O novo vídeo de Paul McCartney realizado pelo grande Michel Gondry. Com Natalie Portman, Mackenzie Crook (o impagável Gareth Keenan de The Office) e o próprio Gondry na bateria. Para já, ainda não encontrei um link em Quick Time (o que é grave), mas já dá para ter uma ideia desta verdadeira desbunda.
Arquivo mensal: Maio 2007
A sensação de jogar em casa
A sequestradora de «Vingança»
«Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos»

Graça Pires, neste seu nono livro de poemas, organiza o texto poético em dois registos bem diferentes: Cultura e Natureza. Os primeiros onze são poemas em prosa, numa recriação muito pessoal do célebre episódio de Marta e Maria no Evangelho de São Lucas. Entre Marta (atarefada) e Maria (contemplativa), o poema inscreve-se em duas memórias. Uma real («Olho pela janela à procura da minha infância e reparo que já esqueci a paisagem e os rostos desse tempo»); outra imaginada: «E perdoou à adúltera a quem queriam apedrejar por saber que só é culpado quem não procura ser feliz.» Desse cruzamento de memórias surge a escolha: «Por isso escrevo. Escrevo desesperadamente. Escrevo para não esquecer.» O segundo núcleo de 22 poemas não trata já da Cultura mas da Natureza, o mesmo é dizer a Geografia: «Pelo lado interior do tempo / assinalo, com traços de luz, / a cidade litoral onde nasci / rente à fragilidade do Outono. / Era Novembro / e uma estranha sede / pairava sobre a terra / ávida de líquidas paisagens / quando minha mãe me tomou nos braços / e disse: esta é a minha filha / O seu corpo doía de tanta comoção. / Agora, que uma luz difusa me fascina / retenho a idade em que não ousava / fazer do coração um lugar de conflito. / Escoa-se de meus lábios / sem aviso prévio / um excessivo odor a maresia / como se o Verão atasse ao meu pescoço / a sombra das dunas e todos os ventos / afugentassem a inevitabilidade da morte. / É de musgo, a vertigem / onde demoro as mãos, / para tornar legível a emoção.» Tornar legível a emoção é o grande projecto de qualquer poeta. Graça Pires já o consegue desde 1990 quando se estreou com «Poemas».
Capa – Katarina Rodrigues
Foto – Manuel Fazenda Lourenço
José do Carmo Francisco
Uma história feliz com um final assim-assim
Uma das mais recentes modas no universo dos vídeos musicais é as editoras utilizarem o potencial da web 2.0 para organizar concursos em que os fãs são desafiados a realizar um teledisco para os seus artistas. Desde que haja massa crítica (isto é, desde que a banda tenha uma assinalável legião de fãs e tenha ao seu dispor os meios para divulgar o concurso pela rede), esta é uma forma bem económica das editoras poderem vir a obter um vídeo enxuto quase de borla, pois uma simples pesquisa no YouTube demonstra que não falta por aí muita gente com talento disposta a pôr as mãos à obra.
Os Incubus (banda que não me faz abanar o coreto) resolveram enveredar por esse caminho e organizar um concurso para a criação de um vídeo para o single «Dig». O vencedor acabou por ser Carlos Oliveira, um jovem designer português residente em Esmoriz, que concebeu uma animação em Flash para a banda norte-americana. O Carlos lá ganhou alguma notoriedade e levou para casa o material informático da praxe, enquanto o guitarista da banda não se continha nos elogios: «O vídeo é todo feito com animação. A banda não aparece, o que é fantástico. O realizador fez um trabalho surpreendente: animou diversas ilustrações do nosso álbum e através delas contou uma história».
O problema nesta história é que a banda acaba de lançar oficialmente uma versão editada do teledisco original, alternando as imagens da animação original com (pasme-se) filmagens absolutamente dispensáveis dos músicos a tocarem o tema em playback. Comparar os dois vídeos acaba por ser um exercício penoso, mas sempre possui a virtude de nos mostrar a diferença entre o trabalho genuíno de um artista e um produto confeccionado pelos ditames (muito contestáveis) do que a banda e a editora devem apodar de «marketing comercial» (como dizia um amigo meu, a carinha laroca de Brandon Boyd sempre deve dar para vender mais uns milhares de discos).
