Os bombistas

Pacheco Pereira juntou-se a Garcia Leandro e Manuel Alegre. Também ele ouve vozes que anunciam uma explosão. Para mais, aconteceu num supermercado. Ou seja, a informação veio de um consumidor, seres que para interromperem a sua obsessiva actividade recolectora têm de ter algo de importância catastrófica para transmitir. Pacheco diz que são sinais. E são: sinalizam que o general já não está só na ala dos que sentem a sua resistência psicológica a diminuir. Vai daí, o nosso publicista favorito nem se apercebe do disparate no raciocínio: não é a crise económica e social grave que gera uma peculiar sensibilidade a questões como a corrupção, é a corrupção que gera a crise económica e social grave. Enfim, mas de que espera para se apresentar como alternativa? Que impede Pacheco Pereira de substituir Menezes?

A única coisa que está para explodir é o medo de pensar e de agir, de voltar à política. Mas não serão estes bombistas de Carnaval a acender o rastilho.

28 thoughts on “Os bombistas”

  1. Parece-me pertinente transcrever para aqui uma frase da autoria do rvn, no post anterior, cuja assertividade é inquestionável e se configura atinente ao assunto do post e ao alerta do JP Vinhos – vulgo Pereira.

    “(…) metam as bombas no cu e poupem nos danos colaterais”.

    Naturalmente, quem tem cu tem medo.

    Até já.

  2. O José Pacheco Pereira tem encontros com bombistas no Pingo Doce?

    Fica aqui o aviso à atenção do Observatório do Terrorismo dirigido pelo coronel Leandro, se ainda não estiver em coma.

    E sempre achei o JPP um estouro! PUM! Um portento de inteligência e fineza de análise. CATRAPUM!

  3. Explosões que vão haver é a coisa mais banal do mundo… agora imaginar o Pacheco pereira às compras no supermercado é que me parece coisa do outro mundo, é coisa que nem na mais delirante ficção científica dos anos 40 (aquela das grandes capas, que ele mete lá no blogue) seria imaginável.
    Que o Santana Lopes foi Primeiro-Ministro ainda consigo acreditar, mas o Pacheco no supermercado… nem no poema do Allen Ginsberg.

  4. Esta crítica é um bocadinho curta de vistas, Quem é que diz que o JPP está a falar do mesmo do Garcia Leandro? A mim parece-me mais que se refere, como ele diz noutros textos, à possibilidade de uma crise social, de greves, de agitação de cosias como a da Ponte que acabou com o Cavaco, e não percebo como é que um homem de esquerda como o Valupi acha isso estranho. Não metam tudo no mesmo saco, porque não se pode meter. A crítica é muito injusta.

  5. Isto é outro erro na crítica ao JPP: “não é a crise económica e social grave que gera uma peculiar sensibilidade a questões como a corrupção, é a corrupção que gera a crise económica e social grave.” Qualquer sociólogo lhe dirá que a “percepção da corrupção” e a “corrupção” são duas coisas distintas. É essa distinção que faz o JPP e que Valupi esquece.

  6. foreman, concordo que a crítica é curta de vistas e muito injusta. Agora é a tua vez:

    – Tens de concordar que o JPP está a falar do mesmo que falou Garcia Leandro, pois o general referia-se precisamente a esse tipo de contestação.

    – Tens de concordar que eu não sou de esquerda, porque to estou a dizer; e de caminho também te digo que não sou de direita.

    – Tens de concordar que não importa para nada estar preocupado com a percepção da corrupção, até será suspeito. O que importa é diminuir a corrupção, fazer tudo para que se aproxime do zero em ocorrências ou danos. E nisso o JPP tem responsabilidades, por inerência do seu estatuto de comentador público.

  7. Valupi

    Está a falar do mesmo mas não está a dizer o mesmo. É essa a diferença. Não está a propor nenhum golpe de estado, está a dizer que há condições para agitação social, para coisas como as de Paris ou da Ponte, mesmo que em menor grau.

