Detective Mário Costa

Antes da entrada obsessiva nas colecções Vampiro e Argonauta, devo a Enid Blyton e a Vladimir Volkoff o despertar do gosto pelo disfarce, pela espionagem e pelas estouvadas aventuras sem-bem-nem-mal-antes-pelo-contrário. Blyton quase me fez chorar com a possibilidade de Os Cinco serem apenas criaturas de ficção. Volkoff deu à minha imaginação um cheirinho do que viriam a ser as leituras de Graham Green; através do agente Langelot, um betinho. Aos livros se ajuntou a experiência do xamã, a fruição das energias mágicas que aparecem do lado de cá da máscara. Estava na iniciação da puberdade, sabia que a realidade era um local a carecer de urgente investigação.

Décadas depois, e em várias ocasiões, admiti vir a trabalhar como detective privado. Quanto mais não fosse, gostaria de me ter candidatado, descobrir os perfis e currículos apreciados, aqueles melhor indicados, os recursos mínimos para a função. Ficar a saber se é actividade mais bem paga do que a de pedreiro ou bancário. Antecipei-me a devassar tranquilamente a vida do meu concidadão, e a ser pago por isso. Fantasiei-me mascarado, duplo, triplo, dominando textos, contextos, pretextos e subtextos. E também hipertextos, pois, o que me leva para o meu (nosso) primo Mário Costa, detective privado.


Das maravilhas que a sua loja online deixa ver, tomo a liberdade de escolher duas passagens. São dois momentos complementares, se bem que contrastantes. E dirigem-se a qualquer pessoa, com mensagens despretensiosas, relevantes. Quem sabe, amiga e amigo leitor, se não te estarei a ajudar, tu que terás problemas que o detective Mário Costa pode resolver facilmente com as suas manigâncias e engenhocas.

Sobre a Internet, esse antro, eis o que ele nos diz:

> COMPUTADORES 1.1

Internet e amantes secretos…
O mundo mudou. Já é outro. Mudou muito, muito. E sabe qual é a principal coisa que mudou, está a mudar, e irá continuar a mudar, e que não se prevê uma paragem, nem sequer abrandamento nos próximos anos?

É aqui onde você está ! A internet. Este mundo todo na ponta dos seus dedos, com os olhos ávidos de coisas novas… e o desejo da descoberta. E isto, aqui, não é inocente, nada. Sexo, sexo, sexo e mais sexo. É quase um vício. Pode ser um vício. Para milhões é já um vício. Tremendo. Brutal. Mas tambem o maior veículo de cultura, entretenimento. E de prazer. Ideal para jogos… de sedução… de mentiras… de ilusões… de enganos. E também para o seu filho… ou marido…ou esposa… ou namorado(a).

E se lhe andarem a fazer o ninho atrás da orelha ? Sabia que quase toda a gente se embebeda com a internet ? Milhões a comunicar ao mesmo tempo. A tentação de ir procurar coisas novas. Este voyerismo que vive cada vez mais acordado dentro de nós. E um dia… pode-se transformar em noite. E uma noite… pode pensar que está a ver a luz. A felicidade de uma familia pode ruir se não se criarem mecanismos de defesa a este invasor que tem tanto de doce como de amargo. Desperte. Como se diz na gíria: ponha-se a pau. Respire de alívio, você vai estar a par de tudo. Sem ninguem saber (?!).

Contacte-me. Não queira ser o(a) último(a) a saber.

Mário Costa
Detective

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Como se lê, é impossível ficar com alguma dúvida quanto ao conhecimento do detective Mário Costa. Este homem sabe muito bem do que está a falar. Esta eloquência, esta voz sofrida, não é de quem se limita a falar por ouvir dizer. Não! Este homem já esteve à beira de se embebedar com a Internet, e esteve quase, vai não vai, ai jesus, a procurar coisas novas. Esteve quase a juntar-se ao milhões que comunicam ao mesmo tempo, debochados. Quase a deixar-se levar pelo desejo da descoberta, esse demónio que faz ruir as mais sólidas famílias. Felizmente, desfez o ninho atrás da orelha e pôs-se a pau. O que, de resto, é uma manifestação coerente com o teor da sua denúncia.

