doente saudável

Sempre achei que havia um lado delicioso nos estados gripais, não fosse a falta de saúde propriamente dita. A preguiça terapêutica. Ficar na cama indefinidamente, leituras avulsas, falar com quem e quando apetece. Sopas, torradas e líquidos quentes intercalados com nada fazer e sonos curtíssimos. Abluções lentas pelo meio da tarde para a seguir nos enfiarmos num pijama lavado. Pensar no que dá na gana e não no que tem de ser, porque, convenhamos, não se está em condições de apelar à responsabilidade. O tabuleiro com comidinhas ideais trazido à cama é mordomia que só em casa parental, mas sempre compensa não ter perdido o apetite. Falta-me a febre soporífera, restam-me os delírios febris. Tem sido um dia magnífico.

P.S. No futebol cada vez mais os epílogos têm maior interesse do que a acção. Os jogadores são filósofos. Acabei de ouvir um jogador do Marítimo comentar a derrota por dois a um. Com a tranquilidade reflexiva com que Paulo Bento relata factos prosaicos acrescentou, o jogador, que o resultado poderia ter sido diferente. É profundo.
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Chove en Santiago, meu doce amor

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Lorca enamorou-se por Santiago de Compostela, ou por alguém de lá, e compôs, num galego a pingar de casticismos (de «enxebrismos», termo local, mas corriam os anos 30), uma série de seis belos poemas. O mais conhecido é «Madrigal á cibdá de Santiago», que inicia com o celebérrimo verso «Chove en Santiago». Meteorologicamente exacto, porque é o que mais faz na capital galega.

Hoje, leio no Expresso um comentário de António Guerreiro a Doze Naus, um livro premiado de Manuel Alegre. Sempre senti alguma coisa por sonorosos vates. Mas não resta súvida: Guerreiro tem, aqui, todas as razões e mais algumas para deixar de rastos o livro, o autor e o júri (nada menos que Graça Moura, Júdice e Pinto do Amaral). Leiam, confiram.

Só destaco um pormenor. Alegre tem, no volume, um poema, «Adeus», onde se diz: «Quando vieram dizer-me que morreste/ eram onze da manhã e estava sol./ Não chovia no Porto como em Santiago/ há trinta anos quando mataram Allende.»

E eu pergunto-me quanta gente (os jurados, o crítico do Expresso, os comuns leitores) terá reparado naquela geográfica liberdade poética de pôr a chover, sem mais aviso, em Santiago de Chile. O «arquivo dos significados ‘poéticos’ cristalizados», que António Guerreiro diz enxergar em Manuel Alegre, é efectivamente bem provido.

A falta que fazem os mordomos ingleses

Da crónica, hoje, no Público, de José Pacheco Pereira:

«Peguem numa lupa e vão ver as fotografias dos “palácios reais”, as fotografias dos grandes e médios eventos desses anos finais da monarquia e podem continuar pela República e pelo Estado Novo dentro e vejam o Portugal que lá está ao lado da Família Real nos vasos partidos segurados com arame, nas louças com “gatos”, nos jardins pouco cuidados, nos espelhos com a prata gasta, nas roupas puídas e usadas, nas decorações erguidas de madeira e papelão, no tom de abandono, descuido e pouca limpeza, que nem a hierarquia do upstairs e do downstairs servia para funcionar bem, não porque não houvesse muita criadagem, mas porque faltavam os mordomos ingleses. Esse mundo que tomam por brilhante e cosmopolita era o mesmo Portugal que hoje pretendem esconjurar porque “feio, porco e mau”, o mesmo Portugal – oh sinistro adjectivo! -, “piroso”, de que pensam fugir conhecendo os vinhos de casta, comprando relógios Patek Philipe para entesourar, caçando vestidos de duendes verdes, fazendo subir o preço do Almanaque de Gotha nos leilões, e passeando-se por resorts e spas. Não, não estamos nos nossos melhores dias…»

Este homem está cada vez mais interessante.

