Qual a melhor, ou mais provável, explicação para a fuga de informação acerca dos membros do Governo? E como interpretar a reacção de Marcelo?
Rio salva Menezes
A repetição da votação no círculo da Europa gerou uma surpresa: o PSD perdeu a deputada que a 30 de Janeiro estava com lugar garantido no Parlamento, indo essa vaga para o PS que soma mais um lugar à sua maioria absoluta. Lembrar que foi o PSD quem resolveu levantar um banzé disparatado (face ao contexto político, embora legítimo no plano legal como se viu) que acabou por provocar a repetição das eleições. E concluir que este desfecho é o final simbolicamente perfeito da passagem de Rui Rio pelo trono do PSD. Entrada de contabilista alemão que vinha pôr ordem na barraca, o tal banho de ética publicitado e a propalada têmpera do Deutsche Schule zu Porto, e saída pela esquerda alta, disparado por um canhão de circo, com o admirável feito de ter contribuído para a maioria absoluta de Costa ao se revelar uma asneira ambulante, e ainda com o especial favor de abdicar de uma cadeira parlamentar laranja para oferecer ao nosso primeiro mais um deputado para lhe bater palmas.
O espantoso – aliás, o trágico – é que havia boas razões para considerar Rio do melhorzinho que existia no laranjal. Chegou a prometer, na primeira campanha interna, o que teria sido um muito importante regresso do partido à decência. Afinal, quatro anos de macacadas depois, serviu apenas para reinventar o passado de Luís Filipe Menezes – alguém que passa agora a poder reclamar não ter sido o pior líder na história do PSD.
Que queres das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril?
Ontem iniciaram-se as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. O pretexto foi a contabilidade dos dias em ditadura, finalmente superados pelos dias em liberdade. E soltaram-se discursos da praxe sem brilho para memória futura.
Há neste tempo milhões de pessoas em Portugal que viveram como adultos a ditadura. Milhões que a viveram na infância e adolescência. E milhões que nasceram após a instauração da democracia. Mundos sem contacto entre eles, tão radicalmente afastados se encontram no conhecimento e compreensão desse passado e deste presente. Em cada um destes grupos, diferenças de literacia, educação, ideologia, personalidade e experiência de vida geram as mais díspares opiniões a respeito do que foi a ditadura e do que deve ser a liberdade. Impossível haver consenso, como é natural e fica bem.
Que queremos das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril? Se me tivessem perguntado, esta seria a resposta: que se tente demonstrar como a democracia é o regime dos inteligentes, não dos broncos; que se tente demonstrar que a melhor democracia é a que dá mais poder aos mais decentes, não aos mais pulhas; que se tente demonstrar que há um heroísmo próprio da democracia, feito das virtudes chamadas humildade, curiosidade e generosidade.
Putinistas e cagarolas
O que se passa nesta fuga do concreto para o abstracto, a que os putinistas se entregam febrilmente, não tem nada de novo. Vimos o mesmo fenómeno no Brexit, no Trump, no Bolsonaro e no Ventura. Em comum, um fascínio pelo pensamento mágico e, especialmente, pela violência.
A ideia de que o Reino Unido ficaria melhor fora da União Europeia era mais repelente para quem tivesse mais estudos e melhor informação e mais atraente para quem fosse mais ignorante e mais estúpido. Os broncos foram votar não porque entendessem o que estava em causa mas precisamente por não perceberem patavina da complexidade política, económica e social que se oferecia como potencial de realização aos cidadãos de um Reino Unido pertencente à União Europeia.
Quando Trump se assumiu como racista, tiranete, machista, xenófobo e apelou a que se prendesse Hillary Clinton isso não lhe tirou votos dos afro-americanos, dos latinos e das mulheres, mesmo dos Democratas que foram votar nele para castigar os Clinton. Trump fez da encenação da violência um número de hipnotismo colectivo, foi levado ao colo pela voracidade da indústria mediática.
Por cá, a sua imitação de fancaria já ameaçou segregar ciganos, prender políticos, expulsar deputados e refugiados, castrar presos e até decapitar Eduardo Cabrita. Tudo na reinação, certo? Dá para lhe continuar a apertar a mão nos restaurantes ou a convidá-lo para lançar mais ameaças na “imprensa de referência”, né? Pois, porque a coisa resulta. Ventura usa a violência como isco para arrebanhar os borregos mais rapaces e mais alienados.
