Este momento — da selecção nacional de rugby no jogo inaugural do Campeonato do Mundo, contra a Escócia — gerou um fenómeno de comoção generalizado, levando homens de barba rija e mulheres de penugem suave a igual entusiasmo lacrimoso. O que permite concluir pelo estado de privação de alimento simbólico e comunitário que assola a Pátria. Mas não se espere que os actuais políticos compreendam, sequer entendam, o que significam as lágrimas que banham bandeiras e se derramam nas vozes que cantam.
Arquivo mensal: Setembro 2007
Ainda mexe
É um simples post do Aspirina. Mas, um ano e meio, e mais de 100 comentários depois, ainda vem mexendo. Mês após mês. Quase semana após semana.
Este.
Quando Ferreira Fernandes mordeu a própria língua

As coisas fazem desvios imprevistos, e são por vezes os melhores. Percebi, por um grupo de discussão galego, que Ferreira Fernandes, cronista do DN, falara da língua da Galiza. Fui ver e era verdade. Foi, repito, um desvio imprevisto, já que tenho o costume de ler o cronista.
Pois bem, Senhor Ferreira Fernandes, segure-se porque talvez vá ser preciso. Essa língua que você crê andar vítima de «modernices» e em mãos «reaccionárias» é a mesma que você aprendeu na sua nativa Angola, a mesma que eu escrevo aqui, a mesma de que você se tem servido para mostrar-se um jornalista com mérito e currículo.
Essa língua que, nos jardins-escolas galegos, se vai falar às criancinhas é a sua – delas, minha, sua – língua materna. Lá chama-se galego, aqui passou a chamar-se português. Isto, quando foi preciso darmos nome à língua, aí pelo século XVI, e já se tinha esquecido quem no-la tinha feito. Como bons nacionalistas, e bons já então desconhecedores do galego, nem nos passou pela cabeça chamá-la senão assim.
Em Portugal, filólogos competentes, como Manuel Rodrigues Lapa, linguistas argutos, como Luís Lindley Cintra, exprimiram-se claramente sobre a unidade do idioma em toda a faixa ocidental peninsular. Mas, afora eles, nunca foi bom-tom desafiar tanto o nosso senso comum, nacionalista até ao tutano. Os actuais linguistas portugueses são, a este respeito, tremendamente discretos. Elas queimam. E ninguém quer caídos o Carmo e a Trindade.
É um facto: o idioma lá em cima soa diferentemente, escreve-se diferentemente. Mas é linguisticamente o mesmo que aí em Lisboa. Na realidade, trata-se de duas normas – diferentes, marcadíssimas – da mesma língua.
O idioma que as criancinhas galegas vão poder falar também nas escolas é, sabe-o você agora, uma língua da Primeiríssima Divisão, a sétima do Mundo.
Não era razão para nos congratularmos um pouco, em vez de fazermos esse humor deprimente?
Actualização
Faltava um?…
Esta é a primeira colaboração de DANIEL DE SÁ no Aspirina. Honra-nos tê-lo connosco. Mas ele proibiu-nos de dar informações sobre o seu (notável, diga-se baixinho) percurso. De modo que é assim. Este escritor acaba de nascer e estreia-se aqui. Também tem graça.
fv
A minha forte vontade de jogar futebol era vencida pelo fraco jeito que eu tinha. Arranjava-se um lugar na equipa, quase sempre à baliza, quando faltava um. Ou para qualquer outra posição que ninguém quisesse ocupar. Só a de avançado-centro e a de defesa-central me estavam proibidas. Até que houve um dia em que os responsáveis pelos trabalhadores do aeroporto se reuniram para despedir pessoal. Decidiram que haveriam de ser dispensados os homens com menos filhos. Meu pai só me tinha a mim e à minha irmã. O seu foi um dos primeiros nomes referidos. Mas o maioral, boa pessoa, lembrou que eu estava a estudar, que meu pai e minha mãe se sacrificavam muito por causa disso, e suspenderam a sentença. Nesse momento entrou alguém a dizer que meu pai tinha morrido.
A minha mãe e a minha irmã voltaram para S. Miguel. E, de repente, dei comigo, labrego da planície de Santana, em casa do Dr. Pessoa, na Vila. Passei lá o resto do ano, como se fosse da família. A nossa casa – tínhamo-la inventado como casa – era toda ao contrário daquela. E, no futebol, aconteceu um pequeno milagre. Porque nenhum dos novos companheiros me conhecia, fui facilmente escolhido. (Ainda hoje é assim. Quem vem de fora é tido como um ás indiscutível.) Eu usava nesse tempo uns sapatos com a biqueira recta. A primeira vez que apontei à baliza, a bola, de borracha, foi direitinha para onde eu olhara. Fiz isso uma segunda vez. E uma terceira. E várias vezes nesse jogo. E nos seguintes. De uma semana para a outra, o candidato ao lugar do “falta um” passou a ser o primeiro nas escolhas. Quando esses sapatos deram o último pontapé, não mais o milagre se repetiu.
