Para além do voto ser secreto – ou seja, anónimo – a Internet também é avessa a identidades. Isto porque não há forma de garantir que aos caracteres digitais correspondam cara e carácter. Qualquer um pode imitar qualquer outro, até um endereço de email pode ser falsificado ou usurpado. Aliás, a possibilidade de brincar num baile de máscaras, assumindo diferentes personalidades ou permitindo-se excessos, é um dos fascínios do meio e factor da sua imediata popularidade. Só um labrego é que chegaria ao ponto de vir para a Internet fazer queixinhas dos anónimos, o equivalente a ir para uma praia de nudistas protestar contra o exibicionismo. Qual será a proposta seguinte destas alimárias, um código de barras na testa não vá alguém começar a dar palpites na via pública sem estar devidamente identificado?
A perseguição aos anónimos, que faz parte da pulhice e indigência intelectual que marca a oposição, fez do Câmara Corporativa, do Jugular e do Aspirina B os exclusivos alvos por serem blogues que permitem alimentar uma conspiração anti-Sócrates – mais uma, a enésima. O irresponsável Pacheco é o mais importante cultor desta tosca mentira, o resto um bando de marias-vão-com-as-outras que dirão qualquer coisa, não importa o quê, desde que tal não lhes exija exercícios neuronais. O paroxismo na sanha foi atingido quando se passou a considerar o uso de pseudónimo como equivalente ao anonimato. O raciocínio é o seguinte: não sei quem é a pessoa que assina assim ou assado, logo, é um anónimo. Trata-se de um pensamento à cabo de esquadra, com bigode farfalhudo e pança cheia de ar.
Entretanto, surgiu uma nova modalidade neste desporto: o anonimato à força. É o que faz o Luis Rainha, nesta nugacidade. O Luis comenta um texto meu, mas sem me nomear. Será já o tal ostracismo, de que fala o Lomba, a funcionar? Começa por se apagar o nome dos registos oficiais, depois riscam-se os baixos-relevos e acaba a partirem-se as estátuas? Acontece que o Luis é o principal responsável por eu escrever neste blogue, foi ele que me convidou para o projecto no Verão de 2005. Jantámos duas vezes, talvez ainda tenha o meu número de telefone e emails pessoais – e sabe tudo a respeito da minha profissão, que continua a ser a mesma apesar de não ser com os mesmos à época. O Luis é um de vários ex-autores do Aspirina B que me conhecem com este detalhe de informações biográficas. E outros deste grupo de autores até conhecem muito mais a meu respeito, pois somos amigos. Não há nada de secreto na minha vida que não o seja na de todos. No entanto, este indivíduo não é capaz de me nomear – sendo que Valupi é um dos meus nomes, aquele que escolhi para este meio dentro da liberdade de me dar uma alcunha. Noutros lugares tenho outras alcunhas. Alguns colegas de rua, escola e meio profissional só me conhecem por alcunhas, nunca precisaram do BI para me apertar a mão.
Enfim, perante tanto moralista de archote na mão e nariz empinado, quem pergunta sou eu: mas quem são estes gajos?