– A jurisprudência é uma disciplina na dependência da lógica formal, da gramática e da retórica. Quando um tribunal decide, tanto pode expressar uma necessidade lógica ou histórica, como pode instituir uma interpretação possível entre outras, igualmente legítimas a partir do mesmo texto base. Isto acontece em qualquer sistema de Justiça, seja onde e quando for, porque as leis são objectos constituídos exclusivamente pela linguagem natural ― contêm inevitáveis e intrínsecas ambiguidades semânticas e sintácticas, a que se juntam as complexidades hermenêuticas e relativismos axiológicos inerentes aos processos cognitivos e volitivos dos sujeitos decisores (ena, quanta complicação nisto de sermos humanos, falantes e civilizados…). Por não ser uma matemática, a jurisprudência permite aos advogados ganharem a vida explorando as incertezas dos códigos, para o bem como para o mal. Assim, quem apareceu a fingir-se indignado com as decisões do Tribunal Constitucional quanto ao Estatuto dos Açores, exclamando ser grave o número de inconstitucionalidades estabelecidas, ou é ignorante ou demagogo. Provavelmente, demagogo porque ignorante.
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Se a vires, dá-lhe um beijinho
A nossa amiga Cláudia pediu-nos para avisar a sociedade civil, altas patentes e bispado de ser hoje o melhor dia do ano para lhe dar os parabéns.
Portugal, uma sonda espacial
Em Julho de 2009, alguém propõe este retrato:
31% dos eleitores vai votar num partido que não tem programa nem inteligência para governar.
10% dos eleitores vai votar num partido que se recusa a governar.
9,4% dos eleitores vai votar num partido que só se sabe governar.
8,5% dos eleitores vai votar num partido que não se imagina a governar.
–
Ou seja, 58,9% dos eleitores habita algures no espaço cósmico, bem longe da gravidade terráquea. E se esta é a clarividência que revelam em matérias políticas, como será noutras áreas da sua vida pessoal e nossa existência colectiva?
Joana, come a papa
Paulo Campos é um bronco. Dizer que não sabia o que é o IDT faz duvidar da sua sanidade mental. Porque ninguém acredita. E deixa-se de acreditar no que seja dito a seguir. Mas se está a dizer a verdade, então ainda é pior. Por não saber o que é o IDT. E por não saber que não podia dizer não saber nesta situação. Em qualquer dos casos, é um bronco. Um bronco que na mesma noite consegue superar-se a si mesmo ao dizer que não percebeu, durante os primeiros dias da polémica, ser o ataque de Louçã a Sócrates uma consequência da sua conversa com a Joana. Obviamente, este melro brinca com a tropa.
A Joana disse algo incontornável: que o seu apoio ao PS era impensável. E assim parece. O seu discurso é de um fanatismo tão monótono que chegou a tornar interessante a cassete do Carvalhas nas manhãs da TSF, algo que cálculos em supercomputadores tinham previsto não ser possível de acontecer. E esse dado leva a que o caso esteja longe de estar fechado. Para quem se permitiu ficar calada durante uma semana, as justificações que deu cheiram muito mal. Primeiro, disse que o silêncio decorria de estar no seu período de férias, argumento ridículo e mentiroso. Depois, disse que ao partir tinha confirmado o convite, pelo que competia à imprensa investigar e descobrir quem o tinha feito, ela nada mais teria que dizer. Este será um argumento a la Paulo Campos, bronquite mental. Ficou-se pelas evasivas quanto à oferta de um lugar no IDT, ou algo equivalente, apenas realçando que não se vendia. E, finalmente, nada disse quanto às declarações de Louçã, o qual acusou Sócrates de ter feito o convite e a proposta.
Esta caso está longe do fim. Assim, Paulo Campos deve apresentar provas dos dois telefonemas referidos, um feito por si, outro feito pela Joana. Igualmente deve identificar quem lhe disse estar a Joana disponível para entrar nas listas do PS. A Joana deve esclarecer se recebeu a sugestão dos lugares em institutos por parte do Campos ou de outra personagem ainda não nomeada. E Louçã deve ser confrontado com o desenvolvimento do caso para que faça a confirmação da acusação a Sócrates ou a sua retractação.
