Só magos

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Agosto, mês de tonteiras para preencher o descanso da política, trouxe tonturas que tiraram o sono a muito peixe que anda à babuge, incluindo carapaus de corrida, tubarões que nadam por aí e até um cherne bem pesado. Começou com a notícia relativa aos favores prestados a um Álvaro Dias, o qual orientou o doutoramento de um Pedro Cordeiro, tendo este cedido àquele uma quinta pertencente à Câmara de Lisboa. Essa simpatia foi bem simpática, pois foi a título gratuito e por boca; sem papelada, superfícies sempre aborrecidas de preencher. Embora amigo do seu amigo, Pedro Cordeiro agora alega que a autorização veio de um Moreira Marques; este, e ao tempo, vereador dos Recursos Humanos da CML. Mas o Moreira Marques, cheio de humanidade e de recursos, tem outra história na manga — e ao arregaçá-la fica à vista a palavra mentiroso apontada à fuça do seu antigo director. É neste momento que Santana Lopes atravessa o palco para informar a plateia do seu completo desconhecimento quanto à existência de um ser chamado João Álvaro Dias; ignorância talvez explicada por currículo tão anónimo quanto este: o senhor ser professor da Faculdade de Direito de Coimbra, ter fundado a associação Projuris, e esta ter ocupado instalações camarárias na Quinta do Conde de Arcos desde 2001, ser amigo e mentor do seu director dos Recursos Humanos na Câmara e, pasme-se, ter sido mandatário da lista de Santana Lopes, por Lisboa, nas legislativas em 2005. Questionado sobre o óbvio, Santana, antes de sair pela esquerda rasteira, tira mais um coelho da cartola: António Preto. Seria este Tó a clarificar a coisa, ou a escurecê-la de vez. E a coisa não é para menos, pois, no entretanto, o nosso Álvaro Dias foi afastado da Universidade de Coimbra, está a ser investigado pela PJ e pelo Ministério Público, em vários processos relativos à Projuris, e foi condenado, pelo Tribunal de Cantanhede, a um ano de prisão por envolvimento em falência fraudulenta. (eis uma vivência desembaraçada da actividade política, exemplo para as juventudes partidárias terem mais cuidado, mas não menos gula)

Ora, três dias depois desta comédia do costume ter sido apresentada, cai desembestada a má nova relativa ao Caso Somague. Tudo o que era PSD tremeu. Porque basta ler a notícia para conhecer a acusação: corrupção muito grossa e grosseiramente disfarçada. Para lá da radiografia aos processos pelos quais os partidos se assumem como procuradores dos interesses financeiros que os financiam, o interesse maior está no TAC ao carácter dos intervenientes. Nesse particular, José Luís Arnaut, Marques Mendes e Durão Barroso, obrigados a falar, exibiram olimpicamente a substância que lhes substitui a espinal-medula: arrivismo. Os comentadores de referência e influência não se portaram melhor, abdicando de apontar as impudências tão desajeitadamente à mostra.

Toda a minha gente sabe como o sistema se funda nesta compra dos partidos pelas forças que detém o poder económico. É das empresas que vêm as benesses, as mordomias, a segurança para si e para os seus, o delírio megalómano. Qualquer aprendiz de psicólogo, ou de antropólogo, saberá explicar a inevitabilidade do político se sonhar aprendiz de feiticeiro. Mas a era dos mágicos não dura para sempre, e está cheia de trapaceiros que se deixam apanhar à mão. Ou que se afastam ao pontapé.

Casa grande

– O que é que o senhor procura?
A interpelação acorda-o, e vem duma mulher vestida de preto, de vassoura na mão, no gesto de quem varre o pátio de cimento. O viajante já se tinha esquecido do que um dia leu nuns livros, mas aqui se lembrou novamente de que as palavras são mais que simples pedras atiradas ao vento. São como um cristal as palavras, disse-o quem sabia. Há que tomá-las na sua circunstância, atentar na moldura que as envolve, e observar com muito entendimento a ramagem que as enfeita. Não fora o tom cantado da voz, o sorriso aberto na cara desta miúda silhueta escura, e assim tão de surpresa interpelado, com tais palavras e uma lança nas mãos, lá ia o viajante, castelhano não sendo, pôr-se a imaginar uma padeira nova de Aljubarrota. Muita injustiça há neste mundo!
– Queria ver a sua igreja, por fora é bem bonita! Sabe quem tem a chave?
– Pois tem a porta aberta, aí ao lado! E o cemitério antigo, lá atrás, veja à sua vontade!

