21 thoughts on “Génese de uma cruzinha”

  1. Eu penso que é esta a visão daqueles que defendem uma esquerda viável,e a única possível para o actual cenário político com que nos deparamos hoje.
    Haverá sempre muita coisa a criticar a este governo, que teria de corrigir muito das suas actuais políticas, mas se nos lembrarmos da «guerra» que lhe foi movida por város quadrantes, especialmente ao seu líder,temos de reconhecer que este conseguiu sobreviver com alguma dignidade, à indignidade com que muitas vezes foi e é tratado.
    A questão que agora se coloca, nem é sequer a do voto útil, mas perceber que não há alternativa real credível. Ou há? Se sim qual?
    Gostaria eu, de este momento ter dificuldade em decidir em quem poderia votar.

  2. Caro Val, como já disse em comentário à declaração de voto de Miguel Vale de Almeida, a simples hipótese , ainda que remota, de vir a ouvir os concertos para violino do Chopin arrepia-me e faz desaparecer a vontade dos flocos matinais. O Lopes está para Lisboa como o chouriço de sangue está para o caldo verde e a velha “Laranjina C” está para as sardinhas assadas, é um anacronismo.

  3. Bolas Valupi,

    Li as idiossincrasias de MVA e preocupa-me o teu entusiasmo. Que triste campanha aquela que procura convencer as pessoas a votar PS porque lhes fica bem no curriculum vitae.

    Já agora, deixa-me dizer-te umas coisas acerca do voto útil de esquerda. E se houver simpatizantes do Bloco a ler, penso que não lhes fará mal nenhum.

    Para haver voto útil de esquerda, são necessários três requisitos :

    – ser de esquerda
    – ser útil
    – ser voto

    Nesta campanha – e é bom que assim aconteça – o primeiro requisito é o essencial, e comanda os outros dois. O que o PS devia estar a explicar às pessoas, em vez de se queixar do Louçã e dos sindicatos, ou de pintar Sócrates como se fosse a vítima de uma tragédia grega, é PORQUE E QUE O PROGRAMA DELES E DE ESQUERDA.

    Isto é, porque é que uma reforma profunda, de raiz, da nossa administração e do que resta do nosso sector público, não é uma cedência à ideologia « neo-liberal », mas antes uma questão vital, de bom senso, para o desenvolvimento do país. Para que subsista um mínimo de realização dos ideais de abril : desenvolvimento económico e social, justiça social, democracia participativa e (acessoriamente) independência nacional.

    O que é preciso explicar às pessoas, é que se não pusermos a funcionar o nosso sistema público de ensino, o nosso sistema de saúde, o nosso sistema de justiça, etc., eles vão desaparecer em benefício de empresas privadas que já estão a esfregar as mãos e que já começaram a tomar conta disto, para grande prejuízo dos portugueses.

    Penso que quase toda a gente percebe que, para atingir esse objectivo, é necessário federar todas as forças construtivas da esquerda. Por isso, se o PS souber transmitir esta mensagem, escusa de se preocupar com a sua esquerda, que não está capaz, nem sequer pretende estar hoje capaz, de oferecer uma alternativa credível.

    Mas se falhar esta demonstração, as pessoas de esquerda (entre as quais me incluo) vão achar mais útil votar no Bloco, ou no PC, ou vão pura e simplesmente deixar de votar…

  4. Apenas um apontamento: mesmo que o PS não faça essa demosntração, que de facto é do seu interesse fazer, eu votarei neles.
    Votar BE ou PCP, é estar a dar azo a que a direita ranhosa que temos, em coligação PPD/CDS, possa voltar ao poder com uma maioria absoluta! E aí sim há o perigo real de “…desaparecer em benefício de empresas privadas que já estão a esfregar as mãos e que já começaram a tomar conta disto, para grande prejuízo dos portugueses.”

