
Arquivo mensal: Setembro 2007
Dois selvagens ao piano ou a guerra das flores

A revista Lux do passado dia 4 de Junho trazia esta bacorada atribuída em discurso directo a um tal José Piano que com um seu irmão (também Piano) mantém uma loja de flores na Avenida da República: «Não é preciso comprar numa florista a cheirar a flores para mortos, pode fazê-lo numa florista com bom ar e sem ter de gastar muito dinheiro com isso.»
Trata-se de um gesto miserável que repete um outro no passado mês de Março na revista «N.S.» do Diário de Notícias, quando uns pobres de espírito que são donos de umas lojas de flores aqui no Bairro Alto chamaram às outras floristas da nossa zona «floristas de esquina». A jornalista Vera Moura assinalou-me a repulsa que lhe causou ter que escrever (transcrevendo) essas ridículas palavras, mas obviamente teve que as reproduzir tal como foram afirmadas por esses pobres de espírito.
Todos nós sabemos que isto está mal, a luta pela sobrevivência está a atingir proporções terríveis. Mas há um mínimo de dignidade que é preciso manter. Um pobre diabo, só porque tem uma loja de flores, não pode insultar os outros que também possuem lojas de flores. Não tem esse direito. Chamar a alguém «florista de esquina», ou dizer que esse alguém vende «flores para mortos», é uma atitude infame que não tem perdão. Até porque essas pessoas podem não saber francês ou tocar piano, mas são pessoas dignas, simpáticas e competentes no seu trabalho que ajudam a tornar a nossa vida um pouco menos cinzenta.
Apetece-me dizer a esses selvagens ao piano e a esses pobres de espírito uma fala popular que ouvi há pouco tempo aqui na rua: «Gandas malucos, vão vomitar para outro prédio!»
José do Carmo Francisco
Boa viagem, Abrupto

O nome do Abrupto viaja na nave espacial DAWN, a caminho de dois pedregulhos que pairam entre Marte e Júpiter.
Pelas magníficas fotos do Universo, mormente o mais próximo, que o blogue de JPP regularmente publica, pelo interesse na astrofísica que nele se suscita – boa viagem… Abrupto.
promoções
pedagogia positiva
A doideira
Temos um seleccionador nacional de futebol que tentou esmurrar a cara de um jogador de uma selecção adversária, ainda no relvado. Nessa mesma noite, depois de se acalmar e poder pensar, foi a uma conferência de imprensa negar a realidade. No dia seguinte, foi a uma televisão negar a responsabilidade. Dias depois, conhecida a sanção da FIFA, anunciou que ia tentar negar a moralidade. Com o conluio do presidente da Federação Portuguesa de Futebol, e com o silêncio da tutela.
Temos um político acabado, desgraçado, gozado, que morre de inveja de um treinador de futebol. Esse político é chamado à televisão para dizer umas banalidades que ninguém — ninguém — tinha qualquer interesse em conhecer, muito menos em perder tempo a ouvir. Aconteceu-lhe a supina sorte de o invejado treinador ter aterrado em Portugal à hora da sua declaração. Logicamente, o canal dedicado às notícias dá a notícia que a audiência estava interessada em ver: as imagens e as palavras do treinador, fossem quais fossem, umas e outras. O canal era de notícias, e só de notícias. O canal tem como missão aquilo que fez: dar directos da actualidade, do que constitua a actualidade, sem discriminar, sem tomar partido, sem se substituir à actualidade. O canal gastou 1 minuto com o treinador e voltou ao político. O político tinha um percurso onde se misturava a política e o futebol de forma indiscernível e indescritível. O político devia a maior parte da sua popularidade e poder aos favores que o futebol lhe fizera e que ele retribuíra por cima e por debaixo da mesa. O político era também a ostensiva manifestação da venialidade e da vanidade. Acossado pela própria decadência, sem esperança de conseguir voltar à ribalta, farejou um brilharete: fazer de puta ofendida. Acertou em cheio no País. No dia seguinte, o dia mais imbecil da História de Portugal, era unânime o louvor àquilo que a hipocrisia de uns, a inanidade de outros e a cobardia de todos chamou de coragem. Porque Santana se tinha virado contra a televisão, esses malandros que insistiam em transmitir exactamente aquilo que as audiências queriam ver. O mestre da popularidade dava um golpe de populismo magistral. Criava um estudo de caso em manipulação, um automático clássico destinado a ser citado e investigado pelos anos afora em academias e institutos onde se estude a demagogia. O povo aplaudiu, ejaculou com a opção de Santana: em vez de ter continuado a falar do PSD, e de ter apenas puxado as orelhas aos seus amiguinhos televisivos mas continuando a rebolar-se no charco da sua irrelevância opinativa, resolveu acabar com aquela chatice e ofereceu uma peixeirada à audiência. Isso sim, é o que faz falta para animar a malta. Política não, muito obrigado. E prontos — com uma palhaçada, e mais uma vez à conta do futebol, Santana voltava ao circo da política. Entretanto, o povo, agora (e sempre, e para sempre) adepto de Santana, irá continuar a perseguir o Mourinho, e os milhões do Mourinho, e a soberba do Mourinho, para onde quer que ele vá. E ai do canal de televisão que não lhes der o Mourinho a peidar-se numa esquina de Setúbal, pois não irá recolher a sua numérica presença para mostrar aos anunciantes. Santana, por causa do Mourinho, é agora um Mourinho na pele de Santana: pode voltar a treinar várias equipas. Pode voltar para o parlamento, para a televisão, para o futebol, para o tal País que o aclama e se delira a seguir em frente, com palas nos olhos, à nora.
