquizóides, ressabiados, biltres e pilha-galinhas. Aos oradores chega e sobra ter audiências que urrem e salivem, jornalistas que persigam e transmitam, familiares, amigos e populares que condescendam e aprovem. Nem é preciso pensar quando se está alegrete.

Socialismo 2.0

O nosso amigo Joao trouxe-nos 15 minutos com Kevin Kellly. Destaco esta ideia: enquanto o comunismo pretende reduzir a comunidade ao mínimo denominador comum, atacando os que têm mais para dar aos que têm menos, a Internet pretende elevar a comunidade ao máximo das suas capacidades através do desenvolvimento dos individuos, contando até com os que têm menos para que a comunidade obtenha tudo. É uma economia do conhecimento, da criatividade e da socialização aberta, não do trabalho braçal, da máquina e da centralização.

O seu entendimento da tecnologia como sistema biológico, e o da biologia como desenvolvimento tecnológico, abre horizontes de reflexão.

Vinte Linhas 301

«O Tigre Vadio» de Mário Beja Santos

Aqui está um livro (Círculo de Leitores – Temas e Debates) em que o subtítulo poderia perfeitamente substituir o título – «Diário da Guiné 1969-1970». O tigre vadio pode ser o nome de uma operação militar mas também uma projecção do autor do livro – este diário anota não só as patrulhas e as emboscadas mas também as músicas que ouvia e os livros que lia. Copland, Dvorak, Saint-Saens, Mendelssohn, Chopin, Bizet, Puccini, Verdi, Mahler, Bach, Brahms, Beethoven ou Wagner ao lado de Agatha Christie, Moravia, Redol, Aquilino, D.H. Lawrence, Dinis Machado, Zola, Hemingway, Fernando Pessoa, Mauriac ou Kafka. No meio de uma guerra sem saída e de uma natureza hostil, só a cultura poderia dar respostas às ansiedades do jovem alferes. Num mundo em desagregação só a música e a literatura explicavam em parte esse mesmo mundo. Notável a conversa que o autor teve com o deputado Pinto Leite pouco tempo antes de ele morrer num desastre de helicóptero no meio de um tornado: «A Guiné actual já não tem solução militar. Por favor, guarde para si, o próprio governador gostaria de chegar a um acordo com o Amílcar Cabral. Em Lisboa espero dizer frontalmente tudo ao presidente do Conselho. Tem que se chegar à paz». Tantos anos passados, quase quarenta anos depois, ainda há tanta coisa por dizer sobre a guerra da Guiné. Um aspecto curioso: tudo isto começou num blogue «Luís Graça e camaradas da Guiné» e se não fosse o empurrão do blogue o livro nunca teria existido – pelo menos nesta forma que acabou por tomar. São 440 páginas de memórias vivas que podem ser lidas como um romance – «Era uma vez um menino alferes que vivia há uma ano no mato profundo do leste da Guiné…»

Não importa se és de esquerda ou direita

Importa é se és optimista ou pessimista. Porque ninguém sabe o que é ser de esquerda ou direita. Nem os políticos profissionais, nem os opinadores amadores – nem Marx, cuja ciência da História era tão jeitosa que lhe passou ao lado a vitória do sector terciário, o desenvolvimento tecnológico que iria fortalecer a democracia e ainda as transformações culturais que tornaram irrelevantes as suas noções materialistas de trabalho e riqueza. Claro que não falta quem tenha os bolsos cheios de explicações para te dar, e que fique irritado com a conversa. Se puxares por eles, repetem vacuidades ou disparam argumentos de autoridade: celebridades, títulos de livros, trechos, frases, eventos. Quão mais irritados, maior a certeza de que apenas tentam salvar a sua religião horizontal ou a sua tribo colorida.