    E desde quando é que JPP não tem combatido a corrupção no seu estatuto de comentador político como tu lhe chamas? Já o ouvi na QC dar exemplos muito concretos de corrupção e ataca-la sempre sem desresponsabilizar os político, o mesmo no Público, e mesmo como dirigente partidário foi pioneiro em ser o primeiro a apresentar contas auditadas, numa altura em que ninguém fazia isso, em fazer aprovar uma moção na Distrital de Lisboa do PSD definindo incompatibilidades entre a construção civil e as vereações, em correr um vereador corrupto em Loures. Conheci muito bem este último caso porque estava do outro lado, do PS, e espantei-me tão inédito era o caso e disse aos meus amigos que deviamos seguir o exemplo, sem efeito.

    O que eu discordo é que tu acabes por ser mais duro com quem fez e faz alguma coisa, acabando por ajudar à misturada do todos são iguais. Este não é e por isso é que é tão atacado. Tenho admiração por ele, mas só quando estiver morto é que as pessoas vão reconhecer a diferença.

  8. Não vai haver “explosão” nenhuma, pelo menos para já, até porque daqui até às eleições o motor vai saír da fase da “Compressão” e passar directamente para a fase de “Escape”.

    Mas, no entanto, os sinais não devem ser desprezados. Não porque estejamos a atravessar uma crise social tão grave como outras que já atravessámos, sobretudo em 82-84. Mas porque é inquestionável que Portugal FALHOU O OBJECTIVO EUROPEU, que vai atravessar uma longa época de frustrações e de desencanto, que nem sequer pode já contar com as miragens dos “amanhãs que cantam”, das Índias, Brasis, ou Europas, já não se fabricam ilusões de progresso científico e tecnológico sem contrapartidas apocalípticas apensas e, neste pano de fundo, qualquer faísca interna ou externa – e para isso, como se sabe, basta “caír um raio” – pode tranformar-se na “Ignição” de qualquer coisa…

    «MIND THE GAP!…»

  9. Luis Saragoça, concordo contigo. E eu não me ficaria pelos últimos tempos.
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    foreman, estás a falar bem. Vamos lá ver se consigo falar ainda melhor.

    Que o Pacheco Pereira é um contribuinte de peso para a democracia, não está em causa. E é até dos raros que assume o combate à corrupção, mesmo que de forma inconsequente e aleatória (por exemplo, o seu texto sobre o “meio” do Porto foi corajoso, mas as patifarias indiciadas no PSD e CDS, ao longo dos anos e logo desde o cavaquismo, nunca lhe mereceram preocupação, sequer especial atenção). Dito isto, tenho-o como um comentador valioso e acho o Abrupto um blogue notável e socialmente muito relevante. Também como político o seu afastamento me pareceu estar relacionado com o seu escrúpulo, não querendo ele coabitar com fauna selvagem que conhecia de ginjeira do partido, das autarquias, do parlamento, da política enquanto negociata. E se há mérito na sua distância, há igualmente demérito no que silencia. Inevitavelmente, alguém como Pacheco Pereira tem muito, e grave, para guardar calado (não me refiro a actos próprios, mas a conhecimento sobre terceiros).

    Quanto ao episódio que aqui nos reúne, trata-se de apontar uma fraqueza, muito perniciosa: ceder à paranóia, alimentar a psicose que gerou os fenómenos Santana Lopes (o primeiro a falar na explosão), Garcia Leandro e Manuel Alegre. E creio que Pacheco Pereira reconhece isso mesmo ao ter publicado uma crítica que reflecte a ideia subjacente ao que escrevi (ver post no Abrupto).
    __

    A. Castanho, mas que explosão seria essa?! A ideia é completamente absurda, típico fenómeno de alucinação colectiva que tem agitadores identificados, e que medra porque o ambiente é, de facto, de mudança cultural. Talvez alguns malucos saiam à rua para destruir propriedade privada, mas estarão em conflito com quem e a reclamar o quê?… Claro, tudo é possível, mas também tudo seria ridículo.

  10. OK Valupi, estamos a chegar a bom termo, mas ainda não. É natural que como sou mais velho do que tu , penso eu, lembro-me de mais coisas que na altura não eram valoradas como são agora e por isso ficaram esquecidas, como a varridela que JPP fez no grupo do PSD depois da história do Duarte Lima, o facto dele ter sido dos poucos deputados que ficou de fora das viagens-fantasmas onde o Menezes estava metido até ao pescoço e não me lembro de uma única patifaria a que ele desse cobertura, isto só para lembrar o tempo do cavaquismo. Também estou convencido que não diz tudo o que sabe, mas não o vejo a denunciar pessoas. Porque é que tu dizes que isso é inconsequente e aleatório? É injusto no caso dele, e este que te escreve é do PS embora muito afastado. Muito afastado, também por saber demais. Felicidades para o Aspirina B que leio sempre.

