Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Fósseis e renováveis

Nada como ter Putin a invadir um país europeu onde já estava como invasor, e a bombardear civis como profilaxia antiNATO, para descontrairmos um bocadinho da pandemia e nos esquecermos do apocalipse climático a caminho. Mas a inversa é igualmente actual, a invasão e destruição da Ucrânia criar uma horrenda oportunidade de acelerar ao máximo a transição dos combustíveis fósseis para as energias renováveis. E a União Europeia, com as suas instituições democráticas, científicas e políticas de vanguarda, pode liderar esse inevitável processo de mudança de paradigma energético – o qual arrasta uma mudança profunda na economia mundial.

Mudar de fontes de energia para mudar a economia para mudar a política. Especialmente, a política a que estão sujeitos os habitantes dos países que dependem das exportações dos combustíveis fósseis, em muitos casos ditaduras. Não é com fósseis imperialistas como Putin que iremos resolver o maior desafio das próximas gerações, é com vulgares democratas, livres e renováveis.

Uma grave contradição + quem quer sair da NATO?

  1. Vladimir Putin apoia, por princípio e com tropas, a maioria russa na bacia do Don que quer autonomia e independência em relação à Ucrânia. Em contraste, a maioria ucraniana que quer independência em relação à Rússia é brindada com uma invasão, mortes e ameaça de extinção. Isto é muito lindo.
  2. Com tanto país a querer aderir à NATO, desde a Finlândia até à Geórgia, prolongando-se ao Azerbaijão e ao Cazaquistão, um dia destes quem quererá sair serão os Estados Unidos. É uma responsabilidade com a qual não estariam a contar. Digo eu. É mentira, espero que não, pois seria sinal de que um chalupa como o Trump voltou, mas a ideia é divertida.

Revolution through evolution

Physical fitness linked to lower risk of Alzheimer’s disease
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Resistance exercise may be superior to aerobic exercise for getting better ZZZs
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Meta-analysis of 15 studies reports new findings on how many daily walking steps needed for longevity benefit
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Higher education and language skills may help ward off dementia
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When money is tight, ‘purchase happiness’ is low
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Mystery solved about the origin of the 30,000-year-old Venus of Willendorf
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Agreeableness a helpful trait for general success in life, study finds

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Dominguice

Reason is, and ought only to be the slave of the passions, and can never pretend to any other office than to serve and obey them.“, escreveu David Hume no A Treatise of Human Nature (1739–40). Esta passagem viria a tornar-se uma das mais famosas com a sua assinatura. As interpretações da mesma, como é método na filosofia, remetem para o todo da obra e do opus. Só especialistas gastam o seu tempo nessas prospecções e errâncias. Mas há uma leitura de superfície que já era do domínio popular (“puxar a brasa à sua sardinha”) e que veio para a ribalta mediática na segunda metade do século XX e início do século XXI com os estudos disciplinares e interdisciplinares nas ciências psicológicas e cognitivas, a que se juntam os contributos da economia e antropologia: o domínio universal e tirânico dos vieses cognitivos.

Mais do que racional, o homem é o animal apaixonado. Quase sempre, por si próprio.

A espada e a pena

Imaginemos que a Rússia, para além dos actuais países que a constituem, tinha continuado a assistir passiva à entrada na NATO da Suécia, Finlândia, Ucrânia, Bielorrússia, Geórgia, Azerbaijão e Cazaquistão. E que os americanos tinham colocado em cada um desses países armas nucleares. Nesse cenário, que teria a Rússia a temer?

A resposta é: exactamente o mesmo que tem agora. Não haveria qualquer diferença posto que a Rússia continuava a ser uma potência militar e nuclear com quem não faria sentido entrar em guerra para lhe conquistar território. Mas não só, igualmente nada teria a temer porque a NATO é uma organização defensiva e funda-se no poder político de democracias que jamais aceitariam políticas imperialistas, sequer a mais leve ameaça de ataque à Rússia (ou China, ou qualquer outro país) sem um “casus belli” que fosse lógico e pudesse ser apresentado como justo.

