Se isto se confirmar, só me pergunto: o que acontecerá, caro Zeferino Coelho, à colecção Uma Terra Sem Amos?
Arquivo mensal: Maio 2007
Bazar
O livro está ali no escaparate, “traduzido para mais de dez línguas”. Serão doze, uma vintena? As mais são apenas dialectos?
Conheço bem o romance, li-o mais do que uma vez. É um edifício robusto, construído à moda antiga. Andam-lhe águas no telhado, e tem algumas rachas nas paredes. Mas não se gasta nos umbiguismos correntes, nem nos enfada a cabeça. Um leitor sem exigências de ouvido toma-o por sinfonia e dedica-lhe o serão. Não admira a trigésima edição.
Já “traduzido para mais de dez línguas”, que parte da humanidade andará privada dele?
Jorge Carvalheira
Candidatos
História curta
Ambiguidades

No portal do Público, está a versão integral, e muito ilustrada, da entrevista que Luís Miguel Queirós fez a Eduardo Lourenço, e saiu na última «Pública».
Destaco esta passagem, que já vinha em papel e que merece reflexão.
Veja o Aquilino, que os mais militantes da minha geração inscreveram quase à força nas suas hostes. Depois de 1945, ele chegou realmente a ter obras apreendidas. Mas sempre trouxe nas badanas dos seus livros uma frase de Salazar, a gabar-lhe o estilo. Eram da mesma geração, tinham passado ambos pelo seminário, não eram homens com a mesma mentalidade, mas eram homens do mesmo mundo.
Lembro-me de o Torga me ter contado uma história que se passou com um ministro de Salazar, o Leite Pinto, que ia ao Brasil. O Torga tinha estado lá e era muito conhecido no Brasil, de modo que podia servir como uma espécie de cartão-de-visita, mesmo sendo hostilizado cá dentro. Ora, esse Leite Pinto, antes de partir, foi-se despedir de Salazar e, nessa visita, começou a recitar um poema do Torga. O mais interessante é que Salazar continuou o poema, e acabou de o dizer. O Torga contou-me isto com lágrimas nos olhos. A vida é muito complicada.
«O fio de ouro» de Fátima Murta
Já se disse tudo da literatura. Pensamos nós. Já se disse que depois dos fornos crematórios de Auchwitz não seria mais possível a poesia. O mesmo foi dito dos massacres de Shatila e Sabra. Já se disse muita coisa, mas afinal ainda está muito por dizer. Desde logo cada abordagem à literatura é feita por cada pessoa em função da sua biografia, do seu passado, das suas circunstâncias.
Recebi na minha banca de trabalho um pequeno livro de apenas 51 páginas. O título é O fio de ouro e todos os seus poemas tratam do tema da violência sobre as crianças. Chamou-me a atenção o poema «missiva ao rapaz com patas de urso» e aqui fica um pouco desse poema com toda a sua carga de testemunho transfigurado em arte: «Tão pesadas são as patas / do rapaz que me rasgou / uma costura de alfinetes / encostada ao frio / meia vergada sob o peso / do andaime das amarguras / tão grandes as tuas mãos / agarradas aos meus ombros minúsculos / tão pesadas as patas de urso / deformação genética antes do nascimento / feres-me os punhos como anilhas nas rolas / são pesadas, já disse, as tuas patas de urso / sobre mim que ocupo o espaço / entre dois dos teus dedos menores. /Todo tu és pesado a todo o meu corpo e alma / o Espírito brotou e logo foi cuspido num balde / És um rapaz já homem diferente de todos os rapazes / E tão igual a tantos homens à volta da terra / Não são as patas de urso / Eu gosto tanto dos animais! / É a força que anima as tuas patas de urso / e me sufocas os gemidos com elas e o seu peso / Se os meus gemidos se ouvisse na liberdade das árvores / Fariam chorar os pássaros adormecidos nos ninhos. / Não escolhi que sejas diferente como os monstros / não gosto da tua diferença de patas de urso. / Rapaz, tu cresceste! Nem eu sou mais uma menina com as tranças louras e longos lacinhos brancos a condizer com os sapatos»
José do Carmo Francisco
«O enigma da Atlântida» em Banda Desenhada
Descubro algo incrédulo um livro de Edgar Jacobs intitulado O enigma da Atlântida da série «As aventuras de Blake e Mortimer». Se uso a palavra incrédulo, isso tem a ver com os desenhos; não com a história. A história é passada na Ilha de São Miguel cujo mapa é mais ou menos fidedigno, mas que evidencia um aeroporto chamada de Santana na zona entre a Ribeira Grande e Porto Formoso, mais ou menos. O professor Mortimer aluga a Quinta do Pico e tem como feitor um tal Zarco Neves. Isso é o menos mas o mais intrigante é a maneira como os homens contratados para transportarem a bagagem do cientista se apresentam vestidos. Eles surgem como os campinos do Ribatejo mas de barrete vermelho. E andam sempre de burro. Aliás os burros estão muito presentes nesta história de banda desenhada. Tanto quanto me é dado saber, não há nem nunca houve homens de barrete vermelho em São Miguel e quanto aos burros parece-me que não há mais burros por quilómetro quadrado na Ilha Verde do que no restante território português. Incluindo a Ilha da Madeira, já agora. O meu amigo José Vilela, editor da nova série do Príncipe Valente, explicou-me que era vulgar os autores de banda desenhada no passado recorrerem à sua imaginação quando não tinham elementos verídicos para trabalhar. Era preciso escrever uma história passada em São Miguel, mas ou porque a viagem era cara ou por outra qualquer razão iam-se buscar as referências a outras regiões. Daí os barretes que saíram vermelhos talvez para que não houvesse confusão com os campinos da lezíria ribatejana. Coisas da Banda Desenhada.
José do Carmo Francisco
Não é de votar, mas é de aplaudir