Com Putin, repete-se a matriz, agora concretamente e numa escala criminosa que não se imaginava possível ocorrer na Europa. Os putinistas fecham os olhos para não verem as vítimas e a destruição, preferindo correr e saltar no prado da sua imaginação. Nela montam um palco com a NATO, os americanos, a União Europeia, os nazis ucranianos, os massacres de russos em Donbass de que não há evidências, as armas químicas que o Zelensky está a desenvolver secretamente numa cave de um centro comercial, e até as armas atómicas que o mesmo Zelensky quer um dia ter à mão e apontadas à Santa Rússia. Vale tudo para se manterem entretidos e invencíveis no torreão do solipsismo.
Trata-se do instinto de sobrevivência a funcionar. Os putinistas, no fundo, sabem bem que Putin é um criminoso a uma escala planetária, tão merdoso que tem de ameaçar com o apocalipse nuclear para se sentir homenzinho. Daí o pavor que sentem e que se volta contra as vítimas ucranianas na tentativa de comprar a clemência e apaziguamento do ogre.
Não foi com cagarolas deste calibre que se fez a civilização onde queremos viver.
Do raciocínio motivado à imbecilidade motivadora
A extrema polarização que a nova invasão da Ucrânia por Putin desencadeou está a ser um intragável espectáculo de raciocínio motivado. A esquerda à esquerda do PS, falando genericamente e esquecendo as excepções, viu uma oportunidade na destruição de um país soberano e no massacre dos seus soldados e civis pelo exército russo para atacar velhos e obsessivos ódios de estimação: a América, a União Europeia e o “Ocidente” (seja lá o que isso for). Naturalmente, quem apenas se concentrou em exigir que o criminoso parasse com os crimes, e em acudir à crise humanitária, viu essa estratégia de comunicação como cumplicidade hipócrita com o único responsável pela situação.
O argumentário dos que acham legítimo, ou lógico, ou inevitável, que Putin se armasse em czar em 2022 implica explicar com esfuziante animação e pacóvia soberba como a causa principal para tal opressão não se encontra em Moscovo mas em Washington. Teriam sido os cobóis capitalistas que forçaram o bombardeamento de ucranianos e o seu exílio aos milhões ao terem continuado com a “expansão da NATO” para Leste, assim ameaçando ter gringos fardados a dormir em casernas montadas junto às fronteiras russas. Isto é dito e repetido à exaustão, embrulhado num lençol de vilezas “ocidentais” que se listam desde Hiroshima (mas é provável que os viquingues ainda venham a ser acusados de alguma cena vergonhosamente “ocidental” ou “americana”). Lengalenga fetidamente cínica cuja única finalidade é sugerir que os russos têm muito crédito para gastar em matéria de barbaridades marciais.
Ora, a NATO apresenta duas características que, paradoxalmente, estão a alimentar o delírio: a primeira é nunca ter feito mal a uma mosca; a segunda é não existir. Sim, teve intervenção na Bósnia e Herzegovina mas para cumprir uma resolução do Conselho de Segurança da ONU. Sim, teve intervenção no Kosovo mas para cumprir uma resolução do Conselho de Segurança da ONU. Sim, teve intervenção no Afeganistão mas por ter sido invocado o artigo 5º de defesa mútua em consequência do “11 de Setembro”. Sim, teve intervenção no golfo de Aden mas para combate à pirataria somali e ajudar os países da região. Sim, teve intervenção na Líbia mas para cumprir uma resolução do Conselho de Segurança da ONU. No Iraque não teve intervenção, para além de um treino. Qualquer destas intervenções pode, e deve, ser discutida e qualquer posição a seu respeito é admissível no plano político e moral. O que é impossível de apontar é um caso onde a NATO tenha agido para violar os seus princípios defensivos e/ou para contribuir na expansão territorial de qualquer um dos seus membros. Quanto a não existir, é o óbvio ululante: o que existe são os exércitos dos países membros, a NATO apenas coordena acções conjuntas em caso de ataque de um inimigo ou para a imposição da lei internacional.