Mas, hoje, estou aqui a anunciar que fui seleccionado. Não para o futebol que nunca soube e já não posso, mas para o jogo das palavras. E para uma equipa maravilhosa. Não sei que lugar ocuparei, mas, como todos os maus jogadores, estou disposto a ir para onde ninguém queira.
DANIEL DE SÁ
Paranóias
Despejava eu, tranquilo, o carrito das compras na bagageira do panzer, no parque do hipermercado. Praticamente de costas, ou de esguelha, mostrava um perfil enviesado, difícil de analisar. Mas ele foi decidido e peremptório. Parou-me ali ao lado, abriu o vidro do Corsa, esticou o pescocil e pôs-se a chamar pelo Jorge, que é o meu nome.
Eu lá fui ao seu encontro, debrucei-me na janela, vi-lhe o ventre dilatado a roçar-se no volante, observei-lhe as feições. Do arquivo não me saiu nada parecido.
– Desculpe, mas…
– Sou o genro do Teixeira! Tenho uns quilitos a mais, umas entradas aqui, que o tempo passa. Mas lembro-me bem de si!
E lá insistia, a apresentar-me a nuca, as misérias do cabelo. Eu voltei a mirar-lhe os trinta anos, o descair do olhar, a silhueta estranha. Voltei a remexer cá dentro nos ficheiros. E nada.
– Genro do Teixeira?! Mas qual deles?
– O funcionário do banco! Primeiro no Canidelo, mais tarde nos Francelos!
Lembrei-me do Abadesso, das traduções de alemão, mas do Teixeira do banco nem sinal.
– Não há nenhum Teixeira que eu conheça… nunca fui ao Canidelo…
– Então você onde mora?
– Lá para as Antas!
– É daí, fui lá carteiro! Você não se chama Jorge?
– É verdade!
E fui cedendo. Têm-se visto verdades mais atacadas de enigma do que as fábulas da esfinge.
– Pois é daí, eu despachava o correio!
Ele às vezes reparo nos carteiros. Trazem-me cartas do banco, os avisos dos impostos, trazem notícias longínquas de guerras administrativas que sustento há trinta anos. Mas, de quantos conheci, nenhum carteiro era assim.
– Trabalho agora em Alverca. Conhece Alverca?
– Muito bem!
Aterrei lá muita vez, dei lá lições do Camões, e um dia fui ver o Museu do Ar, que entre espólios mais concretos me guarda a mim bocados do canastro.
– Ele é um bocado longe, andar abaixo e acima!
– Pois compreendo…
Sinto-me à entrada do delírio. Carteiro ou não, eu nunca o vi mais gordo. Mas ele é novo demais para sofrer de paranóias. E eu, que já estou por tudo, passo em revista as últimas semanas. Tenho os impostos em dia, não me lembro de nenhum crime maior, e pecados só os do pensamento. Ele continua prazenteiro, fala-me outra vez de Alverca, jura que lhe sou familiar.
A instâncias minhas lá nos despedimos. E eu fico-me a pensar em espiões secretos, em conspirações maradas, a acreditar em bruxas, eu sei lá. Não tivesse a alma sossegada, e quem entrava em paranóias era eu.
Jorge Carvalheira
Prémios para EPC – 1

Eu sabia, sabia que o tinha feito. Eu lera Tudo o que não escrevi, de Eduardo Prado Coelho, como ele diz que poucos críticos em Portugal fazem, «de lápis na mão». Não o li como crítico. Apenas como curioso. Muito curioso, aliás.
Reabro hoje (já o fizera mais vezes) esses dois volumes. E vejo que o meu lápis foi, ao longo deles, desenhando um retrato de EPC. O meu retrato de EPC. Cada linha dele, desse retrato, pode levar hoje um prémio. Prémios meus, ça va sans dire.
Prémio E Diz Você Isso Nessa Linguagem Luminosa
«O que os simplificadores não entendem é afinal algo que se pode dizer numa frase muito sim- ples: que vale sempre mais correr o risco da obscuridade e da ilegibilidade do que ficar no conforto da acessibilidade. Feitas as contas, foi sempre a obscuridade que venceu» (vol. I, pág. 27).
