Todos os artigos de Valupi

Asfixia alvar

O grupo de expedicionários que foi para a frente da Assembleia da República fazer número (um número à volta do algarismo 30), num protesto contra o plano de Sócrates para comprar televisões, jornais, rádios e castanhas assadas com dinheiros das empresas públicas, continua activo? Trocam inflamados emails? Estará na calha um blogue para denunciar o engenheiro? Já marcam presença no Facebook? Vão fazer novas manifestações? Irão juntar-se num lauto e festivo almoço em 2011 para comemorarem o 1º ano do movimento que libertou Portugal?

Será uma pena se essa união nacional deixar aburguesar-se e desmobilizar.

Quando o telefone toca

Henrique Monteiro, na Comissão de Ética, repetiu o que andamos a ouvir há três anos dos guardiões da Verdade, e o que ele próprio já tinha contado na altura: que Sócrates, em certas situações, ligou para directores de jornais. Pelos vistos, com o Henrique só aconteceu uma vez; ou teria contado mais histórias. E o episódio diz respeito a uma suspeição que visava apenas atacar o carácter do Primeiro-Ministro, não a tópicos de política partidária ou governativos.

Estamos perante uma pressão? Estamos. Mas do género baixa pressão, daquelas onde se mete muita água. Para começar, o telefonema relatado foi privado, o que também pode sugerir intimidade, ou confiança, ou respeito, ou hombridade. E eis o extraordinário: terá durado hora e meia. Hora e meia, mais coisa menos coisa, são 90 minutos. 90 minutos para fazer um pedido manhoso? 90 minutos para fazer uma ameaça? 90 minutos para fazer uma chantagem? Que tipo de pressão telefónica demora 90 minutos a ser realizada? Diria que Monteiro não pode servir a Deus e ao Diabo: se a conversa era para o pressionar de qualquer forma ilegítima, teria tido curta duração; se a conversa se arrastou por hora e meia, foi do interesse do pressionado.

Não têm conta as bocas de notáveis acerca da normalidade das pressões sobre jornalistas. É matéria de manual escolar. E nem vale a pena tocar na promiscuidade das relações entre a política e a comunicação social, monumento à simbiose. No entanto, Henrique Monteiro elegeu uma conversa com Sócrates como exemplo de uma grave intromissão na liberdade de imprensa. Fica provado que é um incorruptível, mesmo quando o fazem falar ao telefone durante hora e meia.

Why The Media Seems Biased When You Care About The Issue

Este artigo recorda um estudo dos anos 80 que expõe o mecanismo pelo qual nascem polémicas à volta da cobertura noticiosa dos assuntos que mais nos importam. A conclusão é a seguinte:

– Quando estamos envolvidos numa questão, tendemos a radicalizar a nossa posição de forma a vermos o assunto a preto e branco.

– Uma cobertura equilibrada, isenta, dessa questão irá parecer cinzenta; logo, iremos reparar no que falta e no que se opõe, não no que lá está e com o qual concordamos.

Enfim, só vemos o que queremos ver, não o todo que está à vista.

Sócrates fan club

Não existem socráticos. Ou melhor, os socráticos são os que detestam Sócrates. São eles que passam os dias em exaltada obsessão com o engenheiro. Os dias? As horas. A quantidade de textos produzidos contra Sócrates é avassaladora. Nada mais existe para estes infelizes a não ser a magnífica presença do Primeiro-Ministro, motor imóvel da sua fúria.

Sócrates não tem um discurso messiânico, não gosta de se ouvir, não tenta sequer agradar à multidão. O seu discurso é simples e energético, mas nasce de factos, de números, da realidade. Claro, será apenas uma versão da realidade, como é inevitável para seres humanos, mas não se furta ao confronto com outras versões e luta para defender a sua. Há mal nisto? O único mal é não conhecermos melhor as versões concorrentes, entretanto esquecidas na voragem do culto a Sócrates, o Grande Satã.

O PS gosta de Sócrates, mas não lhe presta culto algum. Se ele sair, ou quando ele sair, muitos socialistas sentirão alívio, outros desforra. A maior parte, a enorme parte, contudo, ficará agradecida por ter estado ao lado de alguém que despertou tanta raiva nos adversários – inequívoco sinal de impotência.

É no que dá não saber perder, fica-se escravo do vencedor.

No teu deserto

Uma vez que as conhecemos não podemos fingir que não conhecemos. Eu, pelo menos, não posso.

