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Pacheco prepara adesão ao Bloco

Isto do Pacheco estar no PSD é um erro de casting. Não foi um acaso a alergia que a sua presença sempre causou no povo social-democrata, trata-se de uma aversão que nunca como agora foi tão marcada. Exemplo? Nesta última edição da Quadratura, o marmeleiro declarou a inutilidade de continuar com a Comissão de Ética. Ora, esta é uma iniciativa do PSD, presidida por um deputado do PSD. Depois, afirmou que se deve viabilizar a comissão de inquérito que o BE pretende. Essa, sim, é que vai conseguir entalar o engenheiro. Entretanto, o mesmo BE incluiu Fernando Lima na lista de audições na Comissão de Ética. Será que o Pacheco também está sintonizado com essa escolha ou, pelo contrário, é por causa dessa e outras escolhas que pretende acabar com a coisa? Nunca o saberemos.

Mas ficámos a saber algo muito mais importante. Pacheco partilhou a sua suspeita de que Sócrates trocou de telefone ao ser avisado de estar a ser escutado e que foi só após essa troca que foi gravada a conversa onde ele se mostra contrariado por não ter sido avisado da intenção de entrada da PT na Media Capital. Assim, um dos argumentos do Procurador-Geral para ilibar o malandro pode não passar de uma farsa, foi divulgado em primeira mão na SIC Notícias. Muito bem, temos Sherlock.

Acontece que também temos deputado. Como é que um deputado da oposição convive com uma suspeita – expressada em forma de certeza – deste calibre? Não pode um deputado do meu país denunciar no Parlamento um Primeiro-Ministro acerca do qual garante estarmos perante um criminoso, em vez de ter de andar pelas televisões a espalhar suspeições, coitadinho? Talvez tudo fosse mais fácil se o Pacheco mudasse para a bancada do BE. O ódio a Sócrates é exactamente igual nos dois partidos, mas o Bloco está mais avançado no processo de explorar as escutas até à última gota de sangue socialista.

O ex-maoísta, actual mauísta, anseia por regressar ao frenesim revolucionário. A Manela foi apenas um estádio dialéctico, o penúltimo, do seu percurso.

Semiótica da Política de Verdade

Quando eu levantei essa questão não tinha conhecimento de nenhumas escutas. As escutas neste momento vêm simplesmente confirmar aquilo que foi dito apenas na base dos sinais, sinais esses que eram evidentes.

Ferreira Leite

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Na Política de Verdade a honra alheia, ou a mera legitimidade política, é uma questão de emissão e recepção de sinais. Seja, pois. Nesse caso, quais foram os sinais recolhidos em Junho que permitem confirmar o que vem nas escutas? Ou ainda melhor: o que é que vem nas escutas?

A presidente do maior partido da oposição está a dizer uma de duas coisas: (i) que conhece as escutas e as avaliou de forma suficiente para fundamentar a sua acusação; (ii) que é legítimo utilizar para fins de combate político notícias não confirmadas pela Justiça, as quais constituem enquanto matéria publicada um acto criminoso, e nas quais se apresentam alegados fragmentos de escutas relativos a uma fase de um processo judicial. Em qualquer dos casos, estamos perante um curto-circuito na epistemologia da política, a qual não deve utilizar escutas como arma de arremesso sob pena de fazer ruir o Estado de direito. Qualquer escuta é uma violência que gera violências – e ter de verbalizar esta evidência é bem o sinal da tragédia que a divisão partidária actual gerou. Se os critérios de legitimação dos governantes decorrem da interpretação que as oposições façam de escutas à privacidade desses mesmos governantes e equipas subsidiárias, então a Constituição deixa de ser válida, o sistema de Justiça será trocado por tribunais populares. O PS, face a estes ataques que já provaram não ter limites cívicos ou éticos, encontra-se isolado na defesa da legalidade e da democracia. À sua volta prepara-se a carnificina, num desses momentos da História onde a cobiça leva à cegueira.

Voltemos à Manela. Ela diz que Sócrates mente, logo que tem um plano para condicionar a comunicação social e que há factos que o provam. E vai mais longe:

Não há um português que não esteja desconfiado da isenção e da independência da justiça em relação ao Governo. Pela sua atitude, por todos os mistérios em que tem estado envolvido e esses mistérios não se desvendarem, leva a que as pessoas pensem que a justiça tem algo que não está correto na sua actuação.

Ou seja, o Governo tem um plano para acabar com a liberdade de imprensa e a Justiça é cúmplice dessa manobra. Ao mesmo tempo, o PSD viabiliza o Orçamento, não apresenta uma moção de censura e nem sequer propôs uma comissão de inquérito parlamentar para investigar os abundantes factos indiciando crimes variados, lembrou-se apenas da Comissão de Ética em resultado do raio do Sol e ficou-se pela abstrusa questão da liberdade de expressão.