Jorge Carvalheira

Continuar a lerCasa grande

Terceira canção para Maria José

Na voz de Maria José permanece, ao mesmo tempo, a frescura da água de dois rios (o Alva e o Ceira) e o peso das pedras da serra do Açor. A cidade em frente tem no asfalto negro da Almirante Reis o espelho reflector do calor desmedido deste Setembro que já não respeita o calendário nem as estações do ano. É na ligação entre a frescura da água e o peso da pedra que Maria José modula a voz para responder às agressões e ao desgaste do quotidiano da cidade. Seu ruído e seu cansaço. Sua confusão e seu efémero. Porque sem raízes na terra.

Desde que acende a primeira lâmpada na casa da manhã até ao momento de apagar a última luz da noite há, no dia de Maria José, uma sucessão de tarefas quase invisíveis. E não deixam de ser reais, efectivas e completas mas são quase invisíveis pois não existe ruído à sua volta. Vai à praça num instante, corre à padaria, quase voa até ao talho, trazendo assim, numa fracção mínima de tempo, os víveres necessários ao almoço e ao jantar.

As sobrinhas fazem, com o pai de Maria José, o vértice de um triângulo feliz. Três gerações que se juntam à mesa para uma refeição de palavras. De um lado a memória, do outro lado o futuro. Maria José faz o enlace destas duas perspectivas. As meninas querem brincar pois já sabem, mesmo sem o saberem, que há uma idade para tudo. Os adultos não brincam com brinquedos. Os adultos são pastores de memórias, sempre aflitos não vá mais uma perder-se no vazio do esquecimento. E não há cão capaz de a trazer de volta. Maria José sorri depois de mais um dia. A felicidade é sempre uma convenção. Não tem utensílios de aferição, nada nesta matéria é objectivo. Há quem seja feliz produzindo e multiplicando a felicidade dos habitantes da sua casa. À custa de uma sucessão de tarefas quase invisíveis. Tal como permanece invisível a frescura da água e o peso da pedra na voz de Maria José. Como se de repente o Instituto Superior Técnico fosse a serra do Açor, a Almirante Reis fosse o rio Alva e a Morais Soares fosse o rio Ceira. A voz de Maria José justifica, altera e precipita esta nova geografia da cidade. Entre a água e a pedra como na primeira e mais feliz manhã do Mundo.

José do Carmo Francisco

Aviso à navegação

Alguns comentadores que aqui me lêem textos, em vez de deixarem um comentário qualquer, a que terão direito, praticam afanosamente a velha técnica de acrescentar a continuação da história.
Não duvido de que o fazem na maior candura de alma, e de que apenas os move a busca da perfeição.
Mas peço-lhes um favor. Vão-se foder e desamparem-me a loja.
Não é por arrogância que o faço. É que já me falece a paciência.

Jorge Carvalheira

A Casa do Pai

Seja a casa com portas só de abrir,
Sem grades nas janelas e sem aço.
E que nos aconchegue em cada abraço
Sem nunca ser abraço de ter de ir.

Seja a casa de estar, não de partir.
Que nos aceite, mortos de cansaço,
Com um beijo de amor por cada passo
Dado em muitos regressos, sem sair.

Uma casa que nunca nos pergunte
Que outras casas buscámos e que telhas.
Que toda a gente à porta se nos junte

(Quando algum dia a vida nos demore)
Com um ramo nas mãos – rosas vermelhas.
Mate o bezerro gordo, mas não chore.

DANIEL DE SÁ

Por desacerto mental – não por abuso ou vontade de apropriação – este poema esteve horas aqui sem a assinatura do autor. Parecendo, pois, meu. Não é. Lamentemo-lo.

