Questão com lágrimas

Uma veio do Brasil e por força há-de chorar todos os dias. Duas vezes. Faz-lhe bem, ajuda a alma, não sabe explicar porquê.
– As saudades da família, do calor, eu sei lá bem…
A outra veio de Angola mas não gosta de chorar, que lhe dá cabo dos olhos. E os olhos são o principal.
– O coração mais os olhos, são dois amigos leais…
Saem ambas na Praça dos Combatentes. E eu fico-me sem saber se é melhor cuidar dos olhos, da alma, ou do coração.
Vem-me à ideia que sou homem, proibido de chorar. E lá me livro destas hesitações.

Jorge Carvalheira

«Querido traficante» de Júlio Conrado

livro_08.jpg.jpg

Embora seja mais conhecido como crítico literário, Júlio Conrado (Olhão, 1936) tem neste Querido traficante já o seu oitavo romance. Foi vencedor do Prémio Vergílio Ferreira em 2006 com o seu próximo livro de ficção Estação ardente.

As personagens do romance agora saído movimentam-se num cenário recente: a passagem do milénio. A ponte de Entre-os-Rios que «tombou como uma peça de dominó no rio Douro», os peelings e os liftings das damas do jet set, o crime de Fortaleza, o assalto às torres gémeas de New York: «De um instante ao outro se esfanica a aura de uma América impune e arrogante.» Este é o tempo, mas o lugar é Portugal, onde também chegou (mas tarde) uma certa ideia de Europa: «o povo, mergulhado em duradoura melancolia e sem vislumbrar saída para os seus agravos, vivia resignadamente aquilo a que um escritor além-Pirenéus chamara um dia «ao tempos cobardes da democracia».

Os encontros e desencontros deste enredo são múltiplos: começam num jantar no Guincho com diplomatas de dois países a propósito das palavras de um deputado português sobre um país da América Latina e acabam num crime com um velho retornado a matar a sua mulher. Pelo meio um jogo de acasos faz com que um assalto a uma exposição de desenhos de Picasso se intrometa na vida dum traficante aflito e sem dinheiro, cuja irmã é uma modelo bem cotada no mundo da moda. E também uma escritora light que deixa morrer uma professora universitária que gostava de meninas e falava muito de Roland Barthes. Este livro lê-se com prazer no ritmo dum policial até à página 222. Nela se descobre que o acaso é o grande mestre.

Editora: Campo da Comunicação
Capa: Duarte Camacho

José do Carmo Francisco

«Pezinhos de coentrada» de Alice Vieira

livro_06.jpg.jpg

As crónicas publicadas nos jornais e nas revistas perdem-se poucos minutos depois de serem lidas. Recolhidas em livro, podem aspirar a alguma posteridade. Este volume de Alice Vieira recolhe textos publicados no Jornal de Notícias e nas revistas Tempo Livre, Audácia e Activa. Um dos textos tem o sugestivo título de «Ir à terra» e recorda uma visita da autora com Carlos Pinhão à Rua do Grilo ali no Beato, uma das muitas aldeias de Lisboa:

«Pareces o emigrante quando chega à aldeia – digo-te por brincadeira. Para o trabalho que tinha em mãos e para o qual pedira a tua ajuda naquela Lisboa para mim desconhecida, já não precisava de ver mais nada. Mas tu insistias: querias ver os lugares que existiam ainda e aqueles de que já nem sequer rasto havia. «Ali onde está aquela tabacaria, era a alfaiataria do meu tio. Eu ficava horas sentado à máquina de costura a pedalar, a pedalar, sentia-me o Trindade e o Nicolau… Depois o meu tio saía e dizia: «Vou entregar a obra aos fregueses» Ainda hoje sempre que tenho um artigo para entregar na Bola ou um original para a editora, digo sempre: «Vou entregar a obra aos fregueses». Entramos na escola primária, casarão imenso onde os degraus de madeira rangem tanto que até se deve ouvir lá fora, andamos por ruas e travessas, vilas e pátios, e reencontramos os olhos azuis da tua primeira namorada que engordou uns quilos e está cheia de rugas e cabelo branco e que, ao ouvir-te contar o tempo que passavas escondido só para a veres aparecer na rua, desfaz os teus sonhos com uma sonora gargalhada: «Olha que nunca dei por nada, palavra de honra!». «Fez-me bem ir à terra», disseste em jeito de adeus».