  5. Desculpai-me, que agora vou ter de escrever para todas as pessoas de compreensão mais lenta (mas mais profunda, também):

    Concordo plenamente com a maior parte do teor do Artigo de M. V. de ALmeida. Votar não é, de facto, uma opção simples. Votar em Portugal, hoje, para alguém que se reclame de Esquerda, ainda por cima com um só voto, então, é uma opção mesmo muito complexa. Obriga a concentrar nesse voto todo-poderoso (para a nossa expressão) todas as nossas preferências e, ao mesmo tempo, todas as nossas recusas. Uma escolha tão difícil e, de certa forma, tão violentadora da nossa própria consciência, que considero até constituír um dos mais sérios “incentivos” à abstenção!

    Em alternativa, seria bastante mais fácil votar usando o Método de Borda (célebre Matemático francês do Séc. XVIII), considerado o método mais democrático matemáticamente possível (e os Matemáticos já o demonstraram científicamente). Pena que só seja utilizado em votações menos “nobres”, como os Festivais da Canção, ou os concursos das “misses”, por exemplo…

    Nesse método, cada votante (pessoa, País, jurado…) dispõe de um número fixo de votos, ou pontos, que pode atribuir distribuindo pelas várias alternativas à escolha. No caso das Legislativas, seria como se cada um de nós, eleitores, dispuséssemos de, imaginem, até dez votos para utilizar como quiséssemos. Poderia até optar-se por usar menos do que esses dez votos, ou mesmo nenhum (o que equivaleria à opção “VOTO EM BRANCO”).

    Mas, com esses dez votos, cada um de nós conseguiria saír muito mais satisfeito da cabine de voto e ciente de que tinha expresso com muitíssimo mais rigor a sua preferência política, quer pela positiva, quer pela negativa!

    Interpretando o citado Artigo à luz desta possibilidade, permito-me supôr que, se lhe fosse dada esta alternativa, o Miguel Vale de Almeida já não “votaria P. S.”, apenas, mas sim daria para aí uns oito ou nove votos a Sócrates e um ou dois a Louçã. E, sobretudo, sentir-se-ia muito mais bem representado, pessoalmente, na contabilidade eleitoral!

    Assim me parece, aliás, que votaria a maioria dos eleitores de Esquerda, tirando aqueles mais ferrenhos que poderiam livremente continuar a dar os seus dez votos todos ao B. E., ao P. C. P., ou a qualquer outro Partido, evidentemente.

    Eu, pessoalmente, gostaria muito de ver a Democracia evoluir, tecnica e sobretudo moralmente. Sim, porque parece-me consensual que a Democracia, na sua formulação actual, não pode ser vista como uma construção acabada. Que época afortunada (ou desgraçada?…) seria a nossa, se assim fosse…

    E essa evolução deveria permitir, entre muitas outras coisas (orçamento participativo, etc.), começar primeiro por trazer para o debate político de topo, de uma forma séria, este tipo de questões e, finalmente, um dia, adoptar mesmo este método de votação em todas as eleições de órgãos pluri-nominais, como sejam o Parlamento Europeu, as Assembleias (da República, Regionais, Municipais e de Freguesia), as Câmaras Municipais e as Juntas de Freguesia.

    Vai uma aposta em como os níveis de abstencionismo em Portugal diminuiriam drásticamente, uma vez interiorizado este método no eleitorado?

    Por mim, se pudesse votar assim já em Setembro, daria seguramente sete votos, pelo menos, ao P. S. (com moderado entusiasmo!) e, no máximo, três ao B. E. (com cauteloso cepticismo…).

    E assim sairia muito mais feliz da câmara de voto do que sendo obrigado, como serei, a dar TUDO a uma só lista.

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    P. S.: Há um método, ou melhor um expediente (algo “manhoso”, concedo), para contrariar esta actual fatalidade (e que eu costumo usar, «à la longue»), o qual consiste em diferir a deglutição dos nossos “sapos” no tempo: por exemplo, nas últimas Legislativas votei B. E., com pena de não poder votar também no P. S., e agora, com pena de não poder votar também um pouquinho no B. E., vou compensar votando Sócrates!

    E nas Autárquicas farei o mesmo: compensarei o voto exclusivo no António Costa, para a Câmara, com a exclusividade de voto no B. E., para a Assembleia Municipal. Exercitai também vós este método e pessoalizai-o! Vereis que até é bem divertido…

  6. Até percebo o que diz o Nuno, mas acho que o importante neste momento é precisamente mostrar em que medida existe uma diferença entre a proposta do PS e a “direita ranhosa” a que ele se refere.

