Ambiguidades

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No portal do Público, está a versão integral, e muito ilustrada, da entrevista que Luís Miguel Queirós fez a Eduardo Lourenço, e saiu na última «Pública».

Destaco esta passagem, que já vinha em papel e que merece reflexão.

Veja o Aquilino, que os mais militantes da minha geração inscreveram quase à força nas suas hostes. Depois de 1945, ele chegou realmente a ter obras apreendidas. Mas sempre trouxe nas badanas dos seus livros uma frase de Salazar, a gabar-lhe o estilo. Eram da mesma geração, tinham passado ambos pelo seminário, não eram homens com a mesma mentalidade, mas eram homens do mesmo mundo.

Lembro-me de o Torga me ter contado uma história que se passou com um ministro de Salazar, o Leite Pinto, que ia ao Brasil. O Torga tinha estado lá e era muito conhecido no Brasil, de modo que podia servir como uma espécie de cartão-de-visita, mesmo sendo hostilizado cá dentro. Ora, esse Leite Pinto, antes de partir, foi-se despedir de Salazar e, nessa visita, começou a recitar um poema do Torga. O mais interessante é que Salazar continuou o poema, e acabou de o dizer. O Torga contou-me isto com lágrimas nos olhos. A vida é muito complicada.

18 thoughts on “Ambiguidades”

  1. Que beleza de anedota. E que beleza de remate, no contexto e vindo de quem vem: “A vida é muito complicada.”

  2. Sim, a vida é muito complicada. Com certeza. E, então? O ditador salazar torna-se numa personagem mais complexa e interessante porque conhecia Torga? É isso? O Hitler gostava de Wagner e do cão, era vegetariano e esteve para ser pintor. E, então? O relativismo moral agora justifica-se com a poesia? Não li o resto da entrevista mas acerca de “compreender” sem cair no lamaçal da “compreensão”, o livro de Gitta Sereny “No Mundo das Trevas”, sobre Franz Stangl, o comandante de Sobibor e Treblinka, continua imbatível.

  3. Lembrei-me logo do poema que o Leonard Cohen escreveu sobre Hitler. O Torga e o Lourenço estavam à espera de quê? Que o Salazar tivesse garras e deitasse espuma verde pela boca?

    Eu admiro muito (a sério) é a «neutralidade» que o Fernando consegue por vezes criar relativamente ao conteúdo dos seus posts. O «merece reflexão», por exemplo, é um prodígio de ambiguidade.

  4. A frase de Salazar inserta na badana dos livros de Aquilino é esta: “É um inimigo do Regime. Dir-lhe-á mal de mim; mas não importa: é um grande escritor.” Afirmar que Aquilino é um grande escritor não é exactamente gabar-lhe o estilo. Há uma pequena (grande?) diferença. E parece-me que interessava a Aquilino mostrar o paradoxo que era ser apreciado mesmo sendo um “inimigo”. E, na realidade, tanto Aquilino como Torga se opuseram ao regime de Salazar. Isso é um facto. Tentar escamotear isso, partindo de dois exemplos descontextualizados, é uma injustiça que os dois escritores definitivamente não merecem.

  5. Será possível ser-se absolutamente perfeito ou inequivocamente imperfeito?
    (Fernando, deixaste-me com saudades do Malhadinhas e do meu colega de liceu, o Aquilino, neto do mesmo)

  6. Aquilino foi o MAIOR escritor português do seculo XX.

    A sua obra para quem se dá ao prazer de a ler , fala por si.

    Romances como o Quando os Lobos Uivos, foram proibidos pela censura de Salazar e trouxeram problemas ao escritor, o que diz bem da mentalidade do diatador.

    Mas a homenagem que todos lhe devemos prestar, é ao homem , ao cidadão ou ao GRANDE ESCRITOR???

    Decidam-se, ninguem é perfeito e quantas vezes a obra é maior que o homem…

    Lembrem-se do abjeto Louis Ferdinand Celine, e desse inolvidavel

    Viagem ao fim da noite.

  7. Gostos são isso mesmo, a.pacheco! Pessoais.
    Aquilino, a pessoa, era demasiado vaidoso para o meu gosto.
    Admiro-o como cidadão.
    E aprecio-lhe a obra. Mas dizê-lo o maior do séc.XX… é obra!

  8. para sininho: andamos às voltas. que a vida é muito complicada já todos nós sabemos. o que é que isso tem a ver com o relativismo moral é que me eu gostava de saber. daí a minha pergunta: e daí?

  9. Nos romance volfrâmio de Aquilino,existiam condições objectivas e elementos aglutinadores como sejam: uma Guerra Mundial,uma Beira rural e analfabeta, ancorada numa sociedade patriarcal que ditava as leis, e umas jazidas de tungsténio.
    O regime,esse,passou ao lado da narrativa.

  10. ARIANE

    Ariane é um navio.
    Tem mastros, velas e bandeira à proa,
    E chegou num dia branco, frio,
    A este rio Tejo de Lisboa.

    Carregado de Sonho, fundeou
    Dentro da claridade destas grades…
    Cisne de todos, que se foi, voltou
    Só para os olhos de quem tem saudades…

    Foram duas fragatas ver quem era
    Um tal milagre assim: era um navio
    Que se balança ali à minha espera
    Entre as gaivotas que se dão no rio.

    Mas eu é que não pude ainda por meus passos
    Sair desta prisão em corpo inteiro,
    E levantar âncora, e cair nos braços
    De Ariane, o veleiro.

    Lisboa, Cadeia do Aljube, 1 de Janeiro de 1940

    Miguel Torga

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