Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Poias do Maduro

«Vivia em Itália quando teve lugar a Operação Mãos Limpas, nos anos 90. Começou num político menor, mas estendeu-se rapidamente a toda a elite política e económica italiana, revelando um regime estruturalmente corrupto. [...]

Também entre nós se sucedem os processos envolvendo a nossa elite económica e política. Como escreveu João Miguel Tavares, é o regime que está sob processo quando parte importante da elite está sob processo. A lição a retirar do caso italiano não é, no entanto (como alguns gostariam), que mais vale a justiça estar quieta e não fazer nada. A lição principal passa antes por perceber por que razão a justiça é conduzida a desempenhar este papel de julgar todo um regime. Num texto sobre a crescente criminalização da atividade política, Olivier Beaud * identifica essa circunstância, em grande parte, com a inexistência de formas de responsabilização eficaz dentro do sistema político. Isto conduz, inevitavelmente, a uma pressão sobre o sistema judicial para assumir o papel que a política se demonstra incapaz de exercer.

A eliminação da responsabilidade política e a sua redução à responsabilidade criminal é aquilo a que temos assistido entre nós. Desde Sócrates (que continua a ser tratado pela classe política apenas e só como um caso de justiça) aos sucessivos casos que envolvem o Governo. Os apelos à responsabilidade política ou são ignorados ou são tratados como uma questão de direito cuja avaliação pertence à justiça.

[...] A exposição na justiça dos políticos, sem que esta os consiga responsabilizar, vai reforçar perante os cidadãos a ideia de que é todo o regime que está viciado e deve ser substituído.»

Poiares Maduro

Poiares Maduro a citar João Miguel Tavares? Sim, não só é possível como é padrão. O caluniador profissional (há duas semanas) despachou o enésimo panfleto contra o “regime”, onde a tese é a de que os corruptos fazem leis na Assembleia da República para que os corruptos que estão nos Governos (socialistas) se safem, e o ex-ministro de Passos junta-se à festa lembrando à assistência que no capitulo do emporcalhamento do espaço público é menino para obrar com abundância e pestilência idênticas à dos crápulas graúdos.

Atente-se no argumento que assina por baixo, sumariamente exposto nos excertos citados. A questão da “responsabilidade política” é uma realidade que começa com “Sócrates” e termina com “os sucessivos casos que envolvem o Governo” actual, estabelece como calendário. Donde, começando por colocar solitariamente o PS no cadafalso, o resto é simples e fatal: o PS não se quer responsabilizar politicamente por “Sócrates” nem pelos “sucessivos casos”, o que leva os dedicados e coitados dos magistrados a terem de arregaçar as mangas e começarem a distribuir tau-tau pelos tais políticos a precisarem de uma boa responsabilização bem assente no lombo e pelas trombas abaixo. Porém, há aqui uma chatice, explica. É que vamos ter “frequentes fracassos“; isto é, será frequente os tais magistrados estarem tão entusiasmados com os linchamentos dos políticos que se vão esquecer de arranjar provas judiciais contra eles, o que causa muita frustração na indústria da calúnia e nas claques dos assassinatos de carácter, e depois elas vingam-se colocando o Chega à frente do PSD nas intenções de voto. Solução? Não a assume mas fica implícita: o PS terá de começar a substituir os procuradores do Ministério Público e o juiz Carlos Alexandre, preferencialmente mandando construir uns calabouços no Rato para tratar dos seus bandidos com celeridade e sem custos para o Estado.

Registe-se como este brilhante académico especialista em Direito Constitucional, para além de comendador e prémio Gulbenkian, nada tem a dizer sobre as peripécias judiciais da Operação Marquês e as revelações que sobre essa cagada monstruosa vieram à luz graças a Ivo Rosa. Isso é tudo completamente apagado, e o seu exclusivo interesse público é aproveitar um processo judicial que ainda decorre para pedir um castigo político para o cidadão em causa. Castigo esse que acabará sempre por ser para o PS, o alvo principal da sua arenga. Tal como tem dito e repetido João Miguel Tavares, também neste Maduro palpita tacitamente a solidariedade com os magistrados que cometem crimes para se vingarem dessa malandragem da política que se protege com leis feitas à medida para nunca serem apanhados em tribunal. Great minds stink alike. Trata-se, portanto, de uma vocação para o Direito veramente florentina.

Poiares Maduro passa por ser do melhorzinho que o PSD tem na barraca. A sua escolha para ingressar no Governo de Passos, após a saída de Relvas, causou surpresa. Sem qualquer experiência política, foi promovido como craque internacional no campo do Direito, supostamente trazendo uma sofisticação intelectual a anos-luz das competências do passismo. A experiência, contudo, deu-nos a conhecer um estrangeirado sem calo nem garra para captar a atenção de quem passa. Mesmo assim, dada a miséria circundante, consta agora das listas de potenciais sucessores de Rio. Seria curioso, então, vermos algum jornalista perguntar-lhe se no campo dessa famigerada “responsabilidade política” faria sentido esperar de Cavaco uma palavrita sobre o BPN, e de Passos uma palavrita sobre o PEC IV e a campanha absolutamente mentirosa que protagonizou de seguida, e mesmo a respeito de Miguel Macedo pois enquanto não foi absolvido o Ministério Público afiançava que era um retinto malandro, o que já chega, calhando acontecer no PS, para encher a pança com a “responsabilidade política”.

Vai acontecer? Não, jamais. Por um lado, porque não existe imprensa em Portugal. Por outro, porque perguntas desagradáveis como essas só devem ser feitas a quem chafurda e engorda no “regime”, não a quem repete, normaliza e amplifica a cassete do presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho de 2019.

