In A Beautiful Place Out In The Country

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Se há uma banda que demonstra que a música não é apenas para ser ouvida, essa banda são os Boards of Canada. Senhores de um culto que consegue ser quase tão fascinante como as capacidades evocativas da sua música, não é de estranhar que, apesar dos manos Michael Sandison e Marcus Eoin apenas terem apadrinhado oficialmente a edição de um teledisco, pululem hoje na rede centenas de vídeos amadores feitos por fãs ansiosos por partilharem as suas experiências sinestésicas. Para quem «sofre» dessa condição, ver esses vídeos pode ser uma experiência perturbadora. Embora não venha listada no DSM-IV (a minha mãe acha que devia), a sinestesia é uma capacidade neurológica cujo estímulo pode ser profundamente viciante. Lembro-me que quando descobri que Kandinsky era sinestésico, pensei ter descoberto as razões da grande afinidade que, desde pequeno, sinto com a sua obra. A partir desse dia, procurei ter acesso aos quadros de tudo quanto era pintor sinestésico, mas, com a excepção de David Hockney, jamais voltei a sentir essa morna e inexplicável familiaridade. Voltando aos Boards of Canada, gostaria de partilhar com a malta que tem pachorra para estas coisas uma curta-metragem intitulada In A Beautiful Place Out In The Country que um senhor chamado Neil Krug realizou recentemente a partir da música do duo escocês. Devo dizer que não vi de ânimo leve essa curta-metragem. Primeiro, porque o EP que dá o título ao vídeo é uma das bandas sonoras da minha vida. Depois, porque as duas outras faixas utilizadas («Into the rainbow vein» e «Ataronchronon») são, de longe, os meus dois temas favoritos do último The Campfire Headphase. Não acredito em almas gémeas, mas, que diabos, um gajo dispensa bem este tipo de coincidências.

Podem ver/ouvir/cheirar/tocar/provar esse vídeo aqui.

14 thoughts on “In A Beautiful Place Out In The Country”

  1. esse vídeo «aqui» é mesmo uma maravilha. remete para todas aquelas coisas de que gosto: caleidoscópios (já não há caleidoscópios como os dos anos 70), paredes deterioradas, bordados orientais, o tempo a passar. e neste caso ouvir e ver faz todo o sentido, porque o som do filme se junta ao da música…
    explica-me lá a sinestesia do david hockney.

  2. Não consigo bem explicar susana. Apenas sei que alguns quadros do Hockney, sobretudo os da sua fase «naturalista», possuem, para mim, evidentes qualidades musicais. Não sei se sabes que ele chegou a pintar cenários para Ópera, dizendo que se limitou a pintar as imagens que via quando ouvia a música.

    É bem engraçado que digas que o som do filme se junat ao da música, porque na realidade todos os sons (inclusive o riso das crianças) já fazem parte da música dos Boards of Canada. Chamo a este teu «erro» uma genuína manifestação sinestésica.

  3. Hipnótico. Um festim visual. Mas também preguiçoso. Melhor a música, por ser música. A narrativa das imagens não arrisca nada.

  4. A sinestesia foi sobretudo popularizada a partir dos finais do séc. XIX, explorando as relações entre os sons musicais e as cores. Teve entusiastas anteriores, como Newton, que procurou estabelecer uma base científica na relação entre música e pintura (em parte inspirado na teoria pitagórica da música das esferas) e Louis-Bertrand Castel, explorador da música ocular (atribuiu escala cromática a mais de cem tons diferentes!).

    O Kandinski procurou trabalhar sobre o círculo cromático de Goethe. Sobre este último, ver

    http://es.wikipedia.org/wiki/Teor%C3%ADa_del_color

    Eu “conheci” a sinestesia, através de Scriabin. É um compositor sinfónico do início do séc. passado e certamente o músico mais empenhado na exploração da sinestesia. Aconselho que experimentem ouvir as obras sinfónicas “Prometeu, o Poema do Fogo” e o seu último trabalho o “Poema do Êxtase” (não é fácil de encontrar nas discotecas nacionais – mas posso fornecer cópia :)). São peças belíssimas. Para as executar, Scriabin concebeu e construiu um teclado óptico também chamado de piano de luzes que acompanhava a execução da orquestra inundando a plateia com as cores sucessivamente correspondentes aos tons tocados. A explicação da escala cromática de scriabin, tal como apresentada pelo próprio, deveria transmitir ao ouvinte certas sensações: o vermelho vivo, a vontade humana; o laranja, a criatividade; o amarelo, a alegria; o verde, a matéria;o azul-céu, os sonhos; o azul-escuro, contemplação e mais outro tanto com que não vos quero maçar (estes misticismos não surpreendem porque, tal como era moda então, também este senhor andou pela seita da teosofia).

    No passado recente, também Duke Ellington se considerava um sinesteta: “I hear a note by one of the fellows in the band and it’s one color. I hear the same note played by someone else and it’s a different color. When I hear sustained musical tones, I see just about the same colors that you do, but I see them in textures. If Harry Carney is playing, D is dark blue burlap. If Johnny Hodges is playing, G becomes light blue satin.”

  5. Um reparo: salientei o Scriabin porque o conheço melhor, mas seria injusto não lembrar o contemporâneo e talvez mais conhecido Olivier Messiaen que andou pelos mesmos caminhos, justamente com uma obra para grande orquestra designada “Chronochromie” e ainda a “Couleurs de la cité céleste”.

  6. Gibel, que dois belos exemplos trouxeste aqui para a nossa conversa.

    Considero o catálogo interpretativo da escala cromática de Scriabin verdadeiramente patético, porque pretende encontrar uma universalidade nas sensações sinestésicas (no way, José). Já bem mais próxima da minha sensibilidade é a citação que atribuis ao Duke: a sinestesia funciona aqui como uma espécie de medidor acústico (pelos vistos, bastante sofisticado tendo em conta a precisão com que ele se refere às cores).

    py: muito, manda lá isso.

  7. Atão mete aí um email, porque eu vou ao teu blog e fico obrigado a tomar uma chávena de chá. Ora eu guardei o chá para depois dos 50, agora é só café.

  8. Mas gostei muito daquele gato preto. Eu acho que a mim também me dá assim, fico a pensar que é um dinossauro travesti e fico curioso. Mas a sério que fico encravado no teu blog, eu sou meio nabo nisto das interfaces informáticas.

  9. Aos prezados amigos interessados no assunto cor.
    Como pesquisador, busco informações de quando e como surgiu o primeiro “disco das cores” ou o “círculo cromático”. Teria sido Newton ou alguem antes dele já teria organizado um sistema de cores distribuidas circularmente?
    Agradeço qualquer ajuda.
    Bava

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