Andou a ser alimentado pela máquina desde o berço político. É o acabado homem do aparelho. Servente dos chefes. Não lhe conheço uma única ideia ou volição. Confesso, António Costa sempre me irritou pela sua pose intelectualmente invertebrada, até tosca. Contudo, Sócrates volta a pensar bem ao sacrificar o braço direito por Lisboa. Sendo tão raro, quase que espanta ver políticos inteligentes.
Alistem-se, se quiserem ser de esquerda e tolerantes
Curiosíssimo estudo que vira ao contrário a percepção relativa às consequências da experiência militar na consciência política, ideológica, cívica dos que se alistam. Claro que os resultados só se compreendem no contexto específico do conflito israelo-árabe, mas até por isso ganham relevância.
I dream a lot but i’m not a very good sleeper

Após ter realizado um anúncio inacreditavelmente sóbrio para os seus padrões, e enquanto não chegam os seus novos videoclips para os White Stripes e Paul McCartney, Michel Gondry meteu-se numa missão impossível: convencer os mortais que os HP são melhores do que os Macs. Falha esplendorosamente, é verdade, mas sempre ficamos com mais uma obra-prima do rapaz. As justificações são os meios dos fins.
Uma versão com maior qualidade (Quick Time) pode ser descarregada aqui.
Pastelaria Suíça

O senhor que me serve o café já reparou em mim. Nada de particular. É um bom empregado. No seu registo profissional, eu sou aquele fulano que aparece por ali quando lhe dá na telha, isto é, servindo um perfeito caos estatístico.
O que ele não sabe é que, todos os dias que Lisboa tem de aguentar-me no lombo, a minha chávena de café é feita ali. Não porque a qualidade do produto seja grande. Mas sou eu que, numa vida certinha, acabo dando chances ao irracional.
Ódios velhos