Corolários: (i) com ou sem NATO, os países que a constituem continuam a dispor dos seus exércitos e arsenais nucleares; (ii) não se concebe a instrumentalização da NATO por um país ou grupo de países em ordem a violar a lei internacional ou para cometer abusos e crimes de guerra, posto que é a democracia o paradigma institucional e sociológico que define a missão da NATO e sua viabilidade organizacional; (iii) não existe qualquer ameaça ao território da Rússia pelo facto de ter fronteiras com países da NATO, posto que não se imagina qualquer conjuntura nos EUA e UE onde fosse concebível que o poder político conseguisse legitimidade para iniciar uma guerra absurda e suicida de ataque à Rússia.
Sendo assim, e assim é, a propalada “expansão da NATO” dada como “casus belli” pelos advogados de Putin fica como um monumento da sua imbecilidade motivadora.
Começa a semana com isto
Obviamente, há inúmeras abordagens terapêuticas à disposição para a depressão. A extensão e prevalência dessa patologia gera correspondente abundante investigação que tenta abarcar a desvairada complexidade observada nos casos individuais.
Com este amigo, Michael Yapko, encontramos uma proposta que abre um horizonte de optimismo ao se focar nos recursos que todos temos mesmo quando pacientes dessa doença ou estado depressivo.
Para mim, a grande ideia nesta palestra é a de a depressão poder ser vista como uma doença do narcisismo. Mais, como a estupidez inerente à subjectividade. E que uma terapia eficaz para a depressão pode, simultaneamente, ser uma terapia para a alienação e cobardia políticas.
Revolution through evolution
Affection from a dog really is medicinal, according to a new study
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Common houseplants can improve air quality indoors
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When it comes to sleep, it’s quality over quantity
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Trial testing cocoa flavanol supplement shows promise for reducing cardiovascular risk
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Close the blinds during sleep to protect your health
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Why do flocks of birds swoop and swirl together in the sky? A biologist explains the science of murmurations
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Anyone can be trained to be creative
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Dominguice
Fechados num ponto de vista único – inacessível a outrem pois mais ninguém é o que somos quando o somos, e misterioso para nós próprios que ignoramos donde viemos e quem seremos no instante seguinte – berramos enfurecidos ou carpimos silentes por causa dos pontos de vista alheios não serem iguais aos nossos.
A mesmidade é diabólica, só a alteridade garante boa companhia.
Que cagada é esta? Quem guarda os juízes?
A última página do Público foi de meia má a muito pior
Não defendo a censura às opiniões alheias. E não, não introduzo aqui um “mas”. Digo apenas que qualquer pessoa que escreve publicamente deve saber que pode ser criticada (e já agora o jornal que a contrata). Cada um fará das críticas o que entender, evidentemente. Por mim, aqui e agora, e à minha reduzidíssima escala, não posso deixar de ser crítica.
A senhora Carmo Afonso, recentemente contratada para fazer alternância com o João Miguel Tavares na ultima página do jornal em substituição do Rui Tavares, tem provado ser um bocadinho confusa, na minha opinião, claro está, e mais ainda quando decidiu pronunciar-se sobre a guerra na Ucrânia. Já antes lhe notara falta de noção (pensei que fosse bloquista), embora ostentando um estilo blasé a que se podia achar graça. Agora, tudo indica que o estilo foi o suficiente, isso e talvez o ser mulher, para passar ao destaque. O que ninguém, sobretudo nem ela, estava à espera era que entretanto o senhor Putin decidisse invadir o país vizinho, e vizinho da Europa, e bombardeá-lo sem dó nem piedade, alegando que a Ucrânia é a Rússia, e portanto é dele, e com isso obrigasse todo o comentariado, Carmo incluída, a abordar o tema. Hélas. Um desastre. E pouco original, já agora. O PCP debita os mesmos pontos de vista incompreensíveis (e o Putin acusa o Ocidente nos mesmos termos). Diz-se pela paz, mas não diz como. Com algum esforço, lá condena a invasão, mas ah e tal o Ocidente e o seu passado, ou então “será que é um delito querer pensar”? Em suma, para a resolução desta tragédia, o contributo é zero, abaixo de zero e, na prática, só favorece e desculpabiliza o tirano.
