Sursum corda

Aqueles que cultivarem a disciplina (etimologicamente, a aprendizagem) de olharem para a linha do horizonte, não vão enjoar com o balanço. Era esta uma das mais simples, e decisivas, lições de Agostinho da Silva, um marinheiro de alto mar e mares altos. Para nós, no Portugal democrático que atravessa uma original crise que acaba de atingir os pilares jurídicos e éticos do Regime, os vagalhões vêm de bombordo e estibordo. Uns são o resultado dos ininterruptos planos de ataque daqueles que lutam pela obtenção, manutenção ou crescimento da fatia do bolo que ambicionam, outros são a consequência da agitação dos desorientados, dos deprimidos, dos derrotados. Contudo, o horizonte permanece à mesma distância, imóvel, impassível. É ele que nos equilibra e mantém no rumo, ao encontro dessa linha onde a terra e o céu se recordam da fusão primordial.

Veja-se como a Ana Paula Fitas nos convida a aceitar a difícil constatação de serem as leis sempre uma tangente à justiça, seres frágeis na dependência da gramática, da sintaxe, da semântica e, fundamentalmente, da boa-fé dos que as criam e aplicam.

Veja-se como a Sofia Loureiro dos Santos nos interpela para assumirmos a responsabilidade de pedirmos responsabilidades à comunicação social que é joguete de conspirações, atentados ou explorações que nos fragilizam e envenenam.

São dois exemplos de atenção ao horizonte no meio da borrasca, focando o olhar no que mais importa. Porque a vida vai continuar, pois é da vida viver. Os nossos actuais problemas, postos em perspectiva com o que já passámos historicamente como país, cultura, civilização ou espécie, são ridículos. Aqueles que cantam as delícias do fim, os profetas da desgraça, estão só a falar deles e do que não conseguem, ou não querem, fazer por nós. Temos de os deixar enterrar os seus mortos e não ficar parados à espera de quem já não tem forças para caminhar.

10 thoughts on “Sursum corda”

  1. É desta música que eu gosto! Grande Valupi, sejas lá quem tu sejas. Contrapões a grandeza da esperança de Agostinho da Silva, olhando em frente, o horizonte de mais vida, aos lamurientes profetas de todas as desgraças para a pátria dos medinas carreira que se arrastam nas calçadas da inveja, da inação, da política da quadratura do circulo de uma comunicação social castrada e submissa aos donos que a violaram e parariram.

  2. Ah, os junalistas, essas putas travestidas de vestais. Sim, esses mesmos que soltam gritinhos histéricos, quando alvos de alguma crítica, dizendo estar em causa a liberdade do exercício da profissão.
    Um dia seria interessante, muito interessante, mesmo muito interessante, fazer um estudo sociológico sobre a classe. Um dia seria interessante, muito interessante, mesmo muito interessante, saber mais sobre as suas origens, sobre as suas ligações ao mundo dos interesses, sobre as dinastias que enxameiam as redacções, relegando para o esconso das mesmas os verdadeiros, os velhos. Não, não estou a generalizar.
    Não resisto a contar uma história. Velhinha, muito velhinha, andava eu na escola primária 151, ali para os lados do Bairro de Alvalade.
    Naquele tempo no rebanho de putos e meninos que o Sr. Lopes pastoreava a caminho da quarta classe e aos quais dava as necessárias explicações, extra horário, para terem sucesso no exame final e ele arredondar o salário, havia um puto. Tinha como apelido Governo(É mesmo verdade).
    Um dia, num daqueles conhecidos exercícios de perspectivação do futuro, perguntou o Sr. Lopes aos putos e aos meninos o que queriam ser quando fossem grandes. Quando chegou a sua vez, o puto Governo, lá das filas do fundo, gritou :-Ginecologista! E fechou-se no mais profundo mutismo que só viria a ser quebrado no recreio ao dar, aos putos e meninos, a razão para a sua escolha.
    Nunca mais vi o puto Governo. Não sei, de acordo com alguns semanários mais sérios,se ainda mantém uma vida sexual activa ou se já faz parte do número de portugueses,cerca de 500.000 segundo os mesmos semanários,que querem e não podem.Uma coisa é certa ainda me lembro da razão da sua escolha.
    Hoje, passados muitos anos, se me fosse possível voltar á sociedade de calções que era a classe do Sr. Lopes, eu teria respondido:-JORNALISTA!É verdade, mas não “junalista”.

    P.S.: Estava a escrever estas linhas quando soube da promoção efectuada pelo Sr. Silva do seu empregado Fernando Lima. Vale a pena ser junalista. Digam lá se é ou não é uma profissão com futuro.

  3. Quando a comunicação social se torna propriedade de homens que têm dinheiro para a produzir, ela tornou-se um simples produto de mercado. Com que direito se arroga ainda de um estatuto privilegiado, quase orgão de soberania?

  4. Não tenho uma visão catastrofica do jornalismo, muito menos dos jornalistas, muito menos de todos os que diariamente executam o seu trabalho sujeitos a coações psicologicas enormes. Merecem todo o meu respeito.
    Dito isto, considero que o grande problema do jornalismo português reside exactamente nos grupos e grupelhos que controlam os jornais e submetem os jornalistas à mais vil obediência servil, como propagandistas de interesses particularíssimos.