Imediatamente, vem à baila o Afeganistão mais o Iraque e a mentira das armas de destruição em massa como suposto argumento para legitimar a invasão da Ucrânia pelos russos, ditos apenas “imitadores” da práxis belicista dos “imperialistas ocidentais”. Ora, tal não passa de uma falácia adequada à dissonância cognitiva dos que a usam. No caso do Afeganistão e do Iraque, os EUA e a Europa, entre outros alvos, foram atacados no seu território e a enorme maioria das vítimas foram civis. Podemos discutir quais teriam sido as melhores respostas nesse contexto, é indiscutível que uma resposta lógica e que podia ser apresentada como justa passava por tentar vencer os inimigos onde se acreditava que estavam.

Na Ucrânia não há inimigos da Rússia. A Ucrânia não atacou a Rússia. A NATO não atacou a Rússia. A NATO não está na Ucrânia, a Ucrânia não pertence à NATO. Quando se invoca e legitima o direito da Rússia a se “defender” da NATO a propósito da invasão militar de um país que pretende ser independente e viver em paz com os seus vizinhos, tal apenas tenta esconder que o verdadeiro perigo para os ditadores russos é a proximidade geográfica da democracia e da liberdade, não a proximidade das armas e soldadesca.

É isso que se está a pretender destruir à bomba e com a carnificina de civis na Ucrânia, a democracia e a liberdade.

O que ganha Putin com a invasão da Ucrânia?

Começa por ganhar a Ucrânia propriamente dita, e não apenas a região do Donbass, pelo menos por uns tempos, que podem abranger, pelo menos, os anos que restam de vida ao ditador. Com enorme repressão, é certo, assassinatos, mas nada que ele já não tenha imposto e não pratique noutros lados, para não falar na própria Rússia.

Estabelece um exemplo para outras repúblicas que ainda controla e que ousem sonhar com outras alianças e outra forma de vida.

Alarga a sua área de influência militar, instalando mais armamento mais perto da Europa e da Turquia.

Ocupa as empresas russas com a reconstrução da Ucrânia.

Tudo isto o homem ganha, caso viva. Não é pouco. Irá, pois, até ao fim, não tenhamos ilusões.

Quanto ao que perde: perde rublos, perde mercados, perde homens, mas que interessa?, eventualmente perde estabilidade interna (difícil, porque trata de garantir que a população russa nem saiba o que se passa). Se controlar estas perdas, sobrevive. Se puder manter o poderio militar, sobrevive. Ele e o seu regime.

No meio disto, ficam os ucranianos, que resistirão, como não podem deixar de resistir, mas que acabarão vencidos. Nós sabemos que eles sabem que estão a lutar para uma derrota. Uma que vale a pena para eles, mas uma derrota, que só não o seria, ou não os deixaria tão sós, se a guerra se internacionalizasse ou se o governo russo mudasse (e mesmo assim).

 

Nota: Tudo isto é suficientemente triste, trágico e angustiante para se poder gastar um minuto que seja a ouvir ou ler os “relativistas”, “comparativistas”, anti-natistas, sonhadores irrealistas, vulgo empatas, e demais agentes nem sei bem de quê que por aqui pululam. Por mim, ficarão a falar sozinhos. Cortar-lhes o pio é também uma hipótese, à boa maneira do russo, cujas políticas censórias  nem um lamento lhes arranca, quanto mais uma discordância.

Putin não lê Tucídides

A Rússia invadiu um país cujo exército é cem vezes inferior ao seu, alegando precisar de o fazer para garantir a sua segurança. Correspondeu essa invasão a uma invasão prévia na Rússia, ou a qualquer forma de agressão militar, do país invadido? Não, ao contrário. Anos antes, a Rússia já o tinha invadido e ficado a controlar partes desse país. Pois agora, ao terceiro dia da nova invasão, a Rússia ameaçou disparar armas nucleares contra países indeterminados. Correspondeu essa ameaça a alguma correspondente, sequer convencional, ameaça militar prévia ao seu território ou exército por parte de países da NATO? Não, zero. A Rússia colocou as forças nucleares em alerta máximo como resposta a “declarações” feitas por governantes de países variados. Mísseis atómicos contra palavras, é o único nexo a dar sentido à situação.

