A carta da América

Mestre João Bernardo era sapateiro e ferrador. Foi em sua casa que se jogou o último desafio de sueca na serra.
Com a partida de mestre João Bernardo, no dia seguinte, não ficariam na aldeia mais do que três homens: o tio Amadeu, o Joaquim Torre Velha e Manuel Cordovão. Por isso aquele serão de sueca e despedida teve honras de mutismo em velório que nem os cálices de aguardente animaram.
Os parceiros haviam sido sorteados dando uma carta a cada um. Manuel e o Joaquim Torre Velha ficaram com as duas mais baixas, e por isso formaram equipa.
Para evitar uma indefinida sucessão de partidas em que os que estivessem em desvantagem invocassem o seu direito à desforra, foi combinado que a disputa terminaria quando uma das equipas alcançasse seis vitórias.
Partida a partida, a sequência de vitórias e derrotas não deu a nenhum dos pares uma vantagem superior a uma até ao quatro igual. Depois, Manuel e o Torre Velha ganharam as últimas duas com facilidade.
Ao jogar a derradeira carta, sabendo que a vitória estava assegurada, Manuel sentiu uma tristeza tão grande como se aquela fosse a maior derrota da sua vida. De cada vez que partia alguém, a tristeza era tanto maior quanto menos gente restava na aldeia. E parecia que os que se despediam, indo, sentiam o mesmo e na mesma proporção que os que diziam adeus, ficando.
Os outros dois passaram a recordar aquele último serão como se tivesse sido uma das noites mais importantes da sua vida.
Num fim de dia, em que conversavam à porta da casa do Torre Velha, Manuel tirou um baralho da algibeira, embaralhou bem, disse àquele que partisse e mandou que o tio Amadeu desse cartas como se mestre João Bernardo estivesse ali. “És maluco”, disse o velho, no entanto obedecendo. Manuel pegou num envelope, meteu-lhe dentro as dez cartas restantes e explicou: “Vou mandar estas cartas ao mestre João Bernardo. O senhor Joaquim jogue uma, para eu lhe dizer e ele decidir qual a carta que há-de jogar.”
Perante o pasmo deles, explicou. Cada um guardaria as suas cartas, esperando a resposta do companheiro distante. Quando ela chegasse, juntar-se-iam os três e completariam a vaza. Depois, começariam outra e Manuel Cordovão escreveria novamente a dizer como fora. “Isso nunca mais acaba!” disse o velho Amadeu, mas mais em jeito de satisfação que de censura.
Cada resposta vinda da América demorava pelo menos duas semanas a chegar. Então os três homens juntavam-se em casa do Joaquim Torre Velha, e esperavam com ansiedade a revelação da carta devolvida. Às vezes o serão de sueca não passava disso mesmo: Manuel abria o envelope, punha na mesa, em cima das outras três, a carta enviada por mestre João Bernardo, e, se era este que ganhava a vaza, arrumavam as suas e esperavam mais duas semanas. Quando era a vez de ele dar cartas, prevenia com antecedência se queria virar trunfo por baixo ou por cima, e o velho Amadeu dava por ele. Mas ficavam felizes como se não faltasse ninguém.
O velho Amadeu adoeceu quando estavam empatados a duas partidas, mas ele ia ganhando a quinta por três a um. Ainda aguentou o suficiente para viver até à penúltima vaza, que ganharia, e o jogo também, se mestre João mandasse um trunfo para cortar um rei jogado pelo Torre Velha. Não veio o trunfo. Mas Manuel trocou uma carta sua e mostrou-a ao quase moribundo como sendo a do companheiro. “Vocês ganharam, tio Amadeu.” O velho sorriu, feliz. Pela última vez, o velho Amadeu sorriu. Para que ele sorrisse durante mais uma partida, Manuel seria capaz até de roubar ouro.

Poema algures

Há um poema. Um certo poema. Julgo-o feito a partir de memórias sedimentadas nas mais pequenas gavetas do teu coração. Assim como um guarda-jóias invisível, um estojo antigo, passado de mão em mão, na mesma família, por sucessivas gerações de mulheres.

