Mentiras transparentes, verdades opacas

O Primeiro-Ministro, o Ministro do Trabalho e o porta-voz do PS desmentiram totalmente que tivesse havido um convite a Joana Amaral Dias. Esse convite existiu – e foi um membro do Governo! Que o Governo não goste da verdade… mas, enfim, não me confunda com as suas trapalhices… Eu utilizo critérios, e se o Engenheiro Sócrates ou o seu Governo não gosta desses critérios, o problema é deles. Insultem-me todos os dias, estão à vontade, cá estou para resolver esses insultos.

O critério é: é preciso transparência e é preciso verdade. O Governo fez um convite, desmentiu o convite, negou o convite. E agora, o que é que quer?… Foi apanhado com a boca na botija, e portanto tem que responder por isso. E o assunto em si tem pouca importância. Qualquer convite responde-se com a consciência de cada um. Eu não dou nenhuma importância a esse assunto, o Primeiro-Ministro é que se empolgou com essa matéria.

Mas há uma questão a que eu dou importância: é que tem de haver uma diferença entre o Partido e o Governo.

Pastor Anacleto

*

A expressão tráfico de influências designa um tipo de corrupção, crime punível com prisão até 5 anos. Quando, em 25 de Julho, Francisco Louçã afirmou que José Sócrates decidiu convidar Joana Amaral Dias para as listas do PS e, subsequentemente, para um eventual lugar de Estado, disse que estávamos perante um caso de tráfico de influências. Portanto, disse que Sócrates era criminoso, aos seus olhos. Não sei o que se passa contigo que lês este texto, mas para mim esta situação não pode ser deixada assim, encerrada e esquecida como mais um desaforo corrente. Quando o chefe de um partido com representação parlamentar declara que o Primeiro-Ministro e Secretário-Geral do PS é criminoso, tem de haver consequências políticas e/ou legais correspondentes para o acusador ou para o acusado. Contudo, após os desmentidos de três responsáveis do Governo e do PS, Louçã mantém a acusação. Mais: após o último relato de Joana Amaral Dias, que não contradiz Paulo Campos quanto à ausência de um convite formal nem confirma a oferta dos lugares, Louçã envolve todo o Governo num aliciamento criminoso. Pergunta: já estamos numa esquizofrenia generalizada ou ele tem razão e ninguém se importa?


Das duas uma: ou Louçã é testemunha dos factos com que elabora a acusação ou sabe tanto como nós. Porque nós já sabemos que a Joana foi convidada a dar uma opinião, do que ninguém sabe é de um convite do PS para uma decisão. Ora, só o PS, na pessoa dos responsáveis para o efeito, poderia formalizar esse convite, o qual não existe como matéria de facto antes de acontecer. Os crimes apenas planeados e nunca cometidos não são crime, que eu saiba (mas corrijam-me se estiver enganado). E nisto surge Louçã a dizer que o convite existiu, que vem do Governo e que implica a oferta de um lugar remunerado como pagamento; portanto, constitui-se como um dano ao Estado punível por lei. Por isso ele repete que o PS está a usar os bens do Estado, através do Governo, para comprar apoios para a campanha eleitoral. E se o fez com a Joana, isto é mesmo o da Joana. E o do Miguel, alvo principal desta manobra.

Louçã exige à audiência que abdique da possibilidade de Paulo Campos ter agido por sua iniciativa. E não se sente obrigado a ser consequente com a acusação de tráfico de influência, não perde um segundo com a legalidade. Para ele chega-lhe ter lançado a acusação, chega-lhe a insídia. Isto coloca Louçã num pedestal de pulhice donde só poderá descer se provar o que afirma à boca cheia. Contudo, o pedestal da insídia é o local onde os opositores de Sócrates querem estar. Desde que se começaram a revolver as pedras pisadas por Sócrates a caminho da escola primária que a campanha está em marcha. É uma estratégia clássica de destruição de carácter, onde o alvo vai sendo envolvido em suspeitas que ficam activas mesmo quando são desmentidas e desmontadas. E eis Louçã a fazer coro com Cavaco e PSD ao reclamar a posse e o critério da transparência e da verdade, os termos-chave do discurso da direita ranhosa.