Os pessimistas são imbecis. Todos os pessimistas são imbecis. Porque todos desistem de resolver os problemas. Mais cedo do que mais tarde, desistem. Alguns desistem antes de começar. O que é lógico, pois o pessimismo acredita ser inútil qualquer esforço de construção, resolução, melhoria. Para quê o esforço, se a vida é este vale de lágrimas onde apenas a morte liberta? A luciferina crença leva ao paradoxo: o do pessimista que continua a querer viver. Vive, mas apenas para atacar o optimismo. Perseguir e tentar converter optimistas passa a ser o único sentido para a vil existência dos pessimistas. Reduzem a sua atenção ao mínimo – seja o que for que falhe ou demore à sua volta – e dão a esse mínimo o máximo de importância. O pessimista não admite erros, porque atrofiou a inteligência a tal ponto que não consegue aceitar que é errando, e na errância, que se aprende. Quando detecta um erro, regozija-se e celebra, reconforta-se. E se não apanhar algum, angustia-se, suspeita de tenebrosas maquinações para o enganar. Ele pode não estar a dar por ela, mas as coisas vão de mal a pior, isso é certinho. Portanto, o pessimista, para além de grande imbecil, é também um cínico hiperactivo.

Os optimistas são geniais. E humildes. Claro, ser humilde e genial é ainda mais genial. O optimista só sabe que nada sabe, eis a sua humildade. Desconhecendo o poder que tem e o que poderá alcançar, nunca desiste de procurar o bem. O bem pode até não passar da diminuição do mal em causa, mas chega para realizar o optimismo – porque o ser é sempre preferível ao nada. O optimismo gosta dos que tentam, dos que arriscam, dos corajosos. Acreditar que somos parte do mistério, portanto que o mistério é parte de nós, eis a genialidade que alegra o optimista.

Dois pessimistas de esquerda, ou direita, nunca se irão unir, sequer entender. Não podem, pois não confiam um no outro. Sabem de ginjeira que tão-só o fracasso se deve esperar da natureza humana, patético erro cósmico. Longe desse inferno, dois optimistas, um de direita e outro de esquerda, reconhecem-se à légua, nasceram na mesma família. Seja qual for a divergência, descobrem como a conciliar, ou descobrem como a ultrapassar; ou descobrem como a proteger e alimentar, colhendo os frutos. São ingénuos, mas no sentido em que a ingenuidade é uma qualidade dos criadores e dos que são livres. Um espaço de pureza, uma simplicidade potente. Querer ser ingénuo é o antídoto mais poderoso contra o cinismo.

Um livro por semana 93

«A árvore das palavras» de Teolinda Gersão

Sexta edição dum livro de 1997, esta árvore das palavras existe mesmo: «sentava-me debaixo da árvore do quintal e falava com o vento e as folhas. A árvore abanava os ramos e eu pensava: a árvore das palavras». O palco da acção é Lourenço Marques: «Tudo parece bem à superfície mas a cidade está podre e cheia de contágios. Ela foi construída sobre pântanos». É uma cidade de contrastes: «Nos negros não se pode confiar. Porque nos desejam mal e nos odeiam.» A divisão acontecia até nos correios onde «havia guichets para comprar selos para brancos e outros guichets iguais mas com o letreiro «não brancos» como se os selos não fossem iguais». A protagonista da história circula entre dois mundos: «Parecia tudo tão simples a quem estivesse de fora mas havia debaixo desse mundo ocioso e brilhante, um outro, escondido, feito de ódios, rivalidade, inveja, ciúme, havia os amantes, as amantes, as noites varadas na mesa de jogo, o álcool, os escândalos». Ela sabe que «bastava um nada para que a sua vida tivesse sido outra – ter respondido a outro anúncio, ter-lhe ido parara às mãos outra folha de jornal». Numa cidade dividida no espaço («Um dia a cidade de caniço vai invadir a de cimento») a protagonista sente-se dividida no sentimento («Havia os que subiam e os que andavam sempre para trás») mas esse falso equilíbrio vem a romper-se com a guerra: «Portugal era um país mal governado. Mal pensado. Lisboa não dialoga com os africanos». Para além da história da mulher que casa por anúncio de jornal, este livro inesquecível dá-nos o registo do tempo e do lugar, a memória e a filosofia de África onde a pressa não existe: «a verdadeira vida é vagarosa. São os mortos que têm pressa. E os loucos».

