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Carolas da RTP, vamos lá marcar uma reunião e resolver este problema

A série Mad Men estreou ontem, sexta, na RTP 2. Há uns meses falei nela. Duas vezes.

Pois bem, há um problema grave na RTP e eu, magnânimo, estou disposto a reunir-me com os carolas. Alguém que tenha poder para dar um murro na mesa, um pontapé na cadeira, uma cabeçada na porta. Porque temos de resolver o problema. A série Mad Men é das melhores coisinhas que 3,7 mil milhões de anos de evolução criaram neste planeta. Apela a homens e mulheres por igual, conhecedores do meio ou ignorantes, cultos ou a caminho. É uma série que merece o horário nobre, seja lá o que for que isso ainda queira dizer. É prazer que não se quer mais largar, que dá que falar, que chama anunciantes, que dá dinheiro a ganhar a quem gastou dinheiro a comprar. E que fizeram os carolas da RTP? Estrearam-na no canal 2 na pior altura do ano. Na altura do refugo, das séries requentadas, dos enlatados fora de prazo, o mês de Julho. E nem sequer repetem durante a semana, quem não viu um episódio não o volta a ver. Mais valia que estreasse directamente na RTP Memória, sempre teria alguma dignidade. Que se passa? Quem é esta gente? Que cigarrinhos para rir, marados, andam a fumar? Estamos perante o equivalente a usar o space shutlle para viagens entre Lisboa e Almada. Se o Obama sabe disto deixa de nos falar. É a decisão mais estúpida na televisão portuguesa desde a interrupção do Pato com Laranja em 1983.

Marquem a reunião e eu prometo ajudar-vos a dar valor ao que trazem do estrangeiro, mas tem de ser à tarde. Nós, os autênticos mad men, raramente conseguimos ligar sujeitos à sua falta de predicados antes do meio-dia.

Flutuações do vácuo (o vácuo de quem estou a falar és tu, Pacheco)

Vou continuar a partir da Palmira: vazio absoluto. Ora, o vazio, mesmo se absoluto, não equivale ao nada. E é inegável que o Ponto Contraponto será alguma coisa. Mas o quê? Vácuo, a única realidade conforme ao conteúdo. Dois factos concorrem para a evidência: (i) a Física ensina existirem flutuações do vácuo, em que do nada surgem manifestações de energia; (ii) o autor é o mais entusiasta defensor da mais vácua liderança no PSD desde que há PSD ou memória das suas lideranças (até o Menezes conseguia ter superior densidade mental). Assim se desvenda a enigmática transmissão semanal de 15 a 20 minutos de inanidade quântica.

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Sermão da Campanha

Louçã disse que a crise consiste na existência do PS e PSD, responsáveis pelo situacionismo porque incapazes de governar. Disse que estes dois partidos são iguais nisso de não conhecerem o País. Disse que Sócrates agravou as condições da crise, aumentando o desemprego por ter reduzido o investimento público. Disse que o PS pratica um poder tentacular, dando como exemplo o contrato com a Mota-Engil para o terminal de Alcântara, o qual terá sido feito por influência de Jorge Coelho, e referindo uma cláusula relativa a fenómenos meteorológicos como prova de sua imoralidade, corrupção ou ilicitude. Disse que o PS ofendeu muitos eleitores socialistas quando atacou a escola pública, os trabalhadores e os funcionários públicos, tornando-se num partido irrecuperável. Disse que o PS ofereceu 70 milhões de euros à Mota-Engil só por causa da influência de Jorge Coelho. Disse que Portugal deve sair da Nato para acabar com a sua participação em assassinatos de inocentes. Disse que o Tratado de Lisboa é mau para a Europa. Disse três vezes que Sócrates disse estar contente consigo próprio. Disse que não se deve comprar armamento para as Forças Armadas. Disse que a política não se faz com negociações. Disse que António Costa quer a pobreza da cidade. Disse que o contrato com a Mota-Engil é parasitagem dos dinheiros públicos com a cumplicidade de António Costa. Disse que Jorge Coelho é igual a Dias Loureiro, Oliveira Costa e João Rendeiro. Disse que está preparado para ser primeiro-ministro, e que vê essa possibilidade crescer a cada acto eleitoral.