Editora – Casa das Letras
Capa – Neusa Dias

José do Carmo Francisco

O bailinho da Madeira

000bacz8.jpg

Cresce o número de tontos que admiram as vitórias de João Jardim. E admiram precisamente isso: serem vitórias. É a mesma lógica scolariana, a qual instituiu que os fins justificam os meios: mesmo que se jogue mal, o que importa é a vitoriazinha. Se o cinismo desportivo tem adeptos, o cinismo político tem sequazes, prosélitos, bufarinheiros. Na ocasião, há alívio e conforto no esmagador resultado madeirense. Porque é a prova de que as velhas soluções funcionam, de que ainda se pode confiar na racionalidade do poder máximo. O poder máximo leva à distribuição mínima da riqueza; sendo o mínimo um critério móvel, sujeito às necessidades. Na Madeira há riqueza distribuída pela população, a qual tem trabalho, serviços e meios. Claro que teria chegado a 2007 com as mesmas condições sem Jardim, fosse quem fosse que tivesse estado no poder nos últimos 30 anos. Outros também teriam obra feita, pois que para gastar dinheiro o engenho nunca falta. A pergunta a fazer é: a que custo se quer manter o mínimo?

Os votantes em Alberto João são votantes em Alberto João, não no PSD. Olham para as candidaturas concorrentes e não vêem ninguém. Ninguém que lhes dê o mínimo. Evidentemente, não faz sentido pôr em causa o pouco que têm. Uma mudança de poder corresponderia a uma alteração das hierarquias, com inevitável instabilidade social e económica. A não ser que o substituto garantisse a manutenção da estrutura de poder. Mas a estrutura de poder já tem Jardim como seu representante e procurador, não existindo empresário que não esteja satisfeito com a plutocracia insular. Assim, o que se passa na Madeira em nada diz respeito à política, mas apenas à sobrevivência. Vota-se para proteger o mínimo. É sórdido e normal.

Do lado de cá, do lado do PSD, do lado das instituições do Estado, do lado dos órgãos de soberania, do lado dos jornalistas, do lado dos cidadãos, é a vergonha colectiva. Dão-nos baile.

Aprendizes de feiticeiro

Com a decisão de Pinto Monteiro, entregando a Cândida Almeida a investigação do caso da licenciatura de Sócrates, todas as vozes se calaram sobre o assunto. Porquê? Porque foi a pior notícia que poderiam ter recebido. A intervenção da Procuradoria-Geral não se limitou a alterar as regras do jogo, veio anunciar que se estava perante um jogo completamente diferente. Muitos dos que tinham gozado o prato de finalmente terem algo para entalar o Primeiro-Ministro, chafurdando na lixeira com gosto e empenho, estarão agora receosos. É que a vantagem passa para Sócrates, que se vê com um inesperado trunfo nas mãos. Se as eventuais tropelias — cometidas num contexto de inevitável promiscuidade de poderes, o académico e o político — se resumem a tratamentos de favor, o critério apanhará centenas de potenciais outros casos, em todos os partidos. E todos ficam expostos a retaliações. Se nada se provar de conclusivo, a investigação irá ilibar moralmente o suspeito, reforçando a sua imagem. E dará azo a vinganças planeadas com tempo e inteligência. Ou seja, por causa de supostas irregularidades formais num processo de licenciatura armou-se este banzé, tentou-se atingir a honra do visado por mero oportunismo político. Então, perante os casos de contínuo conluio entre os partidos e os corruptos, corruptos da alta e da baixa finança, ao molho — casos esses que correm de boca em boca em todos os sectores da economia —, poder-se-á começar a observar cabeças rolando pela corrupção abaixo, em tamanho e número nunca vistos em Portugal. E se tal acontecesse em consequência do caso da licenciatura, não poderia ser mais refinada a ironia socrática.

«Retraimento»

RetraimentoÉ urgente
Que escreva este poema
E que te diga, mãe
Muito obrigada.

Assim
Sem frases de ternura
Rebuscada
Apenas
A teus pés agradecida
E ajoelhada.

E a olhar os teus olhos
Que me olham
Com enlevo
Com carinho
E devoção
Mais uma coisa, mãe
Peço perdão.

Pois muito embora
Venha a pensar depois
Que foi tolice
As palavras de amor
Que te neguei
Foi por vergonha, mãe
Que não tas disse.