Chegavam sempre no começo do outono, quando os corvos passavam ao fim da tarde, a grasnar às frialdades que vinham de Além-Douro. Interrompiam-nos a bola no terreiro, saltavam das carripanas escuras, abriam as gaiolas das matilhas. E caíam nos braços dum lavrador lá do povo, inchado por ter amigos na cidade. Soltavam palavrões que eu julgava proibidos, numa língua esquisita de pagãos, e escarravam muito pelo chão.
Manhã cedo faziam-se aos caminhos, de espingarda na ombreira, a açular a canzoada. E não havia brejo em todo o vale inteiro que escapasse à invasão. O cainçar dos podengos ouvia-se nas quebradas, e os ecos da fuzilada faziam ricochete nas encostas do vale, monte cá, monte lá, até ao cair da noite.
Retiravam-se ao terceiro dia, com as grelhas de metal enfeitadas de perdizes a largar nuvens de penas, e rosários de coelhos a pendular nos telhados das carripanas escuras.
Hoje vivemos paredes-meias. Os palavrões já me são familiares, e ao sotaque de pagãos acostumei-me aos poucos. Mas não sei como indultá-los do olhar morto das lebres, enforcadas nas janelas, a mandarem-me corrê-los à pedrada.
Jorge Carvalheira
UM JORNALISTA DESASTRADO
O drama que atingiu a família inglesa de férias no Algarve devido ao desaparecimento da sua filha Madeleine, de três anos de idade, levou o jornalista Hernâni Carvalho a fazer alguns comentários sobre o assunto no programa “As tardes da Júlia” (Júlia Pinheiro) na TVI.
O jornalista começou por referir “a taxa de desemprego que se verifica no Algarve”. Estaria Hernâni Carvalho a referir-se ao nosso Algarve? Pelos vistos, não.
Soledade Martinho Costa
Camilo no Canadá ou o Nero da Trafaria
Releio o Perfil do Marquês de Pombal de Camilo Castelo Branco na edição da Porto Editora. Está em bom estado, tal como o apanhei no balcão do alfarrabista da Travessa de São José nº 1 – ali à Praça das Flores – mas veio de longe.
Tem colado na primeira página um papel branco com os dizeres «Papelaria Livraria Portugal 220 Ossington Ave. Toronto Ont. – Phone (416) 5373730». Sobre este livro apenas duas notas. A primeira sobre Pombal e os garfos. Um tal John Smith, secretário do Duque de Saldanha, publicou em 1843 as «Memoirs of the Marquis of Pombal». No capítulo XIII lá aparece «I tis perhaps not generally known even in Portugal, that Pombal was the first person who introduced the use of forks into that country.» Segundo este autor, Pombal trouxe os garfos em 1745 da Corte de Londres. Explica Camilo que já em 1611 o Dicionário Português-Latim de Agostinho Barbosa regista garfo para o latino fuscinula. Mais refere um livro sobre D. João IV onde se recorda que o prato do Rei tinha faca, colher, garfo e guardanapo. Por sua vez D. João III em 1554 entrega à camareira seis garfos, quatro de cristal e dois de prata sem esquecer o dote de D. Beatriz em 1522 com doze garfos de prata pequenos.
Resumindo: John Smith não tem razão. A segunda nota é sobre o massacre da Trafaria em 24 de Janeiro de 1777. Pombal sabia que na praia da Trafaria viviam cinco mil pessoas – pescadores, suas mulheres e crianças. Mas sabia também que ali vivia uma centena de rapazes que fugiam da vida militar. Pombal ordenou a Pina Manique que levasse 300 soldados em faluas do Tejo. Na madrugada desse dia os archotes dos soldados fizeram romper um terrível incêndio nas choupanas que não poupou nada nem ninguém: doentes, velhos, mulheres, crianças, víveres. Os poucos que escaparam levaram consigo apenas fome e nudez. Por isso Camilo chamou a Pombal o Nero da Trafaria.
Deixem-me sonhar

Para a candidatura de Helena Roseta à Câmara da Capital ser um cúmulo de perfeição, deveria convencer José Sá Fernandes e Maria José Nogueira Pinto a juntarem-se a ela. Imaginando que estes carismáticos e idiossincráticos figurões conseguiriam organizar-se, em Lisboa começaria a reconquista cívica de Portugal.
A foto/notícia não tem nada a ver com nada, e tudo a ver com tudo.
Dois debates: Galiza e Portugal