O avental de Vítor Pereira

Vítor Pereira é o presidente da Comissão de Árbitros da Liga Portuguesa de Futebol Profissional. A primeira imagem que tive dele foi na «Bola Magazine», um texto de Cruz dos Santos sobre as suas actividades teatrais. Vejo-o ainda hoje de avental num sketch perante uma plateia atenta de um bairro periférico de Lisboa. Mais tarde li uma enorme gaffe desse senhor quando se referiu a Dário Fo como autor da peça «E não se pode exterminá-lo?» de Karl Valentim. O lance do golo do Porto contra o Sporting na segunda jornada do campeonato nasceu de um erro crasso do árbitro. O defesa Polga, já em queda, desviou a bola que era conduzida pelo avançado Postiga, e na sequência desse corte, o guarda-redes do Sporting recolheu a bola com as mãos. Todos os especialistas na matéria consideraram erro do árbitro que também esteve péssimo no capítulo disciplinar deixando sem cartões vermelhos dois jogadores do Porto. Num assomo corporativo, o inefável Vítor Pereira apareceu a assinar um «esclarecimento» técnico que nada esclarece e que visa apenas tentar esconder com palavreado vazio o erro decisivo do árbitro do jogo das Antas. Qualquer pessoa percebe que um jogador só pode «passar» uma bola se a tiver. No caso quem a tinha era o Postiga que conduzia um ataque. Já em queda e (portanto) sem qualquer gesto deliberado (que é a palavra usada nas leis do jogo), o defesa Polga apenas «desviou» a bola, apenas «cortou» o lance, não fez nenhum passe nem poderia fazer porque estava caído no relvado e quem tinha a bola era o seu adversário. Em qualquer sociedade secreta há sempre um homenzinho com avental pronto a reescrever a História. Mas para isso é preciso saber escrever. E ter razão. Coisas que não se passam com este ex-actor amador.

José do Carmo Francisco

«O preço de um ‘Scolari’»

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Lendo – já tarde – o «Público» de hoje, dou com esta Carta ao Director.
O autor é da casa. Por isso, esta discreta divulgação.

fv

Todos condenamos facilmente atitudes como a de Scolari depois do jogo com a Sérvia. Ainda que a muitos apetecesse o soco que ele não chegou a dar. A violência não é a finalidade do desporto, tanto mais que idealmente o imaginamos como escola e prática de virtudes.
Pelo Natal de 2005, tive a grata surpresa de uma amiga comum me ter posto em conversa telefónica com o “Felipão”, porque ela sabia que eu o admiro e, por um acaso vindo da infância, torço pelo seu verde Palmeiras. Uma das coisas que lhe disse foi que o futebol era uma escola exemplar de disciplina. Sem tempo então para lhe explicar a ideia, faço-o agora, caso ele leia esta carta.
O gesto irreflectido de Scolari pode custar-lhe muito caro. Muito mais caro do que o mesmo gesto em outras circunstâncias da vida. Sá Pinto pagou um preço altíssimo pelo seu impulso vingador da honra que julgou ferida. O equivalente a muitos milhares de contos e a quase um décimo da sua carreira. Duas faltas leves durante um jogo de futebol podem equivaler a um cartão vermelho, com a respectiva expulsão e o consequente prejuízo de milhares de euros, além de uma multa de centenas. E vale o mesmo uma simples palavra de desabafo em calão.
Não sei que castigo será julgado justo para Scolari. Mas, por mais leve que seja, será sem dúvida muito mais grave do que se ele tivesse perdido a calma num gabinete de trabalho ou num bar de esquina.
Talvez não possa nem deva ser de outra maneira. Mas que há uma enorme desproporção entre a justiça desportiva e a comum, disso não restam dúvidas.

Daniel de Sá
Maia, São Miguel

A festa de Vavette

Acabo de descobrir o vídeo musical do ano, realizado por Johan Söderberg para o tema «Dat Snurrar I Min Skalle» dos suequíssimos Familjen. Tudo não passaria de um virtuoso exercício de VJing por cima de um grande tema pop, não fosse a qualidade da matéria-prima visual utilizada. Estejam sobretudo atentos a dois momentos apocalípticos:

1) o repeat / reverse daquela Conceição a ser exorcizada (tipo Devil In & Out);
2) o repeat / reverse daquela Clotide a cantar de boca aberta (tipo Alélé-Alélu-Alélu-ya)

Depois digam que não sou vosso amigo. Seus ingratos.