Há um poema. Um poema algures onde deixaste o pó das brincadeira da infância, os jogos, as cantigas, as lengalengas. Tudo aquilo que poderia sugerir um mundo organizado entre os sonhos e os seus resultados. Um mundo onde a ternura era uma janela a fechar o vento mais frio do Inverno desse tempo.

Há um poema. Procuro-o nos teus gestos hoje mais comedidos e reservados, na tua voz onde se insinua a força das pausas, a grande nuvem cinzenta do tempo de hoje onde a tristeza fez a sua sementeira multiplicada.

Há um poema. Deve haver mesmo esse poema num lugar que só tu sabes. Pode não ser ainda poema, pode não ter ainda forma mas eu pressinto que ele existe, funciona, respira, articula-se entre as palavra e os sentimentos, sobe das águas mais escuras e lodosas para uma superfície onde a limpidez dita a sua regra.

Há um poema. Persigo-o ansioso todos os dias apenas guiado pela intuição e pelo instinto de julgar o teu rosto o rosto desse poema, sua origem e seu destino, sua força e sua razão de ser.

Há um poema. Eu sei. Hei-de escrevê-lo a partir da límpida pontuação do teu olhar. Amanhã. Ou num amanhã futuro. No dia da tua total revelação. No lugar onde, a partir dos teus olhos, seja possível instalar uma harmonia igual às brincadeiras da infância quando o mundo estava organizado entre os sonhos e os seus resultados.

As últimas lavadeiras da serra

Manuel sacudiu a água da mão, que caiu em gotas devolvidas à corrente que descia com um rumo certo, contornando cabeços e saltando penedos, até onde não se pudesse distinguir nenhuma origem de nenhuma água. Mas, mais abaixo, detinha-se um pouco na pequena largura de um poço onde as mulheres lavavam a roupa.
Das idosas, sempre houvera umas que enrolavam a saia nos joelhos, sem se importarem de a molhar com a água que saltava na viagem das mãos entre o poço e a roupa, e outras que descuidavam o inútil pudor da sua ruína física. Das mais novas, algumas imitavam aquele recato, outras expunham a generosidade de um palmo de coxas à cobiça de quem passava.
As pernas das lavadeiras tinham envelhecido. Começava a valer pouco a pena ir até ali, por acaso ou de propósito, e olhar disfarçada ou claramente. Já nenhuma protestava contra a passante presença, já nenhuma ajeitava a roda da saia, num gesto subinte de fingido desleixo, em descarada provocação.
Nessa Primavera, Joana ainda lá fora pela roupa do marido e pela sua. Mas, do filho que haveria de nascer-lhe, pouca seria rebaptizada naquela água, porque ela iria para França no fim do Verão.
Quando o menino nasceu, Manuel percebeu que talvez fosse o último a vir ao mundo da serra. Chamar-se-ia João, e por isso lhe ocorreu imitar Gil Vicente e o seu “Auto da Visitação”, presenteando a jovem mãe e o filho com um cordeiro e um poema.
Os versos, fizera-os ele e terminavam assim:
“Subiste à serra descendo/ de alturas muito subidas./ E que o Deus dessas alturas/ e de todas nossas vidas/ te faça tão venturoso/ como um rei verdadeiro./ Aqui trago este cordeiro, / de um ano e muito formoso,/ meu dom João derradeiro.”
Três meses depois, pai e mãe, com os parentes mais chegados, comeram o cordeiro na despedida da aldeia. Como uma celebração da Páscoa.

Carta a Marina por causa do galego – 4

Cara Marina,

Há uma teoria da conspiração que diz andar o Estado Espanhol empenhado numa castelhanização do galego para afastá-lo do português. Para simplificarem (as teorias da conspiração simplificam o mais que podem), os conspirativos apresentam a própria vontade dos galegos de conservarem quanto os distingue do português como um conluio com o inimigo. Em desespero de causa (e as teorias da conspiração são sempre propostas desesperadas), os conspirativos decretam que tudo quanto distingue o galego do português é… espanhol.

