O mercantilismo sabe bem

Fui jantar ao restaurante 560 e estava vazio. Ter sido a uma segunda-feira do final de Julho pode ter contado, mas é fraca desculpa e alguém tem de avisar os concidadãos. É que este restaurante surge estratégico para a salvação da economia portuguesa: todos os produtos que põe na mesa dos clientes, das entradas aos postres, são nados e criados cá na terrinha. Ou assim eles o dizem (daí o nome, 560, código dos produtos portugueses). Isto é, ir lá comer é o mesmo que estar a apoiar a nossa agricultura, pecuária, pesca e fruticultura. Saímos de barriga cheia e com o sentimento do dever governativo cumprido: salvámos postos de trabalho, aumentámos a riqueza nacional.

Deste conceito nacionalista podia esperar-se uma parolada qualquer, ou um espaço folclórico mais ou menos bem conseguido. Todavia, o caminho seguido foi outro, como se pode ver, e rever ainda melhor. Se as iguarias fossem da culinária japonesa, a decoração não teria de ser alterada nem sequer nos azulejos.

O meu plano é simples: voltar lá daqui a uns tempos e reclamar que o aumento de clientela a mim se deve, pelo que eles me devem qualquer coisinha como recompensa pela publicidade. Talvez achem graça à tanga e consiga cravar o café.

5 thoughts on “O mercantilismo sabe bem”

  1. Parece interessante e gosto do que é nacional. Dou sempre preferência aos produtos 560 :-) E viva Portugal! Sobretudo quando o marido pega com a mulher na cozinha, eheheheheh. Ela a trabalhar e o lord a receber as notas ao balcão. Typiquement portugais!

  2. Gandarela lugar onde nasci.
    Quem nasceu na Gandarela / por força tem de chorar / o destino que lhe espera / é morrer a trabalhar.
    Com este destino o que esperava da vida? Mesmo assim sinto orgulho em ter nascido nesse lugar há sessenta anos. Podiam-me me dar os lugares mais chiques que a minha preferência era sempre a Gandarela.
    Olha a Gandarela / olhai p`ra ela / se c`reis aprender / como no momento / o sofrimento / se muda em prazer / lá vai jovial / não tem rival / p`ra cá da serra d`Agrela / ninguém a confunde / até Freamunde / não era nada sem ela.
    Neste lugar o mais pobre de Freamunde, em tempos idos, mas rico no seu habitat. Lugar de sardinheiras, logo pela manhã cedo iam esperar as camionetas que traziam o peixe, para ser distribuído por elas que, depois o vendiam de porta em porta, pelos outros lugares da vila. Lugar de homens rijos que trabalhavam a pedra – ricas cantarias faziam. Jogadores amadores de futebol, do Sport Clube Freamunde, depois de deixarem o trabalho iam treinar. Jogavam por uma sandes e um copo de vinho. Bailadores e bailadeiras do Rancho de Freamunde. Outros que podia enumerar mas, tenho receio de esquecer alguns. Ainda me recordo nas festas Sebastianas, na segunda-feira de madrugada, Quim Loureira; homem com instrução escolar, mas com muita escola da vida, ia para o coreto da música e de lá nos dava um recital de quadras. Qualquer poeta se honraria de as ter escrito. Nos princípios dos anos sessenta Fernando Santos, (Edurisa Filho) resolveu escrever a opereta Gandarela, em honra ao lugar, com cenários de Leopoldo Saraiva e música de João Brito (hoje todos falecidos). Que sucesso. As quadras acima escritas são dessa opereta, pertencem ao Grupo Teatral Freamundense.
    Havia pessoas que ali nasceram, quando lhes era perguntado onde tinham nascido, se diziam que foi na Gandarela, eram logo marginalizadas. Sinto orgulho e gosto de lembrar esses tempos, mesmo sabendo que o meu destino era morrer a trabalhar. Os tempos mudaram. Conseguiram-se grandes regalias sociais e assim os que ali nasceram já não morrem a trabalhar. Antes vão para a reforma. É o que me acontece neste momento.
    Cumprimentos e desculpas.

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