Às 72 horas do começo da destruição da Ucrânia, porque não gostou do que ouviu, Putin lembrou-se que dá para resolver os seus problemas com a liberdade de expressão através do holocausto nuclear. Poder extinguir a humanidade inteira como potencial consequência dessa decisão parece ser um dano colateral que ele admite sofrer em ordem a provar que não tolera certas afirmações. Este tão-baladão que já não dá para voltar a meter no sino foi de tal forma inusitado e absurdo que de imediato colocou a questão da saúde mental de Putin na berlinda. A chantagem nuclear parecia ser um exclusivo da Coreia do Norte mas, pelos vistos, a grande Rússia também lhe pretende dar gasto. Lá vai para o galheiro a imagem de Putin em tronco nu a cavalo e a socar ursos. O que ele fez e vai continuar a fazer revela um líder frágil, confuso e cheio de medo. Daí ter gasto o derradeiro trunfo logo no início da guerra contra a Ucrânia. E daí esse conflito poder já ser visto como o palco de uma Terceira Guerra Mundial. No caso, uma guerra onde existe um fulano com a manifesta disponibilidade de não só acabar com o Ocidente imperialista como também com a própria Rússia, a China, Índia, África, Oceania e o mais que der para apanhar no Inverno Nuclear.

Portanto, dada a absoluta aberração em causa, ninguém acredita que ele chegasse a tal num contexto onde não tem as fronteiras ameaçadas, está é além-fronteiras a bombardear e matar civis, certo? Errado. A cartada nuclear, seja parte de uma estratégia negocial ou o resultado de um desvario raivoso, dramatiza um problema cósmico que fascina filósofos e cientistas: o Paradoxo de Fermi. Para um cálculo de 2 biliões (cada bilião é um milhão de milhões) de galáxias no Universo observável, a que corresponderá um número jeitoso de planetas (10 elevado a 25, é fazer as contas), esperava-se que a vida fosse abundante o suficiente noutras paragens para gerar imitações do que fez na Terra: dar à luz civilizações extraterrestres. Eis o berbicacho, não se encontrou até agora o sinal de nenhuma. Este deserto na observação cósmica choca de frente com o optimismo estatístico que não aceita sermos a primeira e única espécie de animais capazes de telefonar uns para os outros, ouvir relatos de futebol via rádio e não perder aos domingos os sermões televisionados de alta política oferecidos ao povo por um brilhante ex-presidente do PSD. Onde está o resto do pessoal, onde estão os marcianos? Dentre as muitas explicações que tal fenómeno convoca, uma delas é esta: talvez todas as civilizações no Universo, ao atingirem um certo desenvolvimento tecnológico, acabem por se autodestruir, em guerra ou por colapso ecológico. O que nos traz de volta a Putin.

Abstractamente, o cenário do conflito nuclear entre Rússia e NATO é uma velha e reconfortante conversa. Durante décadas de Guerra Fria, com tecnologias de controlo nuclear e de comunicações rudimentares quando comparadas com as actuais, nunca se chegou a tal. Há um consenso de que a doutrina da “mutual assured destruction” (MAD) garantiu a paz pois tornou irracional a opção de ser o primeiro a disparar o míssil. Todavia, é também consensual que haverá algures no futuro um maluco que irá usar armamento nuclear só por ser maluco. Se tal ficar limitado a um pequeno arsenal, será possível evitar uma catástrofe planetária. Se acontecer na Rússia, EUA ou China, o pior cenário inevitavelmente acontecerá e os que sobreviverem contarão a história pois não é possível antecipar todas as consequências. Assim, no abstracto, esta problemática é sempre actual e justifica que se tente limitar ao mínimo dos mínimos o número de países com acesso a armas nucleares.

Concretamente, Putin lidera uma ditadura plutocrática cujos mandantes prolongam a ideologia imperialista da União Soviética e czares. Uma parte essencial desta cultura é o hedonismo, a fruição que os oligarcas russos fazem da sua riqueza quando a vão ostentar para os palcos ocidentais onde a opulência se consagra. Outra parte é a timocracia, as liturgias do poder e a impunidade para usar a violência contra adversários, o que pode ser até mais decisivo na mente de Putin do que a riqueza material. Esta conjugação de factores contribui para a improbabilidade de alguma vez Putin poder iniciar um conflito nuclear posto que estaria em modo suicida e na prática iria também matar aqueles que o suportam no poder. Seria preso, ou assassinado, se o tentasse. Mas não sabemos, ao limite – o pior da natureza humana causa as mais impensáveis tragédias, ensina a História.