O mais espantoso é que os conspirativos, não tendo a razão inteira, têm alguma  – no que eles não reparam, já que as teorias da conspiração não permitem gerir meias verdades. E a meia verdade está em que o Estado Espanhol, que considera o castelhano, o catalão, o basco e o galego como lenguas españolas (assim lhes chama a Constituição), ao ver-se obrigado a constatar que «galego» e «português» são dois simples nomes para a mesma língua (embora correspondendo a normas diferentes e parcialmente irredutíveis), o Estado Espanhol, dizia eu, acaba metido numa grande alhada. Como explicar ao Mundo que algo «español» afinal não o é?

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De um momento para o outro

Cada poema é uma oração no santuário do teu olhar. Eu sei. A tua palavra pode ser a última. O nosso encontro pode não se repetir. Basta um gesto teu e vou-me embora. Estou sempre pronto para pegar no cajado do peregrino. De um momento para o outro pode acontecer. Sei que não posso fingir. Há na tua voz, em certos momentos do dia, um cansaço profundo que vem superar os projectos de tua alegria convocada e reunida.

A melancolia das tardes de Lisboa chega ao teu olhar trazida por um eléctrico que vem do Martim Moniz e segue para os Prazeres. Chega e é como se fosse uma seara de afectos na qual o vento desenha um pequeno mar verde de ondas repetidas entre luz e sombra.

Luz é quando o teu sorriso constrói uma renda de ternura e, sendo esta renda uma projecção da rede, eu sinto-me o pescador cansado a atravessar a praia, pronto a repetir a faina no dia seguinte. Sombra é quando o teu olhar se dilui no vento e na escuridão destes dias levando para os arquivos do silêncio esta amargura acumulada de pequenas traições, faltas de respeito, deslizes nos sentimentos e erros crassos nas relações humanas.

Entretanto o eléctrico que te trouxe a melancolia segue o seu trajecto pelas colinas de Lisboa. Perdido entre convenções, conveniências e mal-entendidos, eu sigo o meu caminho no sentido oposto. Estou cheio de dúvidas sobre o amanhã mas tenho, pelo menos, uma certeza. O futuro está num tempo desconhecido. Só o presente se vive. Eu sei. Não posso ignorar a melancolia que chegou aos teus olhos trazida por um eléctrico amarelo e lento que partiu do Martim Moniz e vai na direcção dos Prazeres.

Cada poema é uma oração no santuário do teu olhar. Eu sei.

O meu Avô Mello

Estas são algumas das memórias escritas pelo Dr. Jim Mello, pai do Nobel da Medicina Craig Mello. A minha tradução foi autorizada por ele, que também me autorizou a publicá-la onde quisesse. Nota curiosa: o avô do Dr. Jim Mello morou na rua onde eu nasci e resido, tendo sido nesta que nasceu o seu pai.
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Este é o relato do que recordo de meu Avô Mello. Lamentavelmente incompleto, decerto não faz justiça ao homem mas é quanto posso, e quero deixá-lo registado para gerações futuras. O seu nome era Eugene Mello (N.– Eugenio Mello, no registo de baptismo). Nasceu na ilha de São Miguel, Açores, Portugal, cerca de 1880. (N.– Nasceu em 12/10/1873) Foi o terceiro filho (N.– segundo) de seu pai, que era agricultor, mas a terra que este possuía era demasiado pequena para suportar uma família, caso fosse dividida. Por isso meu Avô precisou de procurar outros meios de subsistir por si mesmo. Não sei nada acerca da sua infância e juventude, mas desejo visitar um dia a sua terra natal para fazer uma ideia de como seria o ambiente. Quando veio para Rhode Island estava casado e tinha três filhos: Ana, a mais velha, um rapaz que morreu já aqui, e José. (N.– Tinha seis filhos, segundo o rol paroquial) Muitos jovens portugueses vieram para Rhode Island e para o litoral de Massachusetts em finais do século XIX e princípio do XX, à semelhança da invasão hispânica a que assistimos agora. Meu Avô trouxe apenas a sua força e determinação. Não falava Inglês, não tinha dinheiro e não sabia ler nem escrever. Assim, teve de confiar nos portugueses que já aqui viviam para o ajudarem a encontrar trabalho. Não sei o que fez para se manter nos primeiros tempos, mas trabalhou durante a maior parte da vida nos Caminhos-de-Ferro de Nova Iorque, New Haven e Hartford, que serviam Bristol e Warren. Dei a Jake o seu velho relógio de algibeira, que era a única recordação sua que eu possuía. Ele precisava de um relógio no trabalho a fim de saber quando a linha tinha de estar desimpedida para a chegada dos comboios, e penso mesmo que esse relógio terá sido para ele um motivo de orgulho. Tento imaginar muitas vezes as primeiras andanças de meu Avô por aqui e como teria sido a sua vida.
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Carta a Marina por causa do galego – 3