Soledade Martinho Costa

Sonatina de rua

Dei com ela no passeio, ao fim da tarde, saíra há pouco da caixita de rodas. À frente, num tapete sobre o empedrado, tinha a dormir um gato de peluche, abrigado a uma sombrinha de bonecas. Ao lado um bouquet de plástico e a caixa do violoncelo, para recolher as moedas.
A violoncelista lembrava os trinta anos e tinha uma flor no cabelo, a derramar-se em cachos pelos ombros. Vestia a indumentária da função, ampla saia bordada até aos pés, uma blusa de cetim, o coletito preto a aconchegar o peito. E era diferente das outras porque tocava de pé. Fixou o espigão numa prega da calçada, acomodou no ombro o braço do instrumento, correu a mão esquerda nos bordões. E ficou ali suspensa, de arco enristado na direita, a afagar num trejeito um caracol rebelde.
O maestro é alemão, vem do Oberhammergau, vai dizer-mo no fim do recital. Ampara-se a uma muleta e reclina sobre a artista os alongados braços, a bafejar-lhe o sopro demiúrgico de quem vai repetir a criação. Das pontas dos dedos enluvados sete fios o ligam ao corpo da mulher, que volta a sujeitar o caracol. E quando liga a máquina do som, desliza ela os dedos sobre o ponto, tange nas cordas o rufar do arco, cresce na rua a melodia da Scarborough Fair.
Começou por hesitar, a multidão, apanhada de surpresa. Depois, à melopeia ondulada do El condor pasa, rendeu-se de encantamento. Até um grupo de catraias que passava ali ficou, a ondear os quadris. Lá para o final, mesmo com falta de naipes, o maestro aventurou uma sonata célebre. E a plateia, que lhe não sabia o nome, perdeu a compostura e desatou a aplaudir.
Nos intervalos choviam as moedas na caixa do violoncelo. Quando as ouvia cair, almofadado na caixita de rodas, um caniche abria o olho e ladrava uma alegria.

Jorge Carvalheira

Jorge Buescu ataca de novo

buescu.jpg

Há sensações assim. Saber que vai sair um livro – e que a gente vai comprá-lo. Porque nunca poderá decepcionar.

Na informação que a editora Gradiva faz regularmente chegar por mail, vejo que, a partir de 22 de Maio, há aí um novo livro de Jorge Buescu. Sim, esse mesmo de O Mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias e de Da Falsificação de Euros aos Pequenos Mundos. São histórias de encantar: exactamente porque são verdadeiras – ou muito próximo disso.

Vem agora O Fim do Mundo Está Próximo? E é anunciado assim:

«O que é que poderá estar por detrás do funcionamento de um chuveiro, de uma vitória no euromilhões, do sexo ou do fim do mundo? Neste novo e brilhante livro de Jorge Buescu, um dos divulgadores de ciência mais interessantes e bem sucedidos do nosso país, o leitor descobrirá, com a ajuda da matemática, que afinal coisas que pareciam distintas partilham relações profundas e que o conhecimento humano não está dividido em compartimentos estanques. A matemática tem afinal inúmeros segredos para revelar e é isso que a transforma numa ciência tão fascinante.»

Está a ver: por 13 €, vai ter duzentas e vinte páginas de boas vibrações.

In A Beautiful Place Out In The Country

neilkrug.jpg

Se há uma banda que demonstra que a música não é apenas para ser ouvida, essa banda são os Boards of Canada. Senhores de um culto que consegue ser quase tão fascinante como as capacidades evocativas da sua música, não é de estranhar que, apesar dos manos Michael Sandison e Marcus Eoin apenas terem apadrinhado oficialmente a edição de um teledisco, pululem hoje na rede centenas de vídeos amadores feitos por fãs ansiosos por partilharem as suas experiências sinestésicas. Para quem «sofre» dessa condição, ver esses vídeos pode ser uma experiência perturbadora. Embora não venha listada no DSM-IV (a minha mãe acha que devia), a sinestesia é uma capacidade neurológica cujo estímulo pode ser profundamente viciante. Lembro-me que quando descobri que Kandinsky era sinestésico, pensei ter descoberto as razões da grande afinidade que, desde pequeno, sinto com a sua obra. A partir desse dia, procurei ter acesso aos quadros de tudo quanto era pintor sinestésico, mas, com a excepção de David Hockney, jamais voltei a sentir essa morna e inexplicável familiaridade. Voltando aos Boards of Canada, gostaria de partilhar com a malta que tem pachorra para estas coisas uma curta-metragem intitulada In A Beautiful Place Out In The Country que um senhor chamado Neil Krug realizou recentemente a partir da música do duo escocês. Devo dizer que não vi de ânimo leve essa curta-metragem. Primeiro, porque o EP que dá o título ao vídeo é uma das bandas sonoras da minha vida. Depois, porque as duas outras faixas utilizadas («Into the rainbow vein» e «Ataronchronon») são, de longe, os meus dois temas favoritos do último The Campfire Headphase. Não acredito em almas gémeas, mas, que diabos, um gajo dispensa bem este tipo de coincidências.

