Desarrolhar o Maio

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Da nossa amiga sininho, chegam-nos este texto e imagem:

Desde “sempre” que o mês de Maio tem muito significado para os habitantes de Lagos.

Maio, o mês das flores!

Talvez por isso, e para realçar a sua beleza, as populações locais terão concebido “AS MAIAS” enfeitando com muitas flores, e outros adornos, umas “BONECAS” feitas artesanalmente, e que depois colocavam às portas e às janelas, não só para mostrar as suas habilidades como para que os passantes verificassem que a tradição das “MAIAS” subsistia – o que a todos agradava. A satisfação era tal que as donas das “MAIAS” ofereciam aos mirones o tradicional figo torrado acompanhado de uma boa aguardente de medronho. Ofereciam também deliciosos bolos de miolo de amêndoa que se chamavam “ROLHAS DE MAIO”, que eram muito apreciados e disputados.

Realizavam-se os passeios familiares, não só para ver as “MAIAS” campestres como para saborear os “Farnéis” previamente preparados. Ida ao campo a que se chamava “DESARROLHAR O MAIO”.

Mas como não há “BELA, SEM SENÃO” aqui vai a história dentro da história local:

Há muito, muito tempo, veio viver para Lagos determinado indivíduo que ao aperceber-se da forte tradição local das “MAIAS” começou a influenciar os Lacobrigenses, dizendo-lhes da sua disponibilidade para participar na festa do próximo Maio como um “MAIO VIVO” e não como um “BONECO”; a que a população acedeu por achar muito interessante a “Lembrança do Forasteiro”.

Assim, no dia 1 de Maio desse passado ano, ele ajaezou primorosamente a sua cavalgadura e vestiu a sua melhor fatiota, enfeitando-se com muitas flores, muitos colares, e outros adornos, mas pedindo à população que lhe cedesse peças autênticas (de prata e ouro, sobretudo cordões de ouro), para o sol incidir sobre eles e fazer rebrilhar a sua autenticidade!

Foi então organizado, à tardinha, um grande e luzidio cortejo seguindo o cavaleiro desde a Praça do Cano (hoje Gil Eanes), pela Rua da Porta de Portugal até à ponte D. Maria.

Aí chegados, ele pediu à população que o deixassem ir sozinho até a meio da ponte para melhor poderem apreciar o rebrilhar das peças de ouro, onde o sol já incidia, dizendo entretanto: “QUANTO MAIS LONGE, MAIS LUZEM!…”

Claro que, concretizando o seu intento e esporeando a cavalgadura desapareceu no horizonte!!!

Só, e tardiamente, os Lacobrigenses se aperceberam que haviam caído no “conto do vigário”!

Desde então os Lacobrigenses passaram a contar os meses do ano, omitindo o mês de Maio, e referindo-se a este como “O mês que há-de vir” ou “ O mês que já passou”.

Texto de José Paula Borba

7 thoughts on “Desarrolhar o Maio”

  1. Só por curiosidade, o dia da Espiga foi ontem, dia 17… de Maio. Mas, lá está, à Capital a informação chega sempre com um mês de avanço… : )

  2. Um amigo meu, o antropólogo Aurélio LOpes vai apresentar no dia 22 na FNAC Chiado um livro sobre Maio e as Maias. Será pelas 18h 30m. Agardece-se a simpatia da comparência.