Cara Marina,

Falando-lhe, outro dia, no nosso assalto aos fartos celeiros do vocabulário espanhol (bom, nosso assalto, não exactamente, mas o dos nossos antepassados dos séculos XV a XVII), eu prometi-lhe alguns exemplos. Aqui vão eles agora. Não darei muitos. É que, sabe, os portugueses são um tanto ou quanto nacionalistas. E algum deles que lesse isto poderia ficar chocado.

Sim, acredite: os portugueses sentem-se tremendamente sozinhos no mundo, o que equivale a crerem-se imensamente originais. Se um dia descobrissem que um terço do seu idioma lhes chegou da Meseta, e que muito dos outros dois terços veio inteirinho da velha Galécia, dava-lhes um xilique. E eu não quero carregar isso na consciência.

Mas deixe-me, primeiramente, explicar-lhe uma coisa. Ou duas. Primeiro, para lembrar-lhe que os castelhanismos de outrora são hoje nossos, tão nossos que já não deixaríamos que no-los tirassem. Eles tornaram-se, desculpe o palavrão, «patrimoniais». Sim, subiríamos às barricadas para conservarmos o fiambre, e a botija, e a mochila, e a colcha, e o salpicão. E também moreno, e castiço, e zonzo, e até gandulo, até chulo, até velhaco. E assim muitos centos de outros.

Segundo, para assegurar-lhe que não há motivos para sentir-nos, hoje, culpados do que os nossos antepassados andaram fizendo ao idioma. Claro, era mais bonito se tivessem sido mais criativos. Poderiam ter primeiro pensado se não tínhamos já um termo aproveitável. Indo, se necessário, procurar saber como diziam os galegos. Mas os tempos eram outros, as viagens longas, e um estado independente, está a ver, não ia rebaixar-se a… você já entendeu. Não, os nossos avós só tinham ouvidos para as sereias castelhanas.

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Até esse momento

Lembrarás então o pai aqui sentado
A máquina de escrever no chão
Os discos na parede entre a luz e o pó

Irão passar talvez muitos anos
Farás promessas que não vais cumprir
E dirás ruas para voltar noutras horas

Será como quem percorre um caminho
Iluminado pela luz do teu olhar
À procura das palavras subterrâneas

Lembrarás então o pai aqui sentado
Um gelado presente do indicativo
E silencioso que não fala – não esquece

Passarás nas tuas mãos um fio
Será talvez a memória das noites
O tempo do leite e das fraldas

Será como quem procura descobrir
Nos desenhos (nos cadernos escolares)
Uma outra maneira – a tua outra voz

Lembrarás então o pai aqui sentado
Não como pai mas como anónima pessoa
Surpresa a esperar no céu do outono

Terás nas tuas mãos um retrato
O voo das aves por cima da casa
Como inesperada vírgula do tempo

Será como quem procura fragmentos
Num momento ou talvez num lugar
Na tua idade como um portão aberto

Pele e lombada

Para o Z, nosso fiel e querido compagnon de route (conhecemos a sua identidade, mas não a daríamos nem a um pelotão de arma em riste), e isso por ser São Valentim, e por ele ter levado para longes ilhas (conta ele) o Spinosa de Deleuze, mais o Fédon de Platão, mais uns belos livros de matemática, e acabar distraído pelas belezas físicas locais – para ele, pois, este poema que sabemos apreciará:

É sempre o mesmo o que persigo:
Um belo moço, um belo livro.
Acaricie pele ou lombada,
Tocarei sempre e só fachada.