Ainda hoje, por exemplo, insistindo, a senhora disserta a propósito indo buscar a guerra do Iraque, cumprindo de rigor o “whataboutismo”, e invoca a votação da ONU sobre a condenação do Putin para concluir que os cento e quarenta e tal países que condenaram expressamente a invasão não são nada de mais, se olharmos aos que se abstiveram, como foi o caso da maior parte dos países africanos (em muito menor número, mas, segundo ela, significativamente populosos, e que raio de apontamento). E diz mais, exagerando claramente. Diz que isso prova que há quem no mundo prefira o Putin e a sua autocracia com capitalismo selvagem à “proposta democrática ocidental”. Pois bem, nem sei que diga. Ao escrever isto, quer dizer o quê? Que há que venerar os africanos que se abstiveram, esses grandes democratas (que compram e querem continuar a comprar armas à Rússia ou que querem manter os seus regimes autocráticos?) Que esse dado sobre a votação na ONU a faz pensar e relativizar a violência do regime do Putin e o seu imperialismo, já que tem tantos apoiantes? Que para o Putin ter tantos apoiantes (não sei como chega a tal conclusão) é porque alguma coisa de muito mau o Ocidente tem? Não sei. Haja quem saiba, sinceramente. E eles nem sequer votaram contra. Limitaram-se a abster-se. Enfim.
Mas fiquem-se com este maravilhoso excerto da prosa de hoje:
«Perdemos a credibilidade quando decidimos não ser íntegros e inteiros.
É fundamental sermos melhores do que isto. A democracia em que vivemos, cheia de falhas, é mesmo a melhor alternativa para quem nos observa e toma partido. A proposta ocidental, e sobretudo a europeia, é melhor do que a russa ou a chinesa. De tanto a querermos exacerbar, damos de nós mesmo a pior imagem possível. Os verdadeiros defensores das democracias ocidentais são os que estão dispostos a assumir as suas falhas do passado e não as repetir no presente. Quem apoiou a invasão do Iraque não defendeu, como apregoava, as democracias ocidentais; foi apenas o cangalheiro do seu bom nome. Fizeram mais por essas democracias os que se opuseram e denunciaram o embuste.»
Meu deus. Porque fala esta mulher da guerra do Iraque e das falhas das nossas democracias? No caso em apreço, terá sido por acaso o Ocidente a invadir a Ucrânia? Dir-se-ia que sim. E o caso do Iraque? O enquadramento de que ela tanto gosta prescinde do 11 de setembro de 2001 porquê? Um acontecimento que deixou muitos países ocidentais desorientados, sem saberem bem o que fazer ou onde encontrar o ninho das víboras. No entanto, a maioria dos países ocidentais e também a sua população (que, nas democracias, conta) foi contra a invasão do Iraque. A tal ponto que os governantes responsáveis na altura não mais tiveram lugar em cargos políticos. Não havia armas de destruição maciça. Esse argumento foi um embuste. Agora o embuste é a alegada nazificação da Ucrânia. O facto de a esmagadora maioria do Ocidente, populações e governantes, se opor e denunciar este embuste passou imediatamente a ser irrelevante. Estranho. Por uma vez, todo o Ocidente é contra! Contra o facto de um ditador usar esse argumento para invadir. Somos contra! E somos tão contra que somos capazes de ajudar o país invadido, a seu pedido – implorado alto e bom som para toda a gente ouvir, a livrar-se do agressor. Porque não há uma palavra contra o agressor? Contra o regime que dirige e quer impor nem que seja à bomba? Um regime que ela própria reconhece ser muito pior do que o democrático.
Que culpa tem o mundo ocidental nesta infame invasão? Será culpado de ter ouvido o que os ucranianos gostariam de ser?
Ninguém no Ocidente nem na Ucrânia quis esta guerra, mas os ucranianos querem o seu país e querem que seja democrático. Têm esse direito. O que pessoas como a nova colunista do Público lhes dizem é que não podem nem sequer deviam querer.
Aquela mulher que o criminoso odeia
Para lá das manifestações de imperialismo czarista (a invasão da Ucrânia alegando não ter direito a ser um pais soberano), e das manifestações de cobardia e desvario psíquico (o massacre de civis e a ameaça de guerra nuclear contra a NATO por causa de palavras), Putin está igualmente a manifestar ser uma fraude militar e, para o ramalhete ficar completo, um palhaço diplomático. Isto porque se lembrou de incluir na lista de contra-sanções Hillary Clinton.
Trump não é sancionado pelos russos mas quem deixou de ter qualquer cargo na Administração dos EUA há mais de 9 anos é. A estupidez não chega a dar vontade de rir porque de imediato nos transportamos para o papel subversivo da Rússia no apoio à eleição de Trump. Pelos vistos, continua a odiar aquela mulher – agora, apenas por ser aquela mulher.
