Ódios velhos

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Chegavam sempre no começo do outono, quando os corvos passavam ao fim da tarde, a grasnar às frialdades que vinham de Além-Douro. Interrompiam-nos a bola no terreiro, saltavam das carripanas escuras, abriam as gaiolas das matilhas. E caíam nos braços dum lavrador lá do povo, inchado por ter amigos na cidade. Soltavam palavrões que eu julgava proibidos, numa língua esquisita de pagãos, e escarravam muito pelo chão.
Manhã cedo faziam-se aos caminhos, de espingarda na ombreira, a açular a canzoada. E não havia brejo em todo o vale inteiro que escapasse à invasão. O cainçar dos podengos ouvia-se nas quebradas, e os ecos da fuzilada faziam ricochete nas encostas do vale, monte cá, monte lá, até ao cair da noite.
Retiravam-se ao terceiro dia, com as grelhas de metal enfeitadas de perdizes a largar nuvens de penas, e rosários de coelhos a pendular nos telhados das carripanas escuras.
Hoje vivemos paredes-meias. Os palavrões já me são familiares, e ao sotaque de pagãos acostumei-me aos poucos. Mas não sei como indultá-los do olhar morto das lebres, enforcadas nas janelas, a mandarem-me corrê-los à pedrada.

Jorge Carvalheira

6 thoughts on “Ódios velhos”

  1. Gosto de ler os seus posts. Retratar o campo com palavras onde a realidade se cruza com a poesia sensibiliza-me. É, talvez, o meu lado rural, embora seja “alfacinha”…

  2. belíssimo texto, como habitualmente. e fica-se muitas vezes assim, sem sequer agradecer.
    cresci numa família de caçadores, daqueles que fizeram da caça um desporto e não um meio de subsistência. com cabeças de animais de grande porte pelas paredes, fotografias com pés sobre leões e palancas mortas. os meus antepassados usavam um porte altivo e respeitável em quase todas as fotografias que lhes conheço. nunca entendi a expressão radiante e ufana exibida nas fotografias com lebres e coelhos pendurados pelo corpo, que os tornava ridículos.

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