A segunda passagem seleccionada é um espanto de honestidade. Duvido que qualquer outro profissional, seja de que área for, tenha a coragem de se assumir assim:

Escolher um Detective: Manual de Instruções.

Caro Visitante,

Presumo que é a primeira vez, que recorre aos serviços de um profissional de investigação, especializado em infidelidades, e que não faz a menor ideia de como funciona esta actividade ou tipo de serviço.

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Há mais; incluindo a notícia de ter sido estudado numa universidade do Japão e a surpreendente revelação de que a Agência LUSA difunde notícias em português. As descobertas não têm fim, com o nosso detective Mário Costa.

14 thoughts on “Detective Mário Costa”

  1. Meu Caro Valupi
    Neste blog não me surpreenderam o Fernando Venâncio ou o José do Carmo Francisco, porque já os conheço há muito tempo. Encontrei, fascinado, o talento do Jorge. Depois, descobri que havia mais. Tu, por exemplo. (Qualquer outro poderia servir de exemplo.)
    Pemite-me só destacar um pormenor deste conto que muitas vezes não se encontra nos nossos mais badalados escritores: a forma do discurso muda quando se passa do narrador para a personagem. E isto é fundamental, meu Caro.

  2. Meu Bondoso Daniel de Sá,
    permita-me lembrar-lhe que o Valupi não escreveu um conto, mas um simples texto. Não porque o Valupi não saiba escrever, que sabe. Mas vai por aí uma enorme confusão. A sua tendência em ser mesureiro de uma forma desmedida (e desculpe-me a franqueza), é no que dá. Aos olhos de quem o lê torna-se untuoso em demasia no intenção de a todos agradar. Ora clique lá com o ratinho no ponto em que diz CONFERIR, e veja a alhada em que se meteu…
    Já clicou? Então, “a forma do discurso muda quando se passa do narrador para a personagem”? Este “pormenor não se encontra, por vezes, nos nossos mais badalados
    escritores”? Sinceramente…”Fundamental” , meu querido Daniel, é ser menos engraxador e estar mais atento.

  3. Então eu fui a anedota da semana! Bem feito. Para as próximas vezes lerei as coisas com mais atenção e “clicarei” em todos os sublinhados para não cair em outra armadilha. Mas não retiro o que disse quanto à qualidade da escrita do Valupi. E, afinal, eu tinha razão: o discurso muda mesmo quando muda a personagem… (O pior, para mim, e que me fez fazer esta má figura, foi que a pessoa mudou tanto quanto a personagem.)
    Admitem-se mais risos de troça.

  4. Caro Daniel,

    O Fernando, o Jorge, o José do Carmo, o Zé Mário – até o João Pedro – e tu, sois todos escritores com obra feita, obra a ser feita e obra por fazer. Não é o meu caso, servindo eu, aqui, apenas de displicente contraponto para o vosso talento.

    Quanto ao teu equívoco com o texto supra, é natural. O meio gera seres híbridos, quimeras textuais. E eu, sem cuidado nem esforço, exploro esses territórios.

  5. Daniel,

    Num comentário a um post perto de ti, tive de pronunciar-me sobre a minha sólida modéstia.

    Se quiser, agora, caracterizar a modéstia do Valupi, só posso chamar-lhe descarada.

    Esperemos, só, que ele não leia isto (difícil, difícil).

  6. Ora, primo, já tens obra publicada, embora eu não faça a menor ideia se pretendes continuar na senda. Dos restantes, parece óbvio que sim.

    Quanto a ser a pior profissão do mundo, tens de me explicar isso com mais calma. Pensava que a pior profissão do mundo era ser líder do PSD em 2007.

  7. Prezado Daniel,
    risos de troça? Não exagere. Mas que ri com gosto, é uma verdade. Agora, já reparou quantas vezes se auto-puniu nos seus comentários? Leia-os e faça as contas. Qualquer dia é canonizado ainda em vida!

  8. Ora raios, se faço asneira não devo castigar-me a mim mesmo? E se, sob essa significativa identificação de “Anedota da Semana, levei um puxão de orelhas que bem mereci, deveria ter devolvido a coisa com meia dúzia de palavrões? É que, se for necessário, também os sei, pode crer.

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