[…]

Uma vez que aquilo veio a público, não há como esconder a cabeça na areia…

Miguel Sousa Tavares

*

Este argumento beneficia o infractor. E se ninguém o admitiria se dele fosse a vítima, vendo a sua privacidade exposta e deturpada criminosamente, que falência da inteligência leva tantos a serem cúmplices da publicação de escutas que não devíamos conhecer, ou que não deviam publicar-se de forma incompleta e insidiosa?

Há que o dizer cada vez mais alto e mais vezes: quem viola os direitos dos governantes, ou dos políticos, mais facilmente violará os direitos dos cidadãos comuns. Aqueles que, à esquerda e à direita, não controlam a ambição e o ódio, aceitando que os fins justificam todos os meios, são declarados inimigos da democracia.

O Miguel não admitirá ser inimigo da democracia, antes um seu paladino. Contudo, não é capaz de reconhecer que uma notícia criminosa não pode ser usada contra a sua vítima. Mais valia que enfiasse a cabeça na areia do que dar este espectáculo onde é a areia que se enfia na sua cabeça.

Enfiar o Barreto

Hoje em dia haverá 2.500 a três mil pessoas cuja função, no aparelho de Estado, é organizar a informação e fazer a agenda política. Na televisão, nos jornais, na rádio, há uma verdadeira agenda política feita à volta do Governo, pelas agências e gabinetes de comunicação. Isto chama-se condicionar a opinião pública.

António Barreto

*

Alguém é capaz de explicar esta declaração?

Já agora, não andarão os professores também a condicionar a opinião pública através dos programas escolares? E existirá alguma forma de comunicação que não vise condicionar a audiência? É proibido condicionar? Devo desligar o ar condicionado?

Os sinais e o fogo

A 1ª parte, para vingar, tem de fornecer um produto jornalístico de excelência. Trata-se de pequenas sínteses sem contraditório, pelo que estamos dependentes da boa-fé e ousadia das investigações. Se resultar, como no caso da problemática das mortes hospitalares ao fim-de-semana, pode acordar a sociedade e os responsáveis. Pelo menos, será muito estranho que o assunto não tenha desenvolvimentos.

A 2ª parte, se repetir a qualidade desta entrevista com Sócrates, é uma fraude. É inaceitável que o super Miguel Sousa Tavares vá discutir o caso mais importante do momento com o seu principal protagonista político e cometa a calinada de pensar que o Rui Pedro Soares era uma escolha solitária de Sócrates e figura caída do céu, sem qualificações, para a PT. Acresce que o seu tom foi o de promiscuidade desleixada com o entrevistado, quando o que se pede com Sócrates – tanto por ser o Primeiro-Ministro como por ser combativo na discussão – é uma preparação técnica igual ou superior nas matérias onde se quer ir ao fundo dos problemas.

Bons sinais na 1ª parte, entrevistador queimado na 2ª parte.

Génio de Carvalhal

Mais nenhum treinador no Mundo faria o que o Carvalhal está a fazer, desafiando os deuses do futebol. E é isto: abdicar da terceira substituição. Nos últimos jogos, apenas se trocam dois jogadores. Há jogadores que se arrastam estafados, ou desorientados, e, mesmo assim, têm de aguentar sem ir para o banho mais cedo. E porquê? Por um lado, para que se cumpram os objectivos de lutar pela manutenção do 4º lugar. Ora, se o 4ª lugar estivesse garantido, isso seria mau para a bilheteira. Tem de se introduzir dramatismo e levar a equipa a ter mesmo de se esforçar, talvez até a ficar sob a ameaça de acabar em 5º, 6º ou 7º lugar. Por outro lado, porque assim não joga o Vuk. Isso também é coerente, pois o Saleiro, o Djaló, o Veloso e o Moutinho garantem com muito maior eficácia a realização deste plano.

Igualmente fascinante é o facto de à entrada dos reforços de Inverno ter correspondido o início do ciclo das derrotas e dos empates. Mais uma inovação de Carvalhal, escusam de procurar exemplo sequer aproximado.

És estúpido ou comes merda às colheres?

Filipe Nunes Vicente é um atento e entusiasta leitor do Aspirina B. Delicia-se com as referências aos ranhosos e aos imbecis e entra em êxtase quando se fala aqui do Louçã. Para além deste quadro já complexo o suficiente para ocupar uns 5 a 10 minutos de conversa, a vexata quaestio da sua predilecção é a do anonimato na Internet. Os anónimos são cobardes, diz ele cheio de bravura. Mas quem são os anónimos, para este labrego? Até hoje, não sabia. Por exemplo, não sabia o que ele diria dos milhares de casos em que os nomes dos autores lhe são tão desconhecidos como um qualquer pseudónimo, tal como não sabia se o pseudónimo de alguém que ele conhecesse continuaria a ser um caso de anonimato. Tais dúvidas, felizmente, foram hoje desfeitas. Assim:

“O Abraval é um cobarde de merda que tem medo de assinar o que escreve. Diz-me onde moras e vou lá ter contigo.”

