Todos os artigos de Valupi

A face oculta da Face Oculta

O populismo nasce sempre da exploração do ódio. A turbamulta é atiçada pela promessa de sangue fácil, de crime anónimo, de cobardia celerada. Para conseguir essa união de indivíduos com interesses tão díspares, até contrários, é preciso encontrar uma narrativa primária a que todos possam aderir, incluindo os que tenham as maiores dificuldades cognitivas, educativas e intelectuais. A falta de escrúpulos, perene ou momentânea, é o cimento que dá força a esta frente.

E é de frentismo que falamos desde finais de 2007, o período que coincide com a contestação a Correia de Campos, o desenlace da crise no BCP e o descalabro do BPN e BPP. De 2008 em diante, figuras ligadas a Cavaco Silva apareceram a defender o reforço dos poderes presidenciais, soluções governativas de iniciativa presidencial e até o abandono do semi-presidencialismo. Misturavam estas propostas com a retórica da explosão social caótica, promoviam cenários catastrofistas e de violência indefinida. O caso não era para menos: o maior abalo no tecido sociológico da direita tinha acontecido com a alteração no controlo do BCP, resultado da queda da mítica figura que unia a alta finança à santidade. Logo depois, veio a evidência de que parte do círculo cavaquista mais íntimo, tão íntimo que até tinha conseguido abancar no Conselho de Estado, frequentava um antro de escroques. A direita dos lusos negócios, pois, entrou em pânico e em modo de guerra total. Sentiram-se cercados, o chão a fugir-lhes debaixo dos pés. A quem iriam agora recorrer para obter financiamentos, fazer jogadas bancárias, deslocar capitais? Ao Santos Ferreira? Ao Vara?! Exigia-se vingança.

É sintomático que a resposta da direita à inventona de Belém tenha começado por ser a adesão entusiasmada, tendo sido logo aproveitada pelo PSD, e depois viesse a acabar no silêncio acabrunhado. Uma já assumida manobra de conspiração a partir da Casa Civil, a 1 mês das eleições Legislativas, ainda por cima tendo ficado sem responsabilização, revelou a duplicidade de critérios e a decadência cívica, moral e ética da actual direita. Por isso, ver no caso Face Oculta o aproveitamento da ilegalidade e da falência do Estado de direito – onde há agentes da Justiça e da comunicação social que são actores políticos na sombra e agem impunemente – resulta num espectáculo que expõe obscenamente a lógica do que está em causa: obter o Poder contra a Lei e contra o voto.

Não esperem facilidades, rapaziada.

Muito dreda

Em boa hora (a uma hora da cena, precisamente) o João Pedro da Costa (somos primos por decisão mútua) avisou-me que o documentário É dreda ser angolano ia passar na RTP2 (foi nesta sexta-feira passada). Então, finalmente, lá o vi. E o que vi é uma maravilha. A maravilha de não nos apresentaram Angola e os angolanos adentro do género documental coitadinhos ou pantomineiros. Não se explora a miséria nem se vende a ilusão. Não há explicações ou lições para dar seja a quem for, protagonistas ou espectadores.

Independentemente da discussão teórica e técnica acerca da realização e sua estrutura narrativa, que não importa para nada quanto ao que mais importa, temos ali um olhar que conseguiu o feito de nos apresentar os angolanos como pessoas. Cada um é uma pessoa, do taralhouco que mal consegue falar à mulher-polícia mandona, do músico orgulhoso ao vendedor de rua humilde. Cada um tem densidade, não é uma caricatura. A câmara tem aversão ao anedótico que despreza, prefere o anedótico que nos aproxima. Absolutamente notável.

Aliás, só por ficarmos a conhecer um pensólogo, ser desopilante e genial, este documentário merece ser visto e revisto muitas vezes.

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Para mais informações publicadas cá na casa:

É dreda ser Angolano

Ticha, trate-me por Ticha

O ludos favorece o logos

Estou uma vez mais de acordo com um artigo seu, embora não aprecie alguma fraseologia. Lamentável é, em grande parte, a linguagem e as considerações dos comentários. Julgo que se está a ser demasiado permissivo com a liberdade de expressão. Penso que não há que ter medo em dizer não à asneira, à maledicência, à infâmia, à velhacaria.