O primeiro (e grande) romance de Jorge Carvalheira

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Por enquanto nada sabemos do destino do homem que ali vai, em extremo concentrado no andamento das passadas que dá. Vemos que marcha atento e cabisbaixo, no gesto de quem poupa energias. Porém não tanto que perca de vista o andador que lhe vai na dianteira, obra de poucos metros, nem tão pouco que possa este limpo luar de Fevereiro lavar-lhe de sombras a barbada face. Nada sabemos, e dobrada razão é essa para atentarmos no leve pormenor, na mesquinha minúcia.

Assim inicia As Aves Levantam Contra o vento, o primeiro romance do Jorge Carvalheira, que a Quasi acaba de publicar. É um livro excepcional. O que não pode espantar-nos, sabendo, os que o lemos aqui no Aspirina, quanto desvelo e quanta graça ele põe no que escreve. Quem é exigente a esse ponto é-o sempre também. 

As Aves Levantam Contra o vento é o retrato dum Portugal que foi mas ainda persiste em ser. Porque nós somos como somos – e aí está o nosso grande problema. Fique aqui, para amuse-bouche dum livro magnífico, este retrato de alguém que conhecemos de sobra.

Incapaz de ver os erros do passado, só restava a Portugal passar a vida a repeti-los. Um dia tomou conta do governo um professor de Finanças, bisonho camponês que a igreja modelou num espirito de frade, austero, ardiloso, agudíssimo, implacável. Conhecia como ninguém a alma dos portugueses, era ele a sua mais perfeita imagem. Desdenhava da fatuidade dos salões e desprezava as multidões primárias, era um deserdado que só acreditava em elites. Não apreciava indústrias, por tanto se temer do ruido dos operários a sair do bojo das fábricas, proibiu a coca-cola para que não houvesse exemplos de sociedades eficazes, sonhava-se ministro dum rei absoluto deslocado no tempo, um Pombal despótico e tirano a quem sobrava a manha e faltava o esclarecimento. Governava o país do fundo duma cela, e, milagre supremo, pôs em ordem as finanças, pelo cálculo mais elementar. Domesticado o povo pela inanição e o silêncio, mourejavam três quartos dum pais infantilizado há séculos, para que o restante quarto vivesse à tripa forra. Era esta a lei universal do mundo.

A FANTÁSTICA HISTÓRIA DE RITA GORDA

(Do livro Stories Gandma Never Told, de Sue Fagalde Lick, escritora americana de ascendência açoriana)
– Tradução de Daniel de Sá –

 

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Rita da Silva não era a noiva que Frank Lewis desejara. Quando ele deixou o Faial a caminho dos Estados Unidos, prometeu a sua irmã Carolina que a chamaria logo que tivesse dinheiro suficiente. Os anos passaram sem uma palavra de Frank. Cansada de esperar, Carolina emigrou por sua conta e risco e casou-se com outro.
Inesperadamente, Frank mandou cinquenta dólares para pagar a viagem da noiva para os Estados Unidos. A resposta foi a de que ela estava casada. A única que restava era a irmã chamada “Rita Gorda”. Com 1,77m de altura e 90 kg de peso, essa última irmã solteira não era bonita, mas, como Frank tinha enviado já o dinheiro, concordou em que ela deveria ir.
A viagem foi um horror. No barco, Rita esteve sempre enjoada e custou-lhe muito arranjar um lugar reservado que servisse de quarto de banho. A família prevenira-a para não comer a comida de bordo porque o barco era muito sujo, e assim ela alimentou-se de pedacinhos de pão e queijo que levara de casa. Só falava Português, e não teve ninguém com quem conversar durante a longa jornada. A sua única companhia era um livrinho de orações.
Desembarcou em Boston, mas tinha ainda um longo caminho a percorrer. A etiqueta da mala pequenina que era toda a sua bagagem dizia Frisco, USA. Agora ia dirigir-se para Ventura, Califórnia, centenas de milhas a sul, mas era sempre o mesmo caminho para os viajantes de Leste. A única coisa que conduzia Rita pelo país fora era o bilhete pregado no casaco, que explicava quem ela era e para onde ia. Quando alguém lhe perguntava, apenas o mostrava. Teve medo também de comer no comboio. Apesar de os revisores terem sido simpáticos quando lhe ofereciam das suas sanduíches, ela pensou que estavam a tentar envenená-la. “Não comas nada, se não souberes o que é”, havia sido prevenida muitas vezes. Sacudia a cabeça e dizia: “No, no, no.” Os desconcertados revisores insistiam: “É bom. Come.” Mas Rita continuava a negar.
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A minha historinha de merda.