anamnese, procura-se

Ainda trazia no braço direito o baixo-relevo de um vinco do lençol amachucado, quando chegou. «Ola beibi», dizia o matutino sms. O tratamento carinhoso vindo de um perfeito desconhecido é quase tão comovente como o que vem de um desconhecido perfeito. Intrigada com o número, que não consta dos meus contactos, devolvo um «quem é?» e recebo esclarecimento. Alguém a quem chamo amiúde, explica, reclamando por não identificar o seu número. Mais: alguém com quem estive intimamente ainda há pouco e cujo nome sou desafiada a adivinhar. Pouco depois ligou-me – e eu numa reunião, oh sorte. Tremo agora de curiosidade, ansiosa. Quero, e não quero, saber. Mistério da empatia. Alguém me conhece tão bem que recorda experiências minhas, recentes, das quais não conservo memória.

susana

Abaixo a reacção!

As justificações de Scolari para o seu comportamento violento são um caso dentro do caso. E caso bem mais grave. Se, quanto à agressão física, o poderíamos cobrir de misericórdia tivesse ele mostrado verdadeiro ou fingido arrependimento, já na sua recusa em assumir a responsabilidade pelo descontrolo não há perdão possível. Neste momento, Scolari já esteve em três ocasiões de comunicação pública — conferência de imprensa, declaração e entrevista na TV —, e em todas apresentou confrangedores e imbecis raciocínios de auto-desculpa.

Independentemente do gosto pela figura, da importância que cada um atribui ao futebol profissional e do que se pense do Governo, quem não o demitir, ou não pedir a sua demissão, é cúmplice de um velhaco pago pelo Estado.

A fome e o pão bento

O velho carregava uma montanha de anos pelo outeiro acima. Curvado sobre uma cana a servir de bordão. Ia muitas vezes ao mato buscar uns gravetos para a lareira ou o forno. Nesse tempo, não havia subsídio de invalidez nem de velhice. Só invalidez e velhice.

Por isso procurava passar sempre à hora certa, mas fingindo que o fazia por acaso, pela cafua onde pai e filhos comiam ao meio-dia. A pergunta do convite era invariável, a resposta também. E lá vinha a bendita fatia de pão de milho, com um chicharro ou um bocado de cavala.

Aquele pão, assim partido e repartido, assemelhava-se à bênção da Última Ceia.

DANIEL DE SÁ

Segunda canção para Maria José

Quinta das Conchas, lugar
Onde a tarde se desenha
Por entre a água a cantar
E um perfume de lenha
Entre a relva dos caminhos
Na sombra do arvoredo
Dou passos tão sozinhos
O meu dia é um enredo
De memórias e imagens
Testemunhos, despedidas
O teu rosto nas paisagens
Desafia as nossas vidas
De quem procura tua voz
Entre a água e esta lenha
Há som de moinhos e mós
Na tua pronúncia serrenha
Quinta das Conchas, Lilases
O parque onde tu não vais
Há um grupo de rapazes
Joga até já não poder mais
Caminho que tu não cruzas
Mas às vezes em ansiedade
Olho as saias e as blusas
E não descubro a verdade
A verdade é que não eras
Tu a mulher neste passeio
É mais uma das quimeras
Do meu tempo de receio
Receio que nunca venhas
Quinta das Conchas, lugar
Onde em tempo as azenhas
Faziam a farinha a cantar
Quinta das Conchas, Lilases
Onde o vento transfigura
Tristezas feitas tenazes
Num ribeiro de ternura
Quinta das Conchas, lugar
Ali a saudade é um posto
Onde o sol vem desenhar
Os limites do teu rosto

José do Carmo Francisco

À minha medida

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Sempre gostei do princípio antrópico. Ele diz: o Universo é como é porque nós existimos. É a versão eufórica desse princípio, e também a mais fascinante. Bem mais fascinante do que a versão fatalista: o Universo é como é para que nós existamos.

Simplesmente, existe hoje uma formulação mas refinada. Diz assim: este Universo é o único em que nós somos possíveis. A coisa é mais picante do que parece, e até bem mais do que a leitura criacionista da formulação. Com efeito, afirma-se aí que o Universo está feito à nossa medida, sim, mas também que ele não é o único pensável, e provavelmente nem o único existente. Explico-me.