Gerrit Komrij, Contrabando, Assírio & Alvim, 2005, tradução do neerlandês de fmv.

[O autor, que vive em Portugal, e é um dos mais conceituados poetas holandeses, além de conhecido ensaísta, colunista e tradutor]

Os bombistas

Pacheco Pereira juntou-se a Garcia Leandro e Manuel Alegre. Também ele ouve vozes que anunciam uma explosão. Para mais, aconteceu num supermercado. Ou seja, a informação veio de um consumidor, seres que para interromperem a sua obsessiva actividade recolectora têm de ter algo de importância catastrófica para transmitir. Pacheco diz que são sinais. E são: sinalizam que o general já não está só na ala dos que sentem a sua resistência psicológica a diminuir. Vai daí, o nosso publicista favorito nem se apercebe do disparate no raciocínio: não é a crise económica e social grave que gera uma peculiar sensibilidade a questões como a corrupção, é a corrupção que gera a crise económica e social grave. Enfim, mas de que espera para se apresentar como alternativa? Que impede Pacheco Pereira de substituir Menezes?

A única coisa que está para explodir é o medo de pensar e de agir, de voltar à política. Mas não serão estes bombistas de Carnaval a acender o rastilho.

Carta a Marina por causa do galego – 2

Cara Marina,

Falando-lhe do galego, tenho de falar-lhe também, e muito, do castelhano. Não é por acaso. O castelhano, não obstante ser idioma mais jovem que o nosso (e, para ser sincero, um tanto mais abrutalhado também, se comparado com o refinamento do galego e do português), o castelhano, dizia eu, cedo ganhou grande prestígio por cá. De tal modo que encantou, e deslumbrou, a quantos em Portugal escreviam e liam.

Estamos aí por 1450. Inicia-se então – já lho contei – uma vasta castelhanização do português. Nos dois séculos e meio seguintes, os nossos escritores apoderaram-se de milhares, sim, fartos milhares, de palavras que a Meseta tinha formado de raiz, ou aproveitado do grande tesouro que era o latim. Eles liam muito em castelhano, os nossos escritores. Narrativas, poesia, tratados. Usavam dicionários latim-castelhano, que eram, para a época, os melhores no mercado. Mais importante ainda: eles mesmos escreviam em castelhano. Centenas o faziam. Muito das suas narrativas, da sua poesia, dos seus tratados, saía-lhes na língua vizinha. Porque sim. Porque o castelhano era prestigioso, e era rico em novas noções, e era lido na Europa e mais Mundo. Até as grandezas de Portugal eles cantavam em castelhano, como hoje a gente, para divulgá-las, faz, se somos espertos, em inglês.

Ora, quando depois escreviam em português, esses escritores aproveitavam – e faziam eles muito bem – todos esses novos materiais castelhanos, toda essa frescura neolatina, toda essa vigorosa expressividade. O mesmo faziam, entretanto, os dramaturgos. O povo queria teatro, e teatro em castelhano. Conhecemos centenas de peças de autores portugueses, para o público português, escritas em… adivinhe que língua. Compreende-se. As melhores companhias de teatro de Castela faziam constantemente tournées em Portugal. E os nossos não queriam ficar atrás.

Depois, havia a corte. Dos reis. Sobretudo das rainhas. Durante séculos, foi comum termos rainhas espanholas. Uma delas, Catarina de Áustria, aguentou por cá 53 anos. E nunca disse uma palavra, nunca escreveu uma linha, que não fosse em castelhano. Já está a ver.