Temos um partido da oposição cujos militantes acham que Menezes é melhor que Mendes. Acontece que eles têm razão. Com Menezes, o PSD acaba mais depressa. É melhor para todos.
Sir Ken Robinson_Do schools kill creativity?
Qual? O tal
Desaparecer um jornal é mais triste (mas muito melhor) do que desaparecer uma floresta. Mesmo que seja um jornal que não valia o dinheiro do papel em que era impresso. E isto diz quem sabe, que o leio desde o primeiro número (mas nunca o comprei), sem falhar uma semana (era uma chachada, uma cápsula dos anos 80).
O próximo a acabar é o tal. Mas qual?
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MANIFESTO
A estupidez ganhou mais uma batalha. Cristo aconselha a dar a outra face, e já o fiz aqui uma vez. Mas isso foi com o Jorge Carvalheira, homem de grande talento e que, no caso, tinha alguma razão. Todavia, a face que podemos dar, se a tanto nos chegue a tolerância, é a nossa mesma. A dos outros, devemos defendê-la o melhor de que formos capazes. E vocês escolheram o momento errado para o fazerem, ó acéfalos dos pseudónimos multiplicados. Porque, monstros do absurdo, atingistes uma família exemplar. E já aí vinha aparecendo o mote da menoridade mental das ilhas. Ilhas onde nunca se queimou uma rapariga por ter fama de bruxa, como na zona geográfica, e umas duas décadas antes, do conto que não passa de um capítulo truncado de um livro meu. E, enquanto socialistas e comunistas lutavam em Lisboa pela divisão do país entre si, aqui sofríamos juntos prejuízos graves na integridade física e risco real de vida, para que Portugal, ao menos no mapa, continuasse unido. Eu fui um dos principais alvos, e nunca virei a cara à luta. Mas essa era uma luta que valia a pena, embora, perante casos como o desta turba ululante que andou a morder-me, chegue quase a duvidar de que sim. Ser português com gente desta envergonha. Porque foi gente assim que fez dos liberais ditadores tão violentos como os partidários de D. Miguel, que espatifou o ideal republicano, que ofereceu a cadeira onde haveria de sentar-se o homem de Santa Comba.
Eu admiro há muito tempo o Fernando Venâncio, e há uns vinte anos sou amigo do José do Carmo Francisco, que também admiro. E depressa me tornei um entusiasta da escrita do Jorge Carvalheira e do Valupi, e das aparições da doce Susana. Mas não suporto o grau zero da inteligência afectiva da turba acéfala de comentadores. Por isso lhes deixo o meu desprezo. Sem um pingo de remorso nem uma gota de ódio. Porque o não merecem.
Ficai-vos na sombra de onde espreitais as vítimas que aleatoriamente escolheis. Sede felizes em assassinar moralmente quem vos apetecer. Já sabeis o meu nome, embora pouco saibais de mim. Não procureis conhecer muito mais, para vos sentirdes mais à vontade a continuar ferindo, se vos der na gana.
Tenho pena de que um blog tão bem concebido atraia tal multidão de porcos. Que hão-de continuar a abocanhar as pérolas frequentes que aqui aparecem. O problema é com os bons joalheiros que cá existem. Que continuem, se a tanto lhes bastar o ânimo. Por mim, a experiência foi já suficiente.
Não quis reagir a quente, mas afinal a lucidez foi-me perturbando cada vez mais. E pela última vez peço desculpa: àqueles cujos nomes referi, sobretudo ao Fernando Venâncio.