Era uma vez eu, e uma relação de 10 anos. Um dia acordei e tinha uma DST. Eu pensava que as DSTs eram fáceis de se saber que se tinha, pensava que se ficava roxo, ou com borbulhas, ou que caiam bocados. Pensava eu, que tendo uma relação monogâmica, e não tendo nunca tido, nem visto, nada roxo, com borbulhas ou a cair, estaria segura, e nunca teria DSTs. Fiquei pois, bastante surpreendida quando a médica me disse que tinha uma DST. Ao que parece há DSTs silenciosas. Então, pensei eu, e dado que era eu na tal relação de 10 anos que era assim mais a atirar ao promíscuo, devia ter apanhado a dita DST com o exnamoradeco anterior. Claro que antes falei com a outra metade desta minha relação de 10 anos. Contei-lhe que tinha uma DST e disse que se me queria contar alguma coisinha agora seria uma boa altura. Ele disse que não, e eu acreditei.
E toca de telefonar ao exnamoradeco, que até me dou bem com ele, nem tanto para averiguações, mais para o avisar para se tratar, coitadinho, que a tal da doença diz que pode causar entupimentos das partes que fazem filhos. E o exnamoradeco, graças a deus que me dou bem com ele, lá disse que eu devia estar enganada, que ele por acaso até tinha as análises em dia e estava limpinho.
Então voltei a falar com a outra metade da presente relação, e ele lá confessou, com uma historinha feita de encomenda para eu não me importar. E eu, que até sou uma pessoa coerente, não me importei. E continuei a relação de 10 anos por mais uns meses. Outro dias estava ele a mostrar-me umas coisas no computador, e apareceu na busca automática do Google o nome da corrente gaja que andava a comer (mesmo depois de saber que quando um gajo come gajas pode estar a transmitir DSTs). E eu pu-lo na rua, recuperei todas as chaves, alterei todas as passwords, e deitei fora toda a merda que durante 10 anos achei que durante todo o meu futuro seriam boas recordações do nosso passado.

Do analfabetismo à fúria das viúvas

José Mário Silva assinou no passado dia 2-2-2008 no Diário de Notícias um trabalho jornalístico no qual divulga o «caso» do poeta Amadeu Baptista. Autor de vasta obra poética cuja publicação se iniciou em 1982 (com As passagens secretas), este poeta tem mais de vinte livros publicados e uma antologia intitulada Antecedentes criminais.

Desempregado desde Setembro de 2007, o poeta saiu do Bairro Alto e vive em Viseu onde não paga renda de casa. Ganhou vários prémios literários nos últimos meses num total de 12.500 euros. Este dinheiro evitou-lhe entrar no centro da miséria, está apenas na sua periferia, no seu limiar. Mas também no limiar do vazio e da depressão: «Escrever poupa-me à depressão e à angústia de não ter trabalho» – diz o poeta a José Mário Silva.

Outro dia, soube na Casa Fernando Pessoa que a viúva do poeta Ulisses Duarte convidou os amigos da Tertúlia Rio da Prata para irem lá a casa, munidos de sacos de plástico. Queria ver-se livre de todos os livros, queria a casa limpa. A viúva do poeta Vítor Marques e Sá (falecido em 1975) nem me respondeu quando lhe escrevi em 1982 para pedir uma fotografia para ilustrar um artigo sobre a sua obra. A minha carta, como muitas outras, terá ido para o lixo. Anos depois, a viúva de Nuno Guimarães não atava nem desatava sobre a gaveta de inéditos do poeta morto em 1973. Com a simpática colaboração do actual (ao tempo, 1993) marido da senhora, lá foi possível a Câmara de Gaia levar para a frente uma edição comemorativa de poeta que morreu jovem.