A web 2.0 é uma cena bonita, não é?
UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM: AS CASAS
Nas planícies, socalcos e outeiros, desabrocham as orvalhinhas cor-de-rosa e brancas; as ervilhacas roxas e amarelas; as corriolas lilases, em forma de sino; o cebolo bravo, de espigões de um roxo esmaecido; as calcinhas de cuco, indecisas entre o cor-de-rosa e o lilás e os pregos de ouro, amarelos, como o metal precioso.
E o vento, gira que gira, numa roda-viva, de repente, vai esmorecendo, vai esmorecendo, vai calando a fala. Até que deixa de se ouvir. O vento está a meditar. E a seara de trigo, lá em baixo, torna-se então plana como uma estrada aberta.
Tanta beleza por esses campos a perder de vista… E um perfume raro a respirar na aragem. São ramos das mais belas flores. Mas as casas… Ah, as casas, são as flores mais bonitas da paisagem!
Aqui e além, repousam na paisagem verde. Que verde é a paisagem e o aroma. Umas, meninas traquinas empoleiradas no cimo dos montes. Menos destemida, outras, aconchegadas nas várzeas que as viram nascer.
Velhas de pedras de muitos anos. Tantos, que se perdem na memória dos olhos. Na lembrança daqueles que as habitam e que por elas sentem um amor que vem da lonjura do tempo.
Casas baixas, caiadas de branco. Gratas por terem vivido tanto e por tanta coisa terem visto. É por isso que as casas sabem sempre muitas histórias. Que guardam dentro de si como um livro.
Alegres umas, tristes outras. Histórias que fazem com que as casas possuam vida própria. E mágica. Construída de muitas vidas e de muitas histórias.
Mas a vida das casas também é feita de esperança. Assente no desejo de se manterem intactas e amadas.
Em troca, oferecem a dedicação de serem o abrigo, o tecto daqueles que por si são amados. Nada mais pedem. A não ser, ainda, que a saudade, um dia, venha morar no coração dos homens.
Soledade Martinho Costa
A pianista que me possa perdoar
Estávamos na Casa dos Açores em Lisboa. A sala estava mais que cheia. Era uma sexta-feira à noite. A pianista que me possa perdoar, mas eu só dava atenção à violinista Isabel Dutra Rafael, uma menina-mulher de treze anos, lançando de forma serena, decidida e firme para a nossa atmosfera carregada de emoção, os sons magníficos das peças musicais de Kreisler, Pugnani e Bériot.
Saída da escuridão da sala ao lado, surge Eduardina, com um sorriso de mulher-menina e trazendo nas mãos dois belos ramos de flores. Os aplausos continuavam e as flores nas mãos de Eduardina surgiam como pequenas e coloridas vírgulas da nossa festa.
De repente era como se estivéssemos numa sala do Teatro União Faialense, não em 2007 mas no ano de 1897. Aqueles aplausos quentes para a jovem violinista aconteciam no século XIX e não no XXI. Esta ilusão era fácil de explicar. Tinha acabado momentos antes a apresentação do livro «A Horta Antiga» de Carlos Silveira. Uma espécie de fotobiografia da mais bela pequena cidade do Mundo.
De repente era como se estivéssemos dentro do romance «Mau tempo no canal» de Vitorino Nemésio com João Garcia em recruta no quartel da Junqueira e com quarto alugado no Bairro Alto por cima da capelista da Rua da Rosa, esperando carta de Margarida e Margarida a conversar na amurada do Lima com um dos Serpas sobre a famosa linha de backs do Fayal Sport Club que passava as tardes de domingo jogando intermináveis partidas de futebol com o Angústias ou com o Sporting Club da Horta no Relvão da Doca.
A pianista que me possa perdoar, mas eu só dava atenção à menina-mulher do violino e à mulher-menina dos ramos de flores.