Aproveito para fazer minhas as palavras de Manuel Loureiro, e dizer-lhe Val, que devia seleccionar os comentários como faz a maioria dos blogues. Da maneira que alguns se comportam dá para notar que estão sempre à espera de poderem provocar e maltratar quem não compartilha das suas opiniões.

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Os nossos amigos Manuel Loureiro e Manuel Pacheco trouxeram uma dificuldade que é comum a muitos outros que não a expressaram, adivinho. Agradeço a oportunidade para partilhar o meu entendimento da questão e respectivas opções neste blogue.

A leitura do meu 1º texto no Aspirina B pode ajudar a esclarecer muito do que faço aqui, até muito do que aconteceu por aqui ao longo dos anos. Mas quero realçar que ele permanece actual, da primeira à última palavra. Para mim, isto de escrevermos num blogue é uma brincadeira. Resulta do exercício da minha liberdade. É o equivalente a estar no jardim da minha casa com o portão aberto e deixando que qualquer um entre – o espaço é meu, ou da equipa de autores, e ninguém é obrigado a entrar nem fica impedido de sair.

Por minha convicção na bondade dessa abertura, só admito limites à liberdade de expressão que resultem da Lei, do bom senso e do acordo com os implicados. Isto porque não ofende quem quer, e vejo como um erro crasso ficarmos afectados pelas palavras disparatadas, ou iradas, de quem não conhecemos de lado algum – para mais, discutindo assuntos que são públicos e polémicos. Por outro lado, todo o vernáculo, e todo o insulto, é por mim admitido e acarinhado. Sempre que alguém opta por gastar o seu tempo a escrever no Aspirina B, mesmo que se entretenha a chamar nomes aos autores ou aos comentadores, esse indivíduo está a manifestar uma preferência relevante: para ele, é importante participar, é algo que lhe faz bem – pelo que respeito e valorizo essa evidência, pouco me importando que o exercício tenha consistido num chorrilho de impropérios contra o autor Valupi.

Eu não procuro imitar os códigos estilísticos e de etiqueta em vigor num órgão de comunicação profissional qualquer. Isto não é um jornal, uma revista ou o canal informativo de alguma entidade. Isto é uma tertúlia, um gozo e a celebração digital da nossa cidadania. Tenho a certeza de que o nosso destino cósmico está ligado a esta procura de aprender, de conviver e de nos ajudarmos uns aos outros a crescer em direcção ao infinito.

Ministerium für Staatssicherheit

Que os imbecis pretendam chegar à pureza ideológica através de um Estado policial não surpreende. Mas que os ranhosos ataquem a privacidade e a Lei é espantoso.

Ver pessoas com idade e estudos para terem juizinho a usar a publicação de uma parte de um processo judicial para concluírem acerca das acções e intenções dos envolvidos é uma violência escabrosa, asquerosa, tenebrosa. Estão a violentar a própria lógica do Estado de direito, o qual não pode ceder a esses impulsos primários onde se acusa com base em aparências. Foi dessa selva que viemos, é a ela que querem regressar?

Não precisamos que alguém nos explique quão perverso é captar a privacidade de outrem para a explorar ao serviço dos mais desvairados interesses e objectivos. Como é que aqueles que levantaram as mãos para o céu contra um Estado que desconfia dos cidadãos, escandalizados com a possibilidade de divulgação dos rendimentos, se permitem este deboche de se arrogarem certezas acerca de situações relatadas em certidões? Pelos vistos, é essa a regra que querem ver aplicada quando um dos seus estiver em semelhante situação. E como estas alimárias estão a pôr em causa a honorabilidade do Procurador-Geral e do Presidente do Supremo – os quais sabiam que todas as escutas poderão acabar publicadas à má-fila, independentemente das ordens de destruição seja do que for – então, mais facilmente admitirão que numa comarca qualquer, um dia, se arranje um caldinho para dar cabo de uma liderança partidária, ou de um Governo, recorrendo precisamente ao mesmo método: arranjar uma desculpa legítima para escutar políticos, e continuar a escutá-los até eles fornecerem indícios suficientes para serem apanhados numa suspeição.