Prémio Mas Ele Até Tem Invejosos Baris
«Somos todos vítimas do poder pessoano, mas vítimas recompensadas e felizes. Pessoa não esconde, nem faz sombra, ao contrário do que pensam os invejosos apressados» (vol. I, pág. 79).
Prémio E Se Fosse Só O Canal Da Mancha?
«Ainda hei-de um dia tentar compreender melhor que imagem do quotidiano me separa tão visceralmente de tudo o que é Laura Ashley» (vol. I, pág. 106).
Prémio Nem Imaginou Você Como Vem A Propósito
«O gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. […] Retirar as palavras de um contexto (a citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio» (vol. I, pág. 113).
Edições Asa, primeiro volume, 1992, segundo volume, 1994
«Bad Boy»

Um mimo, a crónica de PAULO MOURA hoje no «Píblico». Um mimo, como quase sempre. Para vos faire la bouche:
«A bicicleta é independente. Vive da nossa força muscular, que multiplica com eficácia cada vez maior. O objectivo da ciência ciclística é tornar o veículo mais leve, mais aerodinâmico, mais funcional. Os quadros, forquetas e guiadores começaram a ser construídos em alumínio, depois em fibra de carbono. Carretos, cremalheiras, correntes passaram a ser feitos em ligas metálicas resistentes e virtualmente isentas de peso. Sem recurso a nenhuma fonte externa de energia, à custa, apenas, do seu próprio desenho, a bicicleta é, hoje, um veículo extraordinário. Aproxima-se da perfeição, ou seja, de um limite utópico em que não seria preciso, sequer, pedalar.»
«Lixo demagógico», isto?

A coluna de JOSÉ PACHECO PEREIRA, no «Público» de hoje, é de leitura obrigatória para quantos se mexem nestas embaladoras águas da blogosfera. Saia, pois, você de casa e compre o jornal. Começará a ler assim:
Um livro de Andrew Keen tem suscitado uma grande discussão na comunicação social internacional e na rede. O livro ainda não foi traduzido em português, mas o seu título e subtítulo não enganam ninguém: O Culto do Amador – Como a Internet dos dias de hoje está a matar a nossa cultura. É um livro panfletário e simplista, escrito para chocar, mas as questões que lá são levantadas são importantes e cada vez mais presentes, até porque são uma versão nova de problemas muito antigos potenciados numa dimensão que, essa sim, é nova. O livro de Keen não foi o primeiro e certamente não será o último sobre o assunto vindo do lado dos “apocalípticos” das novas tecnologias, para usar a terminologia de Eco. Pode-se até esperar um filão polémico de livros sobre este tema, porque os efeitos de “matança da nossa cultura”, usando o título de Keen, são sérios e só se podem agravar nos tempos mais próximos. O catastrofismo é uma longa tradição do pensamento ocidental, principalmente nas mudanças do século, mas lá porque é cíclico e porque as coisas nunca correram tão mal como se anunciava, nem por isso, nada nos garante que, desta vez, não corram mesmo muito mal.
Leia o resto com a sua bica, à sombra.
Actualização
José, outro, perdeu – confessa-o aqui nesta caixa de comentários – uma tarde de praia. Para escrever ISTO. E que teria adiantado, na praia, mais um José tostando (supomos) anónimo?
Balada da Rua Serpa Pinto
Mulheres na Serpa Pinto
Termómetros da cidade
Longas horas de amargura
Momentos de felicidade
Trazem a luz e o calor
À pedra das manhãs frias
Trazem frescura às tardes
Da rua dos nossos dias
Quando sacodem o sono
Farrapos de melancolia
Sabem que tudo na casa
Depende dessa energia
Dessa força transmitida
Dessa afirmação de ser
Todos os dias da vida
A razão de ser mulher
Na vida multiplicada
Na voz que sempre resiste
E acaba por vir cantar
Nos dias em que está triste
E transportam devoção
Na viagem mais profana
Fazer um tempo de festa
Mesmo em dia de semana
É a voz que ganha altura
Sobre as paredes das casas
Passam em bandos alegres
Só lhes falta terem asas
Mulheres que mudam a rua
Só porque vão a passar
Transformam toda a verdade
De quem espera num lugar
A grande revelação
Das dúvidas que elabora
No lado mais escondido
Que é o lado de fora
Vem a chuva vem o vento
Caem lágrimas em pingos
Esquecem os dias escuros
E só pensam nos domingos
Ficam as lojas vazias
Enche-se a rua de gente
É o Mundo que se altera
E passa a ser diferente
Passam mulheres só sombra
Logo atrás surgem meninas
No rio sem afluentes
Há barragens pequeninas
Por onde a água se fixa
À espera da combustão
Do peso forte da voz
Com o peso leve da mão
Num encontro imaginado
A viagem ao contrário
Entre o mais pequeno beco
E o Largo de Seminário
José do Carmo Francisco
mamas para que vos quero
Chegada a uma idade avançada deixou de ser adiável passar pela provação de uma mamografia. Neste exame radiográfico as mamas são apertadas em duas secções por um aparelho que apresenta semelhanças com uma tostadeira. Se fossem os homens a ter que prensar os seus tecidos moles para avaliações regulares do estado de saúde, cheira-me que há muito se teria inventado outro processo.