    Estou a ver muita gente partir do principio de que esta diferença esta à vista. Tenho pena mas não esta. (Se estivesse, a votação nas europeias não teria sido o que foi)

  7. jafonso, bem lembrado, o anacronismo. Até o usei para o PC.
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    joão viegas, a votação nas europeias nem sequer significa que as sondagens estivessem erradas, pois o fenómeno é mais complexo do que os modelos usados para o prever. Veremos em Setembro, e no contexto da campanha, o que o País quer. É só isto.

    Entretanto, nem tu nem ninguém vai conseguir circunscrever a noção de “esquerda” a uma qualquer interpretação, pois ela será sempre parcial e redutora. E eu desafio-te a definir o “neo-liberalismo” e a pensar se consegues manter a tua honestidade intelectual na sua comparação com as políticas deste Governo. Isto também é simples.
    __

    Nuno, muito bem.
    __

    Marco Alberto Alves, excelentes reflexões e sugestões.

  8. Valupi,

    Acho piada ao teu comentario. Eu identifico-me sobretudo com a esquerda reformista, essa mesma, do PS. Mas não tenho duvidas quanto ao que são objectivos politicos de esquerda : distribuir melhor a riqueza, a começar pela que é suposta vir dos serviços publicos (educação, saude, justiça, etc.), por forma a criar ainda mais, e melhor, e repartir mais justamente. Podemos discutir pormenores mas sei que, no fundo, são também os objectivos dos outros partidos da esquerda. As diferenças estão nos meios para la chegar, não nos objectivos.

    Fico bastante preocupado quando te sais com essa de ser discutivel saber o que é a esquerda. Não é. Ou pelo menos não devia ser, a não ser para quem esta a perder o norte…

    Ja aqui li que és publicitario de profissão (desculpa se estiver a confundir). O que é que achas de alguém que tenta vender um sabonete dizendo : “bem, isto de saber o que é mesmo sabão e o que não é, é bastante discutivel…”.

    E preocupa-me também a tua maneira de partir do principio que isto ja esta no papo, porque os outros concorrentes são maus, ou estupidos, ou incompetentes, ou demagogos.

    Não esta no papo, meu amigo. Longe disso…

  9. joão, por enigmáticas razões, conservas a informação de que sou publicitário, e isso está correcto, mas não a de que não votei PS nem é provável que o faça. Pormenor que põe em perigo, se é que não extermina já, a tua alusão a “isto estar no papo”. Para mim, o que deve encher o papo da comunidade é a democracia, a inteligência e a liberdade. E nenhum partido tem esse exclusivo, bem pelo contrário.

    Dizes-te preocupado com a possibilidade de se discutir o que seja esquerda (?!), mas não a defines. Aposto que não consegues. Tal como não consegues definir o que seja o “neo-liberalismo”, que os acéfalos como Alegre repetem mecanicamente. No entanto, fazes depender o teu voto no PS de uma bisonha prova de esquerdismo e anti-neo-liberalismo. Acho que estás confuso.

    Mas deixarias de estar se desses alguma atenção à realidade. O Governo de Sócrates talvez tenha sido um dos mais eficazes em matérias de luta contra as desigualdades, justiça social e modernização do País. Enfim, o que não tem cura é a cegueira de quem se recusa a ver.

  10. Valupi,

    Eu não tenho dificuldades em definir a esquerda e ja o fiz aqui em cima. Tu é que não queres ouvir. Volto a repetir : justiça social, melhor repartição da riqueza, igualdade efectiva. Noutras palavras, cumprimento efectivo, real, mensuravel, palpavel, dos ideais do 25 de abril.

    E também não tenho dificuldades em definir “neo-liberalismo” : ideologia que tem por fim reduzir substancialmente, ou mesmo eradicar, o Estado social, em nome da preservação da “liberdade individual” e de uma pretensa justiça intrinseca da repartição efectuada “espontaneamente” pelas leis do mercado. Noutros termos, compreensão exclusivamente egocêntrica da ideia de “liberdade”, esvaziando-a completamente de sentido.

