Todos os artigos de Valupi

Os burros dentro do Palácio

O comportamento oposicionista de Cavaco, de tão descarado e repetido, é estrategicamente intencional, não uma idiossincrasia atribuível à personalidade ou estilo político. Neste momento, ninguém ignora que o Presidente da República considera ter o direito de influenciar as eleições Legislativas, tanto no fito de diminuir a votação no PS, como no de aumentar a votação no PSD. Os cenários de Governos de iniciativa presidencial, à mistura com a promoção do presidencialismo e detrimento do parlamentarismo, vêm de há muito a ser sugeridos pelo círculo publicista presidencial. Last but not least, a decadência do PSD, e da direita em geral, favorece o ressurgimento de um messianismo cavaquista.

Nunca nenhum outro inquilino de Belém tinha ousado violar o compromisso de ser o Presidente de todos os portugueses até este desgraçado exemplo. Compare-se com as Presidências Abertas de Soares para se ver a diferença, estas um contrapeso legítimo ao poder da maioria PSD; enquanto a oposição de Cavaco é parte da campanha de destruição de carácter começada por Santana Lopes nas eleições de 2005, continuada José Manuel Fernandes após a SONAE ter perdido o mais importante negócio da sua história, e explorada até à sordidez máxima pelo Sol e TVI com o material da investigação ao Freeport. Pelo meio, passarões do calibre de Pacheco Pereira, Rebelo de Sousa, António Barreto, Mário Crespo, Cintra Torres, Medina Carreira, Pulido Valente, Rui Ramos, os fósseis da SEDES e uma legião de imbecis e ranhosos, encheram o espaço opinativo com variações desta campanha, todos a tentar manter um status quo ameaçado pela novidade que Sócrates representou e representa.

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Comédia à portuguesa

Tanto com Solnado, como com Herman, depois do fulgor inicial veio um imparável declínio. Os dois nomes maiores ― em vários sentidos, os únicos ― da comédia portuguesa, desde os anos 60 e até à chegada de Ricardo Araújo Pereira, não tiveram uma indústria que conseguisse tirar melhor partido do seu talento natural. Pois saber quais são os limites próprios, e ir buscar fora o que não se tem dentro, eis o segredo do génio.

A comédia à portuguesa continua sem ter herdeiros na comédia portuguesa. Não há escritores e realizadores para tal. Os cómicos vão aparecendo, mas falta quem ame o povo.

Até os bioéticos, Zé Manel?

No dia em que o Sol reconfirmou ser o Presidente da República o verdadeiro líder da oposição (pois é, Louçã, ainda tens de comer muita papa Mayzena), o Público continuou a campanha com o seguinte título:

Nova formação do Conselho de Bioética pode favorecer o Governo

Ana Machado assina este oxímoro. E eu, se pertencesse ao tal Conselho, já tinha reunido com advogados e directores espirituais para obter esclarecimentos. Porque a questão é fascinante: pode um grupo de individualidades eleitas por serem autoridades no campo da ciência e da ética favorecerem o Governo? Há uma primeira resposta para a bizantina questão: Sim, claro que sim e, foda-se, espero bem que sim! Esta resposta baseia-se num raciocínio bondoso: se todos os conselheiros cumprirem com as suas responsabilidades, se derem o melhor de si, estarão a favorecer o Governo; entre variegadas entidades cuja importância em nada fica diminuída por não serem aqui nomeadas. Aporia: o Zé Manel não é bondoso, é mauísta (de mauzinho como as cobras). Temos de procurar outra resposta para explicar a ameaça que o título evoca.

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Em Marte também não estão

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A NASA confirmou, esta manhã, ter dois veículos de exploração no solo de Marte, desde Janeiro de 2004, ambos equipados com brocas e pás para escarafunchar o terreno. Porém, continua sem ter encontrado qualquer ideia do PSD para o futuro de Portugal. É agora voz corrente, na comunidade científica internacional, ser mais fácil encontrar no Planeta Vermelho uma 1ª edição da Morgadinha dos Canaviais, mesmo que com algumas nódoas de azeite, do que os tão procurados vestígios do Programa social-democrata.