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Não vire as costas à disfunção eréctil

Oferta do nosso amigo Renato C., numa altura em que se virou para esta matéria pendente:

Na impossibilidade de atiçar o repto em molde mais apropriado, e fazendo jus ao epíteto de “capacidade ironico-fodilhona” que o amigo rvn me dedica, gostava de aqui lançar uma questiúncula para reflexão de todos aqueles que se preocupam com as grandes questões nacionais.

Acabo de reescutar na TSF o spot que alerta para a impotência sexual. Isto nada terá que ver com o nosso patrimonial Sócrates, ou não atestassem os pregões noticiosos que o rapaz tem erguido maravilhas por este belo País fora, e todos sabemos que a sua pílula é rosa, e não outra. Todavia, poderia ser obra de uma ingenuidade dúplice que assenta como uma luva na mão com que o Zé Manel Fernandes gosta de embalar o berço da Nação.

Então manda assim o dito, em investidura de slogan: “Não vire as costas à disfunção eréctil”. Eu não sou gajo que se abispe com tão pouco, mas tão-pouco sou gajo para deixar murchar um contra-senso deste tamanho sem lhe deitar as garras. “Não vire as costas à disfunção eréctil” é não apenas de mau-gosto como também um conselho de duvidosa eficácia. Vejamos: o virar de costas pode, e deve, integrar-se numa estratégia deliberada de um sistema de incentivo à dita-dura. Por que não?

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Carta a Marina por causa do galego – 1

Cara Marina,

Informa-me você de que é galega, e que até passou uns anos numa faculdade em Santiago. Pede-me, depois, que reproduza um texto de Daniel Castelao («Un ollo de vidro», um dos seus mais conhecidos), e isto «para que toda a gente perceba», diz você, «que galego não é castelhano, e muito menos, português». Eu vou fazer-lhe essa vontade. Mas a sua última afirmação incita-me a alguns esclarecimentos.

Galego não é castelhano? Claro que não. O galego é, até, mais antigo do que o castelhano, porque mais evoluído, e portanto com uma história mais longa. Galego não é português? Claro que não, também. Mas houve um tempo em que galego e português eram, sem espaço para dúvidas, uma só língua. Simplesmente, o português sofreu, entre 1450 e 1700, uma drástica remodelação, feita sobre o figurino castelhano. O galego conservou por mais tempo a feição medieval comum, e só mais recentemente acabou minado pela língua do Estado. Já vê: estas duas profundas castelhanizações, primeiro a do português, depois a do galego, ainda por cima bem diferentes uma da outra, criaram entre galego e português um fosso que muitos consideram já intransponível. Eu não. Mas não nos apressemos.

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A merda atinge, finalmente, o Belmiro

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José Manuel Fernandes conseguiu conspurcar o nome de Belmiro de Azevedo, aquilo que seria a última intenção do empresário que faz da convencionalidade uma religião. Quando António Costa se permite dizer o que a populaça gritou na algazarra provocada pelas notícias do Público sobre os casos dos projectos na Guarda e da exclusividade, temos uma porcaria que vai exigir lixívia muito forte para limpar as nódoas que o tonto do Zé Manel mandou para cima da, até agora, resplandecente camisa branca do seu patrão.

Esta situação, apesar da poeira emocional, tem a beleza da simplicidade: o jornal fez bem em noticiar o que noticiou e, em concomitância, o jornal fez mal em noticiar como noticiou. Porque o estilo faz o homem, e o estilo do Zé Manel só tem um nome: filha-da-putice. Ao se arrogar a pose moralista, optando pelo ataque, estamos perante jornalismo de má-referência. Porque seguir a pista que o corrupto Abílio Curto deixou até um jornal de escola poderia ter feito. Os documentos estão à disposição, não foram queimados — possibilidade que o jornalista Cerejo referiu acintosamente, naquela que foi mais uma provocação sintomática da atitude. O que se espera de uma investigação é a revelação do que esteja escondido. E nada de nadinha de nada o Público conseguiu desencantar que estivesse escondido. Esquecido, estava; oculto, não. Se há alguma coisa que entre no campo da ilegalidade, onde está? Venha ela, claro, e sem demoras! Porque, a haver, é a única matéria que legitima a importância mediática dada ao que foi publicado. Considerações sobre ambiguidades profissionais e práticas relativas a contextos que não da actividade governativa ou partidária, são argumentos ad hominem. Têm interesse, não têm relevância. E foi isso que milhares, ou milhões, de portugueses sentiram e pensaram das notícias.