    Podemos afinar estas definições, questiona-las, discuti-las durante horas. Isto até sera salutar. Mas não podemos fingir que a urgência politica, nomeadamente em Portugal, é decidir entre essas duas orientações. E para esta decisão, as definições acima servem perfeitamente.

    Se tivermos duvidas a esse respeito, estaremos a trabalhar para uma fusão PS/PSD, e a reduzir o debate politico a uma mera questão de escolha dos altos funcionarios da administração.

    Se a oferta politica do PS é isso, falho em perceber porque é que havia de votar neles. Bom, é verdade que o Socrates é mais bonito que a Manuela Ferrira Leite. Mas isso não chega. Ou melhor, não devia chegar…

  11. Corrijo :

    Mas não podemos OCULTAR (e não fingir) que a urgência politica, nomeadamente em Portugal, é decidir entre essas duas orientações.

    Desculpem outras provaveis gralhas…

  12. ARISTES, não posso registar a patente de uma invenção que tem mais de duzentos anos: foi Charles de Borda, insigne matemático francês do Iluminismo, quem inventou o método de votação por pontos (no seu caso concreto, para a eleição dos novos membros da Academia das Ciências francesa).

    Posteriormente, outros matemáticos se encaregaram de demonstrar, cientificamente, ser este o método de votação que MELHOR EXPRIME A VONTADE COMUM de um qualquer conjunto de vontades singulares.

    Pena é que este método seja tão pouco conhecido e quase nunca utilizado, pelo menos na política (sendo embora o preferido para os concursos que exemplifiquei). A razão, diz-se jocosamente, é ser “demasiado” democrático! Isso mesmo afirmou Napoleão, quando arbitráriamente revogou este método de eleição dos membros da Academia das Ciências, que passou de novo a ser do tipo “um membro-UM VOTO”, como antes de Borda.

    Mas eu, incorrigível optimista, tenho a esperança de que um dia – sobretudo agora, com as infinitas possibilidades conferidas pelos modernos meios de cálculo automático – este método de votação venha a ser adoptada para a eleição de órgãos pluri-nominais e considerado um grande avanço em termos de aperfeiçoamento da Democracia. Por que não sermos nós os pioneiros?

    (para mim seria muito mais saboroso do que sermos, por exemplo, Campeões Mundiais de Futebol, quando é que compreenderemos isto…)

  13. João Viegas e Valupi, se me permitem a colherada, acho que têm ambos toda a razão (sim, isso é possível): um em termos da “forma”, outro do “conteúdo”.

    Eu não duvido de que o P. S., ou melhor ainda, o actual Governo de José Sócrates, tenha desenvolvido políticas concretas de Esquerda. Da “boa” Esquerda, pelo menos no meu entender. Não duvido sequer de que este Governo tenha sido, seguramente, O GOVERNO MAIS À ESQUERDA desde o de Maria de Lurdes Pintassilgo. Explicação óbvia, aliás, para o ódio desmedido e irracional que concitou em toda a Direita, sobretudo a mais profunda: este Governo deu-lhe mesmo “no osso”, como nenhum outro desde há trinta anos!

    Mas o João Viegas também tem toda a razão: é que, por motivos que se prendem com a falta de qualidade e de independência dos meios de comunicação de massas portugueses (meios de propaganda pura da Direita política e, sobretudo, orgânica), nada disto “passou” para o eleitorado! Ou seja, o que é, NÃO PARECE!

    E se esta falha gravíssima não for suprida (e não será com toda a certeza contando apenas com a “net” e os “blogues inteligentes), de nada valerão os argumentos de autoridade intelectual aduzidos, talvez com demasiada displicência e sobranceria, pelo nosso amigo Valupi…

  14. joão, não existe qualquer consenso quanto ao que seja “Cumprir Abril”. A menos que restrinjas a esquerda à sua versão marxista, em que deveríamos já ter 35 anos de caminho em direcção ao socialismo (e daí ao comunismo, como manda o livro). Também à direita se podem encontrar propostas conducentes a justiça social, repartição da riqueza e igualdade efectiva. Quanto à tua definição de “neo-liberalismo”, convido-te a pensar sobre ela – onde é que este Governo se aproximou desse modelo? O oposto aconteceu, isso sim.

