Portugueses muito pequeninos

Na sexta-feira, Miguel Abrantes assinalou a ausência de qualquer notícia, na edição digital do Público desse dia, relativa à apresentação do Laboratório Ibérico de Nanotecnologia. No entanto, existem lá 4 matérias acerca do acontecimento, com as seguintes horas registadas: 08h52, 12h02, 12h06 e 23h58. Ora, também não me lembro de ver alguma delas destacadas na coluna central, a qual esteve entregue à polémica sanguinolenta, às ameaças da FENPROF e, principalmente, a uma notícia da concorrência, Sol, onde se antecipava que era desta que Sócrates e quadrilha iriam ser apanhados a roubar à beira-rio. Vamos excluir a última notícia, lançada à meia-noite, e ficam 3 que foram enfiadas no armazém ao longo do dia, não mereceram estar na montra. Também nenhuma chamada se fez na barra superior para o P&R, nem se elaborou um Dossier. Tendo em conta que nesse dia se reuniram, e no território nacional, o Presidente da República Portuguesa, o Rei de Espanha e os chefes dos Governos peninsulares, talvez algo importante se estivesse a passar. Mas não para o nova política editorial inventada pelo Zé Manel: o jornalismo de auto-referência.


Neste sábado, na edição em papel, publicou-se o texto de José Augusto Moreira, saído poucas horas antes na edição digital. E mais nada. Corresponde a meia página. E o jornalista ainda teve o engenho para terminar a prosa a falar de protestos de professores, os quais foram obrigados pela polícia a irem para um campo de futebol, onde ficaram atrás de uma rede de arame a ver a caravana chegar. O Público conseguiu o feito magnífico de falar em professores vítimas da repressão do Governo, ao ponto de ficaram encarcerados numa estádio de futebol atrás de redes de arame, como é típico das tiranias mais autoritárias, para fecho de reportagem da celebração da nanotecnologia ibérica. Creio que depois disto já vale mesmo tudo. Tudo e mais do mesmo. Na página ao lado, notícias relativas a professores que pretendem boicotar o processo de avaliação, e ainda de alunos a protestar contra a greve de docentes, garantiam que não nos esqueceríamos do que realmente importava reter. O Editorial, entregue a Manuel Carvalho, servia o enésimo funeral de Maria de Lurdes Rodrigues e das reformas do Governo, provando que a homogeneidade é um valor em alta na redacção. No Sobe e desce, instrumento axiológico da agenda secreta, apareceram um iraniano, um norte-americano, um jamaicano e um brasileiro. Portugueses ou espanhóis, nem o cheiro a sardinha, nem caramelos de Badajoz. À esquerda, estava o Vasco a cumprir serviço com um hino à redundância, um texto absolutamente inútil à volta de cenários pós-eleitorais. Lá para dentro, o Miguel laureava a PEVIDE e o Pacheco, aluado, anunciava que, tendo em conta o estado do PSD, a única solução é abandonar a Terra em direcção a um outro poiso cósmico. E pronto. Por €1,5 não se pode exigir mais, né?

99,9% dos portugueses não faz a menor ideia do que seja a nanotecnologia. E, todavia, é a área da investigação científica mais importante da actualidade, ultrapassando a investigação nuclear quanto ao potencial tecnológico. Será crucial para a medicina, ecologia, segurança e transportes, pelo menos. E as aplicações virão a curto prazo. Para além disso, o facto de Portugal e Espanha se terem organizado para uma tarefa comum desta envergadura, a exemplo de outras, desvela um paradigma que pode fazer da Ibéria um novo pólo de desenvolvimento internacional, fruto das privilegiadas relações políticas e culturais com tantos países latino-americanos, africanos e asiáticos que os antigos impérios ibéricos conservam como herança de futuro. Por tudo isto, é péssimo que o Público tenha censurado a suma importância do evento. É, na verdade, algo ainda pior do que péssimo (sim, com o Zé Manel não há limites semânticos), pois o jornal fundado por Vicente Jorge Silva deu, desde a sua origem, uma especial atenção às temáticas científicas. Chegou a ter um suplemento especializado nelas. E ao longo do tempo, numa tradição que vem dos anos 90, e ainda recentemente, não se inibiu de fazer manchetes visualmente espampanantes com notícias de algum dos feitos da NASA ou algo congénere. Então, que poderá explicar este silenciamento, neste preciso jornal, quanto a um projecto que, quanto mais não fosse, tem o condão de despertar vocações para a ciência entre qualquer estudante do ensino básico ou secundário português a quem ele seja explicado?…