A sua disfunção mental, nascida da condicionante ideológica, apresenta-se ainda mais aguda devido à pressão eleitoral: projecta nos inimigos as distorções que regem a sua práxis. Mas a ironia é a de ser o BE que não admite a liberdade cívica dos seus militantes, daí a punição à Joana por ter apoiado Soares. Ou leia-se uma fonte privilegiada nesta mesmíssima matéria, Daniel Oliveira desabafando assanhado na altura em que saem notícias de conflitos com ele dentro do BE. Estes factos até levam a admitir explicação duvidosamente benigna: a de Louçã ser incapaz de conceber um partido onde cada indivíduo tenha espaço de manobra para fazer merda, ou obter proveito, por exclusiva iniciativa pessoal. Ele poderia estar cognitivamente limitado ao conceito de partido-formigueiro, geneticamente incapacitado para a complexidade da natureza humana. Mas não. Nada disto. Louçã sabe perfeitamente que Paulo Campos pode ter sido apenas alguém que teve uma banal conversa privada. Louçã sabe perfeitamente que sem a intervenção e formalização das autoridades competentes não se pode dizer que tenha existido um convite do PS. Louçã sabe perfeitamente que não se pode estabelecer uma correlação entre o comportamento de um membro do Governo enquanto cidadão ou militante e a responsabilidade política, ética e legal do Governo e do Primeiro-Ministro. E Louçã sabe perfeitamente que sem a entrega da suposta recompensa não há tráfico de influências, mesmo que tivesse existido a sua promessa. Conclusão, Louçã é o perfeito pulha.

O seu discurso revela traços nítidos, e crescentes, de megalomania. Ele vê-se como o chefe da oposição, o único rival de Sócrates, o futuro primeiro-ministro. A sua expressão facial é atravessada por esgares de dor, apresenta-se furibundo e castigador. A sua voz sai invariavelmente em registo de pregador, admoestando este mundo e o outro, anunciando o Apocalipse do capitalismo, o regresso ao Paraíso onde os governantes serão angélicos e o maná chegará ubíquo ao bom povo humilde e famélico. Esta é uma velha história, e acabou sempre da mesma maneira: em culto da personalidade e ditadura do Partido.

E finalmente, fixar esta passagem que é tout un programme:

Eu não dou nenhuma importância a esse assunto, o Primeiro-Ministro é que se empolgou com essa matéria.

Louçã acusa Sócrates de ser mentiroso e criminoso ― e de ter sido ele a contactar a Joana! ― e ainda o censura por dar importância ao assunto. Quando se chega a este grau de impunidade e alucinação, está-se pronto para entrar na galeria de horrores do marxismo.

24 thoughts on “Mentiras transparentes, verdades opacas”

  1. A Joaninha laroca garrafinha de veneno, quiz retractar-se junto do Anacleto e por delação mostrar que afinal apenas é subdita, reverente e veneranda ao amado lider pastor calvinista. Deconhece os métodos trotskista(m-l) e por isso não sabe que em tal sistema não perdoado uma vez, nunca mais. Por isso quando o Anacleto diz: -Eu não dou nenhuma importância a esse assunto-, está precisamente a dizer à Joaninha que ela não tem importância nenhuma, já não vale nada.
    A joaninha que tentou o jogo duplo, quiz ser agente de dois cavalos, perdeu tudo na aposta: ninguém mais no mundo alguma vez mais lhe vai confidenciar uma sequer conversa banal de café.

  2. VAL,

    Essa do “pastor Anacleto” está bem apanhada.
    O que é feio neste caso é transformar-se uma conversa pessoal muma arma de arremesso político.
    Acho que já vi escrito que o Campos e a Joana apenas falaram uma vez na vida. Terei lido bem? E a coisa foi logo assim? Cheira-me a mentirola da grossa.
    Quem caracterizou bem o BE foi o Costa da câmara e um amigo meu que lhe chama Bloco de esguelha. Vive do trabalho dos outros e da miséria alheia.
    E o teu “Pastor Louçã” é o oficiante destas celebrações.
    Segura aí o coração.

  3. A conversa de Campos com Joana cheira a caso idêntico ao da conversa de Lopes da Mota com o senhor Palma, que foi logo queixar-se ao PR, passando por cima do Procurador. Somos um povo de queixinhas. Joana sai pessimamente deste caso. Loucã só não sai pior porque pior é impossível. A comunicação social igual a si própria: qual bando de formigas precipitando-se sobre migalha de pão seco inapercebível, transforma uma conversa num facto político, um facto político num escândalo, um escândalo numa crucifixação. Alguém já disse recentemente: repararam na enorme percentagem de notícias e temas que se repetem até ao enjoo apenas baseadas em conversas que constaram, se ouviram, se inventaram?
    Quanto à designação “bloco de esguelha” parece-me muito feliz. Parabéns a quem teve a sua intuição.

  4. valupi, estás mesmo a ficar nervoso, mas não és o único.