Podem ver/ouvir/cheirar/tocar/provar esse vídeo aqui.

The not so special ones

_42853753_ronaldo_mourinho203.jpg

O povo sofreu uma secreta comoção com a derrota de Mourinho na eliminatória de acesso à final da Liga dos Campeões. O imaginário e o inconsciente colectivos, cada um por si e os dois à compita, ansiavam pela vitória do nosso embaixador em Inglaterra. Mourinho, o português menos português de Portugal, epígono de Alves dos Reis, auto-predestinado para a glória e maluco, tem-se divertido a jogar uma roleta que lhe correu excepcionalmente bem. Mas os deuses estão agora a dar-lhe uns piparotes, com languidez e preguiça, só para o obrigar a reconhecer que a lei do acaso continua suprema e intocável.

No dia seguinte, novo desaire nacional. Cristiano não resolveu. Cristiano estava num paquete de luxo que se afundou. Porém, neste caso, trata-se de um português portuguesinho, daqueles que não mordem nas canelas dos deuses. Ser a estrela mais bem paga da galáxia não chega para fazer milagres, é a lição teológica a recolher do episódio.

Donde, o providencialismo estar em baixa cá pela terrinha. Já só nos resta o Alberto João.

«As pequenas memórias», de José Saramago

livro_03%2ejpg[1].jpg

O título deste livro, explica o autor, deve-se a nele surgirem «as memórias pequenas de quando fui pequeno». Mas começou por se chamar «O livro das tentações». Não era nada fácil nos anos 20 do século XX a vida dos pais do (ao tempo) pequeno José Saramago: a mãe doméstica e o pai guarda da PSP, mais tarde o subchefe Sousa. Quartos, partes de casa e, finalmente, casas, constituem-se no quase infindável roteiro: Rua E ao Alto do Pina, Rua Sabino de Sousa, Rua Carrilho Videira duas vezes, Rua dos Cavaleiros, Rua Fernão Lopes, Rua Heróis de Quionga, Rua Padre Sena de Freitas e por fim a Rua Carlos Ribeiro. Uma rua sem saída de onde José Saramago viria a sair aos 22 anos para casar com Ilda Reis.

Há neste livro memórias alegres e irónicas, mas também amargas e infelizes. Como por exemplo a morte do seu irmão Francisco: «A mãe e os filhos chegaram a Lisboa na Primavera de 1924. Nesse mesmo ano, em Dezembro, morreu o Francisco. Tinha quatro anos quando a broncopneumonia o levou. Foi enterrado na véspera de Natal. Em rigor, em rigor, penso que as chamadas falsas memórias não existem, que a diferença entre elas e as que consideramos certas e seguras se limita a uma simples questão de confiança, a confiança que em cada situação tivermos sobre essa incorrigível vaguidade a que chamamos certeza. É falsa a única memória que guardo do Francisco? Talvez o seja mas a verdade é que já levo oitenta e três anos tendo-a por autêntica…Estamos numa cave da Rua E ao Alto do Pina. É o Verão, talvez o Outono do ano em que o Francisco vai morrer. Neste momento é um rapazinho alegre, sólido, perfeito.»

Editorial Caminho
Colecção O Campo da Palavra, 149 páginas

José do Carmo Francisco

Post dedicado ao Professor Carlos Reis II

Os Beirut foram a grande sensação da música alternativa de 2006. A edição de Gulag Orkestar valeu a Zach Condon comparações com Conor Oberst (credo), Jeff Mangum (quem lhe dera), Sufjan Stevens (estou a ver, mas não) e Stephin Merritt (ah). Como sou bastante mais palerma nas comparações, as canções de Zach Condon surgem-me com uma bela alternativa à banda sonora de uma das raras aventuras felizes de um realizador europeu nos Estados Unidos: Arizona Dreaming de Kusturica. Os Beirut lançaram há alguns meses um muito recomendável EP intitulado Lon Gisland, cuja faixa de abertura, «Elephant Gun», teve direito a um belíssimo videoclip realizado por Alma Har’el. A primeira vez que vi esta maravilha até me emocionei, carago. Mas a verdade é que sou um sensível da merda.