Somos todos portugueses, tanto os profissionais que servem a agenda do Zé Manel, como os que lhe pagam o salário e permitem que ele continue a destruir o ex-ex-libris da imprensa nacional, como os que se indignam com esta permanente campanha contra Sócrates em que o Público entrou desde que a SONAE perdeu um negócio onde apostou tudo o que tinha e não tinha, até a face megalómana do patriarca. Pelo caminho, o jornal tornou-se num aliado de Cavaco para a desestabilização da política nacional, é hoje uma máquina propagandista do sector mais carunchoso da sociedade.

Toda esta gente é portuguesa, inquestionável, mas é preciso dizer-lhes, na cara, que certos portugueses são mais portugueses do que outros. E, para se medir essa diferença, basta lembrar que na sexta-feira passada, em Braga, estiveram reunidos alguns espanhóis que respeitam – e amam – muito mais Portugal do que o Zé Manel e a corja de revanchistas, cegos pelo ódio, onde milita.

16 thoughts on “Portugueses muito pequeninos”

  1. val, não compreendo como é que o belmiro, um unhas de fome, deita tanto dinheiro fora com o público. quero dizer, se calhar até compreendo. tendo no sócrates o seu ódio de estimação desde a opa à pt, o belmiro não se importa de perder uns milhões a fazer-lhe a vida negra por intermédio do seu peão zé manel. e importa dizer que tudo isto é factual: há um público antes da opa e um público anti-sócrates depois da opa. para esta estratégia até recuperaram o cerejo que estava encostado na redacção.
    também é verdade, como dizes, que não é só o zé manel, há uma certa homogeneidade na redacção. até diria mais. há uma certa homogeneidade, se não nos media, pelo menos nos jornalistas portugueses. mas quando pensaram liquidar o sócrates esqueceram-se da sua própria pele, e do seu dever de rigor. o sócrates pode ter sido ferido aos olhos dos portugueses, devido a essa acção jornalístico-conspirativa. mas o que fica aos olhos desses mesmos portugueses, e sem sombra de dúvida, é a perda completa da credibilidade dos jornalistas. esta credibilidade era total há uns anos e agora, nem mesmo a pessoa mais inocente, acredita cegamente nas notícias que vê.

  2. Excelente comentário. Estes pasquins funcionam com uma única intenção, derrubar o PM, para dar o governo da Nação a pessoas sem nivel e faceis de manobrar. É ver o que se passou no Citygroup, PT e BPN. Henrique Granadeiro numa entrevista à NS, diz que nunca se deixou manobrar por Manuela Ferreira Leite e Pandilha. No BPN as notícias são todas escondidas pelo Público e o mau da fita é Constâncio. A comissão de inquérito para Constâncio usou um ódio de estimação que é dificil de compreender uma vez que com Oliveira e Costa parecia uma conversa em família. Honório Novo que sempre que fala destilha ódio e malcriadeza e Nuno Melo que se julga um iluminado, não passam de dois seres que passam para a opinião pública o quanto de mais baixo existe na AR. O Belmiro quando lançou o complexo de Troia convidou o PM. Como o PM não foi em cantigas com a PT, não se deixou vender, tem em Belmiro o seu rival. Se Belmiro quer pedir meças que concorra a 1º. Ministro para ver os resultados. Não sirvas a quem serviu e não peças a quem pediu.