    Proponho um exercício: A quem pertence o Jornal Publico, órgão que incendiou Portugal antes de eleições com o tema das escutas a Belém: Grupo Sonae. O que disse o seu presidente quando questionado sobre o que se estava a passar “que no seu jornal manda ele e quem quisesse lá mandar que o comprasse” – Posição mais clara, impossivel.

    Tudo indica, que o famoso mail com as escutas também chegou ao jornal Expresso, que tentou explicar porque não o tinha publicado (sem que ninguem percebesse a verdadeira razão). A quem pertence o referido órgão: Francisco Pinto Balsemão, fundador do PPD.

    Quem publicou o mail – O DN que pertence ao Sr. Joaquim de Oliveira, que pasme-se, as famosas escutas ao nosso PM fazem referencia a uma certas dificuldades (talvez financeiras) do proprietário desse jornal.

    Agora pergunto – São os jornalistas que trabalham nas redacções os responsáveis??? Não!!!!!

    Todavia, julgo importante que os jornalistas atirem a primeira pedra no sentido de alterarem este estado de coisas. O Paradigma tem de ser alterado.

  5. Infelizmente, Carmen Maria, a notícia tornou-se produto e, quanto mais insólita, não importa se verdadeira ou falsa, mais vende. E a venda é que garante a subsistencia do jornalista, não a veracidade ou falsidade da notícia. Mas isso é o mercado a funcionar e toda a gente aceita o mercado. O problema surge quando os jornalistas são tratados e exigem ser tratados como um grupo pouco menos que intocável e garante ou prova de regime democrático. Democracia económica é uma coisa e democracia política, outra. Ora a noticia está a ser tratada como um kilo de batatas. Os jornalistas tornaram-se vendedores e é isso que o patrão exige deles. Como nos casos que apontas, não restam dúvidas, E não vi o nobilissimo jornalista provedor do Público, o Sr Vieira, recalcitrar contra o patrão Belmiro. Os provedores todos e com eles o excelentissimo sindicato dos jornalistas mais a sua muito bem elaborada deotologia não piam nem miam, quando fala o patrão. Chegou a hora de não ser apenas o Marinho Pinto a dizer que também há magistrados fedorentos. Quanto mais um jornalismo que, no seu todo, depende do dinheiro de Belmiros e Balsemões.
    O contra-peso seria o sindicato, os provedores, a deontologia a falar mais alto…Alguém ouve alguma coisa, Carmen Maria? Se me disseres que os jornalistas ou alinham ou são asfixiados e disso têm consciência e com isso pactuam porque têm filhos para criar…ainda vá, porque é muito lindo ser heroi quando a pele é dos outros… Desmacare-se esta trampa ! Ajude-se os jornalistas honestos, mas não mascarando a realidade.

  6. Mário, não são os jornalistas de uma forma geral que exigem ser tratados como vedetas. São pessoas especificas, que por acaso são jornalistas e que têm a tendência de falar em nome desse grupo profissional. São os Henrique(S) Monteiro(S), as Manuela(S)M Guedes, as Fátima(S) C Ferreira, as Judite(S),e outros que tais, que não valem um caracol, mas que vivem deslumbrados com o seu ser e que infectam de morte o jornalismo português, e pasme-se, ainda por cima são professores em escolas superiores de comunicação.

  7. Carmen Maria,

    concordo que a postura de vedeta não é generalizada. Infelizmente a falta de rigor informativo, de independência, de “trabalho de casa”, de cultura geral já o é mais…

  8. Quando vemos o mau desempenho profissional de grande parte dos jornalistas, a desonestidade bem evidente nas suas entrevistas e noticias , temos tendencia a atacá-los indescriminadamente, atingindo culpados e inocentes.Mas, ás vezes, esquecemos os verdadeiros culpados , os patrões dos jornais que, ilegalmente , contra o estatuto editorial,influenciam o trabalho dos jornalistas,provocando a ´fúria de quem se sente atingido.Os politicos teem tambem culpas, e muitas,na tentativa de influenciar os jornalistas.Mas, voltando ao principio, os jornalistas ,alguns jornalistas,são vendidos e são desonestos,por vezes criminosamente.E que dizer do Sindicato dos Jornalistas cujo código deontológico não funciona ou está ausente?

  9. Edi,

    A falta de rigor informativo é terrível, concordo. Mas a responsabilidade disso deve ser assacada à estrutura dirigente dos respectivos meios. Para além disso, hoje, em qualquer área, produzem-se profissionais mal preparados. Nalgumas cabeças que dirigem, a única ideia é que seja tudo muito rápido. Um profissional consciente demora algum tempo a formar, seja em que área for, banca, seguros, saúde, etc. Este tempo tornou-se demasiado dispendioso para determinadas empresas obcecadas com os custos, e claro o cliente ficou prejudicado, com menos qualidade nos serviços prestados, ou no caso, a sofrer de falta de rigor informativo.

    Quanto aos sindicatos, António, quem nos dera a todos que os sindicatos desempenhassem as suas funções e não fossem meros representantes acéfalos de determinadas classes profissionais, ou meros instrumentos partidários.

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