Creio que se bateram todos os recordes de comentários numa só notícia, mais de 1000 neste momento. Isto é, em si, um acontecimento de importância jornalística, por ser de importância social e política. Mas o Público nada referiu. E quanto à secção Cartas ao Director, limitou-se a publicar num mesmo dia 3 cartas, uma para cada posição na contenda: a favor do jornal, contra, e conciliatória. Não mais apareceram testemunhos dos leitores. O mesmo para a secção Sobe e desce, a qual nunca fez referência ao episódio. Tudo isto revela o carácter de excepção que o confronto assumiu na equipa. De facto, ir chafurdar no passado profissional de Sócrates para trazer uma fotografia onde ele foi apanhado a meter o dedo no nariz não é jornalismo, muito menos de investigação. É estar a bater merda com dois paus.

Um poema de Vítor Matos e Sá

E porque o nome do poeta veio à baila no Aspirina B, nada melhor que recordar um dos seus poemas, «Para os meus alunos», que integra O Trabalho – antologia poética, e que devia estar em todas as salas de aula deste País (atrevo-me eu, «jcfrancisco», a pensar).

Após tantos anos a ver-vos chegar
e a deixar-vos partir
alheios ou inquietos quanto
ao parentesco das ideias e dos actos
o direito às perguntas e a fonte
das perguntas,
gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome,
saber se estive, perto ou longe,
em vossas dúvidas. É sempre
uma questão mútua de ser.
Uma presença e não
um resultado.

Mas nem sempre soubestes que crescíamos
entre ódios, fanatismos, cobardias,
com olhos vendados pelo conforto
e o medo, com ter-se ou não ter-se
vantagens, aplausos, soluções privadas.
E como foi possível ter razão
sem ter as circunstâncias.

Agora os vosso rostos passam, firmes,
entre visão e facto, entre o amor
e a chegada de todos ao amor.
Mas também morro mais depressa agora.

Por isso gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome. E agradecer-vos a herança
da alegria. E dizer uma vez mais que é sempre
uma questão mútua de ser. Uma presença
e não um resultado.

E os vosso rostos todos
hão-de ajudar-me a envelhecer
sem angústia ou vergonha
e a estar convosco na verdade
e a buscá-la juntos e a cumpri-la.

Carta que escrevi ao Baptista Bastos tentando imitar o estilo de Vieira

Senhor,
Dá Deus o dom da fala a todos os homens, mas a alguns somente o da palavra. Porque também os tontos falam, pelo que não é à míngua de inteligência que há quem não fale; e falam os néscios, pelo que ao falar não faz falta o entendimento; e falam os brutos, pelo que ainda que aos homens falte a sensibilidade, sendo mudos não o serão por causa disso.
Mas ao dom da palavra se requer inteligência, entendimento e sensibilidade. Inteligência, para saber o que convém ser dito; entendimento, para discernir como se deve dizê-lo; e sensibilidade, para escolher o momento oportuno em que o ouvinte seja disposto a ouvir.
O dom da palavra pode abrir os ouvidos que teimam em estar fechados ou fechar os ouvidos que sempre estão abertos. Porque há aquilo que deve ser ouvido, e há quem não queira ouvir; e há o que não convém que seja ouvido, e abunda quem queira ouvir.
A vós, senhor, deu Deus o dom da palavra. E muito me regozijo porque haveis sido lembrado para lembrar o dia em que minha mãe me pôs no mundo, para nele ficar até quando o Senhor das nossas vidas for servido. Porque desde o dia em que nasci muitas vezes morreram mil vezes mil homens, e eu continuo vivo, não por mérito meu senão pela graça de Deus e pela bondade de corações como o vosso.
Desculpai-me, senhor, se tão mal ditei esta carta que quem ma escreve não a entendeu bem, ou se, ditando-a eu como devia, não fui entendido como convinha.
A rogo do P. António Vieira, S. I., por não poder escrever,