Quando era nova dizia-se que a firmeza de um busto se aferia segundo a impossibilidade de segurar um lápis pela prega inferior da mama. Depois do primeiro filho segurava uma esferográfica. Ao segundo, um marcador. Experimentado mais um item da parafernália criada para suplício das mulheres, estou certa de conseguir agora uma façanha notável: suspender um estojo inteiro.
susana
EPC na Intelectual Festiva Esquerda
o espelho de Alice
O texto do Fernando foi profícuo em sugestões. Ligando-o com a especular especulação de um anónimo nada gratuito, veio-me ao neurónio a fertilidade dos acontecimentos no campo das hipóteses para a sua interpretação. Sujeitam-se a descrições distintas, muitas vezes antagónicas, entre os intervenientes que neles participam, motivo do comentário que lá deixei.
Há cinco anos um dos meus livros de praia foi Atonement, de Ian McEwan. Neste romance a narrativa é construída em torno de um episódio. Envolvendo três personagens centrais, o episódio é em si banal, retrato de atracções primárias e relações narcísicas. São as leituras diversas, de estrito sentido e avaliadas por cada um como factos, a conduzir os passos seguintes. Na conjugação com as circunstâncias e paradigmas individuais, factores exógenos da trama, é a distância de leituras a medida de entropia nas vidas destas três vítimas.
Trivial, sabemos nós. É da interpretação pessoal e criativa que se produz arte e muita literatura. Também as intrigas, os boatos, derivam por vezes de equívocos semelhantes, quando não da pura mentira. E os romances vingam enquanto duas ilusões se confundirem mutuamente.
Já o amor, nas múltiplas vertentes, tem forçosamente que ser relacional. Com os pais, os filhos, os amigos e os amantes queremos partilha, visões comuns, memórias coincidentes ou próximas. Não chegamos lá pela experimentação; atirar ao ar suposições é lançar achas para a fogueira. Só o inquérito a partir do outro pode resgatar a comunicação, a sintonia. Mesmo assim, a aliança entre a nossa atenção e a vontade pode ser insuficiente. O outro é sempre um outro, que nos escapa. Fatal impossibilidade de compreendermos em plenitude o que está em nós, permanecendo todavia inteiro e autónomo.

susana
Ri, palhaço
Crónica dum tempo
De manhã levantávamo-nos às oito e vinte e cinco para a aula das oito e meia, apertávamos os botões no caminho e galopávamos por escadarias e vielas íngremes contra o vento aguçado que nos fazia esperas às esquinas, e nos mordia a porcelana rósea das orelhas. O maço dos cadernos abraçado ao peito baloiçava ao compasso do coração que nos trotava desenfreado, e só amainava depois de entrar na sala, antes que se esgotasse a tolerância da campainha despótica. Lá dentro a norma era a do livro único, e o saber era um testamento de verdades definitivas, a gotejar dos lábios pausados do mestre sobre a turma desatenta, perdida a imaginar a vastidão dos desertos de Gobi ou a violência do mar nas escarpas da Camecháteca.
Jorge Carvalheira
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Vingança cruzada
O tema da vingança é um dos meus favoritos. Tanto a que se serve a frio como a que se serve a ferver. Ao cruzar um autor referido em comentário com um delicioso texto do Fernando — o qual me deixou a sonhar com uma série de pequenas, doces, lancinantes, impiedosas, secretas e compassivas vinganças —, o resultado é a citação que segue:
Se não entendo tudo, devo ficar contente com o que entendo. E entendo que vejo estas árvores e que tenho direito a minha língua e que posso olhar nos olhos dos estranhos e dizer: não me desculpe por não gostar do que você gosta; não me olhe de cima para baixo; não me envergonhe de minha fala; não diga que minha fala é melhor do que a sua; não diga que eu sou bonito, porque sua mulher nunca ia ter casado comigo; não seja bom comigo, não me faça favor; seja homem, filho da puta, e reconheça que não deve comer o que eu não como, em vez de me falar concordâncias e me passar a mão pela cabeça; assim poderei matar você melhor, como você me mata há tantos anos.