Louçã é o genuíno herdeiro de Cunhal, exibindo a mesma alucinação messiânica. Como Cunhal, não tem quem lhe possa suceder. Carvalhas provou isso espectacularmente. Porque os líderes que respiram fanatismo não se substituem, apodrecem ou tombam. Os serventuários apenas conseguem imitar, com resultados pífios, quando não trágicos. Mas Louçã é mais guloso do que Cunhal, o qual estava satisfeito com o impasse da Guerra Fria, com o adiamento da revolução sine die. Bastava-lhe assistir às paradas militares, contemplar os exércitos a desfilar com cartazes e palavras de ordem. Para Louçã é outro campeonato, o vento está de feição para a demagogia Pop, altamente sofisticada, que o BE aprendeu a fazer cada vez melhor. Ele vai tentar acabar com o capitalismo a partir de Portugal ou encher o papo a tentá-lo. Daí a sintonia com Alegre, outro messias da nova esquerda anti-Sócrates, o qual não descansa enquanto não percorrer o País vendo as estradas cheias de povo agitando bandeirinhas à sua passagem e agradecendo, humilde, o pleno emprego garantido pelo Estado.

Regrettable, luck is like life: it only lasts so long…

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O futuro do cinema está nisto: jogos digitais. Cada vez mais complexos, envolventes e artísticos. Não? Sim. Os filmes dos Lumière também nos parecem toscos, mas ao tempo já estavam cheios de promessas. E as palhaçadas que corriam nas nickelodeon não permitiam adivinhar o que se faria na Europa e Hollywood pouquíssimos anos depois. Começar com coboiadas não envergonha ninguém, como os franceses explicaram aos americanos nos anos 50.

Jamais

A direita* lançou um blogue colectivo para fazer campanha: Jamais. Reúne uma juliana de figuras do meio blogosférico, até lá está o Pacheco, e o primeiro texto podia ser o último. Porque aposto que ninguém será mais claro do que João Gonçalves, o qual revela só haver uma entidade que os liga: Sócrates. O projecto deste blogue começa e acaba em Sócrates, não tem mais nada no saco para vender.

Eles estão ali sem saberem quem devem defender, ou o quê, ou porquê, ou para quê. Eles estão ali apenas e só para falarem de Sócrates, do Governo, do PS e de uma legislatura histórica por méritos próprios e desafios extraordinários. No fundo, todos eles invejam o que foi alcançado, mesmo aquilo com o que não concordam, ou que não têm coragem de apoiar, sequer aceitar, publicamente. No fundo, eles adorariam que o chefe da direita em Portugal fosse Sócrates, e que no PS estivesse o abalozinho Manela a envergonhar o partido. Como o destino é madrasto, só lhes resta a coligação negativa. Até o PCP e BE seriam melhores do que Sócrates, dizem. E PCP e BE fazem coro: até a Manela e o Portas seriam preferíveis ao PS. Eis uma das maiores tragédias nacionais: a oposição ética e intelectualmente paupérrima que temos de suportar. É nosso dever castigá-la, sempre.

* Apoiante do PSD

Direitopatia

É uma doença do foro neuro-ético. Os neuréticos sofrem de alucinações políticas selectivas. Acreditam que Sócrates andou aos envelopes por causa do Freeport. Ia para hotéis, esplanadas e tascos sacar o caroço aos bifes. Picavam uns petiscos, bebiam umas bejecas, palitavam as favolas, coçavam os colhões, arrotavam, peidavam-se, riam alarvemente e passavam pequenos envelopes castanhos debaixo da mesa para que não ficassem salpicados pelo molho dos caracóis. Foi assim que Sócrates conseguiu comprar o tal apartamento aos mafiosos, embora com desconto mafioso, como a TVI, o Sol e o Zé Manel nos andaram a explicar ao longo de 9 meses. Ao mesmo tempo, os neuréticos não encontram nada de errado nos sucessivos negócios ruinosos onde o BPN se meteu, negócios que envolvem a fina-flor do PSD e subsistemas de poder onde o partido tem a sua base sociológica de apoio. Dizer que se está perante uma colossal máquina de lavagem de dinheiro, e que algum desse dinheiro pode estar relacionado com negócios de armas a uma escala internacional, e que esse banco era protegido por aqueles que sempre se insurgiram contra os limites impostos pelo Estado à sua actividade ou que a tudo assistiam caladinhos sabendo da tripa-forra, eis algo que não faz qualquer sentido adentro do quadro clínico da direitopatia.

