
Não poderia discordar mais deste post do nosso venerável Fernando Venâncio. E por diversas razões. Em primeiro lugar, porque a sonoridade de uma língua não advém do seu sistema fónico – se a língua é uma música (que é), o sistema fonológico de uma língua é apenas a sua escala e nada mais do que isso. Depois, porque todos os raros vocábulos que o Fernando saca às obras do Aquilino Ribeiro naquele seu belo exercício nem sequer possuem qualquer fonema mais peregrino da nossa língua. Mas há mais: a sonoridade de um língua não depende do seu léxico ou vocabulário, mas sobretudo da sua sintaxe. Ou seja: não é através de um corte e cose de palavras que se consegue dar um aroma do estilo de Aquilino, na medida em que isto apenas fornece algumas notas musicais e não a sua melodia (que, como é óbvio, é ali da exclusiva responsabilidade do Fernando). Finalmente, porque não existe tal coisa como a sonoridade de uma língua: qualquer língua que se preze possui uma infinidade de sonoridades que lhe são conferidas pelos seus falantes. A sonoridade de uma língua está na forma como cada um de nós actualiza a potência da nossa língua, impregnando-a com as idiossincrasias do nosso aparelho fónico (fisiologicamente falando, é claro), a nossa prosódia e sotaque. A literatura até pode ser uma bela partitura de uma língua, mas não passa mesmo disso. Como dizia Sá Carneiro, o que interessa mesmo é o intérprete. Que por vezes toca lindamente de ouvido.