Começa a semana com isto

Com a morte de Otelo, o 25 de Abril sobe ao cimo da actualidade e, por inerência, a temática da democracia ganha notoriedade. Este o quadro propício para escutar Cornel West, alguém apaixonado pela democracia – que o mesmo é dizer, pela inteligência, pela coragem e pela liberdade.

Eis o que mais gostei de lhe ouvir:

– A noção de que a democracia nasce, desenvolve-se e consolida-se através das mais altas capacidades civilizacionais. A democracia é muito exigente, não é para broncos nem para pulhas, é para sábios e heróis. A democracia é tão poderosa, na sua promessa universalista, como é frágil, pois requer cidadãos capazes de resistir aos tribalismos e atomização para se conseguir manter a integridade desse todo donde emana a liberdade de cada um.

– A fidelidade à tradição socrática (calma, trata-se do grego), e à da génese da democracia com Clístenes et alia, como narrativa que continua actual, metodologicamente operativa e politicamente vanguardista.

– A clareza com que reconhece as “falhas”, “limitações” e “pecados” de Joe Biden (a conversa decorre nas vésperas das eleições norte-americanas), e de como isso não o impede de escolher o mal menor contra quem lhe aparece como verdadeiramente fascista, Trump.

– A ligação da democracia, e o seu potencial para ir diminuindo e erradicando as injustiças, com o jazz e a sua criatividade, o improviso e as harmonias ou beleza que nasce desse desacordo alinhado numa mesma e superior finalidade.

– A assunção do seu cristianismo, numa versão mística (no caso, profetismo), sem que tal diminua qualquer aspecto da sua racionalidade política. Trata-se de uma abertura, então, a um meta-racionalismo que abre novas potencialidades racionais. Registe-se o que diz de John Rawls, uma passagem biográfica preciosa e que exemplifica esta complexa problemática. Não temos de concordar mas é intelectualmente desonesto ignorar esta sua dimensão, não a inscrever na avaliação que fazemos da sua pessoa como pensador e cidadão.

– A sua voz, a sua prosódia, o ritmo cantado, essa estética dos espirituais negros, que me deixou com vontade de bater o pé enquanto ouvia este neto de um pastor baptista discorrer sobre a essência da democracia.

Revolution through evolution

Mothers May Face Increased Workplace Discrimination Post-Pandemic, Research Warns
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‘Service with a Smile’ Plus Tipping Leads to Sexual Harassment for Majority of Service Employees, Study Shows
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When money’s tight, parents talk less to kids; could this explain the word gap?
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Have Something To Say? Your Boss Wants You to Do it in Private
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Bringing the Jury to the Crime Scene via a 3D Headset
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City-Funded Housing Repairs in Low-Income Neighborhoods Associated with Drop in Crime
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Higher levels of omega-3 acids in the blood increases life expectancy by almost five years
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Exactissimamente

Paulo Rangel – O algoz tornou-se vítima

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NOTAS

– Quem filmou Paulo Rangel no vídeo em questão não é necessariamente, só por isso, uma criança, um bronco ou um pulha. Porque depois poderia sempre arrepender-se, e apagar a coisa, ou não a mostrar a ninguém. Mas quem começou a partilhar esse vídeo, fosse só para uma pessoa ou várias no início, revelou-se ou transformou-se fatalmente numa criança, um bronco e/ou um pulha. Assunto arrumado e faço minhas as palavras do Carlos Esperança a respeito da irrelevância do que se vê, no fundo um estado de fragilidade que acaba por humanizar a vítima da devassa.

– Dito isto, e no mesmo espírito do Carlos, quero dar conta do sentimento de asco político e cívico que a figura pública de Paulo Rangel me suscita. Estamos perante um dos mais batidos políticos do PSD, passarão que já se candidatou à presidência do partido. Alguém que se apresenta invariavelmente com um estilo de virulência extremada pela retórica da litigância. Este é o inventor da “asfixia democrática”, uma cavilação que na origem se denominou “claustrofobia democrática” e que foi lançada na Assembleia da República em 2007, ainda por cima num discurso solene de celebração do 25 de Abril, e tendo como alegado pretexto a ida de Pina Moura para a Prisa. Que se passou a seguir? Isto: Prisa+Pina Moura em 2007=TVI+Manuela Moura Guedes em 2008 e 2009 (ano de eleições legislativas, ela esteve no activo quase até às eleições). Paulo Rangel é também o fogoso patriota que, em 2010, foi para o Parlamento Europeu berrar que “Portugal já não é um Estado de direito”, usando como pretexto o episódio em que Mário Crespo escreveu uma crónica tão abjecta que, mesmo tendo em conta o hábito de se aceitarem por lá cagadas parecidas do mesmo fulano, dessa vez o Jornal de Notícias não a quis publicar. Vale a pena ver e ouvir o número feirante exibido em Estrasburgo.

– Finalmente, e continuando a assinar por baixo o texto do Carlos, registe-se como ninguém será capaz de indicar uma singular ideia, ou que fosse a metade de um terço do quarto de uma ideia, saída da boca ou do teclado do Rangel que nos ajude a ter melhores serviços de saúde, melhor educação, melhores salários, melhores pensões e reformas, melhores sistemas ecológicos, melhor esperança e qualidade de vida. Nada, népia, nicles. Ele limita-se a praticar o que na decadência se entende por “fazer política”: atacar sistematicamente os adversários até que caiam desgastados e emporcalhados. E isto faz dele um cúmplice das campanhas negras, da judicialização da política e da radicalização populista que usa a Justiça para interferir nas disputas políticas.