Para eles, o meu abraço e a minha disponibilidade total. Mas não aqui.
DANIEL DE SÁ
Os índios e a coboiada
Que o PSD seja uma tribo de selvagens cortadores de escalpes, não é novidade. Mas a actual situação extravasou, saltou dos limites da reserva para o saloon. Há índios pendurados nos candelabros e a levantar os saiotes às coristas. Neste momento, sabe-se que um contingente de 200 índios da Amazónia invadiu Portugal com o sinistro intento de votar no Pequeno-Chefe-Mendes. Felizmente, o Dava-Tudo-Para-Ser-o-Chefe-Menezes detectou a marosca. Resultado, desses 200 só sobreviveram 22, e nem sequer são amazónicos. Serão índios, sem qualquer dúvida, mas cuidado com a geografia.
Tudo isto se passa num partido que se propõe governar Portugal em 2009. Será do Maringá?
A evidência
Já agora, ó Santana, e na tua tão reconhecida capacidade de governo, conta aí como é que se faz para que o País ande para a frente
Santana Lopes acha que o País está doido. O País acha que Santana é louco. Mas a tentação hipócrita já levou insuspeitos publicistas para o aplauso ao abandono da entrevista, validando o argumento: o futebol não justifica directos que interrompam políticos. O que se vai, necessariamente, seguir irá espantar o Mundo, pois estes que se emocionam no oportunismo bufão ficam com o ónus da coerência. Terão de denunciar as promiscuidades, as negociatas, as vergonhas que têm marcado os 30 anos de simbiose entre política e futebol. Temo que a casa venha abaixo se lhe faltar a trave-mestra.
Mas isso, falar do que importa, eles não farão. Porque é perigoso. Ou porque também desfrutam de uns confortáveis lugares em camarotes de mordomias várias. Pelo que os políticos continuarão a ir em romaria aos estádios, continuarão alegremente, em sintonia com a alegria do povo, a interromper sessões parlamentares, actividades ministeriais, protocolos de Estado. Não há culpa quando há jogo da bola. Os políticos, afinal, também são humanos, precisam de estar junto dos amigos e dos amigalhaços, a sofrer pelo clube ou pela Nação. Somos todos iguais, todos irmãos, quando se trata de ficar a olhar para uma rapaziada em calções.
O abandono da entrevista, pelo artista Santana Lopes, só admite duas causas: foi por inveja ou por ciúme?
Primícias – 2

O exército é o espelho da nação, e isto era o que se lia nos panfletos colados a esmo nas ruas da cidade, virava-se uma esquina e logo tropeçavam os olhos naqueles rectângulos de cor envergonhada e baça, não tão baixos que pudesse mão herética meter-lhes a unha e silenciá-los, nem tão altos que risco houvesse de perder-se na atmosfera da tarde a jaculatória patriótica, o exército português é tão bom como os melhores.
Muito melhor que os melhores, diremos nós para que a verdade se saiba, pois convém a César dar o que de César é. E para o provar vamos ali à foz do Massanza, um destacamento avançado onde um pelotão de atiradores vai defendendo a soberania, do outro lado do rio alastra na paisagem, entre arames farpados, uma sanzala de realojados, que estendem ao sol as misérias da lepra.
Um dia os rústicos soldados saíram dos abrigos e deram-se a construir uma pista de aterragem, tinham-lhes prometido uma avioneta que poisaria ali uma vez por quinzena, não há nada melhor para romper o isolamento, para resistir à loucura ou receber o correio que houver, sempre se tem a ilusão duma ligação ao mundo. À custa de tempo e de suor aplainaram à mão esta faixa com dez metros de largo, esquartejaram umas dúzias de mangueiras bravas que arrastaram para as bermas, a pista começava logo à beira do rio e alongava-se até tropeçar ao fundo na colina, o resto do milagre haviam de fazê-lo os aviadores. E um deles o terá feito, uma vez sem exemplo, aterrou um dia a passarola mas só saiu daqui deixando atrás a carga toda e metade da gasolina, que a pista foi celebrada com cerveja mas não ia além de sessenta metros mal medidos, tudo quanto podemos fazer é passar em voo rasante e largar os sacos de biscoitos e massa, é largar as latas da marmelada e do atum, é largar os sacos do chouriço e da carne, se a houver.