  3. Adiro sem reservas, as usual, ao que Valupi escreveu, escreve. E que Assis complementa aqui, certeiro.
    A liberdade de imprensa no nosso País, à beira mar plantado: o rei vai nu. Tristemente nu. Um outro Rei, um PR, dois Primeiros Ministros e um projecto (do Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia) que não é apenas uma ideia. Out do Público.
    O prémio Nobel da Física Richard Feynman, um grande físico, um grande divulgador científico, um extraordinário ser humano infelizmente desaparecido (ocorre-me outro ser fora de medida, em minha opinião, Daniel Baremboim, pianista e pedagogo, maestro, cidadão sensível e activo no mundo, promotor da East-West Bank Orchestra da Fundação Edward Said-Daniel Baremboim) dizia mais ou menos isto, sobre o mundo novo da nanotecnologia, no espaço próximo de átomos e moléculas, onde a Física de Newton dá lugar à Física Quântica: there is room enough, plenty of room. Um novo espaço a perder de vista, de novas e infindáveis construções. Onde todos e mais todos e mais todos cabem. Todos: excepto os jornalistas do Público, que se auto-excluiram. Ou que deixaram que os excluíssem, implícita ou explicitamente.
    E este é que é o drama da comunicação social em Portugal: a mediocridade, a apagada e vil tristeza, a ignoranciazinha, a marrada obtusa para onde lhe mandam.
    Claro que tal situação inverter-se-á. Não é uma sina eternamente infernal. E claro que há muitos e bons jornalistas ou analistas, ou só comunicadores. Felizmente há ainda os blogues, uma aragem fresca, revigorante, na manhã.
    Vou referir dois nomes, simbolicamente, que honram a circunstancia ou a profissão de comunicadores. São pessoas que não conheço pessoalmente, mas a quem agradeço o muito que com elas tenho aprendido e continuarei a aprender: Carlos Santos, que descobri durante as últimas eleições para Presidente dos EUA. Foi-me possível então acompanhar com o maior rigor o evoluir da campanha, através de modêlos de malha fina que o Carlos prodigalizava no seu blogue. Então e actualmente impressiona-me também muito a seriedade com que se relaciona com pares (da blogosfera), não perdendo por isso a agressividade (não gratuita), o brilho, a acutilância. O outro nome, neste caso jornalista além de animadora de blogues, cuja trajectória tenho observado e me surpreende continuamente pela verticalidade, coragem, orgulho, argúcia, ética. Ética que, para certas pessoas, não é uma palavra vã: Fernanda Câncio.
    E vários outros nomes se poderiam citar. Nem tudo está podre no reino da Dianamarca.

  4. Você disse “liberdade de imprensa”? há, há, há! Isso é coisa que já não existe vai para mais de 20 anos. Os jornais, as televisões, as rádios, são hoje correias de transmissão dos grupos financeiros para modelar a opinião pública aos seus interesses, e para chegar ao Poder, e os jornalistas são somente os seus empregados. O problema é que certos grupos financeiros são caganitas de mosca comparados com outros, que fazem bosta de elefante.
    Por isso, por mais que o Público estrebuche, nem cócegas faz à imagem do Sócras, o qual tem as costas muito mais largas que o Belmiro. Sócras tapa-nos os olhos com a pós-graduação em inglês técnico para que não vejamos a sua pós-graduação em Bilderberg.
    Que Deus nos livre desta cambada, e, se não conseguir, que nos deixe ao menos um fogareiro e umas sardinhas para saciarmos a fome à lá portuguesa, com vinho alentejano!

  5. Val, continuas certeiro, como “cidadão presente” sublinhou…

    Subscrevo ideias e palavras de Manuel Pacheco,

    “A comissão de inquérito para Constâncio usou um ódio de estimação que é dificil de compreender” (…)

    com

    “Honório Novo que sempre que fala destilha ódio e malcriadeza e Nuno Melo que se julga um iluminado, não passam de dois seres que passam para a opinião pública o quanto de mais baixo existe na AR.”

    Estes dois senhores, Novo e Mello,

    com uma postura, que, se calhar os santos inquisidores, não a teriam,

    de extrema arrogancia e um diletantismo “à vez”, que a democracia pelos vistos permite,

    pavonearam a ignorância má fé e irresponsabilidade fácil, que as galerias da direita comprometida no BPN, BPP e ex – BCP, aprovaram com algum alivio…

    A verdade é que a crise financeira em Portugal foi estancada, a corrida aos depósitos não ocorreu, o governo e o BdP controlaram o que podia ter sido fatal para a solvencia do País…

    Desses “honrados senhores”, ficará a espuma da insidia, irresponsabilidade, ignorancia, má fé politica, impotência civica…

    Abraço

  6. Segundo os últimos dados divulgados pela APCT, o Público teve no primeiro quadrimestre de 2009 mais uma queda nas vendas, deste vez de 6,77%, correspondendo a uma média de jornais vendidos diariamente de 38.773, a mais baixa de sempre.