– Comparemos: o que será mais aviltante, e mais perigoso: (i) um tipo qualquer, por acaso, filmar uma figura pública a percorrer cambaleante uma rua (podia ir nesse estado por causa do consumo de álcool numa ocasião social comum, mas também poderia ficar assim através do consumo de drogas recreativas ou de medicamentos, não sabemos nem teríamos de saber) e depois decidir divulgar o vídeo na sua rede de contactos, ou (ii) agentes da Judiciária e magistrados do Ministério Público, quiçá com a anuência de juízes, usarem recursos do Estado para espiarem a privacidade de alvos políticos no topo do Governo e do principal partido na Assembleia da República, e depois decidirem entregar a jornalistas (portanto, cometendo crimes) certas passagens truncadas das captações obtidas para assim provocarem fenómenos de alarme social, pânico moral, perseguição mediática, deturpação eleitoral, danos na reputação, perda de influência política, assassinatos de carácter, condicionamento dos tribunais?

– A resposta a esta pergunta não nos define apenas a cada um de nós como entidades dotadas de inteligência e interessadas em viver num Estado de direito democrático, aqueles que lhe derem resposta. Define também o País, define a comunicação social do tabloidismo à “referência”, e Paulo Rangel, por actos e omissões, tem sido um dilecto apoiante dessa práxis violenta e subversiva que invadiu a cidade desde 2009.

Cabrita limpa o rabinho aos piquetes de linchamento

A caçada ao Cabrita – depois da que fizeram ao Azeredo Lopes, e depois da que Marcelo fez a Constança Urbano de Sousa – transformou-se numa coisa muito diferente do que a pulharia desejava: tornou-se num acidente em cadeia onde a direita partidária e os seus impérios mediáticos (a que se juntam os sectários de esquerda – estatuto donde o PCP, incrivelmente, parece estar a sair) se vão enfiando como se não existisse mais nenhum alvo no Governo nem mais nenhuma questão política a congregar energias, acabando estes infelizes amontoados entre si numa pulsão imparável, quais traças a chocar de cornos contra uma lâmpada esquecida acesa no quintal. Estão cegos de raiva e atormentam-se com obsessão na conquista desse troféu, inclusive à custa de assim protegerem Costa e Medina; como se vê com o charivari à volta do relatório da IGAI em que módica inteligência eleitoral suporia levar o PSD a se concentrar ou no Governo como um todo, ou no autarca, em vez de estar a bombardear o solitário ministro que, para frustração da turbamulta, não mostra medo dos cães que ladram. Malhas que a decadência e o ódio tecem, jazem intelectualmente mortos e apodrecem.

Do outro lado da barricada, Cabrita aparece cada vez melhor, ganhando força política na perseguição que lhe fazem diariamente. Como agora com as suas declarações na Madeira, em que despacha como delirante a chicana sobre a sua responsabilidade nos festejos do Sporting e consegue acabar a declaração ao ataque à oposição. E como é que nós sabemos que o ministro está em crescendo de notoriedade e autoridade positivas? É o próprio laranjal que nos dá essa garantia – Cabrita considera “um delírio” dizer-se que validou os festejos do Sporting. É mesmo? Ouvimos juristas e as opiniões são todas diferentes – tendo o Expresso reunido três juristas que, não concordando tecnicamente entre si, são unânimes em reconhecer que só “politicamente” (leia-se, recorrendo à baixa política) dá para deturpar um caso onde o ministro não tem, de iure, responsabilidade sobre a solução adoptada e muito menos sobre a forma como foi implementada. A tutela não valida opções executivas, correntes, da Câmara e da PSP. A tutela só volta a ser responsável se for necessário abrir inquérito, como foi, daí o relatório da IGAI lhe ter sido entregue em primeira mão e pelo ministro divulgado nas condições que considerou adequadas.

A crise da direita é também a crise dos seus órgãos de comunicação social, pejada de editorialistas e comentadores que enchem os bolsos a despejar bílis e estupidez no espaço público. Não têm ideias nem líderes, vingam-se pela verborreia primária, maníaca, fétida. De facto, deliram-se capazes de derrubar ministros a golpes de títulos sacanas, artigos canalhas, caras de mauzões na televisão. E depois desesperam quando olham para as sondagens. Porém, como não sabem fazer mais nada para além deste cu-sentadismo impotente, em que se limitam a ver os socialistas a carregar com o fardo da governação tendo o apoio mínimo mas decisivo dos comunistas, voltam à carga com mais do mesmo. Até porque não sofrem qualquer consequência e, calhando o eleitorado no seu processo caótico de decisão preferir outros partidos a governar, irão adormecer a imaginarem-se magníficos generais – generais visionários e heróicos, mas que nunca puseram o pezinho numa batalha política nem numa função de responsabilidade soberana apenas e só porque andam sempre ocupados a pensar no que irão dizer a seguir sobre os filhas da puta do PS, repetem soberbos e trôpegos para a almofada antes de fecharem a pestana.

Cabrita, sem vacilar, esmaga estas bostas com estilosa facilidade. Dá gosto ver, é uma desgraça tal acontecer.

Perguntas simples

Portugal não seria um país muito mais seguro, próspero e avançado com Rui Rio a primeiro-ministro e as pastas da Segurança Social, da Agricultura, da Administração Interna, da Justiça e da Defesa entregues aos portugueses de bem comandados pelo Ventura?