Como se não bastasse o nosso analfabetismo ainda temos que levar com a fúria das viúvas. É muita areia para a camioneta dos poetas.

Impressões

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QUIDNOVI, 2006

A elite portuguesa não gosta da saudade. Considera-a apenas uma trivialidade folclórica e turística. Dos de intelecto mais capaz, como Eduardo Lourenço, passando pelos cínicos, que dominam a comunicação social, até aos imbecis, os que desprezam a nossa História, há uma crescente unanimidade. A saudade seria cliché do fado, ideologia nacionalista, retórica literária, provincianismo popular. É com um esgar de prazer que dizem não ser a ideia de saudade um exclusivo português, pois se encontrariam variantes lexicais em todas as línguas para a nomear analogamente. A saudade, para esta gente desta lata, é concebida como uma emoção que se esgota na psicologia, a mera consciência de um passado, pessoa e/ou lugar, que se deseja recuperar ou que se lamenta não voltar a fruir. Logo, será uma experiência universal, garantem. O que os leva à pose paternalista, simultaneamente desprezo e afago envolto em sorriso soberbo, congratulando-se a si mesmos por explicarem às crianças que o Pai Natal não existe. Contudo, o que não existe é conhecimento, nesses palonços que exibem ignaros a sua falta de identidade, seu vazio. O que não admira, pois não é de hoje a coincidência entre o poder e a perdição. Há sempre quem se deixe ofuscar pela luz que cega e queima, cumprindo o destino dos invertebrados esvoaçantes. O belo é difícil, avisa Platão.

Quem gosta da saudade é o escol português. E nele encontramos António Braz Teixeira, académico, ensaísta, político e ponte entre Portugal e o Brasil. Tal como muitos outros portugueses, faz o seu valioso e patriótico trabalho longe dos holofotes da fama mediática. Não que tal discrição seja critério, mas é decisivo sinal que apela a procurarmos outros como ele, por agora desconhecidos de quase todos nós. É uma chamada para se partir à descoberta da civilização Portugal.
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O regicídio visto por Pascoaes

Descobri hoje no Alfarrabista Bocage na Calçada do Combro a cópia de uma carta de Pascoaes a Unamuno de 2-10-1908. Depois de saudar o «querido amigo», Pascoaes afirma:

«A tragédia de Lisboa foi o desenlace duma luta travada entre o gato e o rato. E, coisa curiosa, o rato matou o gato! João Franco subiu ao poder para eliminar abusos, roubos, sinecuras. O advento do Franquismo representou um tardio arrependimento do Rei Carlos. Calcule a guerra feroz que lhe moveram os partidos (progressista e regenerador) que se viram despojados do Tesouro Público! Guerra de difamação contra o Rei e de ódio contra o Franco. Este viu-se obrigado a recorrer a meios violentos e pouco simpáticos nos tempos de hoje para resistir à onda que o tentava derrubar. Estas medidas violentas exasperaram dois pobres e ingénuos sonhadores (Costa e Buíça) que, num ímpeto que eles julgaram libertador, deitaram a terra D. Carlos e o Príncipe Luís, um adorável rapaz de 20 anos! Resultado: o Franco foi para o estrangeiro por onde anda errante como um fantasma; o Buíça foi para a sepultura, fulminado como um Titã que quis roubar o fogo do céu! No dia 1 de Fevereiro de 1908 havia dois homens em Portugal, João Franco e Buíça; inimigos irredutíveis que se destruíram um ao outro, em vez de salvarem a sua Pátria! Neste momento Portugal é um mistério. É impossível a gente calcular o que virá a ser dele! É uma Pátria que a noite envolve, entregue aos morcegos e às aves agoireiras. Aqui, não se vê um palmo adiante do nariz; é tudo confusão e sombra. Um abraço do seu grande admirador e amigo certo – Teixeira de Pascoaes.»