E foi a partir daí que toda a canzoada da sanzala passou a regular a vida por um estranho calendário, mal se ouve ao longe o roncar dum avião e logo os bichos se põem a atravessar o rio, espadanando na água as patas frenéticas. Cada um escolhe o seu terreno ao longo da pista, e é vê-los a disputar aos irados soldados os restos dalgum saco rebentado, lá vai este a fugir para o mato com um par de chouriços nos dentes, aquele abocanhou um pão, a princípio ainda se ouviam tiros e rajadas a afugentar os bichos, agora já nem isso, toda a gente afinal concluiu que a vida custa a todos, que todos ficam parecidos no retrato, o exército português é melhor do que os melhores.
Jorge Carvalheira
Laura

Laura, a mais maldita e mais desejada em toda a serra… Olhos como os seus Deus não deveria dar a uma mulher destinada a ficar viúva tão moça ainda. Ou teria ela de os não ter ou teriam os homens de andar cegos para que não vivesse sempre em risco de perdição. E tudo no seu corpo estava-lhe feito à medida, ou pelo mesmo valor das duas pérolas negras que faziam coruscar desejos.
A única fortuna que lhe ficara, depois de o marido morrer, foram aquele corpo e aqueles olhos que já levara no dote. “Negros como os do Diabo”, diziam as velhas pudicas, compondo as saias nas pontas dos pés, ou as raparigas invejosas de os seus não serem iguais. Para elas, beleza e pecado eram causa e consequência, lodo e lódão sinónimos absolutos. Em reservada lura se acoitaria ela, sem nunca se ver o efeito da devassidão. Pois pudera! Se vivera quatro anos com o marido sem gerar alma viva… Era estéril, erma como os penhascos da serra, podia dar-se a gostos sujos sem nunca ter de lavar cueiros.
DANIEL DE SÁ
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Os livros nas prateleiras do IKEA
Uma recente e dolorosa experiência em Alfragide nos Armazéns IKEA, durante um dia que parecia nunca mais acabar, levou-me a ver aquela coisa das prateleiras das mobílias em exposição com outros olhos. Há dezenas de prateleiras em dezenas de móveis de cozinha, de sala de estar e de quarto, prateleiras povoadas por livros a sério. Livros verdadeiros. São centenas e centenas de livros escritos em sueco, editados em sueco e de escritores suecos mas não só. Por exemplo há livros de Vidiadhar Surajprasad Naipaul que não é sueco (nasceu em Trindade e Tobago em 1932), mas tens livros seus traduzidos em sueco. E alguns deles estão no IKEA de Alfragide.
Mas a comunicação é impossível. Ninguém lê V. S. Naipaul em sueco no nosso país. Ninguém lê os romancistas suecos que escrevem livros em sueco comprados pelo IKEA para povoar as prateleiras das mobílias de cozinha, de sala de estar e de quarto. Aí é que bate o ponto. Livros suecos em Portugal nas prateleiras do IKEA não foram, não são nem serão nunca lidos por ninguém. Se o efeito era apenas fazer sombra nas prateleiras, não era preciso ser com livros verdadeiros, porque o efeito será o mesmo seja o livro a sério ou seja a fingir. E assim há muita gente na Suécia que não lê esses livros.
A mulher do António Alçada Baptista tinha o hábito de responder quando ele lhe perguntava o que devia fazer a uma coisa fora de uso, como por exemplo uma lista telefónica, «Dê isso a um pobre!». Mas o problema é que não podemos aplicar esse exemplo ao caso do IKEA. De maneira nenhuma. Na Suécia não há pobres.
José do Carmo Francisco
Musiquinha para desopilar
Um hino à vida
No Correio da Horta de 26 de Outubro de 2006, li um “Agradecimento” que me emocionou muito. Vinha acompanhado da fotografia de um menino, chamado Guilherme, e referia duas datas: 10/08/2001 – 27/09/2006. Nada mais. Mal acabei a leitura, peguei numa folha de papel e numa esferográfica, e improvisei um breve poema.
Depois vim a saber que aquele menino era neto de Antero Gonçalves, um dos nomes míticos do desporto açoriano. Atleta de várias modalidades, foi no futebol que se tornou famoso. No Fayal Sport, o clube mais antigo dos Açores. Um Homem extraordinário. Enviei-lhe o poemazinho, e ele acabou por me pedir autorização para o gravar numa lápide em memória do neto. Aqui vos deixo o “agradecimento” como lição de vida, ou do sentido da vida, só possível em espíritos de eleição. E o poemeto.