A Operação Marquês vai a banhos

O Expresso inaugurou a silly season, na edição passada, com a oferta de uma leitura a preceito, ideal para folhear debaixo do toldo, ou ainda melhor dentro da barraca, antes ou depois de atacar sandes de queijo e bolas de Berlim (não necessariamente ao mesmo tempo). Para a promover, deu trabalho a um ilustrador que criou imagens impressivas e impressionantes, talvez mesmo impressionistas, uma delas a ocupar uns 25 a 30% das colunas disponíveis na capa do jornal:

A capa da revista, onde está a peça, é um tour de force muito bem conseguido, a que é impossível ficar indiferente. Tomai e tremei:

Mas se pela estética estamos num filme de gangsters, assim que entramos no texto descobrimos que o enredo, afinal, é de terror:

«Episódio um

“É preciso é partir a espinha ao Ministério Público, para alguma coisa isto deve dar gozo…”, desabafou José Sócrates, já perto da escadaria da residência oficial de São Bento, quando conduzia a delegação do PSD à porta do palacete, segundo a memória de Paula Teixeira da Cruz, então vice-presidente do PSD. A futura ministra da Justiça diz ao Expresso ter-lhe respondido: “Isso não é propriamente adequado para um primeiro-ministro.” Estaríamos em abril de 2006. Luís Marques Mendes, líder do PSD presente naqueles encontros, confirma ao Expresso que Sócrates usou essa expressão e outras semelhantes quando, nessa época, ainda negociavam discretamente o pacto para a Justiça em bloco central. Alberto Costa, ministro da Justiça que participou em todas aquelas reuniões, não se recorda desta em particular, por isso também não se lembra de uma frase assim. Já veremos como Sócrates nega tê-la dito nas respostas que deu ao Expresso. Mas estas palavras apareceriam em público mais tarde...»

Paula Teixeira da Cruz, Marques Mendes e respectivas memórias de bocas ditas aqui e ali, inclusive perto de escadarias. Quem pode duvidar? Quem se atreverá a pôr em causa a honestidade intelectual, o espírito democrático, o respeito republicano, a decência cívica e o sentido de Estado da autora do “Fim da impunidade” e do autor do “Acabou José Sócrates, agora temos Rui Rio”? É gente do melhor, de uma seriedade que aterroriza a malandragem socialista à espera de ser encarcerada pela dupla Rosário-Carlos.

Nos episódios seguintes aparecem estrelas dos linchamentos e autos-de-fé de socráticos como Luís Campos e Cunha, José António Saraiva, Cavaco Silva, outra vez Marques Mendes, Nuno Garoupa, Teófilo Santiago, António Cluny, João Palma, Manuela Moura Guedes, Joana Marques Vidal, Helena Garrido, Álvaro Beleza, José Eduardo Moniz e Marcelo Rebelo de Sousa. A carne toda no grelhador. Vítor Matos, um direitola fanático que o mano Costa foi buscar ao Observador, reúne todas as difamações e calúnias de que se conseguiu lembrar e gasta mais de 50 mil caracteres a insultar os socialistas do costume. Não há uma única informação nova, não há o mínimo simulacro de cumprimento do código deontológico do jornalista, não há vestígios de jornalismo.

A Operação Marquês e o filme do monstro que tinha um plano para “controlar tudo” parece, assim, ter encontrado o seu destino final. Ser matéria de leituras na praia, quando só há cabeça para fantasias e diversão.

Being “Being Pacheco Pereira”

Por não ter lido o Notas sobre a ofensiva da direita radical (conclusão para já) no Público, tal deu origem a uma valiosa experiência cognitiva em que sou o protagonista, pois na leitura displicente e enviesada que fiz do texto atribuí ao Pacheco o que era uma citação de Carlos Blanco de Morais (e que percebi como um destaque da fala do PP). Muito obrigado a quem me avisou do erro na caixa de comentários.

Eis as ilações que retiro:

– Vir a este pardieiro ler o que escrevo deve ser sempre assumido como uma perda de tempo da exclusiva responsabilidade dos próprios.
– O melhor é pagar para ler nos jornais o que os jornais publicam, calhando não se sentir uma alergia tal por eles que torne preferível passar por otário como aqui me acontece na ocasião (jamais darei um tostão a um órgão de comunicação social que remunera e promove caluniadores).
– Constatar a facilidade com que o meu cérebro me enganou corresponde a uma preciosa lição. Relendo o texto, o “Ponto 2.” critica negativamente a citação e, mesmo assim, apaguei essa informação e só me concentrei no conteúdo do que estava citado.
– É um gosto malhar no Pacheco mesmo sob pena de fazer figura de urso.
– O que Carlos Blanco de Morais disse, então, não passa de uma cópia do que o Pacheco tem dito e escrito ao longo dos anos – especialmente na sua fase “frente da calúnia” que fazia pandã com a “asfixia democrática”. Não é um acaso. É um padrão, uma consequência, a sua evolução ou mera repetição.

Being Pacheco Pereira

No bate-boca (não se pode falar de polémica quando do outro lado estão dois palhaços) com Nuno Palma e João Miguel Tavares, o bibliotecário da Marmeleira chegou a levantar a assistência para o aclamar com o musculado A indústria de falsificações do Estado Novo e o galhardo Estudem, que vos faz falta. Depois, acrescentou-lhe uma relevante série de Notas sobre a ofensiva da direita radical (1) (2) (3), onde no último artigo se pode ler o seguinte:

«Uma intolerância sulfurosa ganhou o espaço público através de uma rede inorgânica de pivots televisivos, jornalistas de causas, humoristas militantes, comentadores encartados e redes sociais substitutivas da “Câmara Corporativa” de Sócrates. Políticos, magistrados, académicos e figuras públicas que desafiem os novos padrões de correção, assentes na nova filosofia pública, são heréticos e merecem as ‘chuvas ácidas’ que lhes oxidam a reputação, com a colagem de rótulos, simplistas, mas eficazes.»