    Como tu reduzes a questão a um dualismo, é natural que te sintas indeciso. Mas porquê só conceber dois caminhos? Essa é a lógica dos extremismos, das radicalizações. Um dos méritos de Sócrates esteve em ter afastado o discurso ideológico e passar para a resolução de problemas. No entanto, em todos os combates típicos da agenda de esquerda (apoio social, aborto, divórcio) o Governo cumpriu com o seu ideal. E mesmo nas matérias polémicas (saúde, educação, código do trabalho), se conseguirmos afastar o ruído demagógico e populista, o que veremos é um esforço de desenvolvimento e modernização. E já para não falar no apoio à ciência e tecnologia.

    Mas se tu apenas queres é regressar ao 25 de Abril de 74, pois não deves mesmo votar no actual PS, o qual tem outros projectos, está noutro tempo.
    __

    Marco, a questão do joão é outra: ele quer que o PS ceda a Alegre.

  15. Valupi,

    O Alegre não é para aqui chamado, nem o Louçã, nem o Jeronimo. Ou melhor, até são, os três e mais uns quantos, mas apenas porque o que eu estou a dizer é o seguinte : se o PS quer mobilizar o seu eleitorado, esta na altura de explicar porque é que as propostas que ele tem são a forma realista, segura, eficaz, de se atingirem os objectivos de justiça social com os quais a esquerda se identifica. E esta na altura, porque os outros sectores da esqureda, dita “radical” (não sei o que o Manuel Alegre propõe ao certo, portanto não sei em que medida ele se enquadra aqui), não estão capazes de propôr alternativas crediveis, realistas, sérias. Nem a curto, nem a médio prazo. Apenas prometem coisas lindas para a fase ultima, a do paraiso.

    Eu não me identifico com o Alegre. Ja votei no Bloco, mas estou muito longe de me identificar com o Bloco que esta hoje a fazer campanha. Sou um reformista, um reformista realista de esquerda. Daqueles que, à partida, estão naturalmente inclinados a votar PS, a não ser nos casos extremos em que eles acham que o “seu” partido esta a descambar, e que é melhor dar sinais de descontentamento, para que haja uma mudança de orientação.

    Portanto o Marco Alberto Alves percebeu exactamente o que eu quis dizer.

    Mas o ponto essencial é o que tu dizes do debate esquerda-direita. A tua posição é absurda e esta politicamente errada. Que partidos de direita tenham praticado às vezes (ha bastante tempo) politicas sociais democratas para obter paz social é inegavel, como é inegavel que governos de esquerda tomaram medidas liberais, por uma questão de realismo economico.

    Agora que existe uma alternativa politica entre duas ideologias diferentes, existe. E que escolher entre os termos dessa alternativa é hoje o principal problema em Portugal, tenho pena mas é. O nosso sector publico e a nossa administração NAO FUNCIONAM como estão. Atingimos o ponto em que a alternativa é reformar drasticamente para que continuem a existir, ou desaparecerem em beneficio de empresas privadas. Ha quem ideologicamente considere que esse desaparecimento é inteiramente salutar, que a escola publica, que o sistema publico de saude, que a justiça e a segurança publicas, deviam limitar-se a assegurar o minimo de assistência às populações mais carecidas para impedir que elas desatem para ai a partir montras. Os partidos de direita, PP e PSD, trabalham nesse sentido. Objectivamente e por ideologia.

    Dizer que esse problema é uma “simplificação” e que no fundo, estamos todos de acordo, porque até os partidos de direita se preocupam com os pobres, é uma completa falacia. Os partidos de direita acham que a preocupação a ter pelos pobres se deve limitar a dar-lhes, no papel, uma honesta proporção de chances de virem um dia, ou os netos deles, a fazer parte da elite que tem piscina em casa e anda a pavonear-se nos jornais da moda. O programa da direita é, quanto muito, repartir um bocadinho melhor as probabilidades que os portugueses têm de morar no Restelo ou em Cascais…

    Defender o que defendes num partido de esquerda, como é o PS, é uma completa e definitiva demissão. Meu amigo, ha “dualismo” simplista, como dizes, ou melhor alternativa PORQUE HA POLITICA, PORQUE A POLITICA TEM SENTIDO. Se a ideia é dizer que isto no fundo é tudo uma fantochada, que não ha nada para decidir que bons tecnocratas não saibam equacionar devidamente, então a democracia não tem sentido nenhum.