Cá está: o antídoto para o anonimato é a morada. Isto esclarece, definitivamente, o problema. E permite dizer-te, Filipe, que a minha morada está à tua disposição. Só tens de a pedir com modos e ela chegará ao teu conhecimento. É como numa qualquer situação social, vou presumir que já tiveste algumas. Também nos podemos encontrar num local a combinar. Estou cansado de te ver a sofrer tanto com a falta de moradas na blogosfera e farei o que for possível para te ajudar.

Sim, o título expressa com rigor o que penso do teu caso.

Voltar da Madeira

Ah! Foi precisa esta agonia
para afinal apercebermos
que tudo quanto dividia
as nossas vozes poderia
harmonizar-se em litania
aos moribundos e aos enfermos …:
– que só na última agonia
irmãos e unânimes seremos!

David Mourão-Ferreira

Oferta da nossa amiga nanda

*

Pedro Sales, conhecido activista de um partido que votou a favor do envio de mais dinheiro para o Alberto João adentro da lei das Finanças Regionais, usou uma fotografia da catástrofe para atacar Sócrates. A tese é a de que algo de muito errado se passou neste sábado para que o encontro com os militantes, no Porto, não tivesse sido anulado face às notícias que iam chegando da Madeira. De facto, essa é uma situação que permite dúvidas do foro moral, podemos questionar o sentido de tal decisão, a polémica irrompe fatal. O que já não podemos fazer, se existir honestidade intelectual, é negar as evidências.

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Chegar à Madeira

Quando há uma catástrofe, há uma injecção de sanidade. Durante um curto período, o que mais importa une vontades, une adversários, liga o disperso, faz acontecer, resolve.

Haverá alguma forma de alcançar a mesma reunião de capacidades sem termos de esperar pela próxima catástrofe?

Anónimos à força

Para além do voto ser secreto – ou seja, anónimo – a Internet também é avessa a identidades. Isto porque não há forma de garantir que aos caracteres digitais correspondam cara e carácter. Qualquer um pode imitar qualquer outro, até um endereço de email pode ser falsificado ou usurpado. Aliás, a possibilidade de brincar num baile de máscaras, assumindo diferentes personalidades ou permitindo-se excessos, é um dos fascínios do meio e factor da sua imediata popularidade. Só um labrego é que chegaria ao ponto de vir para a Internet fazer queixinhas dos anónimos, o equivalente a ir para uma praia de nudistas protestar contra o exibicionismo. Qual será a proposta seguinte destas alimárias, um código de barras na testa não vá alguém começar a dar palpites na via pública sem estar devidamente identificado?

A perseguição aos anónimos, que faz parte da pulhice e indigência intelectual que marca a oposição, fez do Câmara Corporativa, do Jugular e do Aspirina B os exclusivos alvos por serem blogues que permitem alimentar uma conspiração anti-Sócrates – mais uma, a enésima. O irresponsável Pacheco é o mais importante cultor desta tosca mentira, o resto um bando de marias-vão-com-as-outras que dirão qualquer coisa, não importa o quê, desde que tal não lhes exija exercícios neuronais. O paroxismo na sanha foi atingido quando se passou a considerar o uso de pseudónimo como equivalente ao anonimato. O raciocínio é o seguinte: não sei quem é a pessoa que assina assim ou assado, logo, é um anónimo. Trata-se de um pensamento à cabo de esquadra, com bigode farfalhudo e pança cheia de ar.

Entretanto, surgiu uma nova modalidade neste desporto: o anonimato à força. É o que faz o Luis Rainha, nesta nugacidade. O Luis comenta um texto meu, mas sem me nomear. Será já o tal ostracismo, de que fala o Lomba, a funcionar? Começa por se apagar o nome dos registos oficiais, depois riscam-se os baixos-relevos e acaba a partirem-se as estátuas? Acontece que o Luis é o principal responsável por eu escrever neste blogue, foi ele que me convidou para o projecto no Verão de 2005. Jantámos duas vezes, talvez ainda tenha o meu número de telefone e emails pessoais – e sabe tudo a respeito da minha profissão, que continua a ser a mesma apesar de não ser com os mesmos à época. O Luis é um de vários ex-autores do Aspirina B que me conhecem com este detalhe de informações biográficas. E outros deste grupo de autores até conhecem muito mais a meu respeito, pois somos amigos. Não há nada de secreto na minha vida que não o seja na de todos. No entanto, este indivíduo não é capaz de me nomear – sendo que Valupi é um dos meus nomes, aquele que escolhi para este meio dentro da liberdade de me dar uma alcunha. Noutros lugares tenho outras alcunhas. Alguns colegas de rua, escola e meio profissional só me conhecem por alcunhas, nunca precisaram do BI para me apertar a mão.