Estamos perante uma escrita rápida, de memória, a repetição de bordões com anos de gasto. E é por ser essa a origem das duas frases que aparecem Sócrates e o Câmara Corporativa numa problemática onde é suposto estar a reflectir sobre a extrema-direita e as ameaças ao regime democrático e à cultura humanista e liberal. Na economia do texto que assim deixou publicado, o autor dá-se a ver como um maluquinho que chegou a meados de 2021 ainda com a obsessão por um blogue que, durante alguns anos da sua vida, visitou várias vezes ao dia, todos os dias da semana, todas as semanas no mês, de Janeiro a Dezembro, na procura narcisicamente febril dos “rótulos, simplistas, mas eficazes” com que ele e os da sua tribo eram lá brindados in illo tempore. O tal blogue que concebe como sendo “de Sócrates”, o que lhe garantia a experiência subjectiva de sentir uma relação directa com a sua paixão até nas vírgulas do que lia no CC. Ou seja, o Pacheco realmente acreditava – e para todo o sempre acreditará – que no CC conseguia ouvir a voz de Sócrates a dirigir-lhe a palavra e a desafiá-lo numa justa blogosférica.

O blogue que consegue a proeza de ficar associado a uma exposição de saudosistas da Mocidade Portuguesa graças à pancada pachequiana não teve qualquer influência fosse qual fosse nos resultados eleitorais de 2009, 2011 e 2015. Pura e simplesmente, não tinha expressividade sociológica para tal, era apenas um blogue entre outros blogues congéneres, e blogue de nicho. O nicho dos que já tinham a decisão de voto formada e o nicho dos pulhas que, na ausência de algum (um que fosse!) órgão de comunicação social cuja linha editorial fosse de explícito ou implícito apoio ao PS tiveram de fazer do CC um tigre de papel para – eles sim – levarem para jornais, rádios e televisões as campanhas negras a que se resumia a estratégia da direita desde 2004.

Dizer-se que “uma intolerância sulfurosa ganhou o espaço público” como se tal tivesse aparecido só com o Observador (criado em 2014) ou com o triunfo dos actuais caluniadores profissionais é gozar com o pagode, é demente. Tanto na SIC, como na TVI, como na RTP, para só focar estações de televisão, e isto a partir de 2008 (o ano em que Ferreira Leite ganha o PSD e Cavaco inicia um ataque a outrance contra o Governo socialista), que a paisagem mediática era de dilúvio ácido sobre os alvos socialistas. Foi quando Manuela Moura Guedes ocupou o horário nobre com o simulacro de um espaço informativo cujo único objectivo era caluniar como nunca antes se tinha visto na terrinha. Num registo paralelo, Mário Crespo utilizava o seu espaço de informação para fazer terrorismo político. Na RTP, sabia-se bem quais eram os jornalistas que detestavam e perseguiam o Governo e o PS, não se sabia de nenhum que revelasse ser seu activo simpatizante. Apesar disso, nesse tempo o Pacheco andava de cronómetro na mão a contar os segundos das peças que apareciam no telejornal da hora de almoço não fosse algum infiltrado dar dois segundos a mais à cobertura de um comício do PS do que se deu ao do PSD. As linhas editoriais do ecossistema mediático, logo a partir de 2007 com o Público, ficaram militante e furiosamente contra o Governo e o PS. A retórica populista antipolíticos idem aspas. O Chega inventado por Passos Coelho é já a terceira ou quarta geração do mesmo animal.

É fácil compreender o Pacheco. Ele foi um operacional graúdo do Cavaquistão. Terá visto merda da grossa, daquela que não sai das mãos nem com esfregão de arame, feita pelos craques do laranjal. Daí ter fugido para o comentariado, vida santa e regalada. Podia ter escrito as memórias dessa fase da sua vida mas preferiu calar-se. Preferiu ser cúmplice para poder manter as prebendas e sinecuras de que foi desfrutando na indústria da calúnia. Logicamente, ter conseguido apanhar um papel no Parlamento rasurado por Sócrates ou ter ouvido as suas conversas privadas com Vara surgiu-lhe como a salvação. Enquanto o Pacheco puder agarrar-se ao Sócrates conseguirá evitar ter de se olhar ao espelho.

O ódio alimenta-se de cobardes

No dia 13 de Julho do corrente, Armando Vara foi condenado a dois anos de prisão por crime de branqueamento de capitais. Esta sentença tem importância nacional pelas seguintes razões:

– Trata-se da primeira condenação nascida da Operação Marquês.
– A condenação pressupõe um crime de corrupção que não se provou.
– A condenação é muito superior ao que é comum em casos semelhantes.
– O colectivo de juízes justificou o peso cruel da pena (prisão efectiva para o que costuma ser pena suspensa) recorrendo a um argumentário moralista.
– O condenado encontra-se preso.
– O condenado é uma das mais notáveis figuras mediáticas em Portugal, fruto de uma imparável e crescente campanha de assassinato de carácter, perseguição política e instigação ao ódio que começou no ano 2000.
– O condenado foi utilizado no Face Oculta como desculpa para se conseguir espiar um primeiro-ministro em funções.
– Vara foi condenado no Face Oculta só com provas indirectas, com deturpação da Lei, sem dano conhecido ao Estado, sem ganhos materiais encontrados, e com uma violência judicial inaudita; também então, como agora, se tendo dito que os juízes estavam a usá-lo para dar um exemplo à sociedade.
– Vara voltou a ser alvo de caçada mediática e política por causa da detenção de Joe Berardo há 3 semanas.
– Vara é amigo de Sócrates e Sócrates é amigo de Vara.