Escutar políticos é o mesmo que escutar advogados, juízes, militares, polícias, médicos, padres, os excessos emocionais numa situação traumática, as parvoíces da inexperiência, a discussão de um casal desavindo, as tonteiras de um bêbado. Cada um que olhe para a sua vida e a dos seus. Seria inevitável encontrar lá muitas vergonhas que a Stasi recolheria com água na boca. A Stasi ou aqueles que estão a defender a existência de um plano que passava por comprar o Presidente da República.

Sócrates ou um qualquer

A revelação de excertos das escutas a pessoas ligadas a Sócrates e ao PS, ontem feita pelo Sol, cumpre a última etapa de uma nova forma de fazer política em Portugal. Assistimos, pela mão do actual PSD, à completa instrumentalização da Justiça ao serviço de interesses políticos. E os factos falam por si:

– Pinto Monteiro não tomou as suas decisões por ter lido num jornal as certidões extraídas. Nem tinha como objectivo avaliar o caso em 20 minutos para ir a correr dizer mal dos malandros que nos governam.

– O Procurador-Geral teve acesso a todo o material enviado, incluindo as gravações na sua integralidade, e ainda solicitou adicionais elementos a Aveiro. Sem essa análise, e ponderação, as certidões permaneceriam insuficientes, posto que são uma interpretação sintetizada da investigação.

– Dado o melindre do caso, tanto por envolver o Governo e o Primeiro-Ministro, como por ocorrer nas vésperas das eleições Legislativas, não é crível que Pinto Monteiro não tenha posto o Presidente da República ao corrente da situação. No mínimo, terá justificado em Belém as suas decisões.

– O Presidente do Supremo terá feito exactamente o mesmo na sua relação com o Presidente da República.

Como 1ª conclusão, temos que o Chefe de Estado validou o desfecho onde se conclui pelo erro do Procurador e do Juiz em Aveiro. Assim, pertence ao domínio da grande hipocrisia vir reclamar a intervenção presidencial a mando de uma capa de jornal. Cavaco sabe muito mais do que aquilo que foi agora publicado, e sabe-o há muito tempo. Na demente teoria de conspiração que concebe o Procurador-Geral e o Presidente do Supremo como criminosos, todas as informações que fossem precisas dar para os desmascarar chegariam a Belém pelos mesmos que as colocam nos jornais. Tal eventualidade de ocultamento de ilícitos pela hierarquia máxima da Justica, e logo nos seus dois braços, é o equivalente a um golpe de Estado. Só um trafulha da pior espécie, ou quem está cego de raiva, se permite essa calúnia.

Continuar a lerSócrates ou um qualquer

Esta mulher não mente

Eu durante meses falei sobre esse assunto e, portanto, neste momento nada tenho a comentar, a não ser a certeza de que já falei nisso há muito tempo e que ninguém, provavelmente, levou a sério.

Ferreira Leite

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Calma, Manela. Eu levei-te a sério. Aliás, muito gostaria de saber como é que conseguiste falar deste assunto durante meses, e logo desde Junho – ou Maio… Tu e o Bandarra da Marmeleira, que aqui nos deixou esta solar profecia:

Mas temo que só depois das eleições é que se vá saber demasiadas coisas sobre esta governação e sobre o Primeiro-ministro. E temo que isso seja um fardo muito difícil de gerir, ganhe quem ganhar as eleições.

Silva

Mais um minuto e não teria apanhado este título, entretanto corrigido com a troca de “Silva” por “Cavaco”. Fizeram mal, porque quem hoje apareceu com este sentido de responsabilidade, cumprindo a missão para que foi eleito, não foi o Cavaco, conhecido irresponsável que se permite interferir nas eleições Legislativas contra um partido e a favor de outro ou que assusta a população para lhe falar de sintaxe açoriana. Cavaco faz comunicações para jornalistas e não permite que eles o questionem. Cavaco profetiza situações explosivas com o à-vontade com que outros garantem que vai chover. Cavaco conspurcou a Presidência ao não esclarecer o País acerca do envolvimento da Casa Civil na inventona de Belém.

Já chega de Cavaco. Aparece mais vezes, Silva!