Daniel de Sá

Balada para Victor Jara

(E para o meu amigo Manuel Estrada e todos os que queiram fazê-la sua)

“Que horas seriam do dia?”
– Não era dia, eram trevas.
“Ainda há pouco o ouvia…”
– São as saudades que levas.

“Quantos mortos viste, quantos?”
– Não os vi, não os contei.
“Mas ainda se ouvem cantos?
– São prantos, o que escutei.

“Choram as metralhadoras
Pelos homens que mataram?”
– E pelas mães sofredoras
Cujas lágrimas secaram.

“Enquanto o mundo desperta
Em Santiago anoitece.”
– Noite de medos coberta
Que nunca mais amanhece.

“Quem mata tão cegamente?
– A ordem… o ódio, digo.
“Pela ordem morre gente…
– Pelo ódio, o meu amigo.

“Eu tenho a alma encharcada
Da chuva de Santiago.”
– Essa chuva foi sangrada
Da f’rida que aberta trago.

“Chuva que nunca mais pára!
Victor Jara, vão calá-lo?
– Ninguém mata Victor Jara,
Por mais que queira matá-lo.

Velhos jarretas

Conheço velhos que ainda não chegaram aos 20 anos de idade; votei em Manuel Alegre para as presidenciais — e voltaria a votar, perante elenco de candidatos igual ao de 2006. Feita a declaração prévia, passo para a urgência: temos de pôr os políticos velhos no lar da Terceira República. Quando se admite que o pateta Alegre imponha uma remodelação no Governo ou se aceita vê-lo a fundar um partido concorrente ao PS, não está mais em causa reconhecer uma doença, trata-se antes de validar a hipótese de já estarmos a ser enterrados. Porque deveria ser óbvio, para quem tenha a antiga 4ª Classe, que Manuel Alegre caducou faz tempo e ainda ninguém o avisou. Se mais provas fossem precisas, a leitura da entrevista conduzida por São José Almeida, que nunca o questiona nas perguntas que faz, exibe um homem ingénuo, ignorante e deslumbrado. Nada disso anula o seu passado, deveria ir sem menção, mas o seu passado não incomoda. É no presente que Alegre é um triste. É triste ler as suas declarações e procurar ligá-las com os acontecimentos da nossa vida profissional, social e pessoal, só para se concluir nada nos dizerem. Não conseguiria verter duas frases dignas de captar a atenção das gerações nascidas nos anos 90, 80, 70 ou 60. O seu olhar está ofuscado com o que viveu in illo tempore, cego para o futuro. Por isso não consegue apresentar uma única proposta que dê que pensar, sequer que falar, sobre qualquer um dos grandes e pequenos temas da actualidade. Por isso nunca soube o que fazer aos votos que recebeu, pois não tinha qualquer outro plano para além da soberba de ocupar o Palácio de Belém. E agora, atingido por uns Blocos que lhe exigiam votos contra o Governo no Parlamento, deu em vociferar por soluções alternativas, mas o coitado barafusta sem fazer a menor ideia de qual seja o processo para as obter; como um esfomeado, numa cozinha repleta de víveres e instrumentos, a berrar para que lhe façam o caldinho. Socialismo? Mas alguém, no século XXI, estará interessado em saber onde é que se escondeu o socialismo ou de que se travestiu? PS? Mas há quem tenha dúvidas do que seja o PS? É a organização a que preside José Sócrates, eis a resposta. Só os atarantados, que deliram partidos angélicos, se esquecem que o poder tem sempre corpo, sexo e vontade de nos foder.

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