    E finalmente, desculpa la, mas se achas que os ideais do 25 de abril são uma coisa abstrata, discutivel, melindrosa, que ninguém sabe ao certo o que é, ou que toda a gente ja esqueceu, ou que não correspondem mais a nada de concreto e de exequivel, o meu conselho é simples : deixa-te ficar na publicidade e não te metas em politica, pelo menos à esquerda.

    O PS não pode ter esse discurso. O PS deve convencer o seu eleitorado, que é de esquerda. Se a campanha do PS se limita a dizer : nos cumprimos melhor as promessas do PSD do que os responsaveis desse partido, então que concorra a eleições no PSD, e não a eleições nacionais !

    Aprovei a tentativa de reforma do PS na educação. Aprovei os esforços feitos na saude. Aprovo a ideia de reformar a justiça (onde ainda se fez pouco). Reprovei, e reprovo, a forma como a esquerda “radical” se limitou a dar eco às vozes de protesto, sem se preocupar minimamente com saber se os protestos eram legitimos, ou se eram apenas comodistas. Sou portanto, um eleitor potencial do PS, deste PS de Socrates.

    Mas o meu voto não é um direito adquirido. Quero um programa que me convença. E para ser sincero, se a mensagem do PS mostrar que ele apenas quer gerir o pais na continuidade do que foi feito nos ultimos 30 anos, então ponderarei sériamente votar no Bloco ou votar PC. Não que acredite neles, mas para mostrar que considero que o caminho escolhido pelo PS não é o bom…

    E se o PS fizer um programa de esquerda, realista, eficaz, mas ambicioso. Com metas. Com objectivos claros. Pode deixar de se preocupar com Louçãs, com Jeronimos, e até com Alegres, que eles não vão ter outra alternativa senão juntarem-se (e porque não ? eu estou-me nas tintas para as pessoas, interessam-me os programas e os actos), ou deixarem de ter peso politico.

    Isto devia ser simples. Fico bastante inquieto por dever explica-lo.

  16. joão, entendo a tua posição muito melhor à luz deste teu último escrito. É uma posição, porém, que é análoga à do Miguel Vale de Almeida, a qual começaste por achincalhar. Também tu estás naquilo a que se chama “esquerda do PS”, precisamente o terreno demagogicamente explorado pelo Alegre e Louçã. Seja como for, Sócrates não tem de provar nada a ninguém, o seu Governo foi inquestionavelmente de esquerda. E tudo leva a crer que o Programa para a próxima legislatura em nada trairá este horizonte político. Por isso não compreendo as tuas reservas intelectuais, apenas as emocionais.

    O modo reducionista como falas de Abril é histórica e politicamente inaceitável, porque não existe nenhum consenso quanto ao que sejam “ideais do 25 de Abril”. Cada força política, e cívica, lá pode encontrar o que bem entender, obviamente. Como matéria comum, temos a mudança de regime, a democracia e as liberdades. E é só, se quisermos esquecer o “revolucionário” preâmbulo constitucional onde se fala do socialismo. É por isso que um CDS de Freitas do Amaral, e logo em 74, está cheio de propostas para “justiça social, melhor repartição da riqueza, igualdade efectiva”. Porque a direita não se esgota nos actuais dirigentes do PSD e CDS, manifestamente desastrosos e indignos. Esquerda e direita são modos complementares da evolução política na procura do melhor governo.

    Acho-te com uma visão simplista do momento actual e dos grandes enquadramentos, mas apenas por factores emocionais. Quanto resto, a isso de seres um “reformista realista de esquerda”, é a prova de que pensas bem e estás no melhor terreno: o da inteligência. Mas também há inteligência nos “reformistas realistas de direita”…

  17. OK Valupi, paz,

    O meu comentario era, também, senão principalmente, sobre a campanha. Pode ser que o PS de Socrates não tenha que dar provas, mas deve explicar, expor, propor. Esta em posição ideal para dirigir-se à esquerda e dizer : querem mais justiça social, eis como ela se alcança efectivamente, de forma realista e eficaz. Isto faz-se com uma campanha dirigida aos seus eleitores “naturais”, incluindo os que votaram nos partidos radicais nas ultimas eleições europeias. E’ um privilégio raro um partido ter como principal desafio convencer os eleitores do seu quadrante ideologico. Quanto a mim, fazer uma campanha ao centro é um erro. Pelo menos nestas eleições é. Eleitoralmente, o centro (PSD) esta de rastos.