Por todas estas razões, ou que fosse tão-só por qualquer uma delas, a notícia justificava presença nos espaços de comentário político. Inevitável e obrigatoriamente. Para continuar a linchar o homem ou para deixar no ar qualquer coisa remotamente relacionada com a Justiça, tanto fazia. Porém, que tivesse apanhado, só o caluniador profissional pago pelo Público é que pegou no assunto para o misturar com outras duas figuras e nada opinar a respeito da sentença. Em todos os outros espaços de comentário da fina-flor da nossa comunicação social, incluindo o de Marques Mendes que em 2019 tinha feito uma festa com a 1ª condenação, não se tocou no assunto. Repare-se na dimensão cósmica do fenómeno: o mano Costa e o Carvalho da Sonae não escreveram uma linha sobre Vara.

Dizer que este silêncio é absurdamente anormal é nada dizer. Melhor será ir na direcção contrária. O granítico ostracismo revela uma comunidade cúmplice da utilização da Justiça como tortura moral ou arma política, satisfeita ou indiferente com nova violação do Estado de direito democrático. Basta que o alvo seja considerado desprezível e não exista ninguém a pedir que se lhe faça justiça para além do seu advogado.

É para este desfecho que a direita decadente financia a indústria da calúnia. Para que o ódio derrube a Constituição, transforme juízes em justiceiros e faça da cobardia uma prática quotidiana e uma identidade colectiva.

Revolution through evolution

Two-thirds of Romantic Couples Start Out as Friends, Study Finds
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What does the sleeping brain think about?
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Handwriting beats typing and watching videos for learning to read
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After 14,000 years of domestication, dogs have some of the same cognitive abilities as human babies
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Rats prefer to help their own kind; humans may be similarly wired
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A fermented-food diet increases microbiome diversity and lowers inflammation, study finds
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Money talks: Wealthy ‘hijack’ agenda to gain policy influence
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Continuar a lerRevolution through evolution

Nas muralhas da cidade

«Os tempos são assim: parece culpado, é culpado. Assim, se está detido para ser interrogado, que apodreça por ali uns dias. Este horror é justamente a negação da presunção de inocência. É por ser ponto assente que recusamos isto que há julgamento e produção de prova. Não aceitamos, num regime democrático, condenar sem julgar, pelo que devíamos castigar nas urnas quem criminaliza a política, quem usa a Justiça como arma, e devíamos castigar como cidadãos os órgãos de comunicação social que fazem dos direitos das pessoas um ringue de boxe sangrento, um massacre pornográfico; sim, devíamos escolher a decência.

É difícil, mas vale a pena. A Justiça não pode ser um espetáculo ao qual nos rendemos com medo de perdermos o nosso eleitorado. A Justiça não pode ser um espaço sonoro de alívio de frustrações. A Justiça não pode ser arma de quem quer rasgar o regime e desatar o nó que demos em abril. A Justiça é templo de silêncio e de eficácia sem dependência do horário nobre.»

Isabel Moreira

«Há aqui um problema evidente: a presunção de inocência deixa de vigorar sem que nenhum juiz tenha lavrado sentença ou sequer o arguido tenha possibilidade de se defender.

Dir-me-ão que o MP só promove estas medidas porque tem uma fortíssima convicção da prática de condutas criminosas e que não devemos partir da possibilidade de os procuradores terem enlouquecido ou pertencerem a uma conspiração.

Lamento, mas isso pouco importa. A presunção de inocência é um pilar do Estado de direito; a nossa convicção de que não ficou tudo louco no MP ou de que não é possível uma conspiração não é princípio fundamental nenhum.»

Pedro Marques Lopes

«Não pode haver impunidade para ninguém, em democracia. Mas é tão fácil hoje destruir alguém publicamente e, como gostam de dizer os tribunais, por "motivos fúteis", que creio que só há dois motivos para se aceitar certas funções: ou vaidade, irremediável e humana; ou fé, inexplicável pela razão, em que se será mesmo capaz de fazer melhor. Não é seguramente pelos 4 mil euros mensais que ganha um ministro, não é seguramente pelo quotidiano de trabalho miserável e pelos riscos reputacionais inerentes. Isto é ainda mais verdade para os ministros que são cabeças transitórias (e, ainda pior, para os que pensam pela sua cabeça e que queiram fazer alguma coisa de diferente e assíncrono do interesse pessoal dos profissionais de um setor) de corporações fortes, porque diretamente interessadas e numerosas (forças armadas, professores, profissionais da saúde, profissionais da justiça, polícias e bombeiros...).

Não sou eu que vou condenar nem a vaidade nem a fé. Mas que a democracia ganharia com algo de intermédio, entre a censura obediente do Estado Novo e esta selvajaria consentida dos nossos dias, parece-me óbvio. Noticiar o existente e factual é um dever; sodomizar mediaticamente quem exerce funções públicas, só porque se pode no imediato e porque vende, é já um outro extremo, que alimenta também o populismo, a simplificação e a raiva inconsequente, bons alicerces das ditaduras.»

Miguel Romão

O sonho lindo do João Miguel Tavares

João Miguel Tavares não me interessa como publicista nem como entidade psicológica, seria apenas mais um direitolas folclórico se o seu estatuto decadente se resumisse a ser pago pela Cofina, pelo Observador e pelo Balsemão, por exemplo. Acontece que também é pago pela Sonae e já foi politicamente utilizado por um primeiro-ministro e por um Presidente da República – neste último caso à custa da instrumentalização e desonra da celebração do 10 de Junho – o que lhe deu proveitos materiais indirectos elevadíssimos e lhe dá uma importância mediática que nos permite desvelarmos forças subterrâneas em acção no actual jogo de poderes.