(Editora: Sextante, Capa: Susana Cruz/Henrique Cayatte)

Querem dar cabo do Chomsky com umas macacadas

Donde vem a linguagem humana? É questão quase tão difícil como a de saber para onde vai o PSD, mas não compliquemos. Noam Chomsky fez fama, e teoria, a defender a origem genética da linguagem, fonte que incluiria as estruturas que dariam origem às diferentes gramáticas. Assim, só o ser humano teria capacidade verbal. Esta posição assinala um retinto judaísmo, diga-se como curiosidade. Pois bem, então que fazer com os símios que revelam capacidades dialogantes análogas às dos humanos? Ou como lidar com um orangotango que aprendeu espontaneamente a assobiar? Enquanto se pensa nestas urgentes questões, o melhor é ver o vídeo onde Panbanisha, uma fêmea bonobo, consegue convencer com paleio um dos seus tratadores a largar o cão que tinha ao colo para andar com ela às cavalitas.

E, por favor, não contes nada disto ao pessoal do PC e BE, pois eles são bem capazes de aproveitar a deixa para irem partir umas montras no Rossio, denunciando a conspiração israelo-americana contra o grande Chomsky. Há pessoas que só encontram alguma paz de espírito quando destroem a propriedade alheia, pelo que todo o cuidado é pouco com esses macacões.

Meditação para um quadro oferecido por Jorge Bretão

Trouxeste num quadro a luz da tua cidade

Eu só tenho para te dar o escuro de Lisboa

Nos dias em que anoitece sobre a verdade

E a raiva é uma nuvem que nos sobrevoa

Numa cidade cheia de prisões e hospitais

De eléctricos vagarosos com os atrelados

A vida era diferente dos bilhetes-postais

Era mais cinzenta e nós muito cansados

Anos depois veio um projecto de alegria

Na manhã de Abril hoje perdidas ilusões

Uma excelente promessa de democracia

E ficou reduzida a um ritual de eleições

Salva-nos o tempo; permanece o mistério

No usufruto duma manhã plena de festa

Os músicos que tocam frente ao Império

São afinal toda a felicidade que nos resta

Terceiro poema de Fortaleza

Há aqui uma âncora feita de pedra

Tosca maneira de segurar a jangada

Quando o pescador descansa e espera

É uma pequena caixa de madeira

Uma pirâmide frágil mas segura

Que faz as vezes da força do ferro

Entre pedra e água, entre vida e morte

Ostensiva recusa dum destino hostil

O peixe que vem do mar todos os dias

Vejo o museu do Estado nesta jangada

Não preciso de visitar as outras salas

A vida do Ceará está toda nesta pedra

Vinte Linhas 300

Será que Fernando Pessoa tem razão?

Fernando Pessoa é o mais avassalador de quantos polígrafos o século XX deu à literatura portuguesa. Em boa hora a editora «Bonecos Rebeldes» resolveu publicar uma recolha de Zetho Cunha Gonçalves que junta textos de ficção narrativa publicados em jornais e revistas pelo próprio Fernando Pessoa. «Contos, fábulas & outras ficções» é um livro irreverente e indisciplinador, um hino à liberdade e um libelo contra toda e qualquer forma de censura, prepotência, submissão e conformismo. Na página 83 deste livro aparece «A origem do conto do vigário» no qual Fernando Pessoa explica à sua maneira a origem da expressão «conto do vigário» como tendo a ver com as façanhas de um tal Manuel Peres Vigário, lavrador ribatejano que teria enrolado seus irmãos num negócio de vinho. Mas a versão que eu tenho como correcta sobre a expressão vem de Vasco Botelho do Amaral e tem a ver com o conto do vigário «lisboeta» digamos assim. O burlão diz ao papalvo que o vigário da sua freguesia lhe confiou uma grande quantia para entregar a alguém quantia essa que está no embrulho – chamado paco. A pessoa que vai na conversa entrega o dinheiro pedido, acreditando que dentro do embrulho estão as notas que largamente compensarão o dinheiro emprestado em troca. E assim «vai no embrulho» pois, aberto o dito, vê que dentro dele só havia papel de jornal inútil e não as notas que seduzem os incautos. Estaremos perante uma invenção, mais uma, de Fernando Pessoa que teria aproveitado a expressão «conto do vigário» para imaginar uma história que viria a publicar no jornal «Sol» em 30-10-1926? Quem tem razão – Vasco Botelho do Amaral ou Fernando Pessoa? Será que a razão está com os dois? Responda quem souber…