    O Público está agora abaixo da DN, depois de ter estado muitos anos acima dele. O jornal da Sonaecom não pára de baixar nas vendas desde 2005. De 2005 para 2006, o Público baixou de 49.506 para 45.472 exemplares vendidos, uma quebra de 8%, que não se podia atribuir à crise. Actualmente estão a vender menos 22% do que em Janeiro de 2005.

    Na semana passada, a Sonaecom desmentiu encarar a venda do jornal. Mas as coisas vão mal. Em 19 de Maio, o director JMF reuniu com a CT, propondo-lhes uma baixa salarial de 12%. O resultado operacional do jornal estava então em perto de um milhão de euros por trimestre. O caderno Economia já foi suprimido e esperam-se novas medidas de reestruturação.

  7. O Belmiro já por duas vezes ameaçou deixar Portugal: ia, disse, fazer negócios e criar empregos para outro país. Ainda não foi, mas pode ir e levar o belmirinho, em vez de continuar a mamar e dar chupeta ao rebento. Não foi porque: primeiro, lá fora na Europa, não teria a mínima relevância e ninguém lhe ligaria pívia; segundo, porque dado que lá fora valeria zero, resolveu atacar através do jornal que detem para derrubar o governo e voltar a ter um govrno submisso em quem mande e possa fazer do PM um moço de recados. Se ganhar a aposta os prejuizos do pasquim serão reembolsados em tres tempos. E o zé cachaço de porco, que faz manchetes dizendo do ouro que é merda dirá então da merda que é ouro.

  8. Se conhecessem a Claudia, percebiam porque é que o Público vai continuando.

    Ela é que manda naquilo e não é lá muito brilhante…para falar verdade é verdadeiramente incompetente.

    E se a conhecessem percebiam porque é que o Fernandes tem cobertura e continua a fazer este trabalho sujo e vergonhoso. Não que lhe custe…mas assim até tem incentivo.

    Eu estive lá durante a OPA e sei bem o que aconteceu e nao foi por acaso. NAda do que se seguiu foi por acaso.

    Miguel

  9. Corja e vendidos. Um acontecimento que vai marcar a história da Peninsula Iberica praticamente ignorado pelos media. Não sei, Valupi, como ainda sou optimista em relação a este nosso Portugal! Bem podes dizer que «é uma fé do caralho!»

  10. Pois é Val o tio Belmiro não perdoa. Mas é apenas uma questão de tempo, também irá chegar a vez dele. Vocês já viram o número dos ídolos de pés de barro que estão a cair? Vocês já viram a quantidade de sumidades no campo da economia, dos negócios que os jornais nos venderam e obrigaram a engolir como personalidades de ética à prova de fogo e exemplos de sucesso a seguir? Quanto à corporação em torno da qual se agregam muitos “jornalistas”, ela é apenas mais uma. Porque é que os “jornalistas” quando questionados eticamente se portam como púdicas vestais? Há exemplos mais que suficientes que provam que o não são, nem púdicas nem vestais. O Público de há uns anos para cá é um albergue espanhol, o Zé Manel a sua madame devidamente acolitada por outros tantos aspirantes ao cargo provenientes de todos os quadrantes do espectro político. Para os jornalistas, continuadores daqueles com quem aprendi a ler, os meus respeitos. Já não há pachorra par esta bosta!

  11. Por dever de ofício estou a ler uma obra sobre o Emir Abd El-Kader. Eis o que esta importante personagem do Islão dizia , em meados do séc.XIX, sobre o papel da imprensa que considerava capaz do melhor e do pior : ” Ce qui en sort ressemble à la goutte d’eau venue du ciel: si elle tombe dans le coquillage entr’ouvert, elle produit la perle; si elle tombe dans la bouche de la vipère, elle produit le venin”. Desculpem o francês!

  12. portanto o destino de uma inocente gota de água é terrivelmente ambíguo, tal como hoje a dúvida que me perpassa o espírito: será à Gomes de Sá ou à Braz?

  13. Já não se lembram que Sócrates acabou com a mama da Caixa de Previdência dos Jornalistas? E que até a mãe de António Costa escreveu uma diatribe contra? Tramou-se com os jornalistas. Já não se lembram que Sócrates acabou com a mama das férias de juízes e procuradores? Tramou-se com juízes e procuradores. E por aí fora…

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