Vinte Linhas 387

As décimas são uma roubalheira

Quando tinha cinco anos ouvia o meu avô dizer «as décimas são uma roubalheira». Elas vinham em postais das Finanças das Caldas da Rainha. Havia também uns postais do Banco Raposo de Magalhães de Alcobaça que tinham um selo de dois tostões. Eram avisos de reformas de letras de 500 escudos. Hoje, passados 53 anos, percebi o alcance da frase do meu avô. Uma jovem arquitecta paisagista iniciou a sua actividade em Outubro de 2008. Até Dezembro recebeu 1.225 euros mas na sua declaração das Finanças alteraram o valor para perto de 3 mil euros. Fui saber do caso a uma repartição e responderam-me que isto foi feito porque há mínimos. Ou seja: paga mínimos não por aquilo que efectivamente recebeu e declarou mas por um valor que alguém abusivamente resolveu colocar no documento por si assinado. Então uma pessoa inicia a sua actividade em Outubro e é como se tivesse começado em Janeiro. Mas se de Outubro a Dezembro são 3 meses então os chamados mínimos deveriam ser um quarto do tal valor. Tudo isto é uma mentira, tudo isto é um absurdo, tudo isto é uma vergonha. Custa acreditar que há gente que faz isto e depois deita-se e dorme como se não se passasse nada. Apetece dizer: «Meu rico Agostinho da Silva que conseguiu morrer sem ter tido número de contribuinte». Eu queria e não posso. Comecei a trabalhar em Setembro de 1966 e fui logo «filado» pelo sistema tributário. Por isso é que os portugueses que fogem ao fisco são admirados e muita gente os inveja e os venera. Eles são capazes de fazer o que nós não fazemos mas gostaríamos de fazer. Quem é que vai explicar isto a uma miúda de 24 anos a quem uns trambolhos sem rosto adulteraram a declaração de IRS?

9 thoughts on “Vinte Linhas 387”

  1. é pá é o sistema informatico. manda a miuda estudar informatica para entender que é automatico o minimo no irs e na tabela dos anos de nascidos … ninguém tem 100anos só pode ter dois digitos. compreendidos?

  2. Ó pá Jorge quiseste ser engraçado mas ficaste mais trambolho que os outros. Claro que sabemos que há minimos mas o problema é outro – quem começa a trabalhar em Outubro não devia pagar como quem trabalha desde Janeiro. Tu é que não percebes…

  3. ó jcfrancisco desculpa mas tu é que não pescas nada. minimos são minimos se trabalhares uma hora é igual ao mês inteiro… não estás de acordo eu também não mas é a norma internacional… áh pois nas estatisticas se trabalhares uma hora por ano já não estás desempregado em portugal ou na suécia ou nos usa. Afinal o que interessa é que a miuda não pagou mais pelo acerto se pagou (não creio) deve reclamar.

  4. Uma pessoa normal acaba o Curso em Julho, faz férias em Agosta, envia curriculos em Setembro e começa a trabalhar em Outubro. Foi o que aconteceu a milhares de pessoas. Os trambolhos não percebem isto. Tu parece que também não nem fazes ideia do que quer dizer «injustiça relativa». Eu nada posso fazer nem por eles nem por ti. Revolto-me apenas…

  5. esta prosa trouxe-me de volta secretas admirações da meninice, os magalhães da crisal (cristais de alcobaça) e os feteira da vieira de leiria (limas e covina). admiração, porque eles representavam, à sua maneira, a iniciativa característica das gentes da suas terras, fora dos grandes centros. ou se calhar porque certa vez já noite cerrada me ficou na retina a chispa do vidro fundente por entre os buracos desenhados pelos tijolos dos muros da crisal velha.
    das caldas, ficam-me os camiões da tomaz dos santos carregados de barras de ferro para a gente armar e posterior enchimento com argamassa a 3 ou 4 por 1.
    tudo isto muito tempo antes da universidade e da 2ª lei da termodinâmica….

  6. “Uma pessoa normal acaba o Curso em Julho, faz férias em Agosta, envia curriculos em Setembro e começa a trabalhar em Outubro.” E a coisa passou-se cá?

  7. Amigo Asssi gostei – também eu me perdi nessas contemplações, tudo isso fez parte da nossa educação sentimental. Amigo M da M é só para dizer que foi mesmo assim e que os trambolhos da Finanças (os cérebros – não os empregados que são boa gente) não percebem nada disto. É injusto que alguém que começou a trabalhar em Outubro pague um valor que é uma mentira em relação àquilo que de facto recebeu.

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