José do Carmo Francisco
Liberais
No princípio eram a guarda avançada das ideias mais ilustres das Luzes e da Razão. Tomavam como bandeira a constituição dos direitos, a liberdade dos espíritos e a emancipação dos homens. Contra a cerração do dogma, a injúria do privilégio, o esmagamento do poder absolutista. Antepunham o direito natural ao pedigree.
– Deixai passar, deixai fazer quem faz! – E alguns desembarcaram no Mindelo.
Hoje afadigam-se a virar às avessas este mundo e o outro. Às bestas da natureza, recambiam-nas ao criacionismo, que o mundo todo está na mão de Deus. Porém aos homens reservam a dura selecção darwinista, porque o mundo é uma coutada dos audazes.
Idolatram o dividendo, cultuam bezerros de ouro. Aos que já não derem lucro, facilitam o antigo logradouro da superstição, e da crença no milagre. Dizem que é isso o progresso. E dão como garantido um favorzinho da fome, para nos meter na cabeça o conto do vigário.
Jorge Carvalheira
Googlonismo
Se o capitalismo conseguiu criar uma empresa como o Google, não pode ser um sistema assim tão mau. O que me lembra o relambório de Carlos Carvalhas, hoje na manhã da TSF, em tudo conforme com o Portugal salazarista que também tinha medo do capitalismo e suas originalidades, seu assustador poder inventivo. Ora, os amigos do Google andam todos muito bem alimentados e descontraídos, para além de não estarem sujeitos à audição dos lamentos do Carvalhas, condições essas em que a inteligência floresce. Vai daí, estão sempre, mas sempre, a criar. O exemplo que trago pode parecer irrelevante, mas é genial de simplicidade. Trata-se do Google Image Labeler. É a resposta a um gigantesco problema, tão grande que até uma empresa que vale 150 mil milhões de dólares não se podia dar ao luxo de resolver por si: catalogar as imagens da Internet. Solução: que cataloguem os outros; ou, a catalogação a quem a busca. Eis o espírito revolucionário do capitalismo.
Primeiros amores

O primeiro grande romance gay da nossa literatura, acabou por escrevê-lo Eduardo Pitta.
Poderíamos tê-lo desejado de Guilherme de Melo, autor de Ainda havia sol (1984) e O que houver de morrer (1989). Ou esperado de João Aguiar, que com Navegador solitário (1996) pareceu aproximar-se da proeza. Ou aguardado de Frederico Lourenço, cuja trilogia iniciada com Pode um desejo imenso (2002) veio pôr a razoável nível a fasquia.
Poderiam tê-lo ousado grandes contistas como Mário Cláudio, que escreveu «Il Signore Inglese», em Itinerários (1993). Ou José Lourido, autor do fabuloso e desconhecido «A absurda eficácia da matemática», em O príncipe que se transformou em sapo (1993). Ou Possidónio Cachapa, autor do não menos fabuloso e felizmente algo mais conhecido O nylon da minha aldeia (1997). Ou Miguel Vale de Almeida, com as excelentes narrativas de Quebrar em caso de emergência (2001).
Mas não. Haveria de ser Eduardo Pitta, com esta Cidade proibida, acabada de sair na Quid Novi. Do contista de Persona (2000, agora reeditado na mesma casa) poderia já esperar-se a façanha. Mas as grandes obras são sempre uma surpresa.
O livro é um must. E não só pela temática (sempre curiosa, mas nunca garantia de qualidade), como sobretudo pela valente respiração de que o relato se toma. Os lugares, as épocas, os ambientes, tudo rodopia com nitidez, com embalo, com vertigem (só aqui e ali excessiva para a concentração comum, como a deste leitor), criando sabiamente expectativas, conferindo colorido a personagens e brilho a episódios.
Assinale-se a crua limpidez do vocabulário erótico. Assinale-se, também, a abrupta e bem gerida inclusão, em existências queque, do elemento bas fonds.
Lamente-se, sim, a frívola atracção das etiquetas, a obsessiva pose dos livros, da música, dos vinhos, das iguarias, da hotelaria, dos diplomas, que roça a obscenidade na descrição dum jantar volante, quase a meio do livro. O leitor verá. E tentará perceber porque é que – banal exemplo – haverão uns sneakers de ser tão fatalmente Louis Vuitton.