Leia-se o que escreveu há dias:

«sim, há um problema gravíssimo de regime em Portugal; sim, há uma cultura de corrupção que chegou às esferas mais elevadas dos poderes executivo, legislativo e judicial; sim, há um desejo evidente do poder político em considerar tais factos como emanações de comportamentos individuais, e não como o resultado de falhas institucionais, de profundos desequilíbrios do sistema e de um capitalismo de compadrio que continua a olear as relações entre a política e a economia, e que, em última análise, sustenta o poder.»

Uma primeira pergunta a fazer é: onde é que o João Miguel estava quando descobriu esta superorganização de criminosos? Foi ainda em Portalegre ou só quando veio morar para junto das elites? Foi quando começou a escrever crítica cinéfila (luminosa, inesquecível, diga-se) ou só depois de 3 de Março de 2009? Nunca obteremos resposta. Ele não tem tempo para futilidades dado estar ocupado a salvar o regime com o fogo do seu verbo, a derrotar os diabólicos socráticos com o aço valiriano da probidade e fé que transporta no peito.

Passemos para a segunda pergunta: como é que um gajo se sente após ter metido Marcelo, Costa, deputados às pazadas e magistrados em barda na saca da “cultura de corrupção”? Fantasio que muito bem. Deve dar um gozo sublime despachar a pontapé e à escarreta os representantes da democracia, os responsáveis institucionais da República, os pilares e o topo do Estado. É coisa para abrir o apetite, dançar sozinho na sala, agarrar-se à esposa com o entusiasmo da lua de mel. Resposta é que também não obteremos nesta pergunta, ala para a próxima.

Terceira pergunta: se as empresas de comunicação social que lhe pagam pertencem, por maioria de razão, aos capitalistas de compadrio que oleiam as relações entre a política e a economia, e que, em última análise, sustentam o poder, esse dinheiro que lhe chega ao bolso tem cheiro? Aqui, finalmente, podemos adivinhar a resposta. Porque se trata de problemática há muito resolvida nas latrinas da Roma antiga. Donde, o fabuloso escriba pode recolher a maquia nascida, como explicou, dos profundos desequilíbrios do sistema sem ofender a pituitária de terceiros.

Apesar de escrever, no mínimo, três vezes por semana há anos e anos e se dar amiúde com o Ricardo Araújo Pereira (visita da casa, atente-se), ainda não existem textos onde o valente denunciador dos podres do regime apresente soluções, medidas tangíveis e exequíveis, um programa político. Ausência que indicia não ter cabeça para tanto? Nada disso, pá. Aconteceu-lhe foi uma coisa extraordinária na vida, o encontro com Passos Coelho e o êxtase que se seguiu. Um ser que fez o seguinte, palavras suas:

«A coragem que Passos Coelho teve em deixar cair Salgado em 2014 é um gesto pelo qual o país lhe estará eternamente grato, mas a recaptura do poder por António Costa em 2015 permitiu que a tragédia do BES (e de Sócrates) permanecesse como um grande impensado.»

Esta é uma das mais cristalinas frases do jornalismo contemporâneo, mesmo da ciência política vanguardista, e só socialistas e gente sem princípios (passe a tautologia) é que se recusarão a reconhecer tamanho rigor no diagnóstico. Como se pode ler, o gesto de Passos Coelho é o de um predestinado a agir sob o comando da divina graça que sempre assiste ao soberano que comanda a História. Daí a merecida eternidade no agradecimento a que esse tal país (não sabemos qual, pois o vocábulo foi prudentemente grafado com caixa baixa para evitar curiosidades malsãs) fica obrigado. Alguém imagina o horror de não termos a resolução do BES e a respectiva hecatombe de falências e imparáveis prejuízos para o Estado aonde se veio parar? Seria mesmo muito mau. A própria Justiça talvez tivesse de fechar portas por falta de matéria-prima e motivação no pessoal. Mas felizmente, um rapaz chamado Pedro, nado e criado na cultura da corrupção por capitalistas do compadrio e compadres capitalistas, fez o que mais ninguém teria feito: podendo escolher o mal menor, avançou implacável na direcção do mal maior.

Eis, então, que nas catacumbas do regime se digladiam forças que tentam manter a tragédia do BES (e de Sócrates, ainda mais, arrisco declarar) como um grande impensado, umas, e forças que querem transformar a tragédia do BES (e do Sócrates, há que o repetir sem medos) num grande pensado, ou, calhando tal não ser ainda possível por falta de maturidade e literacia na população, num pequenino impensado, outras. Tal conflito chegará ao fim quando Passos Coelho recapturar (nunca se usou um verbo com tanta acutilância, senhores ouvintes!) o poder ao malvado António Costa.

É para este sonho lindo que o João Miguel Tavares trabalha todo o santo dia, até altas horas da noite, por vezes chegando mesmo uma beca atrasado aos encontros com o Araújo das piadolas.

Imoralidade e ilegalidade

O MP não teve outra solução senão pedir a absolvição do ex-ministro Azeredo Lopes no caso de Tancos, depois de ter, durante anos, manchado a sua reputação com acusações sem provas, plasmadas com máxima violência no despacho de pronúncia do gajo do costume, que o Valupi já aqui transcreveu.