Apesar dos Willowz terem uma alínea muito relevante no seu curriculum vitae (a de terem feito a Kristen Dunst dançar em trajes menores no belíssimo Eternal Sunshine Of The Spotless Mind de Michel Gondry), a verdade é que me parece que a música dos rapazes apenas conseguirá fazer vibrar a corda sensível a quem passou muitos serões da sua juventude com os amigos a fumar ganzas e a ouvir os os Led Zep, os Rolling Stones ou o Jimi Hendrix aos berros (mas posso estar enganado, né). O mesmo já não se aplica ao vídeo que Ace Norton realizou para «Son of Evil». É verdade que o spleen vem lá retratado como já não o via (lia? caneco, estava tão orgulhoso desta comparação) desde os poemas em prosa de Baudelaire, mas algo me diz que não faltará por aí muita malta que será sensível a esta obra-prima da suprema arte de montagem do celulóide. A primeira vez que vi esta maravilha deu-me logo ganas de ir fumar um charro. Mas também é verdade que sou um drogado da merda.

NOTA: podem ver aqui o bicho em Quick Time.

«El lugar, la imagen – O lugar, a imagem», de Ruy Ventura

11.jpg.jpg

O mais recente livro de Ruy Ventura (n. Portalegre, 1973) é uma edição bilingue da Editora Regional de Extremadura com poemas traduzidos por António Saez Delgado e capa de Julian Rodriguez. Se toda a obra de arte surge como uma humana rejeição da morte, um poema que canta a alegria do encontro do poeta com essa mesma obra de arte é um duplo registo da negação das sombras, do esquecimento e do desespero.

Este livro abre com um poema dedicado a uma escultura em barro do século XVIII:

«um corpo nasce nas mãos do oleiro / um corpo desce. procura / a raiz, a porta, a lareira / acenderá o mundo com o seu sopro / com a sua voz.»

Segue-se a meditação sobre uma escultura de madeira do século XVII:

«em que palavras leste a semente desse brilho? / no verbo que ele guardou no teu silêncio? / no coração, ardendo na memória? /ergues os olhos, saciando /o cálice em que saciámos a nossa sede.»

Mas pode ser também uma moeda romana do século I depois de Cristo, o motivo do poema. Ou uma estela funerária. Ou uma escultura em Lagos. Ou uma casa em Arronches. Depois pode ser uma catedral em Compostela, uma fortificação templária em Aveyron ou um poço num certo lugar em Penamacor.

Livro feito (como diz o título) de lugares e de imagens, em todas as suas páginas vibra uma voz poética a ligar a Natureza e a Cultura. Como por exemplo em «arquitectura», poema escrito perante o castelo e a judiaria de Valência de Alcântara:

«subimos à torre para melhor vermos / o círculo que nos une a esta terra / desce o firmamento. hesita esta memória / em tocar o bosque cuja língua desaparece. / de súbito, uma águia /a música que escrevemos. para sempre. /de regresso à largueza / da floresta»

Assim se prolonga poeticamente a rejeição da morte, o mesmo é dizer, a negação das sombras, do esquecimento e do desespero.

José do Carmo Francisco

«Eu tenho um sósia…»

3523-o-225879.jpg

Gerrit Komrij, poeta holandês
residente em Portugal

DIAFANIA

Eu tenho um sósia que me põe maluco
Querendo ser em tudo a mim igual.
Possui o mesmo sósia, e então apanha
Com um grande susto ao ver-me, e mais ao tal.

Assim me assusto eu ao ver-nos ambos.
Ele nada me oferece. É um ladrão.
Não pára de sugar ecos em mim
E nada meu sobra em tal multidão.

De início, havia ainda um certo laço.
Vivíamos em paz, aos dois, aos quatro.
Agora, aonde eu olhe, vejo o meu vulto
E a quantos fantasmas já dou resguardo.

Quando eu morrer, um ser desfigurado
Há-de achar-se estendido no caixão.
E o corpo transparente abrigará
Não um cadáver, mas coisa de um milhão.