Fim da crise

O nosso amigo Shark já pode encher o peito de orgulho benfiquista. A BOLA já pode fazer capas de um lampionismo monumental. 6 milhões de portugueses espalhados pelo Mundo já podem marcar almoçaradas, churrascadas, mariscadas, caldeiradas, cabritadas e chispalhadas com ânimo e garbo. A crise acabou, temos o Benfica no 1º lugar. Espero que lá fiquem durante 6 meses – não é preciso mais, de acordo com a Manela – de modo a este país entrar nos eixos, carrilar, avançar para a frente e a direito. Mas só até 17 de Maio, ok?

Vinte Linhas 299

Nova edição do «Levantado do chão» mas as gralhas continuam

Acaba de surgir nas montras da Baixa de Lisboa e de todo o país (presumo) uma nova edição do clássico «Levantado do chão» de José Saramago. Clássico no sentido de estarmos em 2008 e a primeira edição ser de 1980. Mas clássico também porque neste livro de 2008 as gralhas permanecem, tal como em 1980, na renovada edição da Portugália Editora. Tanto cuidado, tanto aparato gráfico e afinal repetem o mesmo erro crasso das anteriores edições. No texto citado de Almeida Garrett do capítulo III das «Viagens» lá aparece o erro «E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar às miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à penúria absoluta, para produzir um rico» Ora bem não é infância mas sim «infâmia», nem aliás faria sentido ser infância. Nem o Garrett escreveu isso, está aqui na página 19 das «Viagens» na edição que eu tenho. As outras gralhas também persistem. Falta a dedicatória a Isabel da Nóbrega e a dedicatória a todos os que o ajudaram a escrever o livro, dezasseis pessoas ao todo, habitante das aldeia do Lavre (Monte Lavre no livro) no concelho de Montemor o Novo.

O livro vem dentro de uma caixa, é tudo muito engraçado mas as gralhas permanecem. Foi Isabel da Nóbrega que em 1976 levou uma forguneta cheia de livros para a biblioteca da Cooperativa do Lavre. Gesto amigo e generoso. Como não havia telemóveis pediram uma criança que fosse a correr chamar Bernardino Barbas Pires para receber essa senhora que vinha de Lisboa com a forguneta cheia de livros… Foi aí que tudo começou. Felizmente as gralhas não apagam a memória real e verdadeira de quem não esquece.

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Chegámos a 12 de Março de 2005 em profunda decadência cívica. Quem se der ao trabalho de ler o que escrevem os publicistas desde meados dos anos 80, mas em espiral desvairada desde 2001, vai encontrar a repetição desta mensagem: os políticos são maus porque o povo não se envolve na política. Se interrogado, o povo usa a versão simétrica do mesmo argumento: não se envolve na política porque os políticos são maus. O consumismo provinciano que foge da cultura, a ignorância financeira que perpetua a pobreza, os baixíssimos índices de escolaridade que impedem o pensamento político, o generalizado anti-intelectualismo que impede o pensamento complexo, a enorme iliteracia que impede até o pensamento simples, mais o diabo a sete, fornecem ângulos sortidos para os diagnósticos. Mas esta visão fica inevitavelmente solta e quebradiça, por ser abstracta. Falta o cimento do concreto.

