Na penúltima Quadratura, António Lobo Xavier disse que nunca comenta escutas e informações obtidas ilegalmente, ou sob as quais permaneça essa dúvida. É uma atitude que nem sequer carecia de nota ou realce, muito menos de explicação, não fosse existir um fenómeno de pulhice generalizada na luta política, o qual gerou as tipologias que, por utilidade semântica, designo como direita ranhosa e esquerda imbecil; ou seja, uma direita que trai o seu ideal de liberdade fundado na verdade; uma esquerda que trai o seu ideal de verdade fundado na liberdade. O resultado é um ambiente onde a eleição para um cargo político implica uma permanente suspeição – seguida de calúnias e julgamentos públicos na primeira ocasião – que não mais abandonará essa pessoa, mesmo que ela abandone a política. Na actualidade, o bombo da festa chama-se Jorge Coelho, pelos vistos um perigoso criminoso internacional que nem a Interpol consegue apanhar.
Ranhosos e imbecis, incapazes de obter apoio popular, barricaram-se num puritanismo retórico em ordem a intoxicar o debate e impedir que o governante convença pela visão e obra. Eles não querem ser escolhidos pelas suas propostas alternativas, querem é ser escolhidos por falta de alternativa. Então, o caminho é só um: denegrir, conspurcar, envenenar, armadilhar, conspirar. Nestes tempos de PSD escavacado, até os próprios fundamentos do Estado de direito são alvo de cargas explosivas – ouvindo-se o engrossar do coro daqueles que exigem a violação das leis e dos direitos para perseguirem e lincharem suspeitos. Vale tudo.
Assim, declarar indigno o aproveitamento político da corrupção nascida no seio da Justiça, ou da comunicação social, foi um refrigério precioso face à selvajaria promovida pela oposição. Infelizmente, esta casa varrida e bem arranjada – que honra a ética, o civismo e a direita – durou apenas uma semana. E o demónio ranhoso voltou com sete espíritos bem piores do que ele.