Enfim, perante tanto moralista de archote na mão e nariz empinado, quem pergunta sou eu: mas quem são estes gajos?

Animus dolandi

A Fernanda escreve acerca do Miguel Abrantes. Mas não só: a Fernanda também escreve acerca de uma elite decadente – um grupo de pessoas, da direita e da esquerda, que escrevem em blogues políticos para se entregarem a perseguições difamatórias.

Mas é assim. É de todos os tempos. Só nos resta garantir que não será de todos os lugares.

Vara não engana

Assisti a toda a sessão da Comissão de Ética com Armando Vara. Não detectei nenhum sinal de que estivesse a mentir. Claro que pode ter mentido, qualquer ser humano pode mentir sem ser detectado, eu é que não topei qualquer manifestação disso. Vara parece-me genuinamente indignado e dá explicações que são lógicas. Para ir mais longe, só com uma investigação policial (como, por exemplo, para investigar as decisões de investimento publicitário).

Como regra de conduta, aconselho a que não se confie naqueles que fazem de Vara um bombo da festa. É como o teste do algodão, mas sem necessidade de sujar o algodão.

Bipolaridade

Felícia Cabrita, e com toda a razão, queixou-se de calúnias lançadas contra si onde se alegava que obtinha informações adentro de relações íntimas com polícias e magistrados. Disse:

Este tipo de pressão é das mais infames que se pode assistir, sem terem em conta que era casada e tinha uma filha.

Acontece que ela, e o órgão de informação onde trabalha, lança sistematicamente calúnias contra pessoas que também estão casadas, têm filhas, têm filhos, têm pais, têm amigos, têm colegas, têm vizinhos, têm bom nome, têm dignidade, têm honra.

A Felícia devia consultar um especialista. Ou dois.

Política da espionagem

É o sonho de qualquer político: conseguir que uma investigação legítima a um caso de corrupção permita escutar os adversários num ano triplamente eleitoral e tendo a sorte de se ter encontrado matéria para abrir uma outra investigação a tempo de influenciar os resultados eleitorais ou para explorar a decisão de não abrir essa mesma investigação no período posterior às eleições. O mais difícil, ou nem por isso, é inventar o caso adequado, de modo a que todos os magistrados envolvidos saiam impolutos de qualquer suspeita – em Aveiro, eles apenas começaram por ir à procura da sucata, o ouro foi encontrado absolutamente por acaso.

É uma situação original, tanto para a Justiça como para a sociedade. Obriga a encontrar soluções novas, como o Presidente do Supremo e o Procurador-Geral já começaram a fazer no seu âmbito. Os partidos ainda revelam não saber como aproveitar as benesses oriundas das revelações geradas pela comunicação social, sendo que o PSD é o exemplo mais interessante por ser o mais contraditório: diz que há crimes mas nada faz para os apurar ou sancionar. Esta postura permite concluir que o PSD prefere manter o assunto como permanente foco de desgaste de Sócrates e do Governo, não sendo do seu interesse que ele desapareça da agenda mediática. Os restantes partidos da oposição vão a reboque desta estratégia, todos procurando abater Sócrates.

A oposição não esclarece os portugueses quanto às formas como vamos resolver os problemas nacionais, por um lado, e faz da sua actividade um constante boicote da actividade governativa, pelo outro. Os partidos da oposição tratam o Governo como um corpo ilegítimo, preenchido por pessoas criminosas e incompetentes. Não há nada que o Governo faça bem ou que seja suficiente. Se não fala acerca das notícias, dizem que o Governo não esclarece. Se fala, dizem que o Governo não governa. Para cúmulo, não querem que o Governo se demita nem querem que o Governo cumpra o seu programa. As lideranças partidárias na oposição são o espelho de um país disfuncional.

A redução da política à devassa da privacidade é um legado desta oposição. As consequências são imprevisíveis. Mas algumas poderão ser excelentes, assim saibamos reconhecer que não é este o Portugal que merecemos e queremos.

Raposinhos

Portugal não tem apenas uma, tem duas Fox News: a TVI e a SIC. Mas pode vir a ter mais. Passos Coelho pretende vender a RTP a um outro capitalista qualquer. Creio que esta intenção configura a existência de um plano para dominar a comunicação social. Todinha.