O que sabemos é que Putin não é leitor de Tucídides. Se o fosse, teria colhido a lição de que certas vitórias conduzem a inevitáveis derrotas. Putin não passa neste momento de um vulgar facínora montado em cima da ameaça de acabar com a vida de milhares de milhões. Deixou a caixa de Pandora escancarada. A Rússia terá de escolher entre ele e a paz.

Sim, abelha (2)

Ai a vontade oculta de ilegalizar o PCP. Só faltava esta, ó Tadeu.

Se o Putin invadisse Portugal, o PCP seria o primeiro a combatê-lo. E combatê-lo-ia como mais ninguém aqui em Portugal. É o que diz o Pedro Tadeu, hoje, no Diário de Notícias. Queiram, por favor, passar um bom momento. Como o Putin invadiu a Ucrânia, o PCP vota contra moções de apoio aos ucranianos e de condenação da invasão no Parlamento Europeu e emite comunicados contra a NATO em que mal condena a Rússia! E o Pedro indigna-se ao longo de sucessivos parágrafos com o ódio que estas atitudes suscitam. Boa, Pedro!

 

Para rir a bom rir é o parágrafo em que diz que esta guerra é uma “guerra entre facções do capitalismo” e que são os seus (dele) críticos a confundir a Rússia com a extinta União Soviética! Quão formatadas, mas retorcidas, podem estar as cabeças dos comunistas? Jesus.

Sim, abelhas

O Kremlin acusa os Estados Unidos e a NATO de serem os instigadores da insubordinação “separatista” ucraniana ao acenarem (com a ajuda da CIA) com uma possível adesão da Ucrânia àquela organização. Verdade ou não (e quem começou o quê?), facto é que os ucranianos (representados pela maioria que os governa) não são entusiastas das condições que vêm associadas à garantia de segurança que lhes é dada pelos russos, como a falta de liberdade e independência, e, sim, desejam imenso pertencer à NATO (e à UE). Desejam.

Sucede que os ucranianos vivem há anos numa relação de violência doméstica psicológica e física crescente com a Rússia. Governos fantoches, governos não fantoches, respeito de fronteiras, que fronteiras, respeito de minorias ou acantonamento de minorias, etc. Num desfecho trágico, acabam a levar com bombas para aprenderem a controlar os desejos. Suspeito que o desejo morra com quem morre, fatalmente, mas não morra com quem vive. E muitos vão viver.

Mas o Governo russo não só não quer a Ucrânia na NATO (não estava nas perspectivas mais próximas desta) como também quer que os países europeus vizinhos da Rússia saiam da NATO, anulando o que chama a “expansão para leste” ocorrida nos últimos anos, que ameaça (segundo o Kremlin) a sua segurança. Ora, é difícil alterar a geografia. A Europa é, e sempre será, vizinha da Rússia. Durante muitos séculos, pouca ou nenhuma animosidade mútua existiu, pelo contrário. Hoje, e depois de peripécias históricas várias, dramas e experiências políticas radicais e muita miséria, a Rússia encontra-se demasiado bem armada e nuclearizada, considera o Ocidente e a Europa um inimigo, uma ameaça e… infelizmente não mudou de sítio. Vista de cá, continua a ser nossa vizinha. Os vizinhos, por definição, habitam dos dois lados de uma fronteira. Pode a Estónia, por exemplo, exigir que a Rússia desloque o seu arsenal bélico para a Sibéria? Não pode, sem provocar um ataque de riso junto ao Moskva. E, no entanto, a Estónia, a Letónia e a Finlândia ali estão, esta à mercê.

Desproteger estes países europeus militarmente é nem mais nem menos do que colocá-los numa situação de vulnerabilidade semelhante à da Ucrânia. Jamais o aceitarão, muito menos agora.

Por isso, o Sergei Lavrov faria melhor em ir dar banho ao cão em vez de se pôr com exigências patéticas de recuo da NATO enquanto ameaça usar os “nukes”. Sei que é absurdo dizer isto, mas, se a Ucrânia já pertencesse à NATO, não teria sido invadida. Simples. Quão mau teria sido esse facto? Nada mau. Nem para a Rússia, que pouparia milhares de homens e rublos e continuaria a poder usufruir do Mar Negro, pois não deixa de ter costa para ele, e, se tivesse juízo, a fazer bom comércio e bons negócios com a Ucrânia.