Ninguém morre. Ninguém fica com ninguém. E os primeiros amores, mesmo se proletários, revelam-se, embora definitivamente perdidos, os verdadeiros.
Definitivamente perdidos? A estas alturas do campeonato (perdoe-se o registo), a malta cheira as sequelas. De momento, basta esta Cidade proibida para encher as medidas.
Sincronias assíncronas
Os blogues com comentários são mais enciclopédias do que jornais. Mas enciclopédias inacabáveis, já vencidas da vida nisso de nascer. As suas entradas são actualizadas pelo utilizador, não pela actualidade. Ou dizer melhor: a actualidade consiste na utilização do utilizador, abrindo a enciclopédia à permanente consumação da sua potencialidade, à sua morte e ressurreição no acto de aceitar o comentário. Fogo que não queima, nem gasta, o texto originador.
É o que está a acontecer aqui na casa nalguns casos paradigmáticos, por serem tão diversos:
– Um new look para o empresário português?, de 9 de Agosto de 2006, teve um ressurgimento de freguesia a partir de Maio de 2007.
– Floribella estraga-se, de 8 de Setembro de 2006, tem sido regular íman para inocentes meninas.
– Portugal, queremos “isto”?, de 19 de Abril de 2006, continua a reunir bom vento e boas conversas dos nuestros hermanos e primos.
– Not obstante, de 21 de Fevereiro de 2007, recebeu há dias a visita da celebridade em causa, o magnífico Jallapão (ou alguém por ele, tanto faz).
Há outros casos, pontuais. Que irão crescer. Esta enciclopédia não acaba de acabar.
Kalashnikov
Jel entrou na segunda série do Vai Tudo Abaixo, na Sic Radical, e o nível geral desceu. Efeitos do amadorismo, o qual resolve descansar após o sucesso. Mas tudo se perdoa, e mais do que se compensa, com as peças Kalashnikov. Estamos perante uma raridade absoluta em Portugal, e raridade ainda no resto do Ocidente amedrontado e acobardado pelo terror dos loucos. Porque se trata de genuíno iconoclasmo. E tão carentes que estamos dele.
Este segmento vale especialmente, cá para o meu palato, pelos dois últimos minutos. E, nestes, pelo despautério dos últimos 20 segundos. Dionisíaco.
A paranóia das Ligas voltou a atacar
Com a última jornada do campeonato, hoje, e na possibilidade de qualquer dos três chamados «grandes» poder ser campeão, lá voltou a paranóia das Ligas. Não há jornal nem jornalista que não venha com a «história» das Ligas. Qual história? – perguntarão os leitores. Trata-se de uma doença: uma febre vermelha. A situação é a seguinte.
Nas épocas de 1934/5, 1935/6, 1936/7 e 1937/8 foram organizados quatro torneios particulares, experimentais e sem atribuição de qualquer título nos quais entraram por convite 8 clubes portugueses. Ao mesmo tempo que decorria essa experiência, continuou a ser disputado o Campeonato de Portugal, esse sim, o torneio desportivo que atribuía o título de campeão de Portugal. Ora acontece que nos Campeonatos de Portugal entre 1934 e 1938 o Benfica ganhou 1, o F.C.Porto venceu outro e o Sporting ganhou dois. Mas, ao mesmo tempo, os torneios particulares e experimentais chamados Ligas tiveram como vencedores o F.C.Porto (1 vez) e o Benfica (3 vezes). Como lhes convinha para efeitos de estatística, muitos jornalistas simpatizantes do Benfica começaram a apagar os Campeonatos de Portugal de 1934 a 1938 (Benfica ganhou 1) dando relevo às Ligas (Benfica ganhou 3) como se de campeonatos se tratassem.
Ora, o campeonato da I Divisão só começou em 1938/9 tendo sido vencedor o F.C.Porto. Se as Ligas fossem campeonatos (e não torneios experimentais), não teria havido Campeonato de Portugal entre 1934 e 1938 e a Académica, o último classificado da Liga de 1934/5, tinha descido de divisão. Mas não desceu até porque não havia ainda II Divisão. A Académica voltou a jogar na Liga em 1935/6 sendo de novo o último classificado. Depois foi 5º em 1936/37 e 6º em 1937/8. Tal como o da I, o campeonato da II Divisão só começou em 1938/9, depois de 4 anos de experiências com 4 vencedores deste torneio experimental: Carcavelinhos, Olhanense, Boavista e Leixões.