Prognóstico muito reservado.

Omertà

Marcelo Rebelo de Sousa é a figura mais prestigiada, e mais popular, do PSD. Agora que Cavaco exibe uma mediocridade política aviltante no último lugar onde o deveria fazer, confirmando a lógica que enformou tudo o que de pior teve o cavaquismo, é em Marcelo que reside a réstia de elevação, e sentido do bem comum, à direita. Por isso é popular, por transmitir a percepção de conservar valores mais altos do que os meramente relativos à luta partidária e ambições de poder. E por isso é presidenciável, promete ser capaz de unir os portugueses, ser imparcial por imperativo pátrio. O que diz, portanto, é de extrema importância para a compreensão da actualidade política.

Acontece que a sua tribuna semanal, As Escolhas de Marcelo, é um invariável tempo de antena dos interesses do PSD e de quem ele achar por bem favorecer. Nada de errado, são essas as regras do jogo, mas esquecer que Marcelo é cabrão prejudica a pleno entendimento das suas mensagens. Nesta última edição, abateu-se sobre os 17 minutos de paleio o esmagador silêncio quanto ao caso BPN e entrada na festa de mais um ministro de Cavaco, Arlindo de Carvalho. Como é óbvio, não interessa para nada, sem outras informações, a questão policial e legal, donde o Arlindo pode até sair imaculado. Mas, como óbvio é, há interesse político no facto, posto que se relaciona com o impacto que tal notícia pode ter na opinião pública em período eleitoral. Se o Freeeport tivesse este tipo de passarões arrolados, e não a arraia-miúda que tem aparecido, Marcelo não perderia a oportunidade para envenenar a audiência com o savoir faire (leia-se, com a chico-espertice projectada em Sócrates) que o mantém na ribalta da política-espectáculo desde finais dos anos 70. Ter imposto que o assunto não fosse sequer mencionado, dá conta de uma autocensura desabridamente sugestiva quanto aos melindres que a matéria causa em Belém e na Lapa.

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Portugueses muito pequeninos

Na sexta-feira, Miguel Abrantes assinalou a ausência de qualquer notícia, na edição digital do Público desse dia, relativa à apresentação do Laboratório Ibérico de Nanotecnologia. No entanto, existem lá 4 matérias acerca do acontecimento, com as seguintes horas registadas: 08h52, 12h02, 12h06 e 23h58. Ora, também não me lembro de ver alguma delas destacadas na coluna central, a qual esteve entregue à polémica sanguinolenta, às ameaças da FENPROF e, principalmente, a uma notícia da concorrência, Sol, onde se antecipava que era desta que Sócrates e quadrilha iriam ser apanhados a roubar à beira-rio. Vamos excluir a última notícia, lançada à meia-noite, e ficam 3 que foram enfiadas no armazém ao longo do dia, não mereceram estar na montra. Também nenhuma chamada se fez na barra superior para o P&R, nem se elaborou um Dossier. Tendo em conta que nesse dia se reuniram, e no território nacional, o Presidente da República Portuguesa, o Rei de Espanha e os chefes dos Governos peninsulares, talvez algo importante se estivesse a passar. Mas não para o nova política editorial inventada pelo Zé Manel: o jornalismo de auto-referência.

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Verdadinha – Número ínfimo

MLF – […] Não há medidas pás pequenas e médias empresas!

AL – As linhas de crédito, que foram sendo avançadas, considera que não são positivas?…

MFL – Não, não acho. Não acho que sejam positivas, não acho que sejam positivas. Por uma simples razão, de que, linhas de crédito, normalmente, como foram apresentadas, em primeiro lugar, conduz a que as empresas se endividem mais do cóque já estão. E quando passasse a crise, elas estariam mais endividadas do que estavam anteriormente. Em segundo lugar, porque se nós falarmos com as empresas, nós vemos que há um número ínfimo de empresas que têm acesso a essas linhas de crédito. Porque uma coisa é o anúncio que se faz da abertura das linhas de crédito. Outra coisa é, na prática, quais são as empresas que têm acesso a essas linhas de crédito. E a grande maioria delas, as condições que é necessário reunir para ter acesso a essas linhas de crédito, a maioria das empresas não as reúne. E portanto, não têm acesso a elas. Portanto, estou em desacordo, total, contra isso. […]

