Judite, antropologia e eleições no Benfica

A Polícia Judiciária de Braga apanhou um homem que em 1993 trocou a prisão por um cárcere paleolítico. Durante 16 anos foragido ao cumprimento da pena de 10 anos, viveu em buracos nos montes. Familiares e vizinhos davam-lhe alimentos, roupas, bens variados. Talvez caçasse. Talvez fizesse fogueiras para se aquecer e iluminar. Talvez preferisse a companhia das aves, das nuvens e das estrelas, seres das alturas, à dos humanos, seres das baixezas. Talvez se tenha genuinamente arrependido do crime que cometeu, qual anacoreta que expia o pecado do mundo no deserto onde recusa esse mesmo mundo. Terá sido uma existência de contemplação focada no sempiterno mistério de tudo e de todos — a que uma arma por perto garantia a necessária segurança para não ser devorado pelos monstros filosóficos que pudessem surgir nessa noite da Razão.


A PJ de Braga intitulou Cro-Magnon a operação para capturar o montanhês. E, um dia, alguém ainda terá de fazer a pequena História dos grandes nomes das operações policiais, saber como se chega a Apito Final, Apito Dourado, Chicote, Furação, Mãos Limpas, Noite Branca, Charlie, Espada-preto, Erva Daninha, por exemplo. Quem escolhe estes nomes? Um indivíduo, um grupo? Por voto, consenso? E que efeito terá nas forças policiais? Porque deve ser muito diferente um operacional estar envolvido na Operação Testa-de-Ferro e outro na Operação Carrossel. Isso até poderá provocar desavenças pessoais. Mas adiante. Cro-Magnon é o nome que se dá aos europeus que viveram há 40 mil anos, atravessando todo o período compreendido pelas gravuras de Foz Coa até há 10 mil anos. Pessoal grafiteiro e anti-barragens. E a designação resultou do achamento de ossadas humanas na gruta do mesmo nome, algures em França. É motivo para regozijo ter uma polícia que espalha cultura e ciência numa caça ao homem, quando podia ter cedido à brejeirice e tê-la intitulado Operação Buraco, Operação Calhau ou Operação Irra que é Burro. Mas talvez ainda não estejamos preparados para estas exibições de erudição por parte da bófia.

E não se tratou de acaso. Um responsável da PJ declarou:

Vivia em condições minimalistas.

Para se perceber o alcance da afirmação temos de ter presente que só em 1929 se pôde ler que algo neste Universo seria minimalista. Esse algo eram as pinturas de John Graham, cuja exposição em Dudensing Gallery levou David Burlyuk a estrear o termo no texto do catálogo. O que só aumenta o mérito da descrição policial, sempre intencional no que faz e diz. Se as condições eram minimalistas, estamos a falar de uma depuração estilística de enorme rigor encontrada nas grutas e buracos onde habitou. E tão consistente e matura ela se apresentava que os agentes não tiveram qualquer dúvida conceptual na classificação. A Judiciária não brinca com a teoria da arte, muito menos num momento de triunfo como este.

Manifestação final da superioridade policial bracarense:

Falava como um papagaio.

O responsável da PJ está agora a referir-se ao psitacismo (do Gr. psittakós, papagaio, s. m.), patologia que consiste na repetição mecânica de palavras e frases sem que o falante tenha consciência do seu significado ou se consiga conter. É chocante o contraste entre a ordem minimalista e a desordem psitacista, mas eis que a nossa extraordinária polícia de investigação resolve o enigma de imediato: em seu poder foi encontrado um rádio usado para seguir as eleições no Benfica. Devido às condições de isolamento social, sem relações que o ajudassem a contextualizar o que ouvia, o impacto das ondas hertzianas foi devastador. 16 anos de ascetismo e desmaterialização não resistiram a 8 dias de gongorismo e deboche.

7 thoughts on “Judite, antropologia e eleições no Benfica”

  1. Cuidado, que da última vez do genial “dois pategos a gozarem com um bronco são agredidos por um taralhoco” teve de fazer uma retirada estratégica pela esquerda baixa…

  2. “A investigação que levou à sua detenção e entrega no Estabelecimento Prisional de Braga começou há cerca de dois anos, quando a PJ de Braga recebeu informações fidedignas de que o foragido poderia esconder-se nos montes à volta da sua residência.”

    Agora já sabemos para o que é que a PJ tem recursos.

  3. Fernando P, penso que é sensato, previsível e, para o meu gosto, curto. E tu, que pensas do assunto?
    __

    Kjung, de que retirada falas?

  4. Tinha que ser do Benfica por causa das datas aldrabadas da fundação (1908 por 1904) e dos falsos campeonatos em 1935-1938. A chave está aí. Vive num mundo de fantasia permanente – nas cavernas, pois. O do caso «very light» teve fuga patrocinada este também vai ter – o Benfica é um estado dentro do EStado.

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