Quanto à “ameaça que a NATO representa”, trata-se de pura estratégia de propaganda e dominação. A NATO não tem qualquer interesse em atacar a Rússia. Nem interesse nem veleidade. Já o contrário não se pode de todo afirmar. Ao recuo da NATO seguir-se-ia a exigência de extinção da NATO, isto sempre sob a ameaça da guerra nuclear. Diria que temos um problema.

Mors certa

«Rocha Andrade recorda ao DN o "tipo muito surpreendente" que era o seu antigo colega de governo. O agora deputado do PS sublinha o que outros disseram dele nas horas que se seguiram à notícia da morte. Era um homem com capacidade "de descomplicar, de motivar e de fazer". E com uma "boa disposição, mesmo em situações muito chatas".»

Fonte

*_*

Fernando Rocha Andrade e João Vasconcelos, ligados pelos traços de personalidade, talento político e experiência governativa. Unidos pelo sentido da vida e também pela tragédia da sua morte tão prematura.

António Costa, o PS e Portugal, em três anos, sofrem o implacável absurdo de perder dois dos seus melhores recursos humanos ainda com décadas de potencial mérito cívico pela frente.

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Do pets have a positive effect on your brain health?
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Women’s experiences of sexual assault and harassment linked with high blood pressure
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Daily activities like washing dishes reduced heart disease risk in senior women
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Want students to do better in class? Send them on culturally enriching field trips
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One in three young people say they felt happier during lockdown
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A Minecraft build can be used to teach almost any subject
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WashU Expert: Putin is using ‘victim’ narrative to justify Ukraine attack
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Dominguice

Pessoas que são capazes de errar em tudo o que de essencial diga respeito a quem vive com elas debaixo do mesmo tecto, pessoas que não conseguiriam verbalizar o que as levou a ser como são e não como gostariam de ter sido, pessoas que não fazem sequer ideia do que se passa com a vizinha do 4º andar, esta multidão considera-se habilitada para explicar, com detalhe e prognose, o que querem e não querem Putin, Biden e Xi Jinping.

O espectáculo da estupidez consegue ser mais desesperante do que o da guerra.

Outrora agora

«O leitor deve estar certo de que, por aquele tempo, monopolizavam a curiosidade pública as variadas peripécias da Guerra da Crimeia.

Cecília era obrigada a ler aquelas descrições de carnificina que todos os dias enchiam as colunas dos periódicos; isto o fazia ela sempre com a cara contraída de desgosto.

Manuel Quintino era pelos aliados, José Fortunato esposava a causa dos russos — um e outro sem saberem bem porquê. Cecília era só pelos mortos e feridos.

Um dia, parou no meio da descrição de um dos mais sanguinolentos encontros dos dois exércitos, para interpelar o pai sobre a causa desta guerra implacável.

A pergunta embaraçou consideravelmente Manuel Quintino, que olhou para o Sr. José Fortunato, como a ver se lhe vinha auxílio dali; o Sr. Fortunato o mais que pôde dizer foi: — «Que a guerra era lá por causa de umas coisas.»

Cecília também não exigiu saber mais.

— «Os russos. — leu ela naquele serão — fazem fogo durante a noite sobre o campo dos aliados; estes abstêm-se de responder.»

— Têm medo — comentou logo o Sr. José Fortunato, com um sorriso.

— Isso é plano! — acudiu Manuel Quintino, com ares de quem entrava no mistério.

— «Os atiradores aliados respondem, porém, de dia com proveito» — continuava Cecília.

— Então? Era ou não era plano? Eu logo vi — exclamou Manuel Quintino, exultando.

— Balas perdidas — replicava o outro, encolhendo os ombros com desdém.

— «Os soldados — prosseguiu Cecília — pedem com entusiasmo ao general em chefe que dê a batalha» — e, acabando de ler isto, fez um gesto de aversão.

— Pois vão para lá! — respondia o Sr. José Fortunato, como homem que conhecia a preceito os recursos de defesa da praça.

— «Em Sebastopol há 2000 bocas-de-fogo» — lia ainda Cecília.

José Fortunato olhou para o seu amigo, com gesto provocador e triunfante; parecia que o convidara a atacar, propondo-se ele a defender com aqueles auxiliares.

