Às armas

μάχεσθαι χρὴ τὸν δῆμον ὑπὲρ τοῦ νόμου ὅκωσπερ τείχεος
makhesthai khrê ton dêmon huper tou nomou hokôsper teikheos
O povo deve defender a lei como defende as suas muralhas

Heraclito, DK B44

*

Carlos Abreu Amorim, no último Directo ao Assunto, foi veemente na defesa da privacidade de Sócrates. Apesar de tal posição corresponder também a uma oportunidade de oposição a Ferreira Leite e trupe, não se pode duvidar da sinceridade das suas palavras quando diz que temos de estabelecer limites e que é inadmissível ter dois pesos e duas medidas consoante o alvo é um dos nossos ou um dos outros – ou seja, frisa que não vale tudo, que há mínimos de respeito e decência no confronto político. Acrescenta mais um argumento, este pragmático: querer violar a privacidade de Sócrates, reforça a sua posição. O raciocínio é óbvio, e ai do intelecto daqueles para quem não o seja. Ao contrário da percepção, um primeiro-ministro pode ficar numa situação pior do que a do vulgar cidadão quando é apanhado pelo sistema judicial. Isso resulta da notoriedade do caso, em que não pode escapar aos holofotes mediáticos, e também das forças que se movem. Um cidadão vulgar não tem partidos, sindicatos, empresários e jornalistas interessados no seu abate político e cívico através da exploração de um imbróglio jurídico. Sócrates tem. E como está em causa a sua privacidade, este caso é absolutamente extraordinário pela novidade e potencial danoso. Logo, o nevoeiro de guerra é cerrado e declarações como a do Carlos são raios de Sol que nos mostram o caminho por onde seguir.

Numa outra dimensão da sua intervenção, e nada despiciente, tomar a defesa dos direitos de Sócrates, assumidos como um bem da Cidade, reforça a credibilidade de qualquer crítica passada, presente e futura ao mesmo Sócrates que se consegue defender por básico dever ético. É com um misto de asco e incredulidade que observo a raridade desta atitude na oposição. Não merecem governar aqueles que são os primeiros a atacar as muralhas que nos protegem da barbárie, revelando estar dispostos a qualquer vilania para atingir o Poder.

Diminuir e achincalhar o cidadão José Sócrates, só porque é, transitoriamente, o titular de um cargo na hierarquia do Estado, não pode ter outra resposta que não seja a de pegarmos em armas e defendê-lo – porque somos nós que perderemos se ele perder qualquer um dos seus direitos.

5 thoughts on “Às armas”

  1. não te iludas. o CAA só diz isso porque o mais que tudo dele , o passos coelho socras 2 , disse também. se calhar porque um outro qualquer caa lhe disse que ficava bem. morrem de medo do inevitável , o josé pedro aguiar branco ( giro , nada barbie , tipo guterres 2 ) , que disse tudo ao contrário.
    o medricas caa até dedicou a crónica do CM ao assunto , dando a entender que foi um passo em falso do aguiar. mas não foi.

  2. “… e assim, à medida que o empresário [Manuel Godinho] foi fazendo telefonemas, a Polícia foi identificando os novos números dos outros arguidos e de José Sócrates, conseguindo reconstituir toda a rede de contactos. ” Sol

    Hoje, a grande novidade do Sol é que os arguidos foram avisados de que estavam a ser escutados e que terão deixado de usar os seus telemóveis habituais. Pois, não sabemos se é verdade ou se esta notícia, como outras, é para ser posteriormente desmentida. Contudo, reparei nesta parte do texto. Tem-se dito sempre que o primeiro-ministro foi escutado fortuitamente, uma vez que quem estava a ser escutado era o Vara. Mas com esta frase, a Felícia Cabrita diz-nos que a Polícia foi identificando os seus novos números(!?) Esqueceu-se foi de dizer com autorização de quem. Como quem não quer a coisa, coloca Sócrates no meio dos outros arguidos, ficando a ideia de que este fazia parte da rede de contactos de Godinho. Como tem de se fazer render a fruta, pode ser que para a semana nos explique melhor o que tentou insinuar com este texto.

  3. Essa madame, hoje na SIC do Crespo, lá foi dizendo, por perras palavras, que o PGR tem feito fretes ao nosso primeiro. Que horror de gaija!

  4. Valupi,

    “… aqule que já não sabia onde levava a estrada” (Heraclito)

    Asiim são os opositores de Sócrates. Derrotados e humilhados em eleições livres jogam mão de todos os meios sujos e perdidos por perdidos já não querem saber onde os leva o caminho que escolheram e para onde nos empurram a todos.

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