O PS também é feito por material do calibre deste Paulo. Mas não são estas figurinhas que fazem o PS. Já o BE é cada vez mais uma papa onde a ética se desfaz como bolacha Maria e tem sabor a banana.
O mercantilismo sabe bem
Fui jantar ao restaurante 560 e estava vazio. Ter sido a uma segunda-feira do final de Julho pode ter contado, mas é fraca desculpa e alguém tem de avisar os concidadãos. É que este restaurante surge estratégico para a salvação da economia portuguesa: todos os produtos que põe na mesa dos clientes, das entradas aos postres, são nados e criados cá na terrinha. Ou assim eles o dizem (daí o nome, 560, código dos produtos portugueses). Isto é, ir lá comer é o mesmo que estar a apoiar a nossa agricultura, pecuária, pesca e fruticultura. Saímos de barriga cheia e com o sentimento do dever governativo cumprido: salvámos postos de trabalho, aumentámos a riqueza nacional.
Deste conceito nacionalista podia esperar-se uma parolada qualquer, ou um espaço folclórico mais ou menos bem conseguido. Todavia, o caminho seguido foi outro, como se pode ver, e rever ainda melhor. Se as iguarias fossem da culinária japonesa, a decoração não teria de ser alterada nem sequer nos azulejos.
O meu plano é simples: voltar lá daqui a uns tempos e reclamar que o aumento de clientela a mim se deve, pelo que eles me devem qualquer coisinha como recompensa pela publicidade. Talvez achem graça à tanga e consiga cravar o café.
O futuro e a Futura
Paulo Querido tem feito um exaustivo trabalho de explicitação da BlogConf com Sócrates, desmontando a má-fé e desonestidade intelectual que eram fatais após o evento e suas peripécias. No #BlogConf 6, oferece-nos um retrato privilegiado de organizador contemplativo. Olha para o cenário com a cumplicidade e distanciamento do encenador. Trata-se de uma reportagem introspectiva, onde descreve o encontro com Sócrates a partir do diálogo secreto consigo próprio. É um registo raro, soberanamente subjectivo, também por isso recompensador.
Mas não lhe perdoo a grave falha de ter dito que a Futura é uma má escolha de caneta.
Ultrapassados pela Albânia
Sali Berisha, chateado com a decisão do Tribunal Constitucional português, reage com determinação e audácia.
Virose da verdade
Judite, antropologia e eleições no Benfica
A Polícia Judiciária de Braga apanhou um homem que em 1993 trocou a prisão por um cárcere paleolítico. Durante 16 anos foragido ao cumprimento da pena de 10 anos, viveu em buracos nos montes. Familiares e vizinhos davam-lhe alimentos, roupas, bens variados. Talvez caçasse. Talvez fizesse fogueiras para se aquecer e iluminar. Talvez preferisse a companhia das aves, das nuvens e das estrelas, seres das alturas, à dos humanos, seres das baixezas. Talvez se tenha genuinamente arrependido do crime que cometeu, qual anacoreta que expia o pecado do mundo no deserto onde recusa esse mesmo mundo. Terá sido uma existência de contemplação focada no sempiterno mistério de tudo e de todos — a que uma arma por perto garantia a necessária segurança para não ser devorado pelos monstros filosóficos que pudessem surgir nessa noite da Razão.
O que é a mística?
Miscelânea
Fighting Groupthink With Dissent *
What If I’d Never Met My Husband
Depression Happens to Successful People
Laid Off? It’s Good for You and Good for the Tech Industry
Stop And Smell The Flowers — The Scent Really Can Soothe Stress
Coping with a Dysfunctional Family?
Do Wealthy Men Give More Orgasms? **
Good Sex Is Good for Relationships
Personality Traits Linked To Artistic Taste
Hydrocarbons In The Deep Earth?
The Tragedy of the Commons ***
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* Viva lá revoluciòn!