Estupefacientes

A Casa Civil do Presidente da República está estupefacta. Não apenas pelo facto de o nome de Dias Loureiro não figurar na lista das pessoas designadas pelo PSD para fazerem parte do Parlamento, como também por, até ao momento, sobre o assunto não ter sido dada nenhuma explicação à Presidência”, reagiu ao semanário “Sol” fonte oficial de Belém.

O que importa reter do não-golo do não-Sporting num não-jogo

O que importa reter ― de um golo que nasce da confusão provocada pelo Patrício, o qual leva a bola a bater no ombro dum defesa e ressaltar para trás, aparecendo no segundo imediato um ganda bacano, de seu nome Peter Wisgerhof, a desviá-la, com todo o cuidado e perícia, para o lado mais afastado do seu colega guarda-redes ― é que Vukcevic, o leão mais avançado da equipa nessa jogada, quase que impede a bola de entrar na sua gana de marcar golos.

A decadência do jornal do Zé Manel explicada ao Zé Manel

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Zé Manel, quando o Público foi fundado, em 1990, tinhas 33 anos. Estavas pujante de entusiasmo na antevisão de que o teu nome ficasse na História do jornalismo português, começando por cima num projecto que ambicionava ser a referência máxima de tudo o que já tinha sido feito, e de tudo o que fosse possível fazer, na categoria imprensa de qualidade. Oito anos depois, estavas ao leme da barca, o vasto mar da comunicação social esperando ser atravessado pela quilha do teu génio editorial. E em 3 de Agosto de 2009, às 23.40, a Maria José Oliveira dá à luz do meu monitor esta notícia supra. Eis um possível resumo do teu trajecto, parcial e distraído como qualquer resumo.

Este será o momento para te ajudar: Na prisão e no hospital, vês quem te quer bem e quem te quer mal. Não estás na prisão nem no hospital, mas é igual, ou parecido. Precisas dos amigos. Porque tens amigos, muitos. São muitos os que desejam que o Público sobreviva à tua passagem, porque precisamos de ter um jornal em que possamos confiar, e apoiar, e comprar, e recomendar. Sim, desejar o melhor para o Público é ser teu amigo. Não vais negar, pois não? Pois. Então, olha, ó Zé Manel, ir buscar notícias ao 31 da Armada é tão legítimo como citar o Washington Post, talvez mais barato por não carecer de tradutor, mas há um requisito que nem a social media conseguiu alterar: quando não se tem nada para dizer, o melhor é ficar calado. Esta regra adquire extrema relevância e actualidade no jornalismo, por razões que até pode acontecer que conheças. Já agora, quem é que vai pagar a chamada telefónica para o PS? Que o Belmiro não saiba do despesismo.

Claro que tu dirás que estou a esquecer o impacto do título. E que, nesta era de atenção fragmentada, 247% dos leitores do Público só lê os títulos, adora gordas, vejam só. E mais me dirás que ignoro o impacto da fotografia, o expressionismo, o chiaroscuro que devora uma personagem sinistra envolta em sucessivos e imparáveis escândalos e ilegalidades, muito provavelmente crimes, como este 31 acabadinho de inventar.

Bom, Zé Manel, como teu amigo, tenho de te avisar: a decadência a que conduziste o Público devia ser considerada ilegal. Que a Maria José Oliveira não te apanhe.

Ainda não fostes avisados

Em vésperas de eleições não se discutem assuntos tão sérios e tão importantes para a transparência da vida democrática quanto esse.

Manela being Manela

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O assunto que a Presidente do PSD, e candidata à chefia do Governo, não quer discutir em período eleitoral é só o mais importante para os eleitores e para o presente e futuro dos portugueses: a Justiça que não faz justiça. Porquê? Porque discutir a Justiça traz o risco de se diminuir o poder dos diferentes grupos que ocupam a parte superior da pirâmide social. Mas a senhora não está só. Nenhum partido, à esquerda ou à direita, dos velhos ou dos novos, se propõe discutir a Justiça. É este o maior problema do regime, principal causa do atraso económico e marasmo cívico, e problema que não tem qualquer solução à vista.

