A sonoridade do Português

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Não poderia discordar mais deste post do nosso venerável Fernando Venâncio. E por diversas razões. Em primeiro lugar, porque a sonoridade de uma língua não advém do seu sistema fónico – se a língua é uma música (que é), o sistema fonológico de uma língua é apenas a sua escala e nada mais do que isso. Depois, porque todos os raros vocábulos que o Fernando saca às obras do Aquilino Ribeiro naquele seu belo exercício nem sequer possuem qualquer fonema mais peregrino da nossa língua. Mas há mais: a sonoridade de um língua não depende do seu léxico ou vocabulário, mas sobretudo da sua sintaxe. Ou seja: não é através de um corte e cose de palavras que se consegue dar um aroma do estilo de Aquilino, na medida em que isto apenas fornece algumas notas musicais e não a sua melodia (que, como é óbvio, é ali da exclusiva responsabilidade do Fernando). Finalmente, porque não existe tal coisa como a sonoridade de uma língua: qualquer língua que se preze possui uma infinidade de sonoridades que lhe são conferidas pelos seus falantes. A sonoridade de uma língua está na forma como cada um de nós actualiza a potência da nossa língua, impregnando-a com as idiossincrasias do nosso aparelho fónico (fisiologicamente falando, é claro), a nossa prosódia e sotaque. A literatura até pode ser uma bela partitura de uma língua, mas não passa mesmo disso. Como dizia Sá Carneiro, o que interessa mesmo é o intérprete. Que por vezes toca lindamente de ouvido.

Como soa o português?

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Sim, como soa o português? Nenhum de nós sabe. Tal como a água não tem sabor nem o ar cheiro. Isto, normalmente. Mas é verdade: não podemos sair do português e saber como ele soa. Ouvi-lo de fora, digamos.

Não podemos? Ora experimente. Leia este texto a um amigo. Ou, mais exactamente, peça-lhe que lho leia a si. Você não vai entender nada. Mas saberá, finalmente, qual o cheiro, e o sabor, e o som do seu idioma.

O VAGANAU

Quando, nesse dia, a grande zorata se escabajou, fachona e esampada, lastraram-se os macanjos, não os mais coitanaxes, mas os futres. As récegas, ainda mal forjicadas por uns chambris sem galilé, experluxavam todas murzangas e resulhas, debaixo do mesoneiro.

Perto, esbagoavam-se as caiporas no seu ousio brês e solerte, empanzinando o mandil das chedas mais cainhas, enquanto o bom do gerifalte, cada dia mais zambro e somítego, estroncava zarcamente o bajoujo.

Onde se entroncava a sancadilha, onde? Empanizava ela com os pegamaços ainda cóscoros, ou alapardava-se nos pelouzanos do galaroz? Malditas búseras, a que nem os piores malcatrefes refertavam. O jagodes choutou novamente as rópias de seu já velho taró e engabelou-se no ralão de codeço.

Nunca mais se eslavoiraram as lagóias. E desde esse dia a calhatroz esmoeu toda a sirga que matejara nos olharapos ladravazes da pandorga.

Este texto foi composto com vocábulos retirados de obras ficcionais de Aquilino Ribeiro.

«Cartas de Marear» de Mário Machado Fraião

Este livro de crónicas descreve uma viagem no tempo português dos anos 50 e 60 em duas cidades: Horta e Lisboa. Na Horta os filmes vistos no Salão do Sporting Clube da Horta vinham revelar um mundo «vasto e variado onde havia muito mais na vida que frequentar as aulas, regressar a casa no cortejo dos alunos do Liceu, vestir o fato aos domingos, pentear o cabelo, escovar os sapatos, espera as meninas depois da missa.» Já em Lisboa o autor vem encontrar cafés não iguais ao Internacional ou ao Volga mas onde era ainda possível «trocar ideias, impressões, experiências, contar anedotas, comentar estreias, novas publicações, jornais, discutir, conspirar, escrever poemas e manifestos».

Mas escrever sobre a «maior cidade pequena do Mundo», como lhe chamou Pedro da Silveira, é também lembrar os mestres e maquinistas dos barcos do Canal que arriscaram as suas vidas para salvar outras vidas, doentes em perigo, mulheres em trabalho de parto: Mestre Guilherme, mestre Alfredo Saca, mestre Augusto Pau de Lérias, mestre Simão.

Há aqui memórias de livros e autores, etapas de uma outra viagem de Mário Fraião: Jorge de Sena, Fernando Arrabal, Gonzalo Torrente Ballester, Teixeira de Sousa, Francisco Coloane, Vitorino Nemésio, Raul Brandão, Carlos Faria, José Martins Garcia, Rui Duarte Rodrigues, Almeida Garrett, Pedro da Silveira. Mas sempre, acima de tudo e para além de tudo, o fascínio das viagens: «Pedaços de nós mesmos que sugerem o dia de São Vapor nas ilhas pequenas, as partidas na doca da Horta, as despedidas, mulheres a chorar, um caixeiro-viajante a contar anedotas, os bagageiros transportando as malas e os sacos de viagem pelas escadas íngremes e muito estreitas, os diversos sinais de aviso aos passageiros, a espumas das hélices. O apito final. Largaram-se os cabos, «adeus, adeus», soltam-se os lenços, chapéus e cachecóis. Alguns vão a Lisboa tratar de assuntos particulares. Outros, talvez, não voltam nunca mais.»

Um livro para ler e devorar, tal a paixão quer percorre as suas páginas.

Fotos: Júlio Vitorino da Silveira
Edição: Albagrafe Lda.

José do Carmo Francisco

O espaço que resta

Que resta no tempo que resta? Um espaço. O meu, o teu. O nosso. Por milagre, nosso milagre. Mas nem só de prodígios se alimenta o destino sem começo. É na perda, e na perdição, que se dá o verdadeiro encontro. Quando os outros desaparecem, aqueles que sabíamos eternos, frutos imarcescíveis da alucinação de existir. Ou quando o outro se revela vários, e aquele em quem acreditámos apenas mais um na molhada, viscosa, de outros também reais e por outros amados, só sombras rodopiando no claustro ajardinado de uma alma. Aí nos perdemos de nós, se olhos abrirmos, e dá-se o encontro com o nada que somos. Largamos, surpresos, a mão do pai. E partimos. Outra vez. À procura do espaço que resta, onde nos esperam.

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