    De repente vê-se o PS a disparar a torto e a direito contra o bloco, porque será?

    Só não votarei no BE porque temo que após as eleições façam um casamento de conveniência com o sócrates!

    Ou tú és tonto, ou achas que os restantes somos burros, ora, em ambos os casos vamos ter à primeira premissa, ou seja és tonto, pois fazes juízos errados.

    Senão vê, tu sabes perfeitamente como funcionam os convites fora dos circulos de influência dos lideres. Não convidam directamente as pessoas por duas razões:

    1 – não podem levar uma nega;
    2 – se o(s) “sondado(s)”, por interposta pessoa, não aceitarem nunca terão sido a primeira escolha, pois, não foram convidados. Assim, a primeira escolha é aquela que aceitou, mesmo que tenha sido o 100º a ser sondado.

    Se a JAD foi ou não convidada, pouco interessa, agora já é preocupante se para aceitar lhe foi oferecido um cargo no Estado. Isso sim é no mínimo vergonhoso.

  5. Ibn, nas tuas próprias palavras que deixaste num comentário algures que até sei onde está escreveste ‘todos têm um preço’ onde te abrangeste a ti próprio na formulação que enunciaste pois o todos é universal. Não vejo tanta moralidade para cima dos noutros ser bem fundada. Eu cheira-me que tu queres é a velha a governar.

  6. por falar nisso, agora é os ‘filhos’, claro, faz sentido, estigma de oligarquia,

    coitada da senhora que tem de andar a compôr o ramalhete daquele vespeiro todo, o que eu lhe desejo é que depois possa descansar: fazer bordados, bacalhau espiritual, ir a Londres ver o netinho, e que seja feliz e desapareça da cena política.

  7. João Nunes, também podias dizer Alegre de Esguelha ou Pegador de Cernelha.
    Estou farto de ver gente do PS vilipendiada e acusada de criminosa, sem margem para dúvidas, como neste caso do Diácono dos Remédios, aliás Anacleto Loução, bispo do Bloco de Esguelha (feliz!) ao PM e estes defenderem-se com duas palavras gaguejantes, diante de um microfone que lhes é apresentado à saída da casa de banho! Quem não se sente não é filho de boa gente. Se Sócrates não levar esta acusação torpe de tráfico de influencias até às ultimas consequencias, vou ficar a pensar, como toda a gente de bem, que ele tem algo a ver com tudo isto da Joana. E vou concluir que não aprendeu nada com o caso dos procuradores queixinhas e do conúbio com filhos da p. que enxameiam os partidos ou se movem nas suas bordas.

  8. Sou do tempo em que as empresas andavam à procura de bons empregados para as suas fábricas. Ofereciam-lhe bons salários e algumas mordomias. Depois colhiam os frutos desse investimento. Vejo a A.R.como uma empresa, quem lá está ganha o pão do seu dia. Não vejo onde está o mal quando alguém procura para as suas fileiras, quem tem mais capacidade. Os (donos) desses funcionários que lhes dê melhores regalias. Ou será que ficam ofendidos por haver concorrência e depois não podem dar o lugar aos seus afilhados. Se todos optassem por esta norma quem ganhava era a democracia e o País. Não sei se a Joana tem essa capacidade, mas alguma tem de ter. Entendo que os deputados deviam ter uma avaliação. Não me refiro às avaliações dadas pelos partidos a que pertencem. Não concordo que ganhem todos o mesmo. Espero para ver o que Louçã vai fazer com a Joana. Ou será que é uma escrava e Louçã não lhe dá a carta de aforria.

  9. Todos, é de facto universal, eu e tu incluídos!
    Ainda ontem vi um filme com o Harrison Ford, onde isso era bem pantente, no caso do filme a família era o seu preço ;-)

    Mas o que é que isso tem ver com o que escrevi? A não ser que o IDT não era o preço da JAD?

    Eu não quero a velha, nem quero o socras, mas uma coisa é certa um deles, infelizmente será!

  10. “Pergunta: já estamos numa esquizofrenia generalizada ou ele tem razão e ninguém se importa?”

    Se nem eles se importam….

    Mudança de Candidato do BE a São João – trocou um BE por um CDS/PP

    Armando Costa é o candidato do BE de Vizela à freguesia de S. João das Caldas, substituindo Ana Bárbara Pedrosa, antes já apresentada como cabeça de lista.