Estranho que o MEP, nascido numa tessitura da direita tradicionalista e católica, não tenha agarrado na reforma da Justiça como bandeira principal. É que o território está vago, é de quem o quiser apanhar. Estranho esta cobardia, mas por muito pouco tempo, nem chega à metade de meio minuto. Pois é missão para heróis, isto de assumir a causa da justiça para a Justiça, mete medo ao susto. E teriam sido um pequeno PRD, tantos os portugueses que esperam por quem os represente nesta área, no mínimo obrigariam à entrada do tema no debate eleitoral. Não voltaríamos a ouvir, do maior partido da oposição, uma barbaridade do calibre que a Manela serviu no dia em que o ex-autarca-modelo do PSD, também ex-magistrado do Ministério Público, também ex-ministro, também ex-deputado, também ex-consultor jurídico no Ministério da Justiça, declarou ter sido condenado sem que existissem provas para o condenar.

O Portugal do Isaltino Morais, do Valentim Loureiro, do João Jardim, do Dias Loureiro, do Oliveira Costa, do Cavaco Silva, daqueles todos que nestes se apoiaram para as carreiras e os negócios, pensa o mesmo que a Manela: os assuntos sérios e importantes discutem-se à porta fechada entre gente séria e importante. Mas, então, despachem-se ― é que esse Portugal já acabou, vós é que ainda não fostes avisados.

Mentiras transparentes, verdades opacas

O Primeiro-Ministro, o Ministro do Trabalho e o porta-voz do PS desmentiram totalmente que tivesse havido um convite a Joana Amaral Dias. Esse convite existiu – e foi um membro do Governo! Que o Governo não goste da verdade… mas, enfim, não me confunda com as suas trapalhices… Eu utilizo critérios, e se o Engenheiro Sócrates ou o seu Governo não gosta desses critérios, o problema é deles. Insultem-me todos os dias, estão à vontade, cá estou para resolver esses insultos.

O critério é: é preciso transparência e é preciso verdade. O Governo fez um convite, desmentiu o convite, negou o convite. E agora, o que é que quer?… Foi apanhado com a boca na botija, e portanto tem que responder por isso. E o assunto em si tem pouca importância. Qualquer convite responde-se com a consciência de cada um. Eu não dou nenhuma importância a esse assunto, o Primeiro-Ministro é que se empolgou com essa matéria.

Mas há uma questão a que eu dou importância: é que tem de haver uma diferença entre o Partido e o Governo.

Pastor Anacleto

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A expressão tráfico de influências designa um tipo de corrupção, crime punível com prisão até 5 anos. Quando, em 25 de Julho, Francisco Louçã afirmou que José Sócrates decidiu convidar Joana Amaral Dias para as listas do PS e, subsequentemente, para um eventual lugar de Estado, disse que estávamos perante um caso de tráfico de influências. Portanto, disse que Sócrates era criminoso, aos seus olhos. Não sei o que se passa contigo que lês este texto, mas para mim esta situação não pode ser deixada assim, encerrada e esquecida como mais um desaforo corrente. Quando o chefe de um partido com representação parlamentar declara que o Primeiro-Ministro e Secretário-Geral do PS é criminoso, tem de haver consequências políticas e/ou legais correspondentes para o acusador ou para o acusado. Contudo, após os desmentidos de três responsáveis do Governo e do PS, Louçã mantém a acusação. Mais: após o último relato de Joana Amaral Dias, que não contradiz Paulo Campos quanto à ausência de um convite formal nem confirma a oferta dos lugares, Louçã envolve todo o Governo num aliciamento criminoso. Pergunta: já estamos numa esquizofrenia generalizada ou ele tem razão e ninguém se importa?

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