A Manela fala com empresas com os poderes sobrenaturais com que outros falam com cães, anjos, árvores ou fogareiros. E o efeito é igual, ela ouve vozes que lhe respondem. Essas vozes dizem-lhe que o crédito está a dar cabo da economia, a criar uma legião de endividados. Acabe-se com o crédito, acabam-se logo os vícios. Essas vozes também lhe dizem que, 4 mil milhões de euros para 30 mil PME’s depois, ainda não passámos de um número ínfimo. Dúvidas ou duvidas? Basta pensar em quantas pequenas e médias empresas há no Mundo que não reúnem as condições para serem apoiadas pelo Estado português e suas diabólicas linhas de crédito. As falências que Sócrates está já a causar nos outros países, por causa destas políticas que temos de rasgar e romper quanto antes, são uma catástrofe global.

A Manela não mente. Verdade verdadinha.

Couraças

Quando Vital Moreira pediu ao PSD uma qualquer declaração acerca do caso BPN, realçando que as figuras mais importantes no escândalo estavam intimamente ligadas ao sistema de poder social-democrata, foi de uma ousadia histórica. Tanto que dividiu logo o PS. Uns porque acharam mal por princípio, outros porque recearam que acabasse mal nas urnas ou na imprensa. E alguns socialistas, na dificuldade de lidar com o grito iconoclasta, até vestiram a camisola do adversário: passaram a repetir a mentira de que Vital tinha associado o PSD à roubalheira. Ora, foi ao contrário: o que Vital exprimiu foi a sua indignação pela demora na associação do PSD ao caso através de uma qualquer — qualquer! — tomada de posição política. Porque apenas repetir que é um caso de polícia, e que se tem de esperar que a Justiça actue, é o grau zero da responsabilização obrigatória. Façamos um teste básico: alguém imagina Sá Carneiro fechado num silêncio cobarde perante situação igual?

O BPN e a SLN foram úteis para o PSD e para Cavaco Silva, tanto em doações para campanhas como para as mais variadas operações financeiras privadas de inúmeros dirigentes e militantes do partido. Pergunta: se fosse um traficante de droga a fazer doações para a eleição de políticos ou a dar-lhes dinheiro a ganhar, mesmo que em negócios legítimos, não se pediriam as mais exaustivas explicações aos envolvidos? Não haveria ocasião para algum tipo de arrependimento, quiçá reparação? Pois o que se fez no BPN é bem pior do que um traficante poderia ter feito. Dos marginais esperam-se ilegalidades, e por isso há maior protecção contra os seus actos. Mas das figuras gradas do PSD espera-se uma actividade impoluta e exemplar. Representam a Cidade, tal como eles são os primeiros a lembrar quando exigem respeitinho e reclamam inocência. O mais provável é que a investigação policial não entre nesta dimensão da questão, mas tanto os actuais dirigentes do partido, como o actual Presidente da República, estão enterrados num verdadeiro pântano onde o seu silêncio, que abrange um longo passado, significa que qualquer resquício de ética privada e dignidade pública — quanto a esta tão, simultaneamente, complexa e clara vergonha — aí se afundou e não volta mais. Vital, para orgulho de qualquer cidadão digno desse estatuto, assumiu o dever de não ser cúmplice da hipocrisia esquizóide de tradição bem portuguesa. E as feras saltaram-lhe em cima, trôpegas de medo e raiva.

Entretanto, o mais rigoroso diagnóstico da profundidade e implicações do caso BPN, até à data, só chegou há poucos dias.

