Camilo no Canadá ou o Nero da Trafaria

Releio o Perfil do Marquês de Pombal de Camilo Castelo Branco na edição da Porto Editora. Está em bom estado, tal como o apanhei no balcão do alfarrabista da Travessa de São José nº 1 – ali à Praça das Flores – mas veio de longe.

Tem colado na primeira página um papel branco com os dizeres «Papelaria Livraria Portugal 220 Ossington Ave. Toronto Ont. – Phone (416) 5373730». Sobre este livro apenas duas notas. A primeira sobre Pombal e os garfos. Um tal John Smith, secretário do Duque de Saldanha, publicou em 1843 as «Memoirs of the Marquis of Pombal». No capítulo XIII lá aparece «I tis perhaps not generally known even in Portugal, that Pombal was the first person who introduced the use of forks into that country.» Segundo este autor, Pombal trouxe os garfos em 1745 da Corte de Londres. Explica Camilo que já em 1611 o Dicionário Português-Latim de Agostinho Barbosa regista garfo para o latino fuscinula. Mais refere um livro sobre D. João IV onde se recorda que o prato do Rei tinha faca, colher, garfo e guardanapo. Por sua vez D. João III em 1554 entrega à camareira seis garfos, quatro de cristal e dois de prata sem esquecer o dote de D. Beatriz em 1522 com doze garfos de prata pequenos.

Resumindo: John Smith não tem razão. A segunda nota é sobre o massacre da Trafaria em 24 de Janeiro de 1777. Pombal sabia que na praia da Trafaria viviam cinco mil pessoas – pescadores, suas mulheres e crianças. Mas sabia também que ali vivia uma centena de rapazes que fugiam da vida militar. Pombal ordenou a Pina Manique que levasse 300 soldados em faluas do Tejo. Na madrugada desse dia os archotes dos soldados fizeram romper um terrível incêndio nas choupanas que não poupou nada nem ninguém: doentes, velhos, mulheres, crianças, víveres. Os poucos que escaparam levaram consigo apenas fome e nudez. Por isso Camilo chamou a Pombal o Nero da Trafaria.

7 thoughts on “Camilo no Canadá ou o Nero da Trafaria”

  1. Pois quem me dera a mim o tal livrinho!
    Para afinar as ideias, não tanto sobre o Pombal, mas sobre o Camilo, que terá muita razão no que respeita aos garfos. Ainda assim, uma coisa é os ditos andarem referidos em espólios reais, e outra é encontrá-los na praça pública.
    Desde que o vi(ele que tinha que escrever para poder jantar) esfolar a Rattazi pelos comentários generosos que fez sobre os portugueses, deixei de acreditar nos critérios do homem. Mais ultramontano que patriota lúcido.

  2. Existe uma edição de 1982 da Lello e Irmão que ainda se encontra nas livrarias.

    Mas o retrato do Camilo sobre o Pombal, assim como um que lhe segue os passos da Agustina,têm muito de azedume pessoal e pouco de verdade historica, são opiniões dos dois escritores e mais nada.

  3. Oportuna chamada de atenção. Raras vezes terá existido em Portugal um governante tão ferozmente punitivo. Nem todas as melhorias ou inovações culturais e científicas que este arrogante «Marquês» promoveu para o desenvolvimento do País, nos devem fazer esquecer essa sua tão exacerbada crueldade no exercício do Poder. Na verdade, o tempo histórico e as suas circunstâncias alteram a visão ou apreciação das pessoas. Só o ódio extremado dos primeiros Republicanos à Monarquia explica a sua exaltação da figura de Pombal.

    Por isso lhe levantaram aquela imponente estátua numa das praças mais importantes da capital, com inscrições delirantemente encomiásticas, tal como aquelas que também se podem ler no obelisco a D. José na bela Praça principal de Vila Real de Santo António, que um dia me dei ao trabalho de transcrever nas costas de um postal ilustrado alusivo, que mais parece um hino de louvor ao absolutismo divino, sumamente esclarecido, mas brutalmente despótico.

    Assim como também é apropriado apontar as imprecisões, omissões, muitas vezes malevolentes, de supostas autoridades intelectuais estrangeiras que se mostram muito severas com países pequenos, mas contemporizam ou iludem as práticas dos seus antepassados e os factos políticos que negativamente os distinguiram, por vezes, bem mais graves do que aqueles que denunciam nos outros, sobretudo nos que consideram pequenos países, mesmo quando foram seus úteis aliados.

    Para cúmulo, consta que até o chá, bebida hoje tão civilizada, foi daqui levado pela princesa Catarina, filha de D. João IV, para Inglaterra, quando se ajustou o seu casamento com o monarca inglês, Carlos II, que arrecadou igualmente pelo dito avultado dote, em contado, em terras e outras concessões, que a tanto obrigava a busca de mais um Tratado, pela premência de defesa da recuperada independência, hoje estranhamente desvalorizada, com perdão do excurso histórico.

    Camilo que podia ser reaccionário, mas não pactuava com condenações selectivas de malfeitorias passadas, foi capaz de denunciar essas orgias de violência em que Pombal, por pura exibição de autoridade, por desmedida soberba, tanto se comprazia, mas que nenhum progressismo científico ou cultural pode justificar ou desculpar, muito menos hoje, que já não sofremos censuras ideológicas.

  4. O comentário de Viriato levanta questões múltiplas e fulcrais. É pena que o tempo não permita entrar nelas.
    Deixo apenas uma nota sumária: tivesse o país seguido a esteira de Pombal e outro galo cantaria hoje.
    Assim, tivemos violências e despotismos em dobro, e ficámos com o Portugal que aí está.

  5. e há alguma verdade hist´rica no incêndio das barracas dos pescadores para os obrigar a ir viver para vila real de santo antónio, ou nao?

  6. Pombal foi ministro do Bragança José I.

    A sua actuação teve sempre o apoio do rei.

    A época em que os factos se passaram e até a conjuntura historica ,TERRAMOTO, não pode ser olhada á luz da maneira como hoje vemos a historia, os direitos humanos, e até a evolução das civilizações .

    Para julgar Pombal e a sua actuação , deveremos ver como se governava o mundo nessa época, as medidas positivas que ele tomou para o desenvolvimento do país, a sua atitude face ás pretenções inglesas, o ataque a previlégios de certas camadas da aristocracia, o fim de certas discriminações de origem religiosa, o golpe de misericordia na Inquisição…etc etc.

    Em suma á sua maneira a defesa das Luzes contra o obscurantismo.

    Voltaire escreveu uma diatribe contra Pombal que não devemos esquecer.

    Mas tambem não devemos negar-lhe ,o papel importante que teve, em tentar trazer ao Portugal da época, muito do saber cientifico que então germinava na Europa.

    Comparar Pombal com outros ditadores de pacotilha que infelizmente Portugal teve mais tarde, é ignorar que em certos aspectos da sua actuação ,Pombal foi um progressista e um visionario á frente do seu tempo, sem medo das novas ideias, ao contrario de outros reacionários que tinham pavor a tudo o que cheirasse a novo, e que no seculo XX conduziram Portugal a uma estagnação de decadas.

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