Em seguida Cecília leu que Vassif-Pachá acabava de tomar o comando do exército da Ásia.

Foi a vez de Manuel Quintino pagar o gesto do outro, como se depositasse grande confiança no Vassif e nas operações campais do exército da Ásia. Mas o gesto de triunfo foi maior ainda quando ouviu que, a 30 de Janeiro, partira para a Crimeia Ulrich, que ele não sabia quem era, com a guarda imperial francesa; José Fortunato só teve, a compensar-lhe o receio desta acometida, a notícia de que estavam 6000 russos em Pruth.»


Uma Família Inglesa_Júlio Dinis

Ucrânia: porque quererão os ucranianos desvincular-se da Rússia?

Estão tão bem assim! Tontos.

 

O PCP e outros alucinados que tais fariam melhor se deixassem de vez o extraordinário argumento de que o pobre e injustiçado Putin viu a NATO aproximar-se (perigosamente) das suas fronteiras nos últimos anos e não teve outro remédio se não ocupar a Ucrânia (quão ridículo) e, em vez disso, respondessem à pergunta lá em cima, no título.

 

O vínculo com a Rússia e a submissão aos seus ditames garante alguma espécie de prosperidade aos países seus vizinhos? Não muita e sempre condicionada por maus motivos. Têm esses países uma alternativa melhor e igualmente próxima? Economicamente mais promissora, além de mais livre, pacífica e democrática? Têm e eles sabem que têm. Então, que tal calarem-se, gente?

 

Dizer, como também dizem, que toda a instabilidade na Ucrânia se deve tão só e apenas à ingerência dos ocidentais, que visam minar o poderio da Rússia, como se tudo se passasse bem no reino dos governos fantoches e da russificação persistente de territórios, é uma tentativa de pôr uma venda nos olhos de milhões de ucranianos e passarem-lhes um atestado de demência. Ora, é evidente que os ucranianos não são cegos nem dementes. Também não são nazis (como pretende Putin, valendo-se do facto de, em 1942, muitos ucranianos terem saudado a chegada dos nazis, tal era a raiva a Stalin, que, uma década antes, matara à fome milhões de camponeses). Também os nazis não levaram nada de bom à Ucrânia, nem deixaram boas recordações. A maioria dos ucranianos, e do mundo, sabe disso. Não esquece.

 

E, por falar em “ver”, olhando para os países do antigo Pacto de Varsóvia que entretanto aderiram à União Europeia, o desenvolvimento tem sido notório. Têm paz, bem-estar, liberdade e democracia. Podendo haver um ou outro caso de governantes com sérios tiques de ditadores, possivelmente ainda não libertos das ideias e maneiras totalitárias e controladoras dos comunistas que os subjugaram, o panorama geral é de modernidade e prosperidade. No mínimo, de melhoria, não de retrocesso. Aliás, os próprios, na sua esmagadora maioria, execram a Rússia, a do Putin, e sentiram necessidade de se proteger pedindo a adesão à NATO.

 

Por que razão não quereria a Ucrânia fazer parte deste clube? E, já agora, será mau fazer parte do clube? Honestamente, não.

PCP-LSD

Dos mesmos que produziram, realizaram e trouxeram até nós o “Chumbámos o Orçamento porque Costa queria eleições e a maioria absoluta”, chega agora o “Putin invadiu a Ucrânia porque os americanos querem matar os ucranianos”. Aguarda-se em breve o lançamento do “Reduzimos para metade o grupo parlamentar porque o povo e os trabalhadores só queriam ter meia dúzia de deputados”.

Todos cobardes

Ivo Rosa, alvo de uma campanha de assassinato de carácter e de coacção em vários órgãos de comunicação social desde que foi escolhido por sorteio para dirigir a fase de instrução da Operação Marquês, surgiu referido numa escuta a suspeitos de tráfico de haxixe. Luís Agostinho, em telefonema à namorada, disse o seguinte: ““Olha, amor, aponta aí o nome do juiz Ivo Rosa e dá à minha mãe esse nome que ela precisa para mandar para o meu irmão (…). Aponta esse nome que é o nome do juiz para ele mandar lá para cima para fazer um trabalhinho. (…) É para dar 1.000 euros para ele fazer lá o que tem de fazer.” Em consequência, os procuradores desse processo de tráfico de droga enviaram a escuta que referia Ivo Rosa para o Tribunal da Relação e abriu-se um inquérito relativo à suspeita de corrupção do juiz.