CUMPLICIDADES e CONTRABANDOS: é o sugestivo tema para dois debates sobre as relações culturais entre Portugal e a Galiza. Terão lugar na Biblioteca do Museu República e Resistência, no Espaço Cidade Universitária, Rua Alberto de Sousa nº10-A, Zona B do Rego, Lisboa.
[e não, como noticiámos primeiro, na Estrada de Benfica]
TERÇA, 15 de Maio, 18.15 h
Debate moderado pela Directora do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional,
Prof. Ana Paula Guimarães. Debatem
Camiño Noia (Univ. Vigo)
Clodio González Pérez (Conselho da Cultura Galega)
João David Pinto Correia (Univ. Açores)
Paula Godinho (Univ. Lisboa)
QUARTA, 16 de Maio, 16.00 h
Debate moderado pela Coordenadora do Centro de Estudos Galegos,
Prof. Graça Videira Lopes. Debatem:
António Medeiros (ISCTE, Lisboa)
Fernando Venâncio (Univ. Amsterdam)
María del Carmen Espido Bello (Univ. Compostela)
Pilar García Negro (Univ. Corunha)
Semana de Cultura Galega

PORTUGALIZANDO. SEMANA DE CULTURA GALEGA EM LISBOA
Entre os dias 11 a 19 de Maio, decorrerá em Lisboa a Semana da Cultura Galega Portugalizando. Organizada pela Cátedra de Estudos Galegos da Universidade de Lisboa, o Centro de Estudos Galegos da Universidade Nova de Lisboa, o Instituto de Estudos de Literatura Tradicional da mesma Universidade e a Dirección Xeral de Creación e Difusión Cultural da Consellaría de Cultura da Xunta de Galicia.
Este programa ainda conta com o apoio da Secretaría Xeral de Política Lingüística, da Secretaría Xeral de Emigración, ambas da Xunta da Galiza e da Juventude da Galiza – Centro Galego de Lisboa. Esta semana, agendada em torno do Dia das Letras Galegas (17 de Maio), abarcará diversas vertentes da cultura galega contemporânea.
A iniciativa afigura-se da maior relevância para a divulgação da cultura galega contemporânea, e para o estreitamento das relações culturais entre Lisboa e a Galiza, povo que tanto contribuiu para a identidade da capital portuguesa.
Survival Kit Cat (actualizado)

Em homenagem ao meu gatinho que sobreviveu ontem ileso a uma queda de 6 metros do telhado da minha casa (a culpa foi do raio da gaivota).
O kispo da Mothercare
O desaparecimento da menina inglesa no Algarve lembra-me a ténue linha entre a negligência e a infelicidade. Sei-o por experiência própria, até.
Em 1984, o meu filho estava com a mãe e com uma tia à porta de uma pastelaria na rua principal de Algés. Ao ver-me a sair do automóvel do outro lado da rua, começou a correr na minha direcção. Aí surgiu um senhor que o puxou pelo kispo azul, evitando que fosse esmagado por um imponente Mercedes. Este poema de Dezembro de 1984 recorda-o.
F I L I P E
«Habitamos um corpo em perigo»
diria o João Miguel Fernandes Jorge
que tu não sabes sequer quem é
preso ainda à tua vida de criança
os bolsos cheios de miniaturas
as cantigas do colégio na tua voz
E contudo poderias ter ficado ali
como já em São Bernardino no Verão
quando vias o mar para ti sem fim
Esse mesmo mar que com os castelos
forma um dos campo ricos do teu vocabulário
que te enche a voz quando vês água
e chamas mar pequeno às minúsculas lagoas
breves como a chuva neste mês de Maio
breves como o grito de quem te viu
quase a ficar debaixo de um automóvel
em Algés – a fugir da pastelaria
E esse automóvel não era como tu
uma miniatura – era real e estava ali
como o mar e os castelos que quase perdeste.
José do Carmo Francisco
