Paulo Rangel é o mais capaz para levar o PSD a expulsar o CDS do Parlamento. Porque este homem alia um apurado belicismo verbal à demagogia em último grau. Com ele a liderar o PSD, aquilo que a Manela não soube fazer por inépcia fatal seria então levado para um patamar de eficácia imparável e trituradora. A direita reaccionária e ressabiada vê nele a solução para pôr isto na ordem.
Repare-se no que a figurinha conseguiu fazer em poucos dias. Na quinta-feira de altíssima especulação com a dívida de Portugal, ao mesmo tempo que a bolsa se afundava e deixava a direita do capital em pânico cá no burgo, Rangel – um eurodeputado! – veio dizer o que Almunia nem sequer ousaria pensar: que Portugal estava em situação igual à da Grécia e que até poderia ficar pior. Estas afirmações, naquele dia e ditas por um político com o seu estatuto, são absolutamente irresponsáveis, se não forem antipatrióticas. E é essa a ideia que se retira do que declarou Cavaco, 24 horas depois:
Eu confio que os analistas externos que olham para Portugal e a própria Comissão – que fez através de um seu comissário uma declaração que eu considero infeliz e incorreta – espero que rapidamente corrijam essa apreciação em relação a Portugal. Porque não é só uma questão de injustiça, é uma questão de incorreção e eu posso afirmar isso correctamente.
Esta não é uma distraída estalada na cara do Rangel, trata-se de um pontapé nos túbaros, seguido de sessão de aconchego com pau de marmeleiro. Se o Almunia, nas palavras do Presidente da República, foi infeliz e incorrecto, que dizer da pulhice do Rangel, que vilipendia o interesse nacional para obter ganhos políticos que só existem na sua cabecinha oportunista? E alguém ouviu alguma crítica às suas declarações? Alguém ouviu algum pedido de desculpas?
O que se ouviu foi outra coisa, o novo delírio de um irresponsável para quem vale tudo:
Eu queria denunciar aqui aquilo que se está a passar em Portugal neste momento, onde é claro que a comunicação social trouxe à luz um plano do Governo para controlar os jornais, para controlar estações de televisão, para controlar estações de rádio.
Rangel está a insinuar que o Procurador-Geral e o Presidente do Supremo são cúmplices deste suposto plano. Rangel quer, por sua vez, chegar à presidência do PSD. A acontecer, será a primeira vez que um partido com vocação de governo será liderado por alguém que caluniou a hierarquia máxima do sistema de Justiça, e isto apenas 4 dias depois de ter tentado prejudicar a imagem de Portugal de modo a agravar as suas dificuldades financeiras.
Os abutres alimentam-se de cadáveres em decomposição. Não admira que Rangel seja um dos mais interessados na putrefacção da política nacional.