Este nosso Universo está construído segundo as exactas – e estreitíssimas – constantes em que a vida, a vida como a conhecemos, foi possível. Uma pequena variação inicial, e estávamos fritos. Um acaso absurdamente feliz, portanto? Talvez, mas é pouco provável. A verdadeira explicação é duma simplicidade alucinante. Este é um dos infinitamente numerosos Universos existentes. E um deles tinha, por força, que ter estas medidas. As nossas medidas. As exactas, mas infinitamente casuais medidas que nos fazem.

Desencanta-me esta simplória matemática? Sinto-me defraudado? Qual! Todos os dias dou graças.

Scolarizado

Sei que não consigo exprimir fluentemente o entusiasmo com que fui atingido pelo soco de Scolari. Estava num restaurante e apeteceu-me lançar as mãos para os céus a reclamar vitória, ao arrepio do silêncio atónito dos restantes comensais. É um acto-fronteira, marcando distintas eras. Rompeu-se o manto que esconde o caldo imprevisível, uma bolha de singularidade cósmica explodiu no cérebro do Felipão.

Há um mundo pré-soco, onde Scolari era apenas mais um representante da banalidade, sem possuir mensagem digna de registo. Quando muito, de notável para o meu interesse, a possibilidade de ele ter um acordo secreto com os fabricantes de bandeiras, ganhando à comissão. O resto eram as matemáticas do caos. No mundo pós-soco, espantosamente, o mais hierático dos responsáveis desportivos pode preferir abdicar de uma carreira de prestígio, de contratos milionários e, até, da própria dignidade. Tudo penduricalhos menores quando comparados com o valor da poesia para a busca de sentido e ordenação da realidade.

Como as imagens mostram, imediatamente antes da agressão a carranca do pugilista ficou crispada, furiosa. Depois, soltou-se a mão impulsionada por braço sem hesitação no intento de esmagar a voz outra. Mesmo após o movimento, quando o afastavam, a linguagem corporal continuava bélica, pronta para destruir o inimigo. Estávamos perante uma estreia: o representante máximo de uma selecção nacional de futebol, no cumprimento das suas funções contratuais, abdicava da racionalidade em favor da animalidade. Mas isto ainda seria manco de alcance filosófico não fossem as declarações do próprio na conferência de imprensa. Um acto de contrição, um qualquer laivo de responsabilidade, uma mísera ou manhosa aceitação de culpa, deitaria por terra o imponente monumento em construção. Felizmente, Scolari não falhou nessa sua hora. Veio dizer que nada se tinha passado de anormal, nada lhe parecia merecer reparo, nada tinha feito de mal. O que todos viram e viam e veriam era mentira.

Essa assunção de inocência é dos mais belos momentos públicos de que me recordo, pois só um poeta a poderia ter levado a cabo. Só um poeta tem a força suficiente para enfrentar uma plateia hostil, munida dos seus obsoletos e alienantes factos incontestáveis, e defender um ideal que transcende a vulgar dimensão material, aquela que se oferece a plebeias máquinas de guardar imagens. Fazer a invocação desses campos relvados, Elísios ou outros, apelando a uma renovação do olhar para que nos libertemos dos regulamentos, da legalidade, da moral, da ética e do respeito próprio, eis o gesto artístico por excelência.

Zidane já o tinha tentado, mas não foi capaz de levar o acto ao seu pináculo revolucionário, não teve força para afirmar que uma cabeçada faz parte da praxis desportiva profissional e paga pelos impostos da turbamulta. Mas alguém, finalmente, venceu a hipocrisia de uma maioria instalada na honra e na coragem. Alguém, um scolarizado qualquer.

Diálogo ingénuo

– Mamã, há monstros debaixo da cama?
– Não digas disparates. Há lá nada!
– Mas se houvesse?
– Fazias de conta que não sabias, e pronto. Come a sopa.
– E eles deixavam de meter medo?
– Pois deixavam. Mas vá, come a sopa, que há muitos meninos que querem comer e não têm.
– É verdade?…
– Sim, é verdade.
– Mamã, como é que se faz de conta que não se sabe?