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Coisas muita boas das coisas muita más

Aumento do custo do petróleo leva a soluções energéticas alternativas

Crise económica leva ao aumento da poupança

Menos dinheiro a circular leva a reduzir gastos supérfluos

Mais desemprego leva a mais aprendizagem

Pandemia de gripe leva a aumento da higiene

Desvarios de Cavaco levam a derrota nas próximas eleições presidenciais

Demagogia e populismo do Bloco levam ao fim da ilusão gerada no PSR

Anacronismo do PCP leva a futuro risonho na organização de festas e manifestações com transporte garantido

Vacuidade do CDS leva a exibições cómicas dos seus representantes

Existência do PSD leva à transmissão pública de frases e expressões de Manuela Ferreira Leite

Verdadinha – Gente normal

MFL – […] Eu acredito, efectivamente, como toda a gente normal acredita, é que aquilo que é preciso é de mudar de políticas. Porque, evidentemente, se a política se mantém a ser a mesma, os resultados só podem ser os mesmos. […]

A Manela está do lado da gente normal. A gente normal é gente como ela, que pensa como ela. A senhora representa a normalidade das gentes normais. E lembra-nos disso sempre que opina acerca dos assuntos, tanto os normais como, especialmente, os anormais. Por exemplo, é muito provável que ela pense que o Eng. Sócrates não faz parte da gente normal. Por causa das suas políticas anormais. As quais ela vai mudar, em nome da normalidade. O candidato que escolheu para a Câmara de Lisboa também dizia haver algo de anormal em Sócrates, lá nos idos de 2005. Talvez por isso tenha sido escolhido pela Manela para dirigir Lisboa em direcção à normalidade abalada pelo actual presidente, amigo do outro anormal. Estas coisas são normais, está bem de ver. É a normal afinidade entre normais.

A Manela não mente. Verdade verdadinha.

Miscelânea

Fathers Spend More Time With Children Who Resemble Them, Study Suggests

Media Tend To Doomsay When Addressing Environmental Issues

Beautiful People Are More Intelligent I *

Men sexually harass women because they are not sexist I *

Popularity is In Your Genes

Doctor’s Compassion May Help Cure Colds Faster

Pride: Deadly Sin or Social Lubricant?

Swearing Reduces Pain **

House Cats Know What They Want And How To Get It From You **

Why Do Dogs Sniff Each Other?

Cross-Cultural Differences in Creativity

Can Gaming Slow Mental Decline in the Elderly?

Why Handsome Men Make Bad Husbands I ***

Why handsome men make bad husbands II ***

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* Óbvio
** Muito óbvio
*** Demasiado óbvio

O navio de George Clooney

Louçã — que quando for primeiro-ministro irá nacionalizar a GALP e EDP (para começo de conversa), arrastar os banqueiros por uma trela, proibir os despedimentos e, portanto, acabar com o desemprego em Portugal, e ainda substituir o capitalismo global por uma outra coisa que leu num livro que tem guardado lá em casa — é um piadista. Um piadista que se imagina chefe da oposição, e que se deita e acorda a pensar em Sócrates. A soberba apela à facécia:

Os assessores de comunicação, que lhe sugeriram este título de um filme de George Clooney, esqueceram de lhe dizer que n’A Tempestade Perfeita o navio de George Clooney naufraga, e não há nenhum sobrevivente.

Sócrates tinha usado a expressão tempestade perfeita como metáfora do conjunto de crescentes crises que marcaram a legislatura, começando com a crise orçamental e culminando na crise económica internacional que se abateu como um cataclismo. Louçã goza o prato. Ele olha para o Governo e vê inimigos, não concidadãos. Nada do que essas pessoas tenham feito, decidido, viabilizado, promovido, apoiado pode ser bom porque… veio deles, dos gajos do poder. A natureza do poder é radicalmente simples nas ideologias extremistas: se é dos outros, é diabólico; se é nosso, é santo. Por isso a cena do naufrágio aparece especialmente deleitosa para os bloquistas, precisamente porque ninguém se salva. A violência mal contida com que Louçã invariavelmente discursa, que o faz ser um exímio representante da moral presbiteriana, adoçou o tom apenas para projectar um desejo de morte. Daí a explosão de risota na sala. O prazer de imaginar Sócrates, ministros, secretários, assessores, dirigentes partidários e militantes a afundarem-se sem possibilidade de salvação, desaparecendo no abismo oceânico, encheu de entusiasmo os apoiantes de um Portugal onde os Reis de Espanha, ou o Presidente de Angola, não têm dignidade para serem recebidos no Parlamento. São estas as águas para onde nos querem levar, cantando e rindo.

Entretanto, e não sendo obrigatória a utilização de um assessor, haja alguém que diga ao Louçã que ele nunca será um Clooney. Demasiado canastrão.