Esta é a verdade. Já chega de paranóia das Ligas. Basta!
José do Carmo Francisco
Confissões, VI, 3

Contrariamente ao que dizia Ruy Belo (e ao que ainda hoje afirmam alguns autarcas), o verdadeiro problema não é o da habitação, mas o de saber respirar. Se Santo Agostinho gabava Santo Ambrósio por este conseguir ler como quem respira («Quando ele lia, os seus olhos esquadrinhavam a página e o coração procurava o sentido, mas a sua voz mantinha-se em silêncio e os lábios e a língua não se moviam»), eu gabo os que respiram como quem lê, isto é, todos aqueles cujo coração jamais se cansa de procurar. O problema da respiração é uma inquietação que herdei do meu pai, que teve de aprender a respirar uma língua nova, quando emigrou para França, aos 48 anos. Foi aprendendo aos poucos, com a necessária dificuldade, a entender de forma pragmática a maioria dos enunciados. De vez em quando, sobretudo quando estava a ver televisão, perguntava a mim ou aos meus irmãos o significado de uma palavra desconhecida. Ele não queria traduções ou perífrases aborrecidas, mas a palavra portuguesa exacta que, na sua ingenuidade, correspondesse à do idioma proibido. Depois, pedia-me para escrever pequenos lembretes que ia acumulando nos bolsos no meio das moedas e dos maços de tabaco. Ele nunca se preocupava em repetir em voz alta as palavras novas que aprendia e há já alguns anos que me assombro com o facto de nunca o ter ouvido dizer uma única palavra em Francês. Quando eu tinha dez anos, chegou a minha vez de aprender a respirar esse «infinito que nos acena de além do mar», de que falava Vergílio Ferreira. Com a minha língua materna, adquiri uma respiração tensa e sôfrega com a qual, malgré moi, ainda hoje me identifico. Com o Português, aprendi a compreender melhor o pudor do meu pai: não é impunemente que se aprende a inspirar a vossa língua e a sentir nos pulmões, em plano suavemente inclinado, a vertigem do mar. Se gosto tanto do Português, não é apenas por essa língua não ser minha, mas por nessa distância lá caber toda a tristeza de me saber de nenhum lugar. O meu corpo é uma desgraça: inspiro frases de um Português límpido e cheio de maresia para depois expirar uma língua tosca na qual nem sequer me será permitido um dia naufragar. Sonho muito com isso, sabem. Respirar água, para depois, finalmente, abrir os braços os pulmões a boca. E conseguir falar.
Pedido
Obrigado, MPT

A democracia resiste aos canalhas e às canalhices. Porque a democracia é para todos, canalhas incluídos. Contudo, a democracia depende dos democratas. E eles são poucos, raros. Porque ser democrata é ser valente, ser justo. Como cada um poderá atestar por si, valentes e justos não são fáceis de identificar. Chega a parecer que não existem em lado nenhum.
No caso da marcação das eleições autárquicas em Lisboa para 1 de Julho, estávamos perante uma canalhice, organizada por vários canalhas e tendo a cumplicidade de uma mole deles. Estávamos, assim, num estado de normalidade democrática. Veio, então, o Movimento Partido da Terra lembrar que a democracia pode também ser anormal, onde uma minoria actualiza os fundamentos da justiça. Que tal façanha seja protagonizada pelo partido mais simpático do mundo — pois é o partido de Gonçalo Ribeiro Telles, um português que o Portugal decadente não merece —, é verde sobre azul.
Desarrolhar o Maio
Da nossa amiga sininho, chegam-nos este texto e imagem:
Desde “sempre” que o mês de Maio tem muito significado para os habitantes de Lagos.
Maio, o mês das flores!
