O caso José Manuel Fernandes – II

Saber se Sócrates assinou projectos de que não foi autor, e/ou se não os conferiu tecnicamente antes de assinar, é relevante. Identificar caligrafias diferentes é suficiente para descobrir parcerias, no mínimo. Interrogar os proprietários dos imóveis em causa acrescenta dados importantes, mesmo que não decisivos. E o Público faz bem em dar a notícia.

Entretanto, Sócrates defende a sua verdade. O jornal voltará à carga. Os comentadores irão perorar. Menezes é capaz de se sair com alguma tonteira engraçada. Os cães espumarão de raiva. Que está aqui a faltar? O Zé Manel. Falta explicar duas coisas:

– Vai o Público mandar os seus jornalistas fazer o levantamento, e a investigação, dos casos similares que envolvam outras pessoas?
– Qual é a posição do Público, enquanto instituição cuja missão é a de exercer um jornalismo independente do poder político, face às irregularidades do poder autárquico? E quanto à temática da corrupção? Quais são as investigações que o Público levou a cabo sobre qualquer um dos grandes casos de corrupção ocorridos desde 74?

Porque é simples. Sócrates faz parte de um sistema, cultural e geracional, que convive simbioticamente com a corrupção desde as juventudes partidárias. Para além disso, conhece os modos pelos quais se fintam regularmente as leis no Poder Local, zona de ambiguidade que tanto pode ser ocasião de aproveitamento ilícito como de proveito público, ou ambos. E domina a lógica da confluência de interesses entre os grandes empresários e os políticos com capacidade para moldar legislações, regulamentos e directivas, entregar empreitadas e serviços, viabilizar negócios. Isto não faz dele um corrupto, atenção, mas deixa-o diminuído eticamente até ao fim da sua vida ou até ao fim do seu silêncio. Silêncio que é, afinal, o de todos. Acaso alguém ignora que é impossível a Mário Soares ou a Cavaco, só para dar os mais notáveis exemplos, alegar desconhecimento em matérias da grande, da média e da pequena corrupção? Contudo, nenhum deles a denunciou. Mais, nenhum deles a perseguiu ou diminuiu; e juntos somam um quarto de século com o poder máximo nas bem lavadas mãos. Não é por acaso que os processos de corrupção são ínfimos face ao clamor popular e aos indícios na comunicação social — é porque, neste 34 anos de democracia, as elites políticas nunca quiseram combater a corrupção. Todas as pessoas que exerceram cargos públicos são coniventes, seja de que forma for. Só se salva o João Cravinho, figura mal-amada pelo povo, talvez por ser o único português sério e a sério no problema. Povo que é, por sua vez, o caótico responsável final pela democracia gangrenada que temos.

O que é complicado, mesmo confuso, é o Zé Manel. Está danado para provar que Sócrates não poderá ser canonizado, não perdendo uma oportunidade para lançar suspeitas sobre situações simultaneamente ambíguas e ridículas. Porque é ridículo querer matar a mosca pousada na testa do guarda com um tiro nos cornos. A não ser que haja vantagens em acabar com o guarda. Seguramente, o pior que poderia acontecer a Portugal, e neste momento, era Sócrates pedir a demissão por causa de uma questão moral e hipócrita. Talvez até o Zé Manel consiga perceber isso.

39 thoughts on “O caso José Manuel Fernandes – II”

  1. Valupi, o que aconteceu aqui é que os jornalistas do Público não fizeram os trabalhos de casa. Já disse lá na minha tasca que o Sócrates desmentiu a notícia, porque quem lhe assinou as obras foi o Platão…

    (acho que a seguir o Zé Manel vai conseguir provar que um dia o Sócrates disse a uma gaja que gostava muito dela quando afinal só a queria levar para a cama…)

  2. Assinar por outrém é como estacionar em segunda fila: só é errado (aos olhos do comum cidadão) se demorarmos muito tempo, ou se não estivermos sempre “à coca”, lá detrás do vidro da agência bancária.

    Ou, no caso das assinaturas, se não tivermos confiança na pessoa que nos pediu que assinássemos. Se Sócrates a teve ou não, problema dele. Agora já prescreveu: mesmo que as casas agora caíssem, o tempo que passou ilibaria certamente o (verdadeiro) projectista…

    O público não está interessado em nada disso, ao contrário do que crê “O Público”. Muito menos no dia a seguir às declarações de Marinho Pinto: NÃO HÁ MANOBRA DE DIVERSÃO JORNALÍSTICA QUE CONSIGA OFUSCAR ESTE ACONTECIMENTO MARCANTE!

    O Povo está atento…

  3. esta prática era comum, talvez ainda o seja. é responsável por muita da construção manhosa que por aí prolifera. nos anos 80 eram conhecidos vários casos, só na câmara da zona onde agora moro. todos os envolvidos no processo são mais do que coniventes, são participantes. o esquema era (é?): um arquitecto ou engenheiro da câmara tinha a sua prática particular. o público dirigia-se a este atelier sabendo que assim o seu projecto, por reprovável que fosse, seria aprovado. o projecto era assinado por outro profissional do ramo, dentro do atelier (poderíamos dizer «menos mal», porque nestes casos este ocupava-se da obra, mas tanto fazia, porque poderia ser igual nódoa), ou que apenas recebia uma avença para tal gesto. o projecto era depois aprovado pelo seu verdadeiro autor e todos ficavam contentes, menos aqueles que andavam ali anos a entregar projectos que cumpriam todos os requisitos e eram chumbados, até o cliente ter o bom sendo de mudar para o atelier abençoado. claro que sócrates nem deve ter posto a vista em cima dos tais projectos. fê-lo por dinheiro ou amiguismo, pouco importa.

    o problema é josé sócrates ser, agora, insubstituível. este argumento é de peso. caso contrário eu mesma me juntaria àqueles que pedem a sua demissão, pois enquanto as chefias não derem o exemplo, mostrando-se irrepreensiveis, o povo vai continuar a achar tudo isto muito normal e recomendável.

  4. Sócrates é sempre notícia. Percebo a lógica do “Público”.

    Em relação às virtudes de Cravinho, no tempo da JAE, também não quis sujar as mãos, e tinha a tutela…

  5. Ernesta, dizes tão bem. Aposto que o cabrão do Sócrates foi cabrão para isso.
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    A. Castanho, Marinho Pinto?… Mas essa peça foi um fiasco. Ou está a escapar-me alguma coisa?…
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    susana, é isso. Embora os ataques de puritanismo não sejam bons conselheiros. Haverá algum político impoluto? Só quem começar de novo, e mesmo aí nada garante a permanência do seu estado até ao fim do seu exercício do Poder.
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    Rui, estragas-me com mimos. Ainda vou conseguir fazer de ti um companheiro de lamúria por causa da demissão do Correia de Campos.
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    luis eme, tens razão. Poderia ser apenas uma estratégia de marketing, mas, se o fosse, veríamos outras iniciativas com esse objectivo. Ora, não vemos. O marketing do Público é merdoso. Assim, e por tudo, parece mais um ódio de estimação.

  6. valupi,
    seja, melhor isso que ser o mesmo, mas antes da dita cuja.
    (nunca to disse, mas acredita que a minha insistência na reflexão CC é que assusta-me mesmo, verdade, a hipótese evidentemente possível de estar errado e tu certo; detestaria estar a manipular a minha própria inteligência em detrimento dos factos só por ele ser um pitéu de disparate)

  7. valupi, não acho. quem quer fazer carreira política, ou qualquer carreira pública, deveria ter essa preocupação de ser irrepreensível no cumprimento da lei, já para não falar do rigor da ética…

  8. Os arquitectos portugueses têm muito que agradecer a Tomás Taveira. Quer queiram quer não queiram, quer gostem do pós-modernismo taveirista ou não, a verdade é que foi Tomás Taveira quem tirou a profissão de arquitecto do gueto dos coitadinhos em que se encontrava até meados dos anos oitenta do século passado.

  9. O remoque era para a Ernesta, obviamente.
    Mais uma achega. Apesar de alguma arquitectura portuguesa ter começado a ser conhecida além fronteiras a partir de meados dos anos 70, internamente continuou a ser conhecida como profissão de uns maluquinhos exigentes, até que as mal-amadas Torres das Amoreiras trouxeram uma explosão de cor a uma cidade de cidadãos cinzentos nas idéias e no trajar.

  10. Zeca Diabo,

    Já alguma vez viveu numa casa desenhada pelo Taveira? Eu já. E acredite que a experiência não foi das melhores.
    Acha que foram as Torres das Amoreiras que fizeram os “cidadãos” menos cinzentos nas ideias e no trajar? Acha que estão coloridos, é?
    Olhe, muito aqui entre nós, o último projecto que vi do Taveira foi um estudo para mil casas, leu bem, mil casas, num campo de golf no Alentejo. Acredite Zeca Diabo, o Alentejo iria ficar muito mas muito menos cinzento….

  11. o zeca diabo tem alguma razão. taveira fez pela arquitectura não o que fez pela arquitectura (Blharrg) mas ter posto a disciplina no mapa das discussões. poucos falavam em «arquitectura» antes do «vá, não chora…»

  12. MAS VOCÊS JÁ VIRAM BEM AS CASAS?????
    Eu quero lá saber se ele foi à obra ou não. Aquilo são atentados atrás de atentados. E expliquem-me: qual a diferença entre aquelas casas e o telefonema para o INEM? É o mesmo país desgraçado e analfabeto, agora entregue às mãos de uns burgessos chico-espertos e sempre a arrotar modernidade.

    Uma nota sobre o Taveira: pintar exteriores de cores garridas não faz arquitectura. O interior das Torres das Amoreiras, por exemplo, é a coisa mais desinteressante e menos imaginativa de que há memória. Pior do que aquilo só os corredores do hotel do Shining.

    Suponho que um país que no século XXI deita abaixo o Estoril-Sol porque o acha muito alto (a negociata dos terrenos não foi investigada pelo Público…) não me acompanhe na indignação.

  13. Susana, eu sei a razão que me assiste. Foi o Taveira com as Amoreiras, o Siza com o prémio Pritzker e o Nicolau Breyner fingindo ser o Arq. Qualquercoisa numa telenovela horrorosa quem trouxe visibilidade à profissão de arquitecto. Até então as famílias das faixas de remediado para cima sonhavam outras profissões para os seus rebentos.

    Ernesta, não quero discutir a qualidade vivencial dos espaços desenhados por Taveira. Apenas disse, e repito, que a profissão deve-lhe muito. Apesar da sua criminosa passagem pela direcção da Faculdade de Arquitectura da UTL. Ok?

  14. Esquecimento imperdoável: não, Ernesta, os cidadãos lisboetas continuam cinzentos na mentalidade e no trajar. E cada vez mais ignorantes.

  15. eu sempre gostei das Torres das Amoreiras, ao contrário de todos os meua ‘camaradas’ que me achavam um vendido. Em contrapartida não gosto da cara do Taveira, e a mulher parecia uma caveira loura.

    pois é verdade, é o que mais me irrita neste país: sempre danados para dizer mal em vez de darem um exemplo de resolver uma coisa, caladinhos, mas às vezes dão, muito envergonhados mas pronto

    (os mindinhos venceram como não podia deixar de ser com o apoio do dragão, pudera; já o neocortex, vencido, mas também ficou convencido, e já anda ali com uma vírgula para cima no extremo das comissuras amargas do Agostinho)

  16. O engenheiro Belmiro jurou que ia derrubar o Sócrates e há-de fazê-lo, nem que tenha de mandar fazer análises às cuecas do homem. Tem que haver merda e podres em qualquer lado. O Público trabalha 24 horas/dia para isso e já instruiu o pide Cerejo para não fazer prisioneiros.

    As Torres das Amoreiras são um dos conjuntos arquitectónicos mais bonitos e funcionais de Lisboa, excepto para as cargas e descargas, muito mal localizadas. Adoro as Amoreiras, é o meu local de compras preferido, muito mais simpático do que o Colombo ou qualquer outro em Lxª.

  17. já me está a irritar que o público on-line tenha há dois dias manchete sobre as atrocidades do Socrates, que na maior das hipóteses são coisas minúsculas. O PM está a mexer demasiado com os poderes instituídos e estes não conseguem encontrar melhor que umas dúvidas sobre o subsídio de exclusividade há 19 anos. Parabéns Socrates, passaste. E a guerra no Iraque, jmf? It is also yours, encomendo-te um eixo sagrado, recuerdas?

  18. Também gostei das Amoreiras, ao tempo. Porque, precisamente, rompia com a estagnação. Era uma afirmação de modernidade, mesmo que muito questionável, ou até chocante, para gostos educados (que não eram, nem são, os meus). Também não conheço a qualidade do espaço interior, apesar de ter visto várias vezes os filmes do Taveira [pun intended].

    Lembro-me de ouvir alguém dizer que ele copiou a sua estética do que se fazia, bons anos antes, na Califórnia. Para mim, como habitante de Lisboa, é indiferente. Para um arquitecto, talvez seja causa de vergonha. Acima de tudo, tenho a certeza que aquela espaço poderia ter sido ocupado com outros projectos igualmente vistosos, e eventualmente muito mais belos. Mas, isso, podemos dizer de tudo e mais alguma coisa.

  19. Só há uma coisa que não percebo neste texto: em que é que o facto de Sócrates ser um embusteiro profissional afecta a competência de José Manuel Fernandes?

  20. jdias, essa parte que não percebes não está neste texto. Neste texto está outra ideia: a de que José Manuel Fernandes não tem competência para director do Público, com ou sem embustes seja de quem for.

  21. Continuo sem perceber:

    O José Manuel Fernandes pediu a demissão de Sócrates?

    O que é que queres dizer com: “lançar suspeitas sobre situações simultaneamente ambíguas e ridículas.”?

    Que situações são essas?

  22. Agora estás a não perceber outras coisas. Por exemplo, é um facto que o Zé Manel não pediu a demissão de Sócrates. Isso posso afiançar-to. E as situações são aquelas noticiadas. São ambíguas porque dependem da confissão do próprio para se dilucidarem, à falta de outras provas que o jornal não apresentou. Então, ficam na ambivalência de estarmos perante duas versões, a de Sócrates e a do jornal. E é isto que é ridículo: posto que não está em causa nenhuma ilegalidade (mesmo o caso da exclusividade remete para pormenores interpretativos sujeitos a pareceres que ilibam Sócrates), o destaque dado a estas matérias – num contexto onde o jornal não investiga sistematicamente o passado de outros políticos ou casos de corrupção, seja de que ordem for – é prova de uma concepção pífia (estou a ser eufemístico) do jornalismo considerado de referência (ou mesmo sem se ambicionar a tal, também ambíguo, estatuto).

  23. Achas então que o Público tem a obrigação de escritunar a vida de todos os políticos e não apenas aquelas que escolhe por achar que são mais relevantes?

    E achas que se não o fizer, as reportagens e investigações que faz não são credíveis?

    (Penso que estamos de acordo em que a vida pública (incluido carreira profissional e académica)do Primeiro Ministro é relevante.

    Penso ainda que estamos de acordo que cada meio de comunicação social tem liberdade de escolha dos temas a que se dedica.)

    Diria que é fraco argumento contra a evidência dos factos.

    Posso-te dizer o que eu acho: é que não gostas que os favores e negócios menos claros que Sócrates fez e através dos quais chegou a Primeiro Ministro (e penso que quer o caso da Universidade quer este em que o próprio não desmente que assinou projectos que não fez são exemplos bem claros de como se sobe na vida, sempre de forma “legal”)sejam postos à luz do dia.

    E então, tentas atacar todos os que de forma clara e séria o atacam.

    Foi António Barreto há uns dias, é José Manuel Fernandes agora. A seguir quem virá?

  24. Acho que o Público tem a obrigação de escrutinar a vida de, pelo menos, dois políticos. Até agora, só o fez em relação ao Sócrates. Aguardo, ansiosamente, pelo próximo alvo.

    Quanto à credibilidade da reportagem, em lado algum a viste posta em causa. Aliás, aconselho a releitura do 1º parágrafo. Já as conclusões que o jornal tirou, e as quais colidem com as afirmações do visado, deixam de estar no campo do noticioso. Fica para cada um a avaliação da deontologia e ética do jornal.

    Quanto à tese de que ataco os que atacam Sócrates, tens razão. Mas só ataco quando as acusações são cobardes ou imbecis. Neste texto, concederás, o tema transcende o primeiro-ministro e centra-se na política editorial do Zé Manel.

  25. Porque é que são cobardes ou imbecis?

    E, já agora, se não colocas a credibilidade da reportagem em causa, o que é que colocas em causa? O interesse?

    E, finalmente: se os factos que o Público revela são verdadeiros e as reportagens credíveis, porque é que só os aceitas se se investigar pelo menos dois politicos? Em que Código é que esse aferidor de pureza e independência está escrito?

    É a partir daí que concluis pela incompetência de JMF?

  26. Sim, é a partir daqui: visar Sócrates em questões que se esgotam em ambiguidades de carácter moral, é mau jornalismo quando não se aplicam os recursos do jornal para se ser coerente (com mais nenhum político o Público aplicou semelhantes critérios). E ser director de um jornal com a responsabilidade do Publico e não investigar a corrupção em Portugal, é péssimo para a sociedade.

    O que coloco em causa é a linha editorial do Zé Manel, ao longo do tempo e não só neste caso. Já agora, volta dar-te um conselho: relê o 1 º parágrafo.

    O Código que me rege é o da minha consciência. Se para o Público é indiferente que haja corrupção em Portugal, mas já não é indiferente crucificar o Sócrates por causa de questões morais, então eu suspeito que as intenções do Zé Manel não sejam boas, sequer jornalísticas.

  27. Mas onde é que estão as “ambiguidades de caracter moral”? O que é que é ambíguo?

    É ambígua toda a evidência factual apresentada, quer no caso do diploma quer neste caso agora?

    Eu acho natural que se investigue o Primeiro Ministro, principalmente se houver dúvidas fundadas sobre a correcção ética do seu percurso profissional/académico.

    Acresce que o Público,comecou por seguir uma pista que outrém levantou, lembras-te? (por acso esse outro até foi ilibado no processo que Sócrates pôs contra ele..)

    E Sócrates é Primeiro Ministro, lembras-te? Um cargo que exige especiais condições de credibilidade e consistência ética. No passado como no presente.Logo, é natural que esteja sujeito a um escrutínio especial.

    Não percebo se queres que o Público substitua a Judiciària no combate à corrupção, só para poder apresentar pergaminhos quando apresente provas concretas e incontroversas sobre um caso concreto.

    E, uma última nota: o que são questões morais? E, sejam elas o que forem no teu diccionário: não servem para “crucificar” ninguém?

    Devias rever o teu Código.

  28. Não, rever o meu Código jamais.

    Já tu terias vantagem em conseguir ler o 1º parágrafo. Nele se começa por dizer que a notícia é relevante, que o jornal fez bem em ter feito o que fez. O facto de tu insistires em que eu estou contra a notícia, contra isso de o Público ter feito a sua investigação e ter publicado os resultados, começa a ser preocupante – para ti, entenda-se.

    A ambiguidade é aquela que resulta de haver duas versões sobre os factos relatados. Sócrates não concordou com a interpretação que se fez deles. Tu podes optar por preferir a versão do jornal. É privilégio, e problema, teu.

    O cargo de primeiro-ministro não exige especiais condições de credibilidade e consistência ética, isso é ilusão tua. O Santana foi primeiro-ministro, lembras-te? O que se exige é só uma coisa: votos, nas urnas ou no Parlamento. Casos não gostes da receita, muda-te para um país onde não vigore o regime democrático.

    Eu quero que o Público não se substitua ao jornalismo. Já me chega. Ter um jornal e estar preocupado com a vida privada de Sócrates nos anos 80 é legítimo, mas não chega para se cumprir um ideal de defesa da verdade. Pois os casos que nos afectam a todos gravemente não são investigados de nenhuma forma, e não creio que nos levem para a estética arquitectónica da Guarda há 20 anos.

    Questões morais são aquelas que remetem exclusivamente para as hierarquias de valores. Os valores são construções subjectivas. Assim, estar a discutir uma questão moral não se confunde com a discussão da política. Por exemplo, para ti os militares que fizeram o 25 de Abril eram todos à prova de investigações de carácter moral? E, caso se descobrisse que tinham roubado, ou encornado os amigos, ou mentido às finanças, deveriam – na tua opinião – ser convidados a abandonar o Movimento de Capitães? Aguardo a tua moralista resposta.

  29. Moralista, aparentemente aqui só há um e és tu. Embora seja uma moral estranha: aplica-se a José Manuel Fernandes mas não se aplica a Sócrates.

    Esta tua frase diz tudo sobre questões morais: “O cargo de primeiro-ministro não exige especiais condições de credibilidade e consistência ética”.

    Concluo que defendes portanto politica sem moral (julgo que queres dizer ética, mas tu lá sabes que diccionários usas). Acho bem, estás de acordo com o Sócrates que tanto defendes, é coerente.

    Já no jornalismo, exiges o maior rigor ético, confundindo aliás ética com competência o que é enecessário na politica….

    Deve ser a chamada subjectividade dos valores.

    Enfim, Valupi, acho que estamos esclarecidos.

  30. aqui, outra vez, um hum abusivo? Pois então, e voltando ao tema do post, eu tinha decidido fazer greve ao Público, mas hoje saia o caderno do Vieira e furei logo a greve. Vã lá que o resto despacha-se em 2 minutos e papeleira no combóio (quando estou bonzinho deixo entalado entre dois bancos).

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