    Se a referência a abril te soa fora de moda, podes utilizar a terminologia “justiça social”, mesmo com a retorica do Freitas de 1976. Para mim tanto faz. O que interessa é que nenhum partido de direita propõe isso hoje em dia, nem na pratica, nem sequer no discurso. E é isso que a esquerda deve propor.

    E finalmente, eu não penso que a direita seja estupida. Muito pelo contrario, acho que é (infelzmente) covincente defender-se, hoje em dia, que uma administração que não funciona, um sector publico ineficaz, equivale a não haver redistribuição nenhuma, ou seja a exigir dos contribuintes que paguem para piorar a situação, e para impedir o funcionamento da economia. Isto é o que diz a direita liberal, defendendo que a prioridade é criar mais riqueza e que um Estado que impede essa criação de riqueza, supostamente pelo sector privado (uma vez que o publico não funciona), é uma contradição total, mesmo tendo em conta o objectivo de redistribuição.

    Cabe ao PS mostrar que não é assim. Cabe-lhe mostrar, sobretudo, que em Portugal não iremos a lado nenhum enquanto não tivermos um sector publico que cumpre os minimos (nomeadamente na educação) e que a ideia que esta carência vai ser suprida pelo investimento estrangeiro, que nos vai transformar como por magia numa Suiça do sul da Europa (não é o que o Freitas dizia ha umas décadas atras ?) é uma fantasia muito mais perigosa ainda…

    Põe isto como quiseres, mas em Portugal, a urgência é cumprir o terceiro D de abril. Ja vimos que o simples aumento da capacidade de consumo não chega. Injectar dinheiro à toa, sem transforma-lo em forças produtivas, foi o que se fez durante as ultimas décadas e por isso estamos onde estamos. As Renaults, as Wolkswagens ja ca estiveram, ja chuparam o que havia para chupar e hoje estão nos brasis, ou nas croacias. E o nosso sector empresarial continua a ser o industrial téxtil do Norte, que vive estruturalmente de poder pagar uma miséria aos labregos analfabetos que ele vai criando, acedendo a que eles coloquem uma televisão no meio das couves do quintal.

    Ora para isso, o imperativo numero 1 é reformar o sector publico e a administração, e não fazer com que ele desapareça. Se o PS mostrar empenho em fazer esta politica, pode contar à vontade com uma maioria da esquerda, e até provavlemente com alguns centristas…

    Cabe ao PS explicar que o que se decide nesta eleição, é saber se vamos continuar com a situação actual, em que não ha saude publica, pelo que é melhor entregar isto a empresas privadas, em que não ha educação publica, pelo que cada um trata de si inscrevendo os filhos em escolas privadas, em que não ha administração da justica, pelo que é melhor suspirar e conformarmo-nos com uma situação em que nenhum negocio é certo, em que um direito não passa de uns rabiscos numa folha de papel sem consequência, e acaba por ser mais pratico continuar a pagar luvas…

    Ser da esquerda realista é explicar isto tudo, que as pessoas não sabem, ou que as pessoas não querem ver, porque é sempre mais interessante e comodo brincar aos Che Guevaras e dizer que a culpa é dos outros…

    Bom excedi-me um pouco, mas espero que concordes e que percebas que, nesta campanha, é preciso acordar a esquerda, motiva-la. E que isto até esta ao alcance de Socrates…

  18. Estás a falar bem, como sói dizer-se. Acontece é que o que Sócrates fez nestes 4 anos se enquadra na perfeição no cumprimento do tal D que demora a arrancar. Por isso, mais do que estares à espera de não sei o quê para te decidires, devias era ir oferecer-te ao Rato e entrar em campanha.

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