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Espionagem política – IV

Mas antes deixemos claro que os juízes e a sua Associação representativa defendem o cumprimento rigoroso da Constituição e da Lei, respeitam escrupulosamente a autoridade própria das decisões proferidas pelo Juiz de Instrução Criminal e Procurador de Aveiro, pelo Presidente do Supremo Tribunal de Justiça e Procurador Geral da República e vão manter-se completamente fora da discussão política ou partidária que se possa fazer à volta deste caso.

É o que se pode ler na introdução ao comunicado da Associação Sindical dos Juízes Portugueses acerca do caso Face Oculta, e que fica como uma das maiores mentiras alguma vez publicada na língua de Camões.

O comunicado é uma resenha da farsa que a oposição promove para aproveitamento do caso. Vejamos:

Os factos e a cronologia das notícias desmentem todas as maliciosas acusações de «espionagem política» e «emboscada judicial». Basta ver que não houve qualquer coincidência temporal entre os actos eleitorais de Setembro e as operações policiais de Outubro para se concluir pela completa falsidade daquelas acusações.É uma típica petição de princípio, dando às expressões em causa a interpretação que convém à sua negação.

Faz-se notar que até à operação policial, realizada em 28 de Outubro e apesar de meses de trabalho, envolvendo muitas pessoas entre polícias, funcionários dos tribunais, procuradores e juízes nenhum facto era do conhecimento público e só com a realização das buscas, porque a lei obriga a que os respectivos mandados contenham um resumo dos indícios apurados, é que chegaram ao domínio público certas informações. Por outro lado, nada permite afirmar que alguns factos dos que têm sido divulgados tenham qualquer confirmação no inquérito.Intencional contradição, afirmando e negando a validade das fugas ao segredo de Justiça, e tentativa de reduzir a sua definição à publicitação na comunicação social, escamoteando que podem existir fugas que não cheguem a ser publicitadas, mas que nem por isso tenham deixado de ofertar certas vantagens a quem as fez e delas aproveitou.

Lembra que, contrariamente ao que foi veiculado em notícias e tomadas de posição, e como já foi oficialmente informado, as escutas autorizadas pelo Juiz de Instrução de Aveiro nunca tiveram por alvo o Primeiro-Ministro, mas sim os arguidos no inquérito.Falsa questão, pois o que é decisivo remete antes para o facto de o Primeiro-Ministro ter sido escutado durante 5 meses sem que o Supremo Tribunal tivesse dado autorização.

Repudia veementemente as insinuações e falsas acusações de responsáveis políticos, nomeadamente membros de órgãos de soberania, que visam apenas descredibilizar a actuação das autoridades judiciárias. Todos os que desempenham cargos públicos de responsabilidade têm um especial dever de respeito pelos princípios da separação de poderes e de acatamento das decisões dos Tribunais, não devendo contribuir com desinformação que coloca publicamente em causa a autoridade do Estado.Como não se nomeiam os responsáveis políticos em causa, nem se explicita a matéria a que se alude, este ponto apenas pretende censurar a legítima expressão de opinião política em matérias judiciais.

Lamenta todos os equívocos gerados pela falta de informação sobre a existência ou não de inquérito a propósito das certidões, a dilação temporal entre a recepção das certidões e a decisão de considerar não existirem elementos probatórios para iniciar uma investigação, bem como a inexplicada divergência de valoração dos indícios que foi feita na Comarca de Aveiro e pelo Procurador Geral da República.Repetição da estratégia de ataque ao Procurador-Geral, a qual tem sido alimentada e orientada por Marcelo Rebelo de Sousa.

Afirma e declara que qualquer tentativa de constrangimento ou condicionamento da actuação dos juízes do processo, fora dos mecanismos próprios de fiscalização pela via do recurso, constituirá uma ofensa intolerável aos princípios da independência e separação de poderes, que levará a ASJP e os juízes a encontrarem as respostas adequadas.Ameaça de reacção corporativa e achas para a fogueira da suspeição, admitindo que há juízes em Portugal passíveis de constrangimento e condicionamento, mas não revelando nem o como, nem o quando, nem por quem.

Conclusão, a expressão espionagem política tocou no osso. O modo primário – até bronco – como se está a fazer a defesa face às legítimas suspeitas de que existe algo de profundamente anómalo no facto de se escutar o Primeiro-Ministro num ano eleitoral e no período que antecede essas eleições, escutas essas que não respeitaram nem a Lei nem a prudência política, e as quais deram origem a uma suspeita de crime que chegou ao Procurador-Geral em Junho, mesmo a tempo de causar um abalo decisivo na credibilidade de Sócrates e PS nas vésperas das eleições Legislativas, mas suspeita que era tão débil que não procedeu criminalmente, tudo isto, então, são factos que merecem inquérito ou, tal não sendo possível, reflexão.

Se o Sindicato dos Juízes imagina que vai conseguir assustar a democracia, fazendo ameaças em nome de uma putativa imunidade ao erro e à corrupção, alguém vai ter de lhes dar uma lição. Se as sociedades tivessem tabus de segurança, não fiscalizando algum dos seus grupos, isso seria ruinoso, inevitável decadência. Os juízes, e qualquer magistrado, recebe o seu poder daqueles que julgam e cujas vidas condicionam decisivamente para o bem e para o mal. Talvez a sua memória seja curta, a nossa é que não pode ser.

Às armas

μάχεσθαι χρὴ τὸν δῆμον ὑπὲρ τοῦ νόμου ὅκωσπερ τείχεος
makhesthai khrê ton dêmon huper tou nomou hokôsper teikheos
O povo deve defender a lei como defende as suas muralhas

Heraclito, DK B44

*

Carlos Abreu Amorim, no último Directo ao Assunto, foi veemente na defesa da privacidade de Sócrates. Apesar de tal posição corresponder também a uma oportunidade de oposição a Ferreira Leite e trupe, não se pode duvidar da sinceridade das suas palavras quando diz que temos de estabelecer limites e que é inadmissível ter dois pesos e duas medidas consoante o alvo é um dos nossos ou um dos outros – ou seja, frisa que não vale tudo, que há mínimos de respeito e decência no confronto político. Acrescenta mais um argumento, este pragmático: querer violar a privacidade de Sócrates, reforça a sua posição. O raciocínio é óbvio, e ai do intelecto daqueles para quem não o seja. Ao contrário da percepção, um primeiro-ministro pode ficar numa situação pior do que a do vulgar cidadão quando é apanhado pelo sistema judicial. Isso resulta da notoriedade do caso, em que não pode escapar aos holofotes mediáticos, e também das forças que se movem. Um cidadão vulgar não tem partidos, sindicatos, empresários e jornalistas interessados no seu abate político e cívico através da exploração de um imbróglio jurídico. Sócrates tem. E como está em causa a sua privacidade, este caso é absolutamente extraordinário pela novidade e potencial danoso. Logo, o nevoeiro de guerra é cerrado e declarações como a do Carlos são raios de Sol que nos mostram o caminho por onde seguir.

Numa outra dimensão da sua intervenção, e nada despiciente, tomar a defesa dos direitos de Sócrates, assumidos como um bem da Cidade, reforça a credibilidade de qualquer crítica passada, presente e futura ao mesmo Sócrates que se consegue defender por básico dever ético. É com um misto de asco e incredulidade que observo a raridade desta atitude na oposição. Não merecem governar aqueles que são os primeiros a atacar as muralhas que nos protegem da barbárie, revelando estar dispostos a qualquer vilania para atingir o Poder.

Diminuir e achincalhar o cidadão José Sócrates, só porque é, transitoriamente, o titular de um cargo na hierarquia do Estado, não pode ter outra resposta que não seja a de pegarmos em armas e defendê-lo – porque somos nós que perderemos se ele perder qualquer um dos seus direitos.

Mais vale ser um bêbado conhecido do que um alcoólico anónimo

Eduardo Pitta verteu lucidez na febre paranóica que faz de um opositor político o testa-de-ferro de um bando de inimigos, ou que se recusa a aceitar um pseudónimo como valor igual, ou maior, ao do nome que aparece no BI. Em relação ao puro anonimato, em que não há qualquer sinal que permita identificar o indivíduo nessa condição, importa recordar que tal escolha é um direito fundamental em variadas circunstâncias, o qual se consagra nas constituições democráticas como garante de liberdade. É o que faz com que o voto seja secreto, por exemplo, o que implica reconhecer que o poder político se legitima pelo anonimato. É por isso abstruso, para além de parolo, vir exigir na Internet – o meio onde o anonimato pode até ser uma atitude de mero bom senso – que os utilizadores veiculem informações que os identifiquem para além do que decidem expor para comunicar e interagir. Ainda para mais quando o que está em causa é só matéria de opinião, o que faz do protesto contra o anonimato algo suspeito de encobrir uma latente tentação persecutória ou a manifestação de um erro de cálculo. Que pode alguém saber de quem assine os seus textos ou comentários com António Silva, Maria Santos, Manuel Costa ou Paula Sousa? Repetindo a pergunta do Eduardo, chapar com um Evaristo Valsassina acaba com a vexata quaestio das identidades na Internet? Só para os que conheçam o Evaristo; esses, e só esses, poderão aferir se há concordância, ou escândalo, com o outro que conhecem ao vivo e a cores.

A minha identidade para além do pseudónimo Valupi não é secreta, é discreta. Nunca a escondi nem o virei a fazer, e sou responsável por tudo o que escrevo com pseudónimo, seja moral ou legalmente. Como as pessoas que me rodeiam, inclusive profissionalmente, conhecem essa propriedade, estamos perante um uso equivalente ao da alcunha. Quanto aos outros que reclamam contra a minha liberdade, esses que também nada mais ficariam a conhecer de mim caso assinasse com nomes e apelidos convencionais, têm bom remédio: apresentem-se.

Ovos moles

O facto de os magistrados de Aveiro terem encontrado indícios de um crime nas escutas entre Vara e Sócrates pode ter sido a decisão mais acertada das suas vidas profissionais, mas o mesmo acerto temos de reconhecer ao Procurador e ao Presidente do Supremo. Duas decisões contrárias não são necessariamente contraditórias, visto não ocorrerem no mesmo plano hierárquico. Aliás, em Aveiro poderá ter-se apenas detectado aquilo que para os magistrados respectivos também não seria probatório, mas que por relevância, dúvida ou zelo mandaram para a instância superior avaliar.

Não sabemos o que está em causa, mas sabemos que é relativo a uma conversa privada. E também sabemos que, seja lá o que for que se tenha dito, tal não era inequívoco, forte ou suficiente para dar origem a uma investigação criminal. Ou seja, depois de quatro magistrados, pelo menos, terem estudado e avaliado a questão, temos mais razões para acreditar na inocência de Sócrates do que para alimentar a suspeita.

Aqueles que preferiam ver as escutas julgadas pelo menor número possível de magistrados, e sem recurso à hierarquia, estão a mostrar que não reconhecem qualquer autoridade à Justiça ao realçarem a primeira avaliação das conversas. Para eles, este sistema de garantias e verificações sucessivas é nocivo e não atende ao que importa: despachar os opositores na primeira oportunidade. E assim, porque o ódio cega e ensurdece, estão a aceitar que um dia também a eles, ou a alguém que eles amem, se reduzam os seus direitos a algo que vale menos do que meia dúzia de ovos moles.

Pacheco leitor de Valupi

No último Ponto Contra Ponto, Pacheco alertou o País para a existência de um perigo perigosíssimo: o Câmara Corporativa. Se entendi correctamente o libelo, este blogue atenta contra o fôlego democrático porque é bom demais. E se é bom demais… qualidade tamanha só pode significar uma coisa: anda ali mão do Governo. Os pressupostos pachequianos não enganam nem se enganam, qualquer actividade que sobressaia e paire acima da média não é natural – é marosca do Engenheiro. Por mim, acredito. De resto, o marmeleiro pode muito bem ser uma das pessoas com mais e melhores informações em Portugal e acerca dos portugueses, não me surpreenderia mesmo nada.

Vamos, pois, aceitar que o Câmara Corporativa existe para despejar a propaganda que uma vasta equipa profissionalizada, em tempo real [sick], espalha como desinformação; sendo que esta é que é a verdadeira e única campanha negra, acrescentou. A primeira consequência será a de que o serviço deve custar um dinheirão. Quem o está a pagar? O Pacheco deve saber, claro. A segunda consequência é a de ser impossível esconder tamanha logística, a menos que seja outra vez o SIS a ter fama e proveito conspirativos. Mas é a terceira consequência a de maior alcance. De facto, se o Governo se dá a tanto trabalho para manter um blogue com este potencial desinformativo, apenas com o fito de lançar umas bocas manhosas a ver se algum jornalista lhes pega, então é porque ninguém na comunicação social anda a reboque do Gabinete do Primeiro-Ministro e os xuxas estão reduzidos à manipulação da opinião pública nacional através de um blogue que, afiançou o Pacheco, todos identificam como sendo um pardieiro dos assessores de Sócrates. Ou seja, tanto esforço, tantos recursos, alguns até em papel, e, vai-se a ver, ninguém acredita neles. Foda-se, senhores ouvintes.

Bom, mas o final da rábula trazia brinde. Na última imagem exibida do Câmara Corporativa pode ver-se, com suficiente detalhe, dois posts relativos ao dia 19 de Novembro. No segundo, Viagens na Minha Terra, destaca-se um link a vermelho. Um único, a cor indicando que foi clicado – isto é, revelando o único texto que foi lido ou o primeiro a ser lido. E esse link é para o texto Espionagem Política I (print screen), aqui do pilas. Tendo em conta que a listagem era extensa, onde até se incluía Vital Moreira e outros notáveis da opinião, creio ser legítimo concluir que o Pacheco está já a preparar nova revelação bombástica. Por exemplo, que o Aspirina B é um blogue com técnicas soviéticas, tão soviéticas que consegue controlar à distância os Ministros da Economia e da Defesa.

Duarte & Companhia

Resumo do encontro

E diz o Eduardo — Isto em Portugal é sempre a mesma história, começa com duelos e acaba nos copos. É tudo pessoal porreiro. Provando ser mais porreiro do que a concorrência, o Duarte tratava da despesa. No final, pesarosos, constatávamos que algo se tinha perdido: Sócrates tinha um assessor a menos.

Parabéns a vocês – II

Em nome de todos vocês, muito obrigado pelas generosas mensagens de parabéns. Este blogue é uma aberração segundo as regras não escritas dos blogues colectivos. Já esteve para acabar em 2006, menos de um ano depois de ter começado (aliás, apenas 4 ou 5 meses depois). De lá para cá, repetiram-se as ocasiões de fechar a porta, de acordo com os inevitáveis ciclos de conflito e desgaste nas relações humanas. É essa, também, a beleza deste meio de comunicação, a leveza com que se inicia e acaba, a irrelevância disto, destes milhões de sinais gráficos que se deixam ao abandono. Tudo palha, que tanto pode ser pasto como fogueira.

O João Pedro da Costa, meu primo por homografia, tem a sabedoria indicada para lidar com o bicho: um blogue não passa de HTML. Hiperverdade.

Sursum corda

Aqueles que cultivarem a disciplina (etimologicamente, a aprendizagem) de olharem para a linha do horizonte, não vão enjoar com o balanço. Era esta uma das mais simples, e decisivas, lições de Agostinho da Silva, um marinheiro de alto mar e mares altos. Para nós, no Portugal democrático que atravessa uma original crise que acaba de atingir os pilares jurídicos e éticos do Regime, os vagalhões vêm de bombordo e estibordo. Uns são o resultado dos ininterruptos planos de ataque daqueles que lutam pela obtenção, manutenção ou crescimento da fatia do bolo que ambicionam, outros são a consequência da agitação dos desorientados, dos deprimidos, dos derrotados. Contudo, o horizonte permanece à mesma distância, imóvel, impassível. É ele que nos equilibra e mantém no rumo, ao encontro dessa linha onde a terra e o céu se recordam da fusão primordial.

Veja-se como a Ana Paula Fitas nos convida a aceitar a difícil constatação de serem as leis sempre uma tangente à justiça, seres frágeis na dependência da gramática, da sintaxe, da semântica e, fundamentalmente, da boa-fé dos que as criam e aplicam.

Veja-se como a Sofia Loureiro dos Santos nos interpela para assumirmos a responsabilidade de pedirmos responsabilidades à comunicação social que é joguete de conspirações, atentados ou explorações que nos fragilizam e envenenam.

São dois exemplos de atenção ao horizonte no meio da borrasca, focando o olhar no que mais importa. Porque a vida vai continuar, pois é da vida viver. Os nossos actuais problemas, postos em perspectiva com o que já passámos historicamente como país, cultura, civilização ou espécie, são ridículos. Aqueles que cantam as delícias do fim, os profetas da desgraça, estão só a falar deles e do que não conseguem, ou não querem, fazer por nós. Temos de os deixar enterrar os seus mortos e não ficar parados à espera de quem já não tem forças para caminhar.

Espionagem política – III

Vieira da Silva era o último político de quem se esperava uma expressão que tocasse tão fundo no olho do furacão causado pelo caso Face Oculta. Como se pode atestar pela prova do crime, este homem merece uma estátua pela sua atípica humildade e desconcertante sinceridade. Não há nele qualquer pose que pareça estudada ou artificial, o que se vê é o que há. A discrição, talvez timidez, que o envolve é tanta que só na noite eleitoral das Legislativas despertei para a densidade emocional da sua pessoa. E foi assim, por ser sincero, que se deixou espiar pela melíflua Maria Flor Pedroso.

A pergunta à qual tenta responder pressupõe que as notícias da imprensa, do Sol em especial, à data, transmitiam informações verdadeiras. Em consequência, assistimos ao esforço de Vieira da Silva para conseguir dar sentido a uma situação repleta de incógnitas e suspeições perversas, malignas. E o que diz, é o óbvio: havendo aproveitamento político de uma ilegalidade (ou de um erro), esse aproveitamento configura um propósito de espionagem política – mesmo que não saibamos a quem imputar a recolha ilícita da informação e sua entrega à comunicação social.

A perseguição que se seguiu foi mais uma pulhice, já sem surpresa. Os hipócritas contaram aos berros a história de um Ministro que teria atacado os magistrados de Aveiro, procurando condicionar a sua acção e safar o criminoso do Primeiro-Ministro. Pessoas que têm responsabilidades mediáticas foram por este caminho, algumas que até suscitam esperanças de renovação intelectual no universo político, e acabámos por ficar expostos a mais um exercício de terrorismo cívico.

Este episódio com Vieira da Silva é também uma ocasião para observar com detalhe a torpe duplicidade que está instituída na oposição: qualquer dos seus cães de fila pode abrir a bocarra e largar impunemente as mais ferozes e desvairadas acusações contra Sócrates, Governo e PS, todos corridos com mandados de prisão, mas assim que um dos visados reage é apupado por estar a reagir. Eis a iníqua realidade: há portugueses que se indignam mais com uma expressão verbal, do foro pessoal, dita numa entrevista do que com a conspurcação da Justiça para fins políticos indecorosos ou com o facto de se procurar atingir a honra seja de quem for e como for.

É caso para lamentar que a contra-espionagem não tenha recursos ou vontade.

O fim da Guerra Fria é que está na origem do Aquecimento Global

Depois de intensas e implacáveis negociações que ocuparam toda a tarde, o Duarte revelou-se imune aos meus argumentos nominalistas, mantendo-me na lista dos perigosos anónimos que ofendem, a soldo do Rato ou coisa pior, dignas figuras públicas. Contudo, admitiu [not] que eu era agora um anónimo que ele conhecia melhor do que muitos nomes do jet set. Combinámos pôr tudo em copos limpos, amanhã, num local secreto algures no Hemisfério Norte.

Lamentavelmente, abateu-se sobre mim negra apreensão. É que à conta de escrever num blogue, e venerar o sr. Engenheiro, saiu-me na rifa um blind date com macho. O castigo está proporcionado. Ainda por cima, a coisa mete apelido estrangeiro. Mas é galo, grande galo, porque aposto que quem ostenta Schmidt no cartão, num Portugal trigueiro, está servido de um lote de amigas de fechar o comércio. E nenhuma delas estará presente, mais uma vez se comprovando a imperfeição do mundo e a injusta distribuição dos recursos naturais. Enfim, o que vale é que também não irei lá, vai o Valupi.

Parabéns a vocês

Para concluir um dia imprevistamente narcísico, lembrar que hoje se completam 4 anos de Aspirina B.

Estão de parabéns todos os autores que por cá passaram.
Estão de parabéns todos os leitores que por cá pararam.
Estão de parabéns todos os comentadores que por cá partilharam.

Um bravo

Duarte Schmidt Lino apareceu a defender Pedro Lomba, seu colega de blogue e, presumo, amigo. A defesa é pícara, arrebatada e termina como começa: desafiando-me para um duelo. Ele quer a minha identificação, como ouvíamos amiúde na rua aos bófias até aos anos 80, e já anunciou o que vai fazer com ela: averiguar o meu percurso em ordem a comparar os méritos intelectuais entre os dois outros vértices do triângulo fantasiado. Por outro lado, manifesta estar num estado de confusão, não lhe parecendo possível que um só indivíduo consiga ter registos tão variados como os que detectou no meu opus. Seja como for, consegue imagens notáveis, como essas onde diz que eu ofendo pelas costas, que um anónimo amanhã — ou mesmo hoje — pode vender a alma noutra freguesia do lado oposto da cidade, que a ganância furiosa não sei quê e, naquele que é um invejável rasgo de estilo, que tenho a estatura moral de um frango depenado. Estou convicto de que este complexo símile do frango depenado não ocorre com facilidade ao homem comum.