Interessante, né? Mas a coisa é ainda mais interessante. Este Luís Agostinho fez o tal telefonema a partir do Estabelecimento Prisional de Lisboa, onde estava à espera de ir para prisão domiciliária. A 15 de Outubro de 2021 fora interrogado por Ivo Rosa, o qual negara ao Ministério Público o pedido de prisão preventiva e decidiu pela prisão em casa com pulseira electrónica. Enquanto os equipamentos de vigilância eram instalados na sua habitação, ele aproveitou para oferecer ao Ministério Público e à Justiça portuguesa um registo de voz onde se ficava a pensar que, às tantas, o tal Ivo Rosa é um bandalho que se vende por mil euros aos pilha-galinhas que lhe aparecem no tribunal.

Mas a cena é ainda mais interessante. Isto porque a Cofina, em cima das eleições legislativas (a 27 de Janeiro), lançou esta capa. Repare-se que o canto inferior direito também fica sumamente adequado à quadra eleitoral. A matéria do juiz odiado pela pulharia é anunciada como um “exclusivo” da revista. Quer dizer que algum agente da Justiça vendeu ou ofereceu à Cofina a informação para tão edificante e relevante capa. E mais quer dizer que termos uma escuta a referir Ivo Rosa num caso sórdido, a qual cai na Cofina em cima de um acto eleitoral, e isto no auge do conflito entre esse juiz e Carlos Alexandre, é uma série de coincidências de arrebimbomalho. Faz lembrar o Valentim Loureiro e a sorte que ele teve com a lotaria, a qual ganhou umas três ou mais vezes, sortudo dum cabrão.

Pois onde se atinge o interesse máximo neste episódio é na paisagem mediática à volta do mesmo. Silêncio absoluto nos editoriais e no comentariado. O mesmo silêncio absoluto que se decretou a respeito das razões para a constituição de Carlos Alexandre como arguido por suspeita de crime na forma como a Operação Marquês lhe foi parar às mãos.

Todos a assistir calados, todos cúmplices, todos cobardes.

Monumento semiótico

No dia 17 de Fevereiro de 2022, foi tornado público que o Tribunal da Relação de Lisboa decidiu aceitar o requerimento de abertura de instrução apresentado por José Sócrates no âmbito do caso da distribuição manual da Operação Marquês em 2014, distribuição essa que deu a Carlos Alexandre o processo. Em consequência, o juiz Carlos Alexandre e a escrivã Teresa Santos foram constituídos arguidos. Se mais nada soubermos do que está aqui em causa, o facto, por si só, é manchete obrigatória em qualquer meio de comunicação social que se conceba como parte da imprensa.

No dia seguinte, o jornal diário que é líder de mercado em Portugal, Correio da Manhã, omitiu da sua capa essa notícia que tinha sido destacada noutros jornais, rádios e televisões. Qual a razão, ou razões, para tal? Seja o que for, necessariamente não diz respeito ao estrito cumprimento da função jornalística. Não existem critérios profissionais, sociais, lógicos inerentes à missão de informar o público que justifiquem essa omissão. A causalidade para o que fica como um acto de autocensura é outra, portanto. Qual?

Os (raríssimos) interessados na compreensão do fenómeno dividem-se em dois grupos: aqueles para quem a agenda política da Cofina é evidente; aqueles para quem não é sequer evidente que a Cofina tenha uma agenda política. Para estes últimos, segue breviário da situação:

– A Cofina utiliza crimes cometidos por magistrados para cometer crimes nos seus órgãos de comunicação.
– A Cofina, editorialmente, trata o PS como um partido de corruptos, pondo em letra o caudal de calúnias que a direita tem despejado desde 2004 contra as principais figuras socialistas.
– A Cofina faz propaganda aos elementos do Ministério Público que tenham processos de investigação a figuras do PS ou ligadas de alguma forma ao PS.
– A Cofina faz propaganda ao juiz Carlos Alexandre, o qual aparece sistematicamente tratado como “superjuiz” e herói da caça aos “corruptos” do PS.
– A Cofina, sistemática e ostensivamente, persegue e ataca o juiz Ivo Rosa.
– Carlos Alexandre foi alvo de queixa de Ivo Rosa relativa a atrasos no processo BES e, por sua vez, fez uma gravíssima acusação a Ivo Rosa, dizendo que coloca em perigo a vida de inspectores da Judiciária.
– O Ministério Público arquivou o inquérito que Ivo Rosa tinha solicitado ao extrair uma certidão relativa a “factos com relevância criminal” relacionados com a “distribuição manual” no TCIC que deu o processo a Carlos Alexandre.
– O Conselho Superior da Magistratura admitiu que o caso foi distribuído “diversamente do legalmente estabelecido”, apresentando “irregularidades procedimentais”, pois a distribuição não foi electrónica como deveria e podia ter sido no Citius no dia 9 de setembro de 2014.