** Fui recentemente aumentado, alembrou-me agora…
*** Para quem quiser começar a fazer política que não é da esquerda imbecil nem da direita ranhosa
Conselho para António Costa
António, não voltes a interromper o Santana. Seja o que for que vejas o Santana fazer, por mais esquisito que seja, não o interrompas. Porque é certo ele estar a fazer uma merda qualquer. Pelo que não a deves pisar. Afasta-te da merda do Santana, por favor. Esta regra aplica-se ao próximo debate, se o houver. Deixa-o falar, dizer o que tiver a dizer, e depois, na tua vez, fala connosco. Desvela a Lisboa que merecemos, e pela qual estamos dispostos a ajudar-te a ajudar-nos. Agora, cagadas com o Santana é que não. Porque interromperes para mandar a tua boquinha, e depois ficarem a medir a piça, leva a que te esqueças de nós, que não queremos ver-te a perder tempo com merdas. Especialmente, com merdas destas.
Bem me parecia
Que o Henrique Fialho ia apenas descansar um bocadito. Voltou com a ANTOLOGIA DO ESQUECIMENTO. Os tempos de cusentadismo frente ao monitor vão aumentar.
Obrigado Bibliotecário.
Louçã tem Dias
O caso do convite a Joana Amaral Dias para integrar a lista do PS é paradigmático da miséria ética e intelectual da oposição. E ter Louçã como seu protagonista, até agora sempre a somar vitórias populistas, é um bónus que vem mesmo a calhar. Visto ser ele quem está em causa, não a Joana ou Sócrates.
Sócrates já falou, e só voltará a falar se a Joana revelar quem lhe fez o convite. Porque ninguém duvida da existência do convite, o qual é tão lógico como legítimo. Duvida-se é que o PS, nas pessoas do Secretário-Geral, do ministro Vieira da Silva e do porta-voz do partido, os três e mais aqueles com quem se aconselham e decidem, todos tenham resolvido perder as eleições por causa de uma vaidosa boazuda e muito, muito, mas mesmo muito insuportável. Porque não há cenário mais previsível: se a Joana confirmar que Sócrates a convidou, provando-o, Sócrates acabou. E com ele o PS nestas eleições. Logo, os desmentidos do PS, tão rápidos e taxativos que foram, significam que a sua posição é intocável. Bola para o lado de lá.
Do lado de lá, Louçã engoliu e calou. Disse uma imbecilidade de quem está encostado à parede: que os desmentidos eram prova de culpa de quem desmente. O ping-pong ocorre enquanto a Joana continua desaparecida. Isto é patético e não tem escapatória. Caso a versão da senhora seja algo de equívoco, apostando na ambiguidade de repetir que foi convidada mas sem revelar por quem, estaremos perante um acto de insídia, de pulhice em último grau.
Louçã não vê Sócrates como um competidor, mas como inimigo. E o desvario com que lhe lançou este ataque diz bem do impacto da decisão de Miguel Vale de Almeida, cuja coragem é verdadeiramente notável e exemplar. De um inimigo esperam-se os golpes mais baixos, e, por isso, a um inimigo aplicam-se os golpes mais baixos. Foi o que Louçã fez, cego de ódio e medo. É um tiranete que se espalhou ao comprido, mordeu a língua e ainda pode morrer envenenado. Tem Dias para se salvar.
Coisas que se podem dizer
Nova estirpe suína junta-se à gripe A
Foi detectado o primeiro caso de gripe M, uma gripe que se caracteriza por impossibilitar viagens à Madeira por pessoas cujo primeiro nome comece por M. Os investigadores estão perplexos com a sofisticação deste vírus, capaz de cruzar factores geográficos com alfabéticos. Teme-se o pior, podendo chegar ao ponto de se desenvolverem variantes com outras letras, estando já as companhias de aviação e agências de viagens em negociações com milhares de destinos para se adoptar uma nomenclatura numérica. Recorrendo a este estratagema, esperam baralhar o vírus de modo a que nunca mais se repita a infelicidade de vermos um presidente do PSD impossibilitado de assistir in louco ao tiro ao zeppelin, isto é, à bebedeira da Lagoa. Aliás, para a Madeira já há proposta de nova designação: 1978.