“AGRADECIMENTO. Aos meus queridos avós, primos, padrinhos, tios e familiares. A todos os da minha orgulhosa Escola B1/J1 da Vista Alegre – coleguinhas, professores e auxiliares de educação. Aos meus companheiros de futebol e aos treinadores da Escolinha de Futebol do FSC. A todos os amigos dos meus pais que simpatizaram comigo. Aos médicos, enfermeiros e funcionários do Hospital da Horta que sempre foram muito carinhosos comigo sempre que precisei de lá ir. Aos meus grandes amigos médicos Drª. Isabel Gonçalves, Drª. Carla Veiga, Dr. Emanuel Linhares Furtado e restante equipa, enfermeiros, auxiliares de acção médica, professores da salinha de actividades e funcionários do Hospital Pediátrico de Coimbra, e por último a todos aqueles que me acompanharam na igreja Matriz da Horta numa maravilhosa celebração eucarística no dia em que cheguei ao meu querido Faial, o meu agradecimento por me terem permitido ser tão feliz durante os meus 5 anos de vida.”
UM HINO À VIDANem flor efémera, leve
Como um sorriso perdido.
Nem borboleta tão breve
Que num voo só alcança
O tempo de ter sido,
Num bater de asa que dança.
Nem um até amanhã,
Que amanhã é outro dia,
É dia de outros, mamã,
E com a mesma alegria.
Nem mil beijos ou abraços.
Nem mais passos… nem mais passos…
Nem flores de despedida,
Nem vozes contra o destino.
Só isto: mudei de vida
E serei sempre menino.
DANIEL DE SÁ
«Ex-libris»

Há vinte boas razões para ler-se o conto «Ex-libris», de VASCO GRAÇA MOURA, no «Actual» do último EXPRESSO, que começa assim:
O meu nome é João de Melo Saraiva e nasci em 1950. Sou engenheiro informático. Além disso, colaboro com várias leiloeiras na elaboração de catálogos de livros antigos. Esse é o meu hobby e também me rende algum dinheiro. A minha mulher pôs-se a andar, vai para 20 anos, assim, sem mais nem menos, por lhe ter dado a súbita guinada de ir viver para Jerez de la Frontera com um espanhol que ela conhecera numa caçada à raposa em que tínhamos participado. Só a Helena é que montava a cavalo e eu preferi passar a manhã a espiolhar a biblioteca do monte alentejano dos nossos anfitriões. Tudo começou aí. Ela deixou-se fascinar pelo bigodinho rente, pela melena de cigano, pela casaca vermelha muito assertoada e pelas botas de montar do sujeito, enquanto eu me enfronhava em velhos cartapácios e ia tirando uns apontamentos sobre a edição de Os Lusíadas de 1613 e a biografia do épico, sob o título de «Ao estudioso da lição poetica», assinada por Pedro de Mariz.
Mas cedo o protagonista entrará em pormenores que – não fosse a minha sólida modéstia – me estragariam para a vida. Veja-se isto:
Nunca tive grande paciência para o Castilho, salvo a propósito das análises sobre «estilo e preconceito» de Fernando Venâncio, um professor que vive na Holanda. Nunca encontrei (nem procurei) a página em que ele diz isso e que, se estou bem lembrado, começava enfaticamente: «A leitura, meus amigos, sabeis vós bem o que é a leitura?…»
Pronto. Leiam o resto.
Detective Mário Costa
Antes da entrada obsessiva nas colecções Vampiro e Argonauta, devo a Enid Blyton e a Vladimir Volkoff o despertar do gosto pelo disfarce, pela espionagem e pelas estouvadas aventuras sem-bem-nem-mal-antes-pelo-contrário. Blyton quase me fez chorar com a possibilidade de Os Cinco serem apenas criaturas de ficção. Volkoff deu à minha imaginação um cheirinho do que viriam a ser as leituras de Graham Green; através do agente Langelot, um betinho. Aos livros se ajuntou a experiência do xamã, a fruição das energias mágicas que aparecem do lado de cá da máscara. Estava na iniciação da puberdade, sabia que a realidade era um local a carecer de urgente investigação.
Décadas depois, e em várias ocasiões, admiti vir a trabalhar como detective privado. Quanto mais não fosse, gostaria de me ter candidatado, descobrir os perfis e currículos apreciados, aqueles melhor indicados, os recursos mínimos para a função. Ficar a saber se é actividade mais bem paga do que a de pedreiro ou bancário. Antecipei-me a devassar tranquilamente a vida do meu concidadão, e a ser pago por isso. Fantasiei-me mascarado, duplo, triplo, dominando textos, contextos, pretextos e subtextos. E também hipertextos, pois, o que me leva para o meu (nosso) primo Mário Costa, detective privado.