  3. Parabéns, sininho, por teres trazido ao “Aspirina B” as “Maias” e os bolinhos (embora o Maio já vá a meio…) e também a José Paula Borba, autor do texto.
    Agora, deixa-me meter a colherada:
    No Algarve vamos encontrar um outro bolo cerimonial, o “queijinho de Maio”, confeccionado na altura em que o figo é colhido e seco. É feito com camadas alternadas de figo e massa de amêndoa e guardado (prensado numa peneira), sendo encetado apenas no primeiro de Maio. Nesse dia, a primeira pessoa da casa a levantar-se reparte-o pelos restantes membros da família acompanhado por aguardente de medronho. Segundo a praxe (mantida até hoje), cada casa só faz um “queijinho”, que se come depois “pelos dias adiante até terminar”.
    Também no Algarve (Caldas de Monchique) confeccionam uma broa de milho doce, que tem o nome de “bolo de Maio” ou “bolo de tacho” (Barranco de Pizões). As “rolhas de Maio” são rolinhos de massa de amêndoa e ovos, enfeitados com papel de seda, e constituem no dia 1 de Maio um doce cerimonial obrigatório, feito em casa ou vendido nas pastelarias e casas de doces regionais.
    Quanto à celebração das “Maias” (no Sul) ou do “Maio” ou “Maio moço” (em Trás-os-Montes e nas Beiras) parece que o preceito não se perdeu totalmente, havendo localidades (no Sul) onde “o enfeitar a Maia” ainda permanece.
    No Alentejo e no Algarve a “Maia” era representada por uma menina vestida de branco, com uma coroa de flores na cabeça e ataviada com jóias (sobretudo oiro), fitas e flores. A menina era sentada numa espécie de trono, enquanto à sua volta outras crianças “pediam esmola para a “Maia”. No Alentejo (Beja) enfeitavam com flores um rapazinho, ao qual davam o nome de “Maio pequenino”.
    Pequeninos eram também os bonecos enfeitados com giesta, feitos na Beira Baixa, e colocados no dia 1 de Maio, “antes do Sol nascer”, à janela das casas e nos campos.
    Considerados símbolos exorcizantes, ainda hoje em Vila Nova de Anços (Soure, Beira Litoral), as raparigas, pela manhã, deparam com ramos de flores (as “Maias”) às suas portas, ali colocados pelos rapazes.
    Figuras e consagrações florais que perpetuam antiquíssimos cultos agrários de purificação para celebrar o final do Inverno e o despertar da vida vegetal na Primavera, devo lembrar que os “Maios” (bonecos), se fazem representar nos Açores (particularmente nas freguesias da Terceira) e na Madeira (Machico).
    As “Maias” (bonecas) algarvias, eram, antigamente, colocadas depois dentro das casas, e à noite faziam-se ao seu redor animados bailaricos…

  4. sininho:
    Lembras e bem o “Dia da Ascensão” ou “Dia da Espiga”. Aqui está outra praxe que se mantém um pouco de norte a sul do país.
    No norte leva o nome de “Dia da Hora” (por ser entre o meio-dia e a uma hora “que o mágico e o religioso se misturam de forma especial e harmoniosa”).
    Em várias localidades da Beira Baixa dão-lhe também o nome de “Dia da Marcela” ou da “Marcelada” (designação local para macela). Noutros casos (mais raros), chamam-lhe “Dia do Leite”.
    No Ribatejo (onde moro) continua a ser feriado, assim como em certas localidades do Alto Alentejo e do Algarve.
    No Alentejo, o “raminho de espiga”, que se colhe “com poderes de virtude benfazeja”, leva 5 espigas de trigo, 5 folhas de oliveira e o maior número possível (sempre ímpar) de flores silvestres brancas e amarelas “para nesse ano, em casa, haver trigo, azeite, ouro e prata”.
    A “espiga” guarda-se até ao ano seguinte, altura em que se colhe um novo ramo.Daí, a quadra: “Se os passarinhos soubessem/quando era a Ascensão/nem comiam nem bebiam/nem punham patas no chão”.
    O ritual da “espiga” remete-nos, supostamente, para as Festas Demétrias, em louvor de Deméter (a Ceres dos Romanos), deusa da agricultura e das searas, realizadas na Grécia antiga durante a Primavera.

    Acrescento ao comentário de cima, que por todo o Alto Minho, as “Maias” (neste caso raminhos de giesta)continuam a ter grande tradição, enquanto em Vila Praia de Âncora as crianças das escolas participam anualmente no concurso das “Maias e dos Maios”.
    Era em Maio que os Romanos celebravam a ninfa Maia. Aí residindo, eventualmente, a razão de noutros tempos se dar em Nisa, ao “Dia da Ascensão”, o nome de “Dia da Maia do Coração”, sendo tradição antiga, nesta data, os noivos oferecerem às noivas a “Maia do Coração” (presente constituido por um objecto de ouro ou peça de vestuário).

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