Na loucura do dia-a-dia, cada um de nós toma decisões lógicas, mesmo que a sua base e consequências possam revelar-se ilógicas. Até 2005, ser adulto implicava ter uma iniciação à fraude fiscal, entre outras disciplinas congéneres. Quando um cidadão se confrontava com um mecânico, pintor, electricista, pedreiro ou canalizador a oferecer-lhe um muito razoável desconto a troco da evaporação da factura, isso, com a repetição, passava a ser parte da normalidade. Afinal, é o que todos fazem, o que é suposto fazer-se. Porquê? Porque, lá está, todos o fazem, olha a estupidez da pergunta. A seguir, o cidadão convivia alegremente com empregados de restaurante que lhe davam molhos de facturas para entregar ao patrão que as usava para esconder remunerações. Este fenómeno, posto que sem vergonha e festivo, confortava-o, dizia-lhe que ele pertencia a uma comunidade tão popular que até incluía casas de pasto. Finalmente, calhando ao cidadão entrar num consultório médico, iria encontrar as mesmas vantagens: se fosse sem factura, a caríssima consulta privada ficava muito mais em conta. Este era o ponto em que o cidadão se tornava partidário do sistema, dado que até os aristocráticos e impolutos doutores o utilizavam às descaradas. Naturalmente, quando apareciam notícias de haver empresários organizados em cartel para roubarem o Estado em dezenas ou centenas de milhões de euros, havia uma certa indiferença misturada com simpatia. Eles teriam sido apanhados, coitados, por um qualquer azar, mas não merecendo castigo especial. Afinal, roubar o Estado era a norma, um sinal de inteligência e integração social. O cidadão optava por ganhar uns trocos, assim recheando a sua vida com um televisor maior, mais 100 quilos de roupa, um carrão, uma segunda casita, aquelas férias em grande. Em contrapartida, 31 mil milhões de euros por ano, o valor da economia paralela em 2005, deixavam de entrar no seu dia-a-dia. No seu e no da sua família, amigos, vizinhos e colegas.

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Vinte Linhas 298

O desacordo ortográfico do jornal «Record»

Chego a Portugal numa manhã de cansaço no regresso da Bienal do Livro do Ceará. Lá conheci o editor Raimundo Gadelha e o autor da minha antologia Floriano Martins. Lá reencontrei dois grandes poetas que já conhecia de Lisboa – José Santiago Naud e Cláudio Willer. Descobri Edson Cruz, José Geraldo Neres, Paulo Bruscky, Sílvio Araújo, Célia Cruz e Carlos Emílio Lima, o mais simpático dos desalinhados. E todos os poetas da América Latina trazidos na mala cheia de livros e de amizade. Depois da maratona de sessões sobre a mestiçagem cultural, a edição de livros, a antropologia, a história e a literatura e o ensino do português e castelhano na América do Sul mas onde o acordo ortográfico não foi sequer referido, sinto-me agredido com um título do jornal «Record» – «Liedson perto do record de Travassos.» Mas Travassos com cedilha e não com dois esses. Tenho na minha frente a fotocópia do bilhete de identidade do senhor José António Barreto Travassos fornecido pelo seu filho António José. Lembrei-me logo do acordo ortográfico que justificou a saída de uma ministra indisponível para o assinar. Ela foi substituída por alguém que aceitou a imposição do acordo ortográfico. E lá fomos, cantando e rindo, levados, levados sim pelos brasileiros. Agora, recém-chegado do Brasil onde a única coisa que fizeram num livro meu foi substituir «prefácio» por prólogo, deparo com algo que não estava no programa. Travassos com cedilha. Mas se esta gente não consegue escrever bem um nome de um famosos jogador de futebol, o primeiro português a jogar na UEFA em 1956 então podemos esta descansados. O acordo ortográfico brasileiro nunca será aplicado em Portugal pelo menos no jornal «Record».

António Alçada Baptista

Eric Fischl Bad Boy

É no Outono que a gente é capaz de reparar que a vida não é banal não obstante o nosso quotidiano ter sido de uma banalidade atroz. Acredito que é possível descobrir pedaços de luz no meio de tudo isso. São coisas destas que me levam à convicção de que a vida para que fomos feitos não é, de modo nenhum, aquela que andámos a viver. Em rigor, o nosso destino poderia parecer trágico: por um lado, caminhamos inexoravelmente para a solidão, por outro, temos como futuro o esquecimento. Tenho muito a convicção de que somos seres em formação, pois o projecto humano não aponta para aqui. Penso é que ele nos vai sendo revelado por pequenas nostalgias de coisas ainda não vividas, que se exprimem por intuições avulsas e, apesar de tudo, pelo halo poético do mundo, que seria mais visível se acertássemos a maneira como olhamos para ele. Depois também há, felizmente, aqueles que já nasceram mais à frente no caminho do futuro.