i aprendeu a lição

Depois do i ter cedido ao Pacheco, não publicando uma entrevista que tinha em seu legítimo poder, interiorizou a censura. Neste caso, alteraram o original santanete para uma versão sem graça, insossa, da qual fizeram uma parangona à prova de indignações de loiras, morenas ou ruivas. Eis o que Santana afirmou e que não se encontra na entrevista:
De mim nunca disseram que namorava com o Diogo Infante, como ouvi dizer em 2005 e depois até repeti com pessoas amigas, porque era realmente uma história muito interessante. Quem diria, logo com o Diogo, um excelente rapaz. E também falei muito nisso por ter aparecido em período eleitoral, uma coincidência bem engraçada. O que nós nos rimos lá no PSD com o timing da saída do armário, o destino tem cada coisa. Aliás, nunca vi a história desmentida, fosse por um, fosse por outro. Portanto… votem em mim para a Câmara de Lisboa.
Nikadas
Laranjadas ácidas, corrosivas, venenosas. Se és um daqueles que ainda não sabe que a política de verdade foi uma estratégia inventada em Belém para afastar os socialistas corruptos (que andaram a encher-se com envelopes castanhos, 3 mil euros em cada um, à pala do Freeport) e proteger as pessoas decentes como o Dr. Dias Loureiro, prestigiado ex-conselheiro de Estado por escolha pessoal do Presidente (e consta haver 3 doentes nessas condições de ignorância em Portugal, dois deles por transmissão secundária), entra por tua conta e risco. Pode ser desconfortável, até causar um curto-circuito neuronal.
Ranhoso
João Pereira Coutinho é um dos mais histéricos representantes da direita ranhosa. Leia-se:
Tempos houve em que os intelectuais eram verdadeiros contra-poderes. Hoje, e depois da ‘traição’ de que falava Julien Benda, os intelectuais servem apenas para enfeitar os poderes. Basta olhar para o caso Miguel Vale de Almeida. Nos últimos anos, Vale de Almeida foi um crítico feroz do PS e da mediocridade dos seus deputados.
Agora, Vale de Almeida é candidato a deputado pelo partido que publicamente execrava. Como explicar a metamorfose? Alguns líricos garantem que o PS é tão pluralista que até convida quem violentamente o critica. Outros, mais cínicos, afirmam que é sempre bom ter um conhecido activista gay para contentar a esquerda e as minorias que tradicionalmente votam Bloco. Pessoalmente, é-me indiferente: na sua edificante amnésia, Vale de Almeida é sobretudo o exemplo do intelectual doméstico que o poder usa e abusa como adorno.
Não sei como irá evoluir a carreira deste publicista, mas sei que nele se encontra uma concepção decadente, mesmo antidemocrática, da cidadania. A sua cobardia não lhe permite assumir o cinismo bronco que exalta salivando. E acaba por ficar ainda mais transparente: Pessoalmente, é-me indiferente. Acredito.
Esta ideia, típica da direita ranhosa e da esquerda imbecil, de que não se pode pensar, só obedecer aos partidos outrora frequentados e aos seus actuais controleiros, causou reacções odiosas à corajosa decisão de Miguel Vale de Almeida. É ler o fel dos tiranetes e dos psicopatas, sempre prontos a castigar os que escolhem a liberdade.
A oposição é tão miserável que se criou uma situação inédita em Portugal: ser-se politicamente incorrecto, ser-se inovador, ser-se vanguardista equivale a apoiar o PS nas Legislativas para que se mantenha, prolongue, repita a actual liderança de Sócrates. Isto é, a continuidade é agora a única fonte de progresso por ausência de qualquer alternativa. É incrível, é verdadeiro e acabrunhante. E a situação só não se torna perigosa porque o PS é um sólido bastião do bom-senso político e do Estado de direito.
Portugal, como qualquer democracia, precisa de uma oposição ética e intelectualmente condigna com as suas responsabilidades governativas. Mas para tal tem de conseguir afastar os ranhosos e os imbecis. E isso parece cada vez mais improvável.