O procurador Ferrão, impotente para provar qualquer ilegalidade do ex-ministro, não se calou simplesmente, eventualmente reconhecendo o seu erro e até lamentando ter xingado o ex-ministro da Defesa. Não senhor. Lançou, sim, mais uma suspeita sobre Azeredo Lopes, desta vez em nome da ética. Segundo fez saber, “perante o que foi demonstrado em julgamento podia, no limite, haver violação de deveres éticos e deontológicos e não criminais”, noticiou o Observador. Não é atenuante a forma condicional usada: “podia, no limite”. É sempre uma suspeita lançada a alguém, ainda por cima partilhada com a comunicação social.

O acaciano comentadeiro laranjinha, Marques Mendes, veio há dias à SIC exibir, fingindo isenção, uma falsa indignação pelo mal feito a Azeredo Lopes pela acusação sem provas – falta em que ele próprio, M.M., confessadamente também incorreu –, mas não se coibiu de condenar o ex-ministro por motivos ditos éticos, desta vez sem recurso ao condicional. Uma coisa, segundo disse, é não haver provas (ou “faltarem provas”, mais sacana) para condenar uma pessoa por um crime, outra coisa é essa pessoa ter cometido actos eticamente reprováveis. No caso em apreço, o comentadeiro M.M. deu como provados os actos eticamente reprováveis do ex-ministro, mas não explicou porquê.

Na argumentação de M.M., além das manhas e patranhas habituais, há dois atentados à verdade e à justiça. Primeiro, se não há provas para condenar alguém, não se pode insinuar que, nesse caso, há crime, mas que não se conseguiu provar. Se determinado crime de certa pessoa não for provado, esse crime não existe. Segundo, se a justiça é obrigada a provar as ilegalidades cometidas pelo acusado, quem pronuncia acusações de imoralidade ou falta de ética também não está isento da obrigação de apresentar provas do que diz. A acusação de imoralidade, tal como a acusação de ilegalidade, tem de ser provada com matéria de facto. A imoralidade não é uma ilegalidade que a justiça não conseguiu provar. “Imoralidade” não é um conceito vago ou ideológico de que qualquer um se pode apropriar ou usar a seu bel-prazer, sem mais deveres ou explicações. Como se diz em português, a moral não é da Joana.

No caso em apreço, foi considerado “imoral” o facto de Azeredo Lopes não ter evidenciado em todos os seus actos e omissões uma total diligência e uma absoluta conformidade com a estratégia imposta pela procuradora-geral Joana Vidal, a qual tinha resolvido – por razões que só ela, se quisesse, poderia um dia revelar – pôr duas polícias judiciárias, a civil e a militar, em guerra uma contra a outra. A Joana e o seu MP definiram, pois, conceitos particulares de moralidade e imoralidade em função da conformidade ou não conformidade à dita estratégia de guerra entre a PJ e a PJM – estratégia que só pode ser qualificada, à luz de uma moral mais universal, como altamente contestável, controversa e até suspeita.

“Imoral” terá sido, pois, segundo o MP e o comentadeiro residente da SIC, o ministro da Defesa Azeredo Lopes não se ter submetido 24 horas por dia à estratégia da Joana, não ter curvado a cerviz à sua ética particular, não ter acorrido prestimosamente em seu auxílio, não ter tentado adivinhar-lhe os desejos mais íntimos, em suma, não lhe ter servido de criado, agente e, possivelmente, chibo.

Injustiça sem segredo

O comunicado do DCIAP sobre a investigação a Luís Filipe Vieira termina assim: “O inquérito encontra-se em segredo de justiça.” A data é de 7 de Julho. Passaram 8 dias. Quantos crimes de violação do segredo de justiça os magistrados responsáveis pelo processo já cometeram, entretanto? É ir ver as capas do esgoto a céu aberto, e só para começo da contagem.

A ida de Magalhães e Silva à TVI, apresentando uma versão factual das suspeitas que pesam sobre Vieira, foi como desatar à vassourada num vespeiro. Porque de imediato, no dia seguinte, as escutas cortadas à maneira já estavam à solta e o arguido via a sua sentença condenatória a ser despachada em vulgado. Igualmente, os sindicatos dos procuradores e dos juízes soltaram os cães e iniciaram a caçada. Este Magalhães está feito, não se toca no santo Rosário. É que o advogado não se limitou a dizer que os reizinhos da nossa Justiça vão nus, igualmente aludiu à emporcalhada realidade de exalarem um odor fétido por não saberem o que é um banho de decência há anos e anos.

O Ministério Público vive em guerra civil contra a Constituição. A facção do sindicato é cúmplice dos crimes cometidos por agentes da Justiça, já chegou ao ponto de caluniar um tal de Sócrates, e está em guerra aberta com Lucília Gago, querem ser eles a mandar na casa. Acima e antes de tudo, a prática de crimes com este à-vontade, esta siderante impunidade, por parte de quem detém superpoderes num Estado de direito democrático para precisamente combater todo e qualquer crime, configura a mais grave ameaça à segurança interna e ao regular funcionamento das instituições que temos neste momento na República.

Para os papalvos, há sucateiros, soalhos de uma casa em Paris e ministros da Defesa socialistas amigos da bandidagem com fartura. Há detenções em horário nobre e cobertura completa, prisões para os alvos contarem as horas até poderem prestar declarações, a certeza de as vítimas terem a sua privacidade devassada e nunca mais conseguirem reparar os danos à reputação e à integridade da imagem pública.

A indústria da calúnia e seus caluniadores profissionais não se limitam a encher os bolsos, andam também cheios de adrenalina a alinhar nas cruzadas e nos linchamentos por se imaginarem com as costas quentes. Estão fascinados pelo espectáculo da violência sobre os mais fracos, salivam caudalosamente enquanto mostram as favolas na televisão. E riem-se soberbos porque o seu futuro está garantido com tanto gatuno por apanhar e castigar.

Este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório