Omertà

Marcelo Rebelo de Sousa é a figura mais prestigiada, e mais popular, do PSD. Agora que Cavaco exibe uma mediocridade política aviltante no último lugar onde o deveria fazer, confirmando a lógica que enformou tudo o que de pior teve o cavaquismo, é em Marcelo que reside a réstia de elevação, e sentido do bem comum, à direita. Por isso é popular, por transmitir a percepção de conservar valores mais altos do que os meramente relativos à luta partidária e ambições de poder. E por isso é presidenciável, promete ser capaz de unir os portugueses, ser imparcial por imperativo pátrio. O que diz, portanto, é de extrema importância para a compreensão da actualidade política.

Acontece que a sua tribuna semanal, As Escolhas de Marcelo, é um invariável tempo de antena dos interesses do PSD e de quem ele achar por bem favorecer. Nada de errado, são essas as regras do jogo, mas esquecer que Marcelo é cabrão prejudica a pleno entendimento das suas mensagens. Nesta última edição, abateu-se sobre os 17 minutos de paleio o esmagador silêncio quanto ao caso BPN e entrada na festa de mais um ministro de Cavaco, Arlindo de Carvalho. Como é óbvio, não interessa para nada, sem outras informações, a questão policial e legal, donde o Arlindo pode até sair imaculado. Mas, como óbvio é, há interesse político no facto, posto que se relaciona com o impacto que tal notícia pode ter na opinião pública em período eleitoral. Se o Freeeport tivesse este tipo de passarões arrolados, e não a arraia-miúda que tem aparecido, Marcelo não perderia a oportunidade para envenenar a audiência com o savoir faire (leia-se, com a chico-espertice projectada em Sócrates) que o mantém na ribalta da política-espectáculo desde finais dos anos 70. Ter imposto que o assunto não fosse sequer mencionado, dá conta de uma autocensura desabridamente sugestiva quanto aos melindres que a matéria causa em Belém e na Lapa.


Mas o sermão dominical foi marcado pelo tema do silêncio. Ao fazer o balanço da acção do Governo, silenciou o que pode para deixar uma imagem de incompetência a começar logo em 2007. Só merda socialista, pois. Seguiu-se o caso Jardim e sua declarada intenção de proibir os partidos comunistas. Questionado em relação ao silêncio de Ferreira Leite, que nem um ai largou com medo que chegasse à Madeira, Marcelo fez o seu habitual número de sapateado. E depois acrescentou que Jardim devia ter estado calado nas vésperas da Manela aterrar na bebedeira da Lagoa, pois agora ela passou a estar sujeita a que lhe pedissem opinião sobre o assunto. Desastres de incomensurável dimensão podem ocorrer nessa circunstância. Logo depois, instado a comentar o que Pacheco disse do que a Manela diz, deu-lhe tau-tau com alguma severidade: disse que também ele não quis dizer o que tinha dito. Donde, o ilustre marmeleiro tinha perdido uma excelente ocasião para ficar calado. E concluiu com arroubo:

Eu acho que o problema do PSD, o problema do PSD, é que não deve falar demais. Num momento em que as sondagens o dão a subir, a aproximar-se de uma eventual vitória, era estúpido que perdesse a vitória por “pela boca morre o peixe”, falar demais.

É impossível ser-se mais eloquente: Marcelo manda que todos se calem, porque de cada vez que abrem a boca sai asneira da grossa. Como o PSD não tem nada de nadinha de nada que valha a pena ouvir seja por quem for, é só ganho. As sondagens sobem por isso mesmo, explica impaciente, porque o eleitorado premeia quem fica mudo e quedo, a acumular sarro. Se querem revelar o que lhes enche a cachimónia, esperem pelo fecho das urnas. É o silêncio, estúpido!

A apetência das figuras gradas do PSD para a inefabilidade é uma escola de vida. Também Ângelo Correia, um dos peixes que nunca morrerá pela boca, tentou ensinar o seu protegido Menezes a ficar calado. Logo após a patética figura ter sido eleita, Ângelo foi à porqueira do Crespo enviar o recado: que era decisivo que se falasse muito pouco. Burro calado passa por esperto, algo que em Gaia nunca tinha sido meditado. Dois meses depois, o estouvado confirmou o seu receio e ficou com o destino marcado, não chegou a durar 1 ano. O mesmo Ângelo, na mesma porqueira do Crespo, repetiu a fórmula no caso Dias Loureiro. Lamentou-se pesarosamente com… o facto de ele ter falado tanto. E vindo do Ângelo, o lamento mal esconde o escândalo — como foi possível que um homem da sua escola, um companheiro destas lides, tivesse ido para a televisão dizer aquelas coisas todas do que fez e não fez, meter os pés pelas mãos daquela maneira boçal?!… Santa ignorância… tss, tss…

O calado é o melhor, grita Marcelo. E o silêncio vale mais do que ouro, vale votos, ensina o Professor — alguém que sabe muito bem do que não fala.

15 thoughts on “Omertà”

  1. Tudo isso e muito mais nos gestos e subentendidos enquanto a jorna lisa dona flôr embevecida olha e vais rematando: sim senhor professor, e agora senhor professor, e depois senhor professor, muito bem senhor professor, e o que diz a senhor professor, que acha de senhor professor, vamos aos livros senhor professor. Proto senhor professor, até prá semana senhor professor. Que peido mais peidoso, pedrosa.

  2. Ó pá para mim isto é mesmo o esplendor do desastre do cavaquistão. Se eles são assim no submundo dos seus negócios pessoais imagine-se como terão sido nos gabinetes governamentais. Terá sido uma tenebrosa loucura e alucinação, um delírio de poder sem contestação. Anos depois aparece um rabo de palha…

  3. ele tem razão, sócrates nas últimas legislativs bem criticado foi por não dizer ao que vinha.

    e assim enganou muita malta, nanja eu, mas tb só se deixa enganar quem quer, É OU NUN É?

  4. Val não vale a pena estar a elogiar o seu comentário, que as teclas do seu computador nunca se avariem. Sobre Marcelo não me dou ao trabalho de o ouvir, fiz jura que não perdia tempo com coisas menores. Desde que vaticinou sobre o conselho de justiça da liga de futebol, dando razão ao Gonçalves Pereira para depois Freitas do Amaral desfazer tudo o que ele disse, não me merece credibilidade. Sobre a Flôr Pedroso o meu neto de 3 anos era capaz de se saír melhor. Quanto a Cavaco já escrevi num blogue que nunca fiz confiança nele «não votei nele» e não me vou admirar muito se dentro de dias o seu afilhado, Oliveira e Costa, fôr libertado. Esta gente têm de o libertar para ele ir para o Brasil, se não, vai pôr a boca no trombone «se é que já não a está a pôr» e desmantela toda a gente grada do PSD. Se isto fosse com o PS, Mário Crespo, António Ribeiro Ferreira, Carlos A. Amorim, José Manuel Fernandes, o que já não tinham dito. Mas como sabe a vida custa muito e estas pessoas têm de fazer o que o patrão manda, por causa do vil metal. Coisas da vida. Só me admira o PS não aprofundar mais esta questão, mas você e outros que escrevem em blogues podiam fazer isso. Água mole em pedra dura tanto dá que até fura.

  5. Valupi, estamos possivelmente na fase dos acertos, o “gracias” só ficou um pouco sem jeito por falta de vinho, não devias cortar o vinho “compadre”, isso sim uma identidade nacional.
    Pedes humildemente, o que não é necessário, que te explique quando é que o povo viveu sem estar feito num oito. Raro é certo. Mas se pensas que estou embrulhado na matéria toma bem nota: tenho memória para ter presente quer a sopa dos pobres, ou a “sopa do Sidónio ou do Barroso” eram a única riqueza de milhares de portugueses desta Lisboa capital do império de meia tigela, que ainda dura, não para recordação dos turistas, mas por tremenda necessidade dos deixados por conta.
    É da memória também o conhecimento dos quatro milhões que votaram com os pés fugindo da fome a caminho dessa Europa rica. É da memória que te afirmo que muitos “fascistoides” pagavam para ver o antigo regime cair de novo. Todo este mundo de gente tinha uma coisa super importante, “esperança”, feitos num oito é certo, com guerra, com fome, analfabetos, com todas as carências de que nem sonhas seguramente, mas com esperança. É isto que já não há, ou há?
    Alguém, seguramente muito instruído, opinava que Constâncio afirmara que mais pobres não seríamos, pois tínhamos “batido” no fundo.
    “Já agora, ilustra-nos também quanto aos locais no Mundo, nesta ou noutras épocas, para onde devemos dirigir o olhar e aprender a boa governança”.
    Meu caro, se é certo que é de fresca data que se ensina o controlo das políticas públicas de modo sistemático nas nossas faculdades, no entanto devo “ilustrar-te” que o Luxembourg apresenta um rendimento 250% acima da média a 27 e Portugal ainda anda pelos 70%. Falhas, o que é muito raro em ti, quando não queres entender a diferença entre enjoado (de facto incapacitante) e outras patologias. Creio que tens boa memória, queres é ajustar umas contas antigas, se for o caso, força.
    Por democracia, e o que as nossas gentes sabem, em parte está certo, mas é a lei do menor esforço, votam, os que votam, como quem confessa seus pecados e é confortado pelo instituto da absolvição. Democracia está a quilómetros desta simplicidade como pretendes fazer crer. Regista sem ofensa que liberdade não é de forma alguma libertinagem.
    Quanto ao artigo de hoje “Omertà” a tua nota é um 18, “um verdadeiro génio”.
    Sempre a considerar-te.
    PS. Não te esqueças do Jorginho da construtora.

  6. Ó JCF a pergunta óbvia é esta: tendo sido tantos os milhões, como é que Portugal continuou no cu da Europa?
    Alguém se empanturrou com eles.

  7. M da Mata, eu é que não me empaturrei, mas eu sabia que após as vacas gordas, bem gordas, viriam as vacas magras. Eu sabia que após o Carnaval, viria a Quaresma. lol. Nunca disse nada mais lógico.

  8. O pior castigo que o P. S. D. poderia agora ter era mesmo ser obrigado a governar de novo, de preferência sózinho (com maioria absoluta), quatro anos sem parar, ali sempre a bombar, para a escória vir toda à tona!

    Mas, pensando bem, acho que os portugueses não merecem sofrer tanto para se fazer a merecida Justiça a esse Partido de vígaros…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.