Só o que em poucas linhas se pode reunir chega, e escandalosamente sobra, para sabermos que as incontornáveis dúvidas a respeito da entrega da Operação Marquês a Carlos Alexandre estão umbilicalmente ligadas com as peripécias e decisões que fizeram da detenção e prisão de um ex-primeiro-ministro suspeito de corrupção, em simultâneo, o caso mais importante da Justiça portuguesa e aquilo que Francisco Proença de Carvalho carimbou como “autêntico fiasco”. É um caso onde o Ministério Público teve o tempo que quis à disposição, começou a devassar a privacidade dos alvos irregularmente antes de existir um inquérito formal, gastou não se sabe quantos recursos humanos e financeiros, alimentou o julgamento e o linchamento na praça pública, conseguiu prender Sócrates durante 10 meses, e chegou à acusação pendurado numa miserável negociata com o probo Hélder Bataglia pois todas as pistas exploradas nunca conseguiram sequer identificar os supostos actos corruptos que validassem as certezas repetidas durante anos. Quando o processo foi parar às mãos de Ivo Rosa, só aí se tornou possível contemplar a dimensão do logro que os procuradores responsáveis, mancomunados com o juiz Carlos Alexandre, andaram a esconder – e o qual jamais teria sido exposto se este juiz justiceiro especializado em socialistas tivesse continuado com ele.

No célebre acórdão de Março de 2015 onde os desembargadores Agostinho Torres e João Carrola recorreram ao anexim “Quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vêm” para ilustrar a sua recusa em terminar a prisão preventiva de Sócrates, entre outras gozações que lá deixaram felizes e ufanos, foi ampliada pelos jornalistas e comentadores a sua intenção de mostrar que se estavam a guiar pelas “regras da experiência comum”, acessíveis à generalidade dos cidadãos na sua universalidade empírica. Assim, não lhes parecia crível que Santos Silva fosse capaz de disponibilizar tanto dinheiro do seu a um amigo, acharam que tal não podia acontecer neste mundo, teria de haver marosca. E assim pensam milhões com eles. Ora, se também aplicarmos essas famigeradas regras da experiência comum ao que vemos acontecer no Ministério Público, na Cofina e com o juiz Carlos Alexandre, a que conclusões chegaremos?

Eu chego a esta: a Justiça portuguesa está, ipso facto, dominada por criminosos. Se a suspeita de ter existido um primeiro-ministro corrupto exigia a mais rigorosa e exaustiva investigação, mas ao mesmo tempo a mais prudente e implacável práxis para impedir explorações sensacionalistas e políticas, esta realidade quotidiana de termos órgãos de comunicação social como instrumentos de caça política e punição personalizada em conluio com magistrados criminosos é infinitamente pior. Porque o ex-primeiro-ministro suspeito nada pôde fazer para impedir que se capturasse a sua privacidade, até a sua intimidade, na feérica procura das provas dos alegados crimes. Mas quem domina os instrumentos da sindicância policial, quem tem o poder de utilizá-los arbitrariamente, quem é a autoridade da interpretação dos materiais capturados e registados, quem determina as consequências penais das inferências acusatórias, esses estão num plano de inatacável impunidade – a qual ainda mais se blinda ao dominarem o espaço mediático sem vagido de indignação, sequer contraditório.

O desaparecimento de Carlos Alexandre da capa do esgoto a céu aberto, escondendo dos borregos que o seu adorado carrasco ostenta agora ao peito a estrela amarela de “arguido”, é o grande monumento semiótico ao desaparecimento da coragem na comunidade que somos.

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