Desgraçadas elites

O caso Mário Crespo é dos mais férteis na actualidade para ficarmos a conhecer o estado decadente de uma parte das nossas elites, à direita e à esquerda. Mantêm-se com poder porque Portugal ainda regista uma baixíssima participação cívica, pelas razões históricas conhecidas, não chegando estes artistas a serem confrontados e denunciados como os trastes que são. Seguem-se apenas três de dezenas de exemplos.

Leia-se Henrique Monteiro, director do Expresso:

Não posso condenar José Leite Pereira, não é do meu timbre julgar os outros. Apenas posso dizer que este é o panorama da nossa Comunicação Social: Grupos que dependem do poder do Governo, patrões que pressionam directores e editores até à exaustão, cronistas afastados por serem incómodos e uma multidão de lambe-botas que, prudentemente se cala ou arranja eufemismos para tratar a questão.

Henrique diz que José fez o servicinho a Sócrates. E depois despeja um alguidar de acusações genéricas, que a ninguém dizem respeito. Para quê? Talvez para melhor entalar o José Leite Pereira, atingindo-o na sua honra gratuitamente. Em nenhum momento reflecte acerca da substância da crónica em causa, a qual fazia uma acusação sem provas que remetia para factos passíveis de causar a demissão dos governantes nomeados. Porém, tem explicações conspirativas para rapidamente oferecer ao leitor. Esta postura, vinda do director de um jornal de referência, é chocante e degradante.

Leia-se Daniel Oliveira, vedeta da política-espectáculo:

Sem compostura e sem ideias, o PS entretém-se a tentar calar jornalistas e colunistas.

Ai, sim? Quais? Quando? Como? E se sim, então foi isso que aconteceu no episódio relato-inventado pelo Crespo? Mas, espera aí, tentar calar jornalistas e colunistas é algo que chega e sobra para dar cabo do PS. Como é que um jornalista, colunista, celebridade do BE se deixa ficar conivente com esses atentados à democracia e à Constituição? Que raio de denúncia é esta de que nada se aproveita, que para nada serve? A indiferença com que se calunia é bem a marca da completa perversão em que se tornou o espaço público.

Leia-se Domingos Amaral, que parecia um escriba sensato e cordato:

Demonstrando uma total ausência de “fair play”, revelando que não consegue passar por cima ou esquecer os excessos ou as meras diatribes de quem não gosta dele, Sócrates parece ter como desporto preferido a tentativa de silenciamento de certas opiniões.

Em nenhum passo do texto se lê a mínima alusão aos ataques de que Sócrates foi alvo assim que chegou a Secretário-Geral do PS. Apresenta-se apenas o efeito das sucessivas conspirações lançadas para cima de Sócrates e a sua natural, e legítima, resposta. Esta aberrante deturpação na análise não se pode dever a uma educação medíocre ou defeituosa, quero eu crer. Acima de tudo, fica como um mistério a coexistência na mesma pessoa de um legado de excelência moral e intelectual, vindo da família e da formação escolar, e o deboche de fazer acusações gravíssimas que não prova.

Curiosidades do reino da estupidez

Uma das mais desvairadas e hilariantes provas de estupidez, nestes tão interessantes tempos, vem daqueles que reclamam ter Ferreira Leite previsto o actual problema que envolve a Grécia num mecanismo especulativo internacional em tudo igual à dinâmica da crise do petróleo em 2007 e 2008. Neste caso do crude, qualquer bater de asas na Nigéria fazia acontecer uma tempestade em Nova Iorque e Londres. Foram dadas todas as explicações possíveis para introduzir racionalidade no que se passava, apenas para se chegar a Julho e, ainda sem explicação, o preço do petróleo começar a descer. Em Junho, muito cromo da TV afiançava que no final do ano estaríamos com o barril a 250 dólares. Em Dezembro e Janeiro, em grande parte por causa da hecatombe financeira mundial, os preços estavam em mínimos inimagináveis no pico da crise. Não é só o amor, a economia também é fodida.

Mas voltemos à Manela, essa presciente maga do deve e haver. Para além de ter revelado a verdade acerca da maior crise internacional dos últimos 80 anos – apenas um abalozinho, como bondosamente informou – ficaram marcadas a ferro e fogo na memória as suas afirmações em Aveiro, local escolhido a preceito para anunciar que o seu telemóvel podia estar a ser escutado. E foi isto que ela disse:

Tenho tanto medo de ter o telemóvel sob escuta que até já comecei a falar em grego quando me ligam. Claro que eu não sei nada de grego, mas pelo menos o Governo não fica a saber o que eu penso.