DANIEL DE SÁ

Pastor de Labão

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Nessa altura eu tinha namorada, e escrevia num blogue textos de circunstância. Mas a vida não corria bem. Eu há sete anos à procura dela, da vida e da namorada, e ela a persistir em esconder-se. Era uma teimosia. Eu a entregar-me cada vez mais aos textos, ela a desvanecer-se cada vez mais.

Um dia disfarçou-se de comentadora, atrás duma alcunha graciosa, sugestiva. E vinha assídua, calorosa, vinha sempre fiel, estava sempre na caixa dos comentários, quando lá fazia falta. Trazia a sua nota, deixava um incentivo, era a leitora melhor que pode haver.

Até que não resistiu e apareceu-me no e-mail, a duras penas descobrira o endereço. Exagerou na sua admiração, e sussurrou-me, no fim, que dispusesse. Eu culpei algum amigo inconfidente e fiquei sossegado.

Assim passámos a viver a três. A namorada a esvanecer-me em casa, eu a escrever textos de circunstância, e a minha fiel leitora a comentar. A própria namorada lhe sentiu a persistência – tens aqui admiradora apaixonada! – fez-me notar certa vez. De horas em quando ela aparecia no correio, porque há coisas que não cabem na caixa dos comentários. E eu deixei andar por si aquele enleio, a imaginar feitiços na literatura, a convencer-me que o verbo pode operar maravilhas.

Um dia, ao fim de sete anos, acabou por dissipar-se a namorada. Foi-se embora, exasperada, por tanto se esconder. E eu abri a corte à minha admiradora, subindo a escada emotiva costumeira. Ela acompanhava-me a escalada com reticências discretas, e sugestões nebulosas, e os véus translúcidos que um bom pudor não dispensa. As coisas chegaram a aquecer, em bom rigor havia incêndio à vista.

Certa noite chegaram dois e-mails, iguais rigorosamente. Um vinha da antiga namorada, o outro da virtual admiradora. Avisavam que eram ambas uma só, e vinham despedir-se para sempre.

Eu sorri, pus-me a pensar na vida. Se ela não fosse tão curta, quem ficava outros sete anos era eu, a escrever num blogue textos de circunstância. Não chegariam para convencer Labão. Mas ao menos acreditava eu em feitiços da literatura. E vivia a confiar que um bom verbo opera maravilhas.

Jorge Carvalheira

Balada do ciganito dos CDs

Foge mãe, leva os CDs
Chegou o carro patrulha
Eu vi mas tu não os vês
São dois e vai haver bulha
Ao guarda chamo «cabrão»
Fixo as mãos na garganta
No meio desta emoção
A minha lágrima canta
Faço ameaças de morte
Ao que chega primeiro
Com um pouco de sorte
Apanho um juiz porreiro
«Resistência e coacção»
Diz este código penal
Mas na minha educação
Não existe bem nem mal
Foge mãe, leva os CDs
Com quinze anos de idade
No sistema português
Não há responsabilidade
Meus pais são vendedores
Na cidade em todo o lado
Todos os nossos valores
Cabem num plastificado
Onde notas com gordura
Se perfilam em parada
Quando vamos à procura
A nota está encontrada
Onde tudo o que não seja
Notas de um certo valor
Vale mais que uma Igreja
E muito mais que o amor
Fechou o «quarto juízo»
Hoje não vou ser julgado
Afinal do que eu preciso
É andar por todo o lado
Vender os CDs piratas
E ser só aquilo que sou
Sou menor, vejam as datas
O estado a que isto chegou

José do Carmo Francisco

dorme bem*

Esta noite o céu partiu-se todo só para nos celebrar, meu amor. Os fragmentos quebravam-se em perfis angulosos, o teu rosto iluminava-se e os pedaços caíam num estrondo logo abafado. O som dos pneus sobre a água aproxima-se do restolhar das folhas de outono debaixo dos pés, por caminhos pouco pisados, em versão fast-forward. Estrelas diluídas atravessam a persiana mal fechada e dançam pelas paredes. Ouço contigo o tec-tec da chuva nas janelas, agora sim, agora não.

susana

* Re-post, porque o amor tem o espaço polissémico de tempo e a vida é como as estações.
Publicado na Sociedade Anónima em Outubro 2006