  11. foreman, não duvido que saibas mais do que eu; aliás, apostaria tudo o que tenho como sim. Mas o facto permanece: a única pessoa em Portugal a ter assumido a causa da luta contra a corrupção foi o João Cravinho. E não adianta apontar iniciativas avulsas deste ou daquele pois a questão não admite fogachos. Tirando os que são cúmplices (e, num certo sentido, a maior parte da população é cúmplice), os outros têm medo. Ora, quem tem medo alimenta o crime. Este ponto é essencial: quem não lutou contra a corrupção, alinhou com ela. No caso do Pacheco Pereira, encontrou refúgio, e conforto, no espectáculo. A sua função como comentador não tem alcance político relevante, ele é um actor e a peça chama-se “agora apetece-me dizer isto”.

    Aliás, a campanha do JPP contra Sócrates é velhaca e indigna. O resultado está à vista: desnorte completo na sua reflexão. Se fosse honesto e patriótico, conseguiria fazer verdadeira oposição e inspirar outros. Assim, tem sido apenas mais um a alimentar esta perigosíssima forma de corrupção que consiste em confundir oposição com destruição.

  12. Valupi, claro que alimentar publicamente o alarmismo e cenários de paranóia não é saudável, nem nada construtivo, antes muito pelo contrário.

    O que eu digo é que sim, há um mal-estar latente, uma “anomia” social, de que fala por exemplo o M. Villaverde Cabral, e que isso deve ser tido em conta por quem de direito, precisamente para despoletar, ou desactivar, as eventuais hipóteses de aproveitamento demagógico desse mal-estar e sua transformação em algo de pernicioso para a Democracia e o País.

    Isto não acho nada ridículo nem menosprezável. Seguramente nunca ninguém consegue prever convulsões socias. Até porque, se assim fosse, elas nunca eclodiriam. Mas que elas se podem dar e que são sempre diferentes do que se espera, disso podes escarnecer à vontade, que é absolutamente irrelevante.

    Tal como o De Gaulle não imaginava que o Maio’68 iria tornar vã e inglório o final da sua bem sucedida carreira política, ou o Cavaco que uns malucos na Ponte iriam provocar o fim da sua era governativa (se é que houve ou haverá alguma outra, isso é questão diversa), ou o Nixon adivinhar que um insignificante jornalista…

    Mas, se preferes encolher os ombros…

  13. A. Castanho, tens razão na parte das possibilidades, mas não no das probabilidades. Acontece que em Portugal não há nada que suscite revolta direccionada, a não ser a própria demissão cívica das populações. Assim, até seria bom que viesse uma Ponte mobilizadora que não fosse apenas o aproveitamento de um feriado para comer mais um dia à produtividade.

    No caso do cavaquismo, havia todo o interesse em acabar com o ciclo. No caso do socratismo, há todo o interesse em que consiga completar o ciclo. É o oposto, embora com efeitos análogos – ou até mais agudos agora – no campo da oposição por esta estar moribunda.

  14. Acho que não, Valupi, há muita gente desiludida, mesmo à sua volta, pelo que o seu ciclo não será assim tão longo (apesar dos tiros nos pés do PSD)…

    Para não falar do país, cansado e farto das políticas com pouco sentido em áreas como a saúde, a educação, o emprego, a justiça, etc.

    E nem vou sequer falar das “mentiras” e mentirinhas”, espalhadas aqui e ali, pela máquina de propaganda…

  15. luis eme, mas o teu discurso não se aguenta nas canetas. Se é facto haver um registo de lamúria e desespero, não menos verdade é ele vir de sectores que são factor de inércia, paralisia e obstáculo. Ao lado, e daí também o aparente paradoxo das sondagens, há a tal maioria silenciosa que apoia o governo porque testemunha a boa-fé das medidas.

    Outra questão é a eficácia da política. Mas, mesmo por aí, é notável o que este Governo alcançou por comparação com os anteriores e tendo em conta o contexto internacional.

    O problema de Portugal é este: estamos em trabalho de parto; isto é, a democracia ainda não acabou de nascer.

  16. Eficácia da política? Notável Governação (comparado com quem, com o Durão e o Santana?… pois)?

    Só se for na redução do défice, Valupi…

    De resto, o país está o que se vê: há pior educação, pior saúde, mais desemprego, mais precaridade no emprego, pior justiça, mais pobreza, mais fome, etc.

    Eu sei que existe mais que um país, há pelo menos o país do Sócrates, em que é tudo simplex e tretex, e o país dos outros, onde os direitos são reduzidos e os deveres aumentados, e nem vou falar do poder de compra…

    Claro que estas palavras, mal se aguentam nas canetas, se calhar até são “propaganda” negativista, cá do Paraíso Socrático…

  17. Sim, comparado com Durão e Santana, e tendo em conta a situação por eles criada, a qual originou a mais grave crise política depois da morte de Sá Carneiro. Mas também pelo facto de se ter assumido o desafio de fazer reformas, coisa que nunca ninguém tinha assumido antes.

    Não sei porque dizes que o País está pior. O que eu sei é que parte do nosso mal está na nossa demissão cívica e na nossa inércia política. Isso de esperar que o Governo tudo resolva é salazarista. E isso de ignorar o que o Governo faz que melhora, é corrupto. Corrompe a democracia.

  18. oh pás, cuidado com uma coisa: posso estar enganado mas desconfio tanto do discurso eufórico como do pessimismo estrutural, porque penso que este último faz parte dum dispositivo de ataque da mamã inglaterra desde os tempos de Windsor, para nos dar cabo da auto-estima e sacar algo importante.

    À caça dum diamante famoso, o Braganza, fui parar a uma história onde lidei de perto com o Alves Reis e depois fui à I Guerra e aos empréstimos e é tão simples como se segue: a mamã recuperou o padrão-ouro para o esterlino à conta das reservas de Portugal, jovem, espantada e ingénua república. Tão simples quanto isto.

    Creio que Portugal será único nos seus mais de 800 anos de rei alçado pelo seus pares, as tropas em Ourique, o povo em 1383-5, os nobres em 1640.

    Em qualquer caso o rei de Portugal não era coroado, nem ungido, apenas aclamado.

  19. Não estou nada de acordo com o luis eme. Nesse sentido, valupi tem razão: a raiva cega de besta ferida que move a Direita social e política contra este Governo e, através dele, contra o Progresso e a Democracia, nunca será passível de se conjugar com a tumultuosa e inorgânica contestação ao mesmo por parte da “extrema-esquerda”, por mais que os alquimistas da opinião publicada (que são demasiado incompetentes para tão espinhosa missão) façam por tentar fabricar o contrário.

    A extrema-esquerda pode ser estúpida, mas não tanto que alinhe irresponsavelmente com a Direita numa campanha de agitação social anti-Governo.

    E a Direita pode espumar de ódio e vingança, que mesmo assim nunca se rebaixará a admitir que está na mesma luta que a causa comunista.

    Por isso, não é a continuidade ou estabilidade governativa que me preocupam. Essa está mais ou menos adquirida, nesta delicada e instável fórmula Silvo-socrática, ou Socrático-cavaquista (não percebi ainda muito bem).

    Preocupa-me algo mais profundo, que valupi não enxerga, ou desvaloriza: o descontentamento social sem alvo definido (o que pode ser mais nocivo do que valupi supõe) ser manipulado e dirigido não contra este Governo, Primeiro-Ministro, ou o P. S., mas precisamente contra as instituições democráticas em si, ou seja, contra o sistema instaurado pelo 25 de Abril.

    O que não me parecendo um perigo imediato, considero dever ocupar em alguma percentagem as preocupações dos nossos responsáveis políticos – incluindo governantes, oposições, agentes administrativos de hierarquia elevada e, igualmente, os intelectuais e os fazedores de opinião alheia…

    Mais claro agora?

  20. A. Castanho, discordo. A análise da SEDES o que faz é alinhar no alarmismo que está ao serviço dos reaccionários. Porque em Portugal há muitos reaccionários, como se sabe. E repara: a SEDES não bota faladura sobre tudo o que é fonte de modernização e liberdade. Acaso? Não, intenção de alimentar a ansiedade. É o que fazem os irresponsáveis quando estão com medo.

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