Como traduziu o Pacheco Pereira, dias depois destas declarações, a Manela estava a profetizar em Maio de 2009 a crise grega de Janeiro de 2010. Uma crise causada pela vitória de Sócrates e inevitável abalo de confiança nas agências de rating que tinham de começar por algum lado. Calhou começarem pela Grécia por mero acaso, pois tinham ido até Mykonos para um congresso.

E prontos. O resto é História. Todos nos recordamos vivamente que Ferreira Leite passou a campanha a falar dos CDS para aqui, os CDS para acolá, que até seria giro fazer uma coligação com os CDS. E quando se saiu com aquela observação prenhe de sensatez e audácia – Eu não quero saber se a situação de Portugal é igual à da Grécia ou não. A verdade é que as agências de rating acham que é. -, o eleitorado ficou bem ciente do que estava realmente em causa. Depois, o tal azar, aquilo do PS ter vencido as eleições, foi magnificamente ilustrado por um dos nossos maiores, o Seven-Up dantesco:

É bem feito. O país votou nessa cambada. O país prefere a porcaria. Já está formatado para viver nela e com ela.
Sirvam-se. Ponham-se a jeito. Besuntem-se.

A nova maioria resolve

Depois de mais este contributo do Sol para a Política de Verdade, não será difícil aos partidos da oposição resolverem o problema. E o problema está praticamente resolvido, porque não vamos agora desconfiar do juiz e do magistrado em Aveiro que tiverem muito tempo para pensar antes de avançar com a extracção. Em Lisboa, como tanta gente boa disse, é que estão os maus da fita, esses malandros do Procurador-Geral e do Presidente do Supremo, ambos feitos com os meliantes. Assim, o problema já só espera a inerente consequência política: ou o Presidente da República demite o Governo ou o Parlamento censura o Governo. Mas despachem-se, temos outros assuntos para tratar.

Foliões

A 28 de Setembro, os partidos da oposição consideraram uma vitória ter desaparecido a maioria parlamentar do PS. Disseram que Portugal deixava de estar asfixiado, agora iria respirar fundo. A nova maioria trataria de pôr na ordem o Governo minoritário.

De seguida, os partidos da oposição foram convidados a participar na governação, tendo sido recebidos em igualdade de estatuto. Tudo estava em aberto, o PS não tinha preconceitos ideológicos, mas tinha o seu Programa. Os partidos recusaram a possibilidade de garantirem estabilidade e serem parceiros de desenvolvimento, disseram que serviam melhor o País se o Governo permanecesse periclitante.

Os partidos da oposição, honra lhes seja feita, revelaram-se bem melhores do que a encomenda: PSD e CDS são absurda e contraditoriamente despesistas, BE e PCP mandam ainda mais dinheiro para a Madeira.

Desconfio que o eleitorado não votou neste Carnaval.

Vénus & Marte

Neste artigo, noticia-se um estudo acerca do ciúme onde os resultados apontam para a confirmação de uma clássica divisão entre mulheres e homens: as mulheres perdoam a infidelidade sexual, mas não a infidelidade afectiva; os homens não querem saber da infidelidade afectiva, mas são implacáveis com a infidelidade sexual.

É assim contigo?

este nojo vai ficar aqui disponível anos e anos

No dia em que o país era confrontado com estes números: Orçamento 09, versão 05 (Jan 2010): Deficit de 9,3% do PIB o primeiro-ministro e dois ministros dedicavam o seu tempo e as suas preocupações não ao orçamento muito menos às implicações desse orçamento na vida dos portugueses. O que estava em causa era a única coisa que preocupa esta oligarquia: o que se diz deles. Agora os milicianos que têm por aí tentam desvalorizar o Mário Crespo. Mas quem dedicou parte do dia da apresentação do orçamento a falar do Mário Crespo foi o primeiro-ministro: «Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento. O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa.» – A isto chama-se gente sem vergonha.

Helena Matos

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E a isto, chama-se o quê?

Até tu, João Soares?