Um documento curioso, descoberto e lido cem anos depois, num alfarrabista da Calçada do Combro.

Sem emoções para os espanhóis, inovações turísticas e loucuras relativas: ó, penso tanto em ti, Vanessa Amaro

Os Elbow são daquelas bandas que, como os Doves, vivem numa terra de nenhures: são demasiado comerciais para merecerem o reconhecimento do universo indie e excessivamente adultos para singrarem no mainstream. Apesar de os sucessivos fracassos comerciais somados com a indiferença da crítica já terem dado cabo de muitas bandas, os Elbow têm prosseguido uma carreira brilhante que terá em Março um novo capítulo intitulado The Seldom Seen Kid. Até lá, há o belo vídeo que Dan Sully realizou para o tema «Grounds For Divorce». Simples, belo, eficaz. Numa palavra: Elbow.

Igualmente digno de nota, se bem que ligeiramente mais sofisticado, é o último vídeo dos The National realizado por Scott Cudmore para um dos grandes temas de 2007: «Fake Empire». Já passei horas a ver e a ouvir esta maravilha em loop e vêm-me sempre à memória (vejam lá o estado de loucura a que um gajo pode atingir) filmes de Wenders, John Cassavetes e PT Anderson. Podem vê-lo aqui (Quick Time).

OFFF vem para Lisboa

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Se não trabalhas em webdesign, é altamente provável que não saibas o que é o OFFF. Este festival tem levado os profissionais e artistas portugueses, interessados na comunicação digital, a sonhar com uma edição nacional, ou algo similar, logo desde o seu início, 2001. No ano passado, um destes portugueses foi a Nova Iorque e conseguiu convencer a organização a escolher Lisboa para a edição de 2008. Agora, anda a tentar convencer directores de marketing que o dinheiro gasto com um qualquer filme TV (somando o custo da criação, produção e espaço) seria muito melhor aplicado no patrocínio da edição lisboeta. Porquê? Porque o OFFF vai reunir a nata dos criativos portugueses, aqueles que trabalham todos os dias em condições de exigência máxima, em tudo iguais às dos seus colegas internacionais — e ainda com o mérito acrescido de o fazerem em piores condições salariais e de gestão. É uma gente que já nada tem a ver com a imagem típica do português, esse português que ainda influencia a sociologia e a cultura pela sua idade e falta de educação. A classe dos criativos profissionais portugueses está plenamente globalizada, e qualquer deles não levaria 1 minuto a adaptar-se a qualquer ambiente profissional internacional onde calhasse aterrar. Porque o seu dia-a-dia é feito na permanente relação com o que se cria e produz em todo o Mundo, de Nova Iorque a Tóquio, de Londres a S. Paulo. São eles que dominam a linguagem digital, tanto na forma como no conteúdo. Quem os ignorar ainda não se apercebeu de que o século XX já acabou.

Lisboa é linda, e não há como a admiração estrangeira para o celebrar. E Portugal é um dos países mais simpáticos e eclécticos da Via Láctea, podendo ser um dos centros criativos da Nova Economia. Porque esta faz-se com computadores, electricidade e inteligência. De computadores e electricidade, parece não haver carência. Da inteligência, compete a cada um apresentar provas. E contribuir com a sua, mesmo que a julgue coisa pouca. Porque a inteligência tem isso de maravilha, só é pouca quando é nenhuma.

OFFF em Lisboa vai ser uma festa da inteligência de vanguarda. Traz a tua.