João Ubaldo Ribeiro, Vila Real
Canção para Maria José
Nas escadas da estação
Saída da Morais Soares
Este calor da tua mão
Faz um apelo a ficares
Ficar num tempo parado
Sem horários ou rotinas
O que eu sinto a teu lado
Nas tuas mãos pequeninas
Onde a ternura desagua
Como se fosse o estuário
Da paixão que anda na rua
No tempo sem calendário
Onde o calor e a gordura
Faz passar tão depressa
Quem esqueceu a procura
E não levanta a cabeça
Estamos em sessenta e seis
Na Rua Morais Soares
A memória não tem leis
Nem tem mapa de lugares
De repente é o passado
Que nos convida à viagem
Um eléctrico de atrelado
Vem irromper na paisagem
Lá estão homens, mulheres
Guarda-freios, cobradores
Se vais à Patrício Prazeres
Eu vou para onde tu fores
Nas escadas da estação
Saída da Morais Soares
Este calor da tua mão
Faz um apelo a ficares
José do Carmo Francisco
ViMus – José Pinheiro

A Póvoa de Varzim vai ser a partir de amanhã o palco da primeira edição do ViMus, o primeiro festival internacional de vídeo musical organizado em Portugal. O programa (PDF) é uma verdadeira maravilha: para além dos 36 videoclipes a concorrer na competição nacional e dos 92 na internacional, estarão igualmente em competição seis documentários nacionais: Não me obriguem a vir para a rua gritar (sobre Zeca Afonso) de João Pedro Moreira, Humanos (sobre António Variações) de António Ferreira, Enciclopédia Hip-Hop de Uncle C, NU BAI (sobre o rap negro de Lisboa) de Octávio Raposo, Filhos do Tédio (sobre os Tédio Boys) de Rodrigo Fernandes e Rockumentário (sobre a cena rock de Coimbra) de Sandra Castiço. Fora de competição será exibido o bem conhecido Brava Dança de José Pinheiro e Jorge Pires, uma seleccção comissariada por Luís Cerveró de vídeos musicais realizados em Espanha nos últimos anos sob o título genérico de Ecletia, enquanto que o realizador espanhol Carlos Saura levará ao festival a sua triologia dedicada à canção urbana com os documentários Flamenco, Tango e Fados.
Como no melhor pano cai a nódoa, a malta boa-onda que organizou este magnífico evento lembrou-se aqui do meu desastre de pessoa para escrever um texto para o catálogo sobre a interessantíssima restrospectiva que o festival vai exibir da obra de José Pinheiro, o pioneiro do videoclipe em Portugal. Esse convite, como é óbvio, provocou um grande pânico em mim, pois há vários anos que sou fã da obra do Zé. Mais: quando há cerca de dois anos comecei a colaborar com a MTV Portugal na criação do programa canino que é a menina dos meus olhos, quis o destino que fosse também do Zé Pinheiro o primeiro vídeo que vi nos escritórios da Avenida das Forças Armadas: o belíssimo Apontamento da Margarida Pinto. Deixo aqui de seguida o texto (com hyperlinks, embora não tenha conseguido encontrar todos os vídeos de que falo na net), até porque o seu incipit resulta do aproveitamento do primeiro parágrafo de um post que aqui escrevi há uns meses. Espero que gostem, não propriamente do texto, mas da viagem que lá proponho pela magnífica obra do Zé Pinheiro. Ah: já agora, estão todos convidados para a sessão especial que vai abrir amanhã o festival com uma selecção canina de vídeos lusófonos. A entrada é livre.
Ligeiros anos

No eléctrico, a menina, dezoito ligeiros anos, faz questão de levantar-se.
– Não se quer sentar?
O veículo tivera um arranque violento, e eu precisei de deitar a mão, rápido, a uma argola.
Foi aí que ela reparou nos meus cabelos brancos.
– Não, muito obrigado.
E, ridículo, sincero, não pude conter-me:
– É que ainda sou novo, sabe?
Era a maior das verdades. Subo escadas a correr – ainda subo escadas a correr – e desço-as
dois a dois e com um rasto de elegância. Mas ela, a mocinha, nunca poderia adivinhá-lo.
– Mas, se quiser, sente-se.
Menina linda. Bem-educada. Cruel.
Não me sentei. Sorri apenas. Gentil. Vingativo.