Crespo foi hoje para a porqueira exibir o seu avacalhante ar de gozo. Acabava de saber que tinha vencido. Três Ministros, um deles chefe do Governo, um director da SIC e uma vedeta da TV, todos têm de se sujeitar a prestar declarações acerca das suas conversas privadas num caso em que só a calúnia existe como matéria de facto. Crespo calunia e ganha: não ficou a falar sozinho.

Um dos convidados desta noite foi João Soares. É público o seu asco pelas escutas, qualquer escuta. Pois bem, o caso Mário Crespo é um caso de escutas. Como não foram feitas por nenhuma autoridade – pode até nem existir qualquer registo para lá do testemunho de terceiros – todas as manipulações são possíveis e não se tem a certeza de nada. Crespo diz-se a vítima mas é ele quem aparece ao ataque. O sentido que dá às citações implica que Sócrates deva ser demitido pelo Presidente da República, juntamente com os outros dois Ministros presentes. No mínimo dos mínimos, o Parlamento devia instaurar uma comissão de inquérito, pois não é admissível que o Governe atente contra a liberdade de algum jornalista – seja ele quem for, como é óbvio. Qualquer cidadão que expresse a sua convicção de que Sócrates persegue jornalistas está, no mesmo passo, a declarar que Sócrates deve ser destituído. E são muitos os que declaram publicamente que Sócrates persegue jornalistas, pelo que, se calhar, está na altura de os partidos da oposição, ou os jornalistas perseguidos, fazerem frente a essa situação aviltante e ilegal.

Voltemos ao João Soares. Lá vai ele para o talk-show do Crespo, um espectáculo de transformismo vendido como serviço noticioso. Crespo está impante e magnânimo, a classe política divide-se entre aqueles que rastejam a seus pés e os outros que ele humilha e tenta destruir. Crespo é o maior, derrotou o Regime. Pode dizer o que quiser de quem quiser quando quiser e como quiser. Do Portas ao Balsemão, passando por comunas alucinados, recebe louvores e apoios. E se tal não me pode surpreender, ver João Soares contribuir para a satisfação de um pulha deixa-me perplexo: que é feito da sua consciência ética, para quem guarda a indignação?

Sick da SIC

O caso Mário Crespo é de extrema importância para o diagnóstico da nossa saúde moral. E não precisamos de saber mais nada para além do que já foi publicado em ordem a tirar conclusões a montante e jusante da polémica.

A montante, estamos perante uma figura pública, jornalista há décadas, que faz uma acusação a três Ministros com base em supostas declarações que não foram autorizadas a serem publicadas, das quais não se apresentam provas, e que são apresentadas em fragmentos descontextualizados das supostas falas respectivas. O jornalista junta a esta acusação mais duas: a de ter sido afastado do JN e a de Medina Carreira ser também alvo da mesma ameaça que alega ter sido feita contra si. Crespo usa a expressão solucionar o problema como citação literal do que afirma ser uma intenção de o prejudicar.

A jusante, reina a algazarra na feira da calúnia. A exploração sensacionalista, e a impotência dos derrotados, cega de ódio à esquerda e à direita. Repete-se a manobra do caso TVI, onde se utilizaram indícios, ou informações, para acusar sem crime. A impunidade com que se ataca o carácter de Sócrates é espantosa, qualquer macaco se acha no direito de fazer processos de intenção sabendo de ciência certa que nada lhe acontecerá. Mas não só o carácter de Sócrates, antes todo o Governo e PS vão na enxurrada que reduz o combate político à intriga mais chula de que são capazes.

Crespo tem dito e escrito o que lhe dá na telha desde que está na SIC e no JN. Já correu a maralha da política nacional com os seus espasmos verrinosos, não deixando palhaço sobre palhaço, e nem um processo recebeu para se consolar e ostentar na lapela. Mesmo assim, permite-se denegrir pessoas – que nos representam politicamente – por razões que se esgotam nos seus interesses e vantagens. Este caso, na sua faceta mais grave, revela que uma parte da nossa comunidade – muito vocal porque domina posições políticas, mediáticas e sociais – despreza o Estado de direito.

Eis mais um dos legados de Sócrates, entre outros de fértil destino, este de nos estarmos a conhecer de ginjeira.