Talvez por isso, e para realçar a sua beleza, as populações locais terão concebido “AS MAIAS” enfeitando com muitas flores, e outros adornos, umas “BONECAS” feitas artesanalmente, e que depois colocavam às portas e às janelas, não só para mostrar as suas habilidades como para que os passantes verificassem que a tradição das “MAIAS” subsistia – o que a todos agradava. A satisfação era tal que as donas das “MAIAS” ofereciam aos mirones o tradicional figo torrado acompanhado de uma boa aguardente de medronho. Ofereciam também deliciosos bolos de miolo de amêndoa que se chamavam “ROLHAS DE MAIO”, que eram muito apreciados e disputados.
As abelhas fazem o Verão

Agora que o Verão parece ter finalmente chegado, está na altura de ouvir música cheia de vitamina D. Depois de ter contado nos últimos anos com os préstimos de Ethienne Daho, Beta Band, Magnetic Fields, Beck e LCD Soundsystem, é com um certo aparato e uma razoável estupidez que venho aqui anunciar ter já encontrado o meu disquito de Verão para 2007: Octopus dos The Bees (infelizmente, ainda não foi editado em Portugal, mas eu sei que vocês sabem como arranjá-lo rapidamente). O disco é um magnífico anacronismo que faz questão de ignorar tudo aquilo que está na moda em 2007: ele é pop, dub, soul, country, folk e música latina misturada por um brilhante grupo de músicos que alia a técnica a um irresistível sentido de humor. Como não podia deixar de ser, tratei logo de averiguar se já havia algum videoclip para promover o álbum e, meus amigos, que estalada. O single escolhido foi «The Listening Man», uma canção capaz de fazer ressuscitar a saudosa blue-eyed soul da década de 60 (e olhem que estou a falar de mimos com o gabarito dos Rascals ou dos Righteous Brothers). O teledisco foi realizado por Dominic Leung que, para não destoar, resolveu criar um vídeo como já não se faz hoje em dia, apostando nas virtudes de um grande casting e de um belo fio narrativo (o «I don’t know what to say, I’m speechless» é de antologia). Tudo isto é muito parolo, eu sei, mas podem sempre tentar encontrar formas originais de o dizer na caixa de comentários.
Uma versão em alta-resolução (Quick Time) pode ser vista aqui.
Sensações mínimas

Não falou nem discursou, vociferou. Estava de peito feito. Bravo. A sala era caserna. O público, pelotão. Quis mostrar que tinha força. Que com ele não brincavam. Para mais, poupadinho, prometendo reduzir os jobes fore de bois. Mas que ia acabar a bagunça. E a pouca vergonha. Prova? O pelouro do urbanismo ficaria nas suas mãos. Prontos. ‘Táxplicadopá. O pelouro do urbanismo ia ter alguém de confiança. Para tomar conta dele, finalmente. Pessoalmente. Não era como com essa cáfila do Carmona e amanuenses, tudo já arguido ou a merecer pior sorte. Com ele, não. Arguido, sim, também, até porque começa a parecer suspeitoso ainda não se ser arguido de qualquer marosca, permitindo esse estado de pré-arguição as mais desvairadas conjecturas e maledicências. No caso dele, porém, descansai, não tinha nada a ver com o urbanismo, é coisa relativa a outra ordem de urbanidade. Daí a vantagem em ser arguido, para que se separem as águas.
O coro tentava pontuar a prestação. Mal ensaiados. O orador estava concentrado no tónus, na pujança. Tanto que se esquecia da claque. Lá se conseguiu o ruído mínimo necessário para ter sido feita política à moda destes políticos. E terminou.
Terminou, mas não acabou. A peça jornalística acrescentou os efusivos cumprimentos de Marques Mendes. Na mente do jornalista televisivo, era já chouriço para encher, suporte da locução que fechava a reportagem. Comigo, acontecia o desvelamento de uma alma. Marques Mendes estava comovido, grato pelo espectáculo. Apertava febril as mãos do candidato. O seu rosto exibia o sorriso dos beatos, aqueles que contemplam as forças superiores e se sentem levitar. E não era coisa de somenos: para o chefe do PSD, conseguir levitar tornou-se numa questão de sobrevivência.