Tadeuismo
Exactissimamente
Entretanto em Rilhafoles
Começa a semana com isto
Revolution through evolution
Nostalgia can relieve pain
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Sharing memories sets children on path to better well-being
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Communities with higher levels of racial prejudice have worse health outcomes
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First Recording of Dying Brain Shows Memory, Meditation Patterns
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The human brain would rather look at nature than city streets
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Even just a few more steps a day benefits cognitive function
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Pig grunts reveal their emotions
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Dominguice
O poder de abstracção é uma faca, metáfora etimologicamente perfeita. Pode ser usado para salvar vidas e criar culturas. Pode ser usado para acabar com vidas e extinguir civilizações. A abstração dá-nos a palavra, o número, o conceito. E tira-nos o lugar, o tempo, o corpo.
Usa a abstração para fatiar o casqueiro, abrir melancias e desenhar corações em paredes caiadas. Não uses a abstracção para fazer mal aos outros ou a ti próprio.
Está lá? Quem fala?
«Macron e Scholz falaram por telefone com Putin horas antes de a União Europeia (UE) se reunir em cimeira no Palácio de Versalhes, em França, país que preside atualmente ao Conselho da UE.
"Macron e Scholz insistiram que qualquer solução para esta crise deve vir através de negociações entre a Ucrânia e a Rússia", disse a fonte do Governo alemão, citada pela agência francesa AFP.
Durante a reunião, a França e a Alemanha "exigiram da Rússia um cessar-fogo imediato".
Os três líderes concordaram em permanecer em estreito contacto nos próximos dias.»
🤹
Esta conversa telefónica ocorreu há poucos dias. Uma de tantas entre os mesmos protagonistas, especialmente Macron e Putin. E de imediato a notícia transporta-nos para as semanas que antecederam a invasão, em que Macron e Scholz chegaram a ir a Moscovo para a fotografia. Porquê e para quê esses números? Que ocorre numa mesa hipertrofiada, usada para o que poderia ser uma cena de um filme cómico, que não pudesse ser tratado no secretismo das relações entre duas diplomacias? E como interpretar os rituais das mentiras repetidas à exaustão, os quais preenchem a quase totalidade da comunicação oficial a respeito do que os Governos dos diferentes países transmitem uns aos outros? Que cagada é esta de se dizer que os “três líderes concordaram em permanecer em estreito contacto nos próximos dias“, como se fossem três amigos a planearem umas férias juntos?
Vista pela incontornável encenação mediática, a qual alimenta o charivari da turbamulta a respeito, a invasão e destruição da Ucrânia é um constante espectáculo emocional onde as vítimas e o horror da guerra são usados para captar e manter audiências. É esse o único papel das imagens dos bombardeamentos, das entrevistas aos civis e dos comentários dos espertos. Mas assim como um juiz tem de resistir à química dos afectos se pretender decidir com isenção, e assim como um cirurgião tem de aumentar a sua capacidade de concentração e autodomínio ao aumentar o risco da cirurgia a fazer, assim na diplomacia está sempre em causa o triunfo da racionalidade sobre a pulsão da morte. A diplomacia é intrinsecamente optimista, trabalha com cenários de sobrevivência, continuidade, desenvolvimento.
Donde, não fazemos a menor ideia do que ocorre nas interacções entre as potências mundiais, e menor ideia fazemos em período de uma guerra com o potencial para originar um conflito mundial ou um apocalipse nuclear. Ter essa noção ajuda a concentrarmo-nos no essencial: aquilo que nos aparece como mal maior jamais deve ser relativizado, justificado e, portanto, defendido.
Tadeuismo
Made in China
É consensual que só a China pode obrigar Putin a parar a invasão da Ucrânia, tal como só a China a poderia ter evitado. Pelo contrário, o que vimos e vemos é uma aliança entre Rússia e China, sendo credíveis as notícias de que a invasão foi adiada para 24 de Fevereiro a pedido das autoridades chinesas que não queriam perturbar os seus Jogos Olímpicos de Inverno com massacres de civis na Europa.
A China não vai poder limpar as mãos dos crimes que estão a ser cometidos também por causa da sua cumplicidade com o criminoso.