    O novo cabeça de lista do BE foi militante do CDS/PP, mas hoje, diz, identifica-se mais com o BE. “Tenho visto o partido a ter bons resultados a todos os níveis, tanto nacional como local”, explicou ao mesmo tempo que considera prematuro adiantar o seu programa eleitoral, mas promete “trabalho”. “Pretendemos trabalhar mais e melhor mas no terreno, em contacto directo com as populações. Não é dentro de um gabinete que se consegue evoluir ou fazer melhor”, adiantou ainda o bloquista.

    “Reunimos e chegámos a um consenso. As razões são internas”, assim explicou José Manuel Faria, líder da concelhia bloquista, esta mudança. Reiterando; “Por razões internas do partido, chegámos a este acordo”.

  11. Val,

    Ver quem é o inventor de “Bloco de Esguelha”.

    Tem o título ” O DA JOANA”, na rubrica Rosário Breve, nº114.

    O texto pode ser lido em “O RIBATEJO”

    http://www.oribatejo.pt

    PS- O autor é um grande poeta da língua portuguesa. E um inventor de primeiras águas.

  12. Eu não digo que ‘todos os homens têm um preço’, também não desdigo, fico a ver, mas há uns que parece que não. Não me perguntes quais porque não vou falar, fica-te na tua, mas escusas de te colocar numa posição moralmente superior porque te reconheces igual no fundamento àqueles que criticas, quando muito o montante será outro, serás mais caro.

    Quanto a isto da JAD não se pode concluir nada, nadinha mesmo, em política é normal sondar gente, vir para a praça pública fazer queixinhas é que cheira a frete encomendado, e quanto à atitude e pose do Louçã é inenarrável, a menos da demonstração cabal da sua megalomania paranóide, sem escrúpulos,

    quando eu andava no Bloco havia mais dois irmãos dele na Mesa Nacional, anteontem li numa notícia que a mãe também andava por lá, é síndroma de coutada familiar portanto.

    sim, um dos dois vai ganhar e para mim, no meu conceito de país chamado Portugal, é bem mais saudável que ganhe o socrates do que a velha; já não se põe agora o problema da maioria absoluta, essa já foi.

    ex-magistrado do Ministério Público…

  13. Valupi, “Os crimes apenas planeados e nunca cometidos não são crime, que eu saiba (mas corrijam-me se estiver enganado).” Eu vou corrigir: cometemos crimes por pensamento. Somos pecadores diariamente.

    z, a velha a governar? Da maneira como expuseste a hipotética futura governança, até eu me assustei! Também não a quero!

  14. Este caso da Joana é sintomático e fácilmente relacionavel com todos os outros que têm acontecido a Sócrates. Na sua base não há nada de objectivamente censurável, ou pelo menos que escape ao normal funcionamento do quotidiano,mas sempre com uma repercursão sensacionalista que transforma este«nada» num caso de escandalo nacional.
    A Joana deu a resposta ao Campos à tarde e logo de seguida, dali a um par de horas, um telejornal fazia manchete da notícia. Sintomático.
    A mim dá-me pena ver Loução a este nível, a entrar na demagogia fácil, mas espero que o seu eleitorado, que para mim é um eleitorado esclarecido, se aperceba disto a tempo.
    Gostaria de dizer ao nosso amigo Z, que todos os homens têm realmente um preço, só que o seu custo, algumas vezes, poucas, não está ao alcance de qualquer bolsa…

  15. era muito mau facto e sintoma que a velha ganhasse, Claudia. Nem quero pensar, junto com o cavaco em pr e a traquitana toda, que doença.

    João Viegas não desdigo, também não afirmo, calo-me, seja como fôr isto da Joana ter sido sondada, até pode ter sido por iniciativa própria desse Paulo, é um caso trivial convertido em peixeirada pública só para atacar o Socrates, tendo como visada o caso do Miguel em si mesmo inatacável porque tinha saído há 3 anos. Que farto que eu estou da baixaria da política, mas até às eleições vou ladrar e rosnar.

    Cláudia: depois tem lá outro post onde eu quero fazer uma pergunta de semas,

  16. Ó Valupi
    Com essas de Louçã sabe, Louçã sabe bem, Louça sabe perfeitamente… até fico confundido. Porque é alongar a coisa excessivamente quando basta evidenciar a sua sacanice, a sua pulhice.
    Invocar o saber, o conhecimento, de Louçã só poderia servir para responsabilizar quem há muito recusa ser responsável. E é nesse nível que Louçã está.
    Fora isso, tudo bem. Parabéns.
    Mas uma coisa deve ser dita: a prova provada de que nada adiantava ao PS a Joana, é a sua atitude de pulha, bem ao estilo do seu Diácono dos Remédios. Com ela, conversas no futuro, só com prévio acordo de confidencialidade, como nos negócios.

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