GERRIT KOMRIJ
Contrabando
Assírio & Alvim, 2005
Trad. fv

Dura lex!

lille6.jpg

O homem veio de Castelo Branco, a arbitrar, na Luz, um jogo. Há tempos. No final produziu um relatório de ocorrências.

“O jogador da equipa visitada, Micolli, desmandou-se em velocidade tentando desobstruir-se no intuito de desfeitear o guarda-redes visitante. Um adversário à ilharga procurou desisolá-lo, desacelerando-o com auxílio da utilização indevida dos membros superiores, o que conseguiu.
O jogador Micolli procurou destravar-se com recurso a movimentos tendentes à prosecução de uma situação de desaperto mas o adversário não o desagarrava. Quando finalmente atingiu o desimpedimento desenlargando-se, destemperou-se e tentou tirar desforço, amandando-lhe o membro superior direito à zona do externo, felizmente desacertando-lhe.
Derivado a esta atitude, demonstrei-lhe a cartolina correspectiva.”

Imaginemos só que a lei era mais mole!

Jorge Carvalheira

Viver com os outros também cansa!…

Isabel da Nóbrega, cujo nome foi rasurado na dedicatória do Levantado do chão de José Saramago mas não da nossa história literária, é a autora de Viver com os outros. Este título é um achado, pois viver com os outros é o nosso maior problema. Gostaria de vos contar uma pequena história de proveito e exemplo.

Há 25 anos conheci uma escritora. Sobre alguns dos seus livros publiquei notas de leitura em jornais, em revistas e em blogs, além de crónicas na Rádio. Apresentei um seu livro no auditório da Antena 1 nas Amoreiras. Mais tarde escrevi o prefácio para uma sua antologia poética. Aqui há tempo, telefonou-me a pedir ajuda pois estava doente. Prontifiquei-me a levar umas coisinhas da mercearia próxima de sua casa e lá levei as Cerelács, os Nestums, o pão, o leite de soja, a manteiga e as bolachas. Depois de colocado todo aquele material na bancada da cozinha, e como sei que há mais mundo e mais coisas para fazer, comecei a prepara as despedidas.

Desejei as rápidas melhoras e ia para dar um beijinho na face, mas aí, terrível momento, a senhora fez um movimento brusco no cadeirão e a minha boca aproximou-se perigosamente da sua. Recebi um sonoro, adversativo e imperativo «Então?!!!». Como se estivesse a ser acusado de querer roubar um beijo a pretexto dos 16 euros que tinha pago pelas coisinhas da mercearia. Como se, com 56 anos de idade, eu não soubesse e não tivesse a obrigação de saber que os beijos não podem ter preço; se o tiverem deixam de ser beijos. Desapareci daquele terrível momento de desencontro o melhor que pude e desci aquelas escadas em alta velocidade a lembrar-me de uma frase de Verlaine: «Tenho tanto medo dum beijo como duma abelha».

José do Carmo Francisco

«15 Poemas do Sol e da Cal». Uma Leitura

Paisagem e povoamento em «15 Poemas do Sol e da Cal»
de Soledade Martinho Costa

Cada poeta retira da realidade a sua realidade – isto é, denuncia, no modo como se apropria da paisagem geográfica e humana, o sistema ou processo que preside à construção de sua realidade poética.
Enquanto outros poetas usam o teatro, povoando os seus poemas de protagonistas e mantendo a geografia como cenário, Soledade Martinho Costa, por seu lado, elege a pintura como sistema e articula nos seus poemas (como num quadro) a água, o sol, o vento, as cores, a fauna, a flora, a paisagem, enfim…
Quem esqueceu os protagonistas dos poemas de Manuel da Fonseca – a Nena, o António Valmorim, o Senhor António, o Francisco Charrua, o Zé Gaio, o Julinho, o Zé Jacinto, o Manel da Água, a Marianita ou a Maria Campaniça?
Quem esqueceu os protagonistas dos poemas de García Lorca – a Preciosa, o Juan António, a Soledad Montoya, a Anunciacion de los Reyes, o António Torres Herédia, o Pedro Domecq ou a Rosa la de los Camborios?
Para Soledade Martinho Costa cada poema é um quadro, uma paisagem que, pese embora o povoamento permanente (os mendigos, os pastores, os ganhões, a fiandeira, o artesão) tem como produto final a terra seca e atormentada – ela sim eleita personagem última do poema.

José do Carmo Francisco

Continuar a ler«15 Poemas do Sol e da Cal». Uma Leitura