in O Tecido do Outono

Teatro do absurdo no Palácio de São Bento – Sessões contínuas

O CDS-PP pretendia suspender o processo de avaliação dos professores. Porquê e para quê? Ninguém sabe ao certo, mas o projecto foi votado no dia 5 de Dezembro. Paulo Rangel, líder parlamentar do PSD, afirmou que a bancada tinha sido toda mobilizada e chamada. Foi assim que ficámos a saber que pouco mais de metade dos deputados do PSD comparecem a votações que podem causar problemas ao Governo mesmo quando são mobilizados e chamados, imagine-se o que será sem esses cuidados. No final, Paulo Rangel declarou que a ausência de 30 deputados do PSD não teve relevância para a votação. A votação, contudo, teria levado à aprovação da proposta do CDS caso os deputados mobilizados e chamados tivessem lá estado durante uns minutos para votar. A Manela ficou furiosa com a indisciplina dos miúdos e chamou o delegado de turma ao gabinete da directora. Quer duas coisas: os nomes dos trastes que se baldaram à prova e uma jura de que nunca mais se vai repetir tal vergonha. Marco António Costa diz que os deputados estão desmotivados e que Paulo Rangel se devia demitir. Este espectáculo vai continuar e é de entrada livre. Quem disse que há crise no teatro em Portugal?

Cineterapia


Il Deserto Rosso_Michelangelo Antonioni

Quando ouvia a expressão É tão bom que até irrita, ou variantes, não entendia. Achava parvo. Ter um prejuízo emocional causado pela elevada qualidade de alguma coisa era parvo. Foi assim comigo durante mais de mil anos, tendo acabado apenas quando vi este filme. De todas as vezes que o vejo, repito um encadeado de exclamações à média de uma por plano. E são elas cabrão, filho da puta, cabrão de merda, filha da puta, cabrão do caralho, foda-se… (e volto ao princípio da sequência).

A erupção do vernáculo atesta a intensidade da experiência. Cada plano é um quadro rigorosamente composto nas suas formas, cores, linhas de fuga e coreografias. Tão rigoroso que progressivamente nos damos conta de ser obsessivo e, finalmente, maníaco. O belo, neste filme, é uma imposição, uma violência. Talvez já nem seja belo este belo, mas uma imitação a desafiar o original. É sabido que Antonioni chegou a pintar árvores e relvados, e a queimar vegetação, para obter certos efeitos cromáticos. Até o som é cor, convoca o olhar. Mas também a colocação da câmara nos humilha, porque não falha o ângulo definitivo mesmo em movimento. Montagem? Magnética, colando polaridades, mantendo a passada forte e equilibrada. Texto? Mentiroso e vendido. Actores? Pândegos e reprimidos ou reprimidos e pândegos.

Este é o filme mais exibicionista e vaidoso que já vi. Foi o primeiro filme a cores de Antonioni, depois da celebrada trilogia de rajada. Ele vivia a crise dos 50 (e dois) nos 60 (e quatro). Estava cheio de medo, precisando de gritar Eu sou um realizador genial, agora a cores. Para esconder a trafulhice narcísica, Tonino Guerra enche o filme de muitas mensagens, muitos cantos e recantos, almofadas e miradouros. Da crítica à sociedade alienada e à exploração capitalista, passando pela denúncia ecológica e dos males da industrialização, até à reflexão sobre a condição feminina e o velório do amor, é servirem-se. Mas o próprio autor não perdia tempo com as interpretações, fica o aviso, ele apenas se preocupava em dar corpo aos filmes que a sua intuição criava sem ele saber como, porquê ou para quê.

Il Deserto Rosso é uma maravilha feita de uma única substância: donaire. Monumento a um ego que nos deslumbra pela sua exuberância e força. Um ego em estado puro, tangível pelo milagre do cinema. Só visto, porque não tem nada para contar.