So SICk

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Correia de Campos pediu a demissão por causa das declarações do Presidente da República no discurso de Ano Novo. Essa atitude é rara, e é a que se espera de quem entende a política como serviço aos concidadãos. Sócrates recusou a demissão, e é a atitude que se espera de quem entende a política como combate pelo maior bem. As forças da reacção concentraram esforços, à direita e à esquerda, até no PS, e apontaram para a zona mais frágil, e fracturante, da reforma: as Urgências. Isso levou a uma maior exposição do ministro nas televisões, ao longo do mês de Janeiro, onde repetiu ideias, objectivos, factos e evidências. E talvez se tivesse aguentado no cargo não fora a diabólica exibição da conversa entre uma operadora do CODU e os bombeiros do concelho de Alijó. Nada mais havia a fazer ou a dizer, a divulgação dessas interacções tornava impossível a sua continuidade no Governo. Mas porquê?

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O caso José Manuel Fernandes – II

Saber se Sócrates assinou projectos de que não foi autor, e/ou se não os conferiu tecnicamente antes de assinar, é relevante. Identificar caligrafias diferentes é suficiente para descobrir parcerias, no mínimo. Interrogar os proprietários dos imóveis em causa acrescenta dados importantes, mesmo que não decisivos. E o Público faz bem em dar a notícia.

Entretanto, Sócrates defende a sua verdade. O jornal voltará à carga. Os comentadores irão perorar. Menezes é capaz de se sair com alguma tonteira engraçada. Os cães espumarão de raiva. Que está aqui a faltar? O Zé Manel. Falta explicar duas coisas:

– Vai o Público mandar os seus jornalistas fazer o levantamento, e a investigação, dos casos similares que envolvam outras pessoas?
– Qual é a posição do Público, enquanto instituição cuja missão é a de exercer um jornalismo independente do poder político, face às irregularidades do poder autárquico? E quanto à temática da corrupção? Quais são as investigações que o Público levou a cabo sobre qualquer um dos grandes casos de corrupção ocorridos desde 74?

Porque é simples. Sócrates faz parte de um sistema, cultural e geracional, que convive simbioticamente com a corrupção desde as juventudes partidárias. Para além disso, conhece os modos pelos quais se fintam regularmente as leis no Poder Local, zona de ambiguidade que tanto pode ser ocasião de aproveitamento ilícito como de proveito público, ou ambos. E domina a lógica da confluência de interesses entre os grandes empresários e os políticos com capacidade para moldar legislações, regulamentos e directivas, entregar empreitadas e serviços, viabilizar negócios. Isto não faz dele um corrupto, atenção, mas deixa-o diminuído eticamente até ao fim da sua vida ou até ao fim do seu silêncio. Silêncio que é, afinal, o de todos. Acaso alguém ignora que é impossível a Mário Soares ou a Cavaco, só para dar os mais notáveis exemplos, alegar desconhecimento em matérias da grande, da média e da pequena corrupção? Contudo, nenhum deles a denunciou. Mais, nenhum deles a perseguiu ou diminuiu; e juntos somam um quarto de século com o poder máximo nas bem lavadas mãos. Não é por acaso que os processos de corrupção são ínfimos face ao clamor popular e aos indícios na comunicação social — é porque, neste 34 anos de democracia, as elites políticas nunca quiseram combater a corrupção. Todas as pessoas que exerceram cargos públicos são coniventes, seja de que forma for. Só se salva o João Cravinho, figura mal-amada pelo povo, talvez por ser o único português sério e a sério no problema. Povo que é, por sua vez, o caótico responsável final pela democracia gangrenada que temos.

O que é complicado, mesmo confuso, é o Zé Manel. Está danado para provar que Sócrates não poderá ser canonizado, não perdendo uma oportunidade para lançar suspeitas sobre situações simultaneamente ambíguas e ridículas. Porque é ridículo querer matar a mosca pousada na testa do guarda com um tiro nos cornos. A não ser que haja vantagens em acabar com o guarda. Seguramente, o pior que poderia acontecer a Portugal, e neste momento, era Sócrates pedir a demissão por causa de uma questão moral e hipócrita. Talvez até o Zé Manel consiga perceber isso.