Que terá atiçado a testosterona do Duarte? Talvez a iliteracia, pois no diz-que-disse em relação ao Lomba falha o alvo: eu falei de casas, ele fala-me de tachos. Todavia, não serão estes detalhes hermenêuticos a estragar a festa. Quando se convocam ameaças de processos, e uppercuts no focinho, o meu interesse está garantido. De resto, estou muito curioso em conhecer um tipo que não admite a expressão indigência mental, para mais no contexto de uma crítica a um escrito público, mas que convive apaziguado e feliz com esta coisa.

Sendo assim, ó Duarte, escreve-me para o email do Aspirina e indica onde queres o encontro, depois será só acertarmos o dia e a hora. Também podes levar os amigos, caso temas dar por ti cercado de Valupis. Nessa ocasião, poderemos discutir com vigor e audácia a problemática da minha identidade e outras questões que julguemos pertinentes.

Obrigado, Vidal

Carlos Vidal sugeriu aos proletários de todo o Mundo a leitura de um texto do doente Valupi. Ora, vou usar a ocasião para agradecer ao Vidal o que tenho aprendido com ele, e com alguns dos seus colegas no 5 Dias. É que nunca tinha tido directo contacto, como aquele que os textos informais num blogue permitem ter, com esse ramo do comunismo que abomina a democracia e não descansará enquanto a não substituir por uma qualquer tirania. Sabia disso à distância, posto que era um miúdo no 25 de Abril e nada entendi do PREC nem do que era a União Soviética. Muito mais tarde, com estudos cada vez mais interessados pela política, o desenho da besta começou a formar-se. Mas foi só com o Vidal, em 2009, que despertei para a existência ainda activa de uma corrente mística do comunismo, essa pulsão niilista que atrai os tiranetes de todas as marcas e feitios. Aquilo que começou por me surpreender nas campanhas eleitorais deste ano, ver comunas e reaças a fazerem elogios uns aos outros, abraçando-se num frentismo anti-PS alimentado pelo ódio a Sócrates – para maior repulsa, ambas as facções exibindo um gostinho indisfarçável pelo memorial do Estado Novo, Salazar, Hitler e nazismo – ganhou contornos de fenómeno inevitável, atracção irresistível. E lá fiz as pazes com a evidência: eles reconhecem-se, identificam-se, são as duas metades do mesmo totem.

O 5 Dias começou por ser um projecto de mérito indiscutível, uma referência na blogosfera de esquerda. Depois, muita água correu. Com a feliz cisão que deu origem ao Jugular, e com a entrada deste Vidal que faz da logomaquia um hino à generosidade do Criador, temos ali uma secção do PC que nem no Avante mostra o dente.

Por tudo isto, Vidal, e o muito mais que não há pachorra para anotar, obrigado. Continua a educar o povo.

Boicotem o Valupi!

É o apelo de Filipe Nunes Vicente, o qual aproveita para repetir pela cagagésima vez que eu chamei a Louçã monte de merda. Ó Filipe, aqui entre nós que ninguém nos lê, olha que também podes chamar monte de merda ao Louçã – não é ilegal, não é pecado e não provoca ataques de caspa. Se te custa, porque assinas com três magníficos nomes e isso tem o seu peso, começa com variações: monte de retórica, monte de demagogia, monte de populismo, monte de fanatismo. Quando ganhares confiança, poderás satisfazer a tua vocação para a síntese e arrumar o múltiplo no uno: Louçã, és um monte de merda. Entretanto, essa imitatio de Frei Tomás, onde praticas o mal que condenas, é divertida. Também patética, porque enfim, mas divertida.

O fim de uma superstição milenar

Por causa de um primoroso casting, e apenas me refiro a uma das dançarinas, devemos aos publicitários espanhóis este triunfo de terem transformado a menstruação em mais uma coutada do macho ibérico. O erotismo, através das estruturas capitalistas e correspondente alienação consumista, também pode ser uma força de avanço político e social.