Pergunta: tendo em conta estes sinais, não seria altura de encerrar o PSD por básico respeito pela Política de Verdade?

Um sábado animado

No dia 20 decorrerá uma manifestação contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Vamos estar em frente ao São Jorge, a partir das 15h, a estragar esta procissão da “família” e do patriarcado que desce a Avenida para roubar aquela liberdade recentemente conquistada.

Somos toda a gente: pais, mães, do Estrela da Amadora, maridos, amantes, fufas, heteros, avôs e tudo o resto. Por isso estaremos lá contra a discriminação e a homofobia, mas sobretudo pela Liberdade e pela Igualdade.

Juntas-te?

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Gostaste? Toma lá mais.

La grande bouffe

José Manuel Fernandes e Mário Crespo insultam e caluniam Sócrates com maníaca persistência. E são dois jornalistas com décadas de prática e acesso a poderosos meios de comunicação com poderosos recursos para investigar o que lhes der na telha. Por alguma razão que me escapa, nada provaram até agora que legitime o ódio que dirigem ao Primeiro-Ministro. E as suas declarações na Comissão de Ética, havendo coerência na sociedade, levaria a que nunca mais se perdesse um segundo com o que andam a espalhar há anos.

O Zé Manel foi para a frente dos deputados contar anedotas. Uma delas é a de que a SONAE perdeu o mais importante negócio da sua história para defender o incompetente director de um projecto deontológica e financeiramente ruinoso. Outra foi a recuperação dos métodos de Brejnev contra os dissidentes, que recentemente o Pacheco garantia serem só de uso em Portugal pela frente da calúnia.

Com Mário Crespo o circo instalou-se na Assembleia da República. Eis um colosso de egolatria e devassa. O número das fotocópias mostra o seu desprezo pela instituição que o convocou, tratou os deputados como público para a sua actuação. O número da camisola revela um inimputável a desafiar a dignidade de um concidadão que, paradoxalmente, está limitado pelo poder que representa. Mas foi o número de caixeiro-viajante que me fez bater palmas frenético. O cabrão teve o descaramento de sacar do seu livro e fazer a promoção do mesmo no meio de uma comissão parlamentar aonde foi chamado a prestar declarações acerca da liberdade de expressão e de imprensa. Isto foi feito com voz chorosa e rosto compungido, uma manipulação emocional só ao alcance dos actores profissionais e dos grandes bufões.

O que une estas duas figurinhas da baixa política, e da cultura de calúnia, é a megalomania. Cada uma delas, à sua maneira, despreza os políticos que conhecem de formas tão promíscuas, e de tantos carnavais. Eles têm décadas de frequência dos bastidores do Poder, décadas em que chafurdaram nos segredos de alcova das elites que lhes pedem favores ou contas. Em resultado de tão longa exposição ao ecossistema dos privilegiados, ficaram intoxicados de cinismo, despeito, velhacaria.

São ogres, literalmente.

Tectónica da democracia

A ideia de que Sócrates teria um plano para dominar a comunicação social, de forma a conseguir afastar jornalistas incómodos e garantir notícias simpáticas, não resiste a nenhum tipo de análise. Não é que seja impossível ter existido, posto que há malucos para tudo, apenas fica como uma aberração que obriga a desligar o córtex. O plano só é concebível como grosseira fantasia, caricatura que apaga toda a logística, complexidade e consequências que supõe tal operação. Mesmo assim, muitas figurinhas supostamente educadas, cultas e de intelectos sofisticados, à direita e à esquerda, declararam estar compradoras do produto. Umas por debochado oportunismo, outras porque são irremediavelmente idiotas.

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Política da terra queimada

Depois de se ter colado a Almunia na tentativa de afundar ainda mais as contas públicas, dizendo que Portugal ia ficar pior do que a Grécia.

Depois de ter usado da palavra no Parlamento Europeu para dizer que Portugal não é um Estado de direito e que o Governo tem um plano para controlar a comunicação social, fazendo do Presidente do Supremo e do Procurador-Geral cúmplices deste plano.

Está na altura de Paulo Rangel denunciar em Estrasburgo, Bruxelas, Paris ou Bona que Constâncio é o perigoso meliante responsável pelos buracos no BCP, BPN e BPP.

O autor da frase Credibilidade da política não está na ética tem sido exemplarmente coerente com o seu pensamento. E Aguiar-Branco que o diga, se tiver estaleca de líder. Se apenas for o palhaço do Pontal, então pode continuar caladinho.

O fim do Regime e o começo da dieta

Entre o grupelho de castiços que gastou a hora de almoço para fazer a manifestação mais ridícula dos últimos 30 anos, alguns defendem que o Regime está no fim. Não se sabe ao certo o que eles querem, mas seguramente que terá a ver com a mudança de mão no Poder. Isto das eleições democráticas não lhes serve, eles querem outra solução mais expedita e simples para que os seus amigos ocupem S. Bento, posto que em Belém já lá estão.

Tendo em conta que não devem ter chegado a 40, embora digam que eram 100 seguindo a tradição dos sindicatos, não admira que ao espectacular fiasco tenham juntado a gloriosa argolada: começaram logo, in situ, a dizer que a providência cautelar contra a edição do Sol do dia seguinte provava as suas razões e justa causa. Havia censura em Portugal porque um cidadão tinha recorrido a um tribunal, era a tese. Nessa mesma noite, contudo, começaram a levar nas orelhas dos seus amiguinhos. Pacheco e Lobo Xavier, na Quadratura, disserem que a liberdade de expressão ou de imprensa não está ameaçada, que tal protesto era disparatado. E depois também levaram com variadas vozes na direita, das que ainda não alucinaram, a declarar absurda e de má-fé a acusação de censura a propósito de uma providência cautelar.

O que importa realçar, para lá da magnitude da estupidez e oportunismo senil do movimento Todos pela Liberdade, é a composição social e profissional dos seus mentores e agitadores. Trata-se de pessoas que, nalguns casos, são especialistas em Direito e exercem funções académicas e empresariais de relevo. Dispõem de condições de acesso aos meios de comunicação que o vulgar cidadão não tem nem terá. Os asfixiados da camisola branca são um bando de privilegiados, vivendo com benefícios de classe que estão muito acima da média nacional – tanto a ala reaça como a ala comuna desta mixórdia.

Em resultado dos resultados, aconselho que deixem de tentar acabar com o Regime e comecem uma salvífica dieta. É que estão anafados com tanto desprezo pela democracia, qualquer dia nem uma manifestação à varanda vão ter forças para fazer.

Cineterapia


Tokyo monogatari_Yasujiro Ozu

É preciso envelhecer para entrar neste filme. Já não ter pressa. Ficar sentado a olhar.

Uma espiral começa vagarosamente. A curva finge ser um grande círculo. Aos poucos, e muitos, acelera. O movimento dirige-se para o ponto de eterno repouso.

Pais que vão a Tóquio visitar os filhos, os netos e a nora. Filhos que estão demasiado ocupados para estar com os pais. Os pais também não querem estar com os filhos. São estranhos uns para os outros, há muito que deixaram de se conhecer. O tempo separou o acaso, acabou com a família.

Na foto vemos Noriko. Ela regressa a Tóquio vinda do funeral de Tami, a sua sogra. Guarda nas mãos o presente de Shukishi, o seu sogro. Shukishi descobriu que Noriko lhe é mais próxima do que os seus filhos e netos. E deu-lhe o segredo do sentido da vida, pertença de Tami até à sua morte.

Este filme foi feito em 1953. E nunca envelhecerá.

Qual é a parte?

O Presidente do Supremo declarou que avaliou todas as escutas relativas a Sócrates e que nelas não encontrou nenhuma matéria com relevância criminal. Mais acrescentou que chegou a tomar conhecimento de outras que faziam parte do conjunto, mas que já não teria de avaliar. Também nessas não encontrou matéria criminal.

O Procurador-Geral declarou que não encontrou nas escutas a Sócrates nenhum indício de crime contra o Estado de direito nem de qualquer plano para controlar a comunicação social. Mais acrescentou que em Aveiro é que se devem investigar todos os restantes despachos que não envolvam directamente o Primeiro-Ministro.

Qual é a parte que os pulhas não querem aceitar?

For whom the bell tolls

O ataque ao Estado de direito vem das classes privilegiadas. Neste sábado, ter assistido ao Eixo do Mal e ao A Torto e a Direito foi confirmar a decadência das elites portuguesas. Para além daquelas pessoas se divertirem com a desgraça alheia, é o exemplo que dão que fica como um trágico testemunho do nosso atraso cívico. Salve-se o Francisco Teixeira da Mota, os restantes são cúmplices da manipulação criminosa que utiliza materiais judiciais para construir uma acusação política. As suas paixões partidárias e ideológicas reinam supremas e destroem a mais leve consciência dos direitos que assistem aos visados e vítimas dos crimes.

Repare-se que não se fala da matéria dos despachos e das escutas para discutir formas de investigar as questões implícitas, antes se dá rédea solta a sentimentos de vingança e ódio. Para estes comentadores, não há qualquer dever de isenção. Pelo contrário, promovem o sectarismo, mesmo quando a dimensão do problema transcende a natureza partidária. O Estado de direito diz respeito ao fundamento primeiro do que nos permite ser uma comunidade de paz e desenvolvimento, não pode estar sujeito aos ataques oportunistas que apenas visam a eliminação dos adversários. Não vale tudo.

Como é que eles sabem que as escutas, e sua interpretação pela Judiciária e Procuradoria em Aveiro, são capazes por si só de levar a uma conclusão do que significam e implicam? Que deboche vem a ser este de acusar sem prova? Acaso gostariam de ver relatos da sua vida pessoal na imprensa se se vissem num processo similar ainda a esperar desfecho judicial? Será possível que não admitam erro, equívoco ou conspiração nos elementos publicados? Por se tratar de Sócrates, permitem-se anular a presunção de inocência dos envolvidos, o direito à privacidade e ao bom nome, e ainda o segredo de Justiça? É que estamos a falar de documentos na posse de magistrados, não se está perante a denúncia de algo novo e carecer de acção judicial. Acima de tudo, fazer de meros indícios armas políticas é um retrocesso civilizacional que conduz à barbárie. Como é que estas pessoas iriam reagir se um seu inimigo preparasse uma armadilha onde se gravavam conversas que os implicavam em crimes? Aceitariam que a comunicação social, e os seus adversários políticos, de negócios ou pessoais, utilizassem esses materiais numa campanha difamatória destinada a retirar-lhes poder, privilégios e direitos?

À luz do exemplo que estas pessoas dão, e adentro da sua influência mediática, fica patente existir uma crise moral e cívica na sociedade portuguesa cuja magnitude ultrapassa os limites do que até agora era imaginável. Só há uma coisa a fazer, contudo: denunciar quem está a pôr em risco toda a comunidade ao desprezar as garantias constitucionais e legais a que temos direito.

Curiosidades do reino da estupidez

A direita, sem conseguir conter o riso, compara Santana com Sócrates. Diz que Santana foi abaixo por muito menos, pelo que… estará Cavaco a proteger Sócrates? A actual direita não é conhecida por ser intelectualmente brilhante, por isso não admira que os seus raciocínios acabem por se virar contra si com tanta frequência. Este é apenas mais um momento em que teria a ganhar se ficasse caladinha.

Façamos a comparação:

– Com Sócrates, as calúnias, insídias e suspeições começaram com o Freeport, em 2004, e não mais pararam. O que há de notável não é a quantidade de casos, pois se podem inventar conspirações contra qualquer pessoa em qualquer altura, com muito maior frequência e gravidade quando essa pessoa ocupa o Poder e é atacada pelos contrapoderes e poderes rivais. O extraordinário é a incapacidade para se formalizar uma acusação, nada tendo sido encontrado até agora, mesmo depois de se vasculhar o seu passado escolar e profissional. Por cima destes casos e respectiva pressão, temos visto o Governo, o anterior e o actual, sempre impecavelmente unido e cumpridor das suas responsabilidades ministeriais.

– Com Santana, e infelizmente para ele, esteve sempre em causa a legitimidade política da decisão de Sampaio. Caso tivesse optado pelas eleições quando Durão fugiu, e caso Santana ganhasse, então o Governo teria a robustez suficiente para ultrapassar as situações que levaram à sua queda. Essas situações não diziam respeito à pressão mediática, mas a dois factos do foro interno da governação: a oposição de figuras gradas da social-democracia, as mais importantes sendo Marcelo e Cavaco; um ambiente caótico na relação de Santana com a sua equipa governativa.

Resulta da comparação que estamos perante o incomparável. Sócrates é um alvo, Santana era um alvoroço.

Isto é só para tentar engatar a mdsol

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A. está muito envaidecido, pensa estar bem avançado na prática do bem, já que, sendo aparentemente um alvo cada vez mais atractivo, se sente exposto a tentações cada vez maiores vindas de direcções que lhe eram até agora completamente desconhecidas. A explicação correcta é, contudo, o facto de um grande diabo se ter instalado nele e uma infinidade de diabos mais pequenos se aproximarem com o intuito de servir o grande.

A ist sehr aufgeblasen, er glaubt im Guten weit vorgeschritten zu sein, da er als ein immer verlockenderer Gegenstand immer mehr Versuchungen aus ihm früher ganz unbekannten Richtungen her sich ausgesetzt fühlt. Die richtige Erklärung ist aber die daß ein großer Teufel in ihm Platz genommen hat und die Unzahl der Kleineren herbeikommt, um dem Großen zu dienen.

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Franz Kafka, «AFORISMOS», Assírio e Alvim, p. 35