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Alegretes

Seguro e Ana Gomes, atacando Mexia e Sócrates, fazem bem ao PS e à politica nacional, mas não pelas razões que imaginam possuir em seu favor, antes pelas contrárias.

Onde Seguro vê um escândalo com o dinheiro que este ano Mexia vai receber, eu vejo escândalo com a incapacidade de Seguro para explicar os milhares de milhões que os trabalhadores não vão receber. Falo das ideias para o desenvolvimento económico de Portugal, que não conheço uma que tenha nascido naquela cabeça tão subitamente preocupada com uma empresa e um indivíduo nela.

Onde Ana Gomes encontra desgosto em casas e cartas, eu encontro desgosto na estética da burrice e da deslealdade. Causticar casas rurais pelo seu aparato arquitectónico é uma exibição de superioridade intelectual típica do elitista marxismo, mas que todo o mal fosse esse. O pior é o desprezo pelos cidadãos que optaram por ter aquelas casas e que talvez nem conseguissem traduzir o paleio snobe da Ana Gomes. E, para cúmulo, atacar a carta de Sócrates é um caso de castigo à vítima. A intenção da carta é responder a uma manobra de difamação, e nela encontra-se uma postura descontraída, simples e frontal. Tudo características que Ana Gomes diria de si própria se convidada a descrever-se mas que não admite ao Primeiro-Ministro. Como uma vez escreveu o Miguel Sousa Tavares, e ele tem pinta de saber do que fala, as mulheres são volúveis.

Coincidência

Uma das características mais surpreendentes do ciclo Sócrates está a ser a natureza moralizadora da sua governação. Em 2005 – depois de Santana, Barroso, Guterres e Cavaco, os quais se igualaram e ultrapassaram em conivências com o dissoluto alheamento cívico – a sociedade estava no ponto mais baixo do respeito moral por si mesma. Fugir aos impostos, cultivar as cunhas e os compadrios, burlar empresas e particulares, ter o cinismo e o oportunismo como mapa e bússola, não eram apenas práticas correntes e transversais a todas as classes, eram também atitudes e comportamentos celebrados como normativos e doadores de estatuto. Era o tempo em que passava por otário quem não enganava a TV Cabo, recolhia facturas falsas nos restaurantes, pagava sem factura qualquer serviço onde pudesse poupar uns tostões, tentava subornar polícias e soldados da GNR para evitar multas, arranjava atestados médicos falsos para toda a família e ocasiões, arranjava receitas falsas, preferia artigos de contrabando e sei lá que mais que não tenho pachorra para lembrar. Ser mitra era desígnio nacional. No topo da sociedade reinava o deboche: o jet set da tanga e obscenamente chunga, a ética napolitana do cavaquismo onde nasciam ricalhaços de BMW a cada esquina dos fundos europeus, o capitalismo do cartão de crédito de Guterres, o desprezo de Barroso pelo eleitorado a quem pedinchou o cargo de primeiro-ministro, a inépcia e farsa de Santana e sua malta. Em 2004 e começos de 2005 quase ninguém acreditava que fosse possível dar à volta à situação.
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Ela bem avisou

O silêncio que a Comissão de Ética causou nesta terça-feira, onde se chegou ao ponto de ver a oposição recusar-se fazer perguntas a Emídio Rangel (!!), é a prova provada da existência de uma asfixia democrática em Portugal capaz de dominar as consciências e acabar com a liberdade de expressão.

Altura para recordar as sinceras e seríssimas palavras de Ferreira Leite em 5 de Fevereiro, aquando da justificação desta tão proveitosa iniciativa parlamentar:

Eu durante meses falei sobre esse assunto e, portanto, neste momento nada tenho a comentar, a não ser a certeza de que já falei nisso há muito tempo e que ninguém, provavelmente, levou a sério.

O Miguel faz o resumo.

Ondas na Rede

Provando que o Correio da Manhã tem acesso aos melhores segredos que se guardam em Portugal, Paulo Querido tem lá um armazém de novidades acerca da vanguardista e feérica cultura digital.

O Paulo não se limita a ser um jornalista, um divulgador e um entusiasta, é também alguém que ousa fazer, empreender e inovar. Caso único.

O troféu mais cobiçado

Nem tudo o que tem influência política tem origem política. Muitos dos ataques a Sócrates, num fenómeno a merecer investigação académica, são gerados por despeito, inveja, ferruncho. Apenas tal vazio moral explica o que se passou ontem na edição digital do Público, por exemplo, onde o passado profissional de Sócrates foi 1º destaque o dia todo.

A magnitude da campanha contra o engenheiro transformou-se numa caçada febril. Ele é o troféu mais cobiçado para alguns inimigos políticos, alguns empresários, alguns jornalistas. Enquanto uns vão endoidecendo debaixo dos holofotes na sua fúria, como o Pacheco, outros acumulam munição para disparar a partir dos telhados, como o Cerejo. E quando se junta um accionista, um jornal e uma redacção em uníssono odioso, temos terrorismo mediático, gás tóxico lançado para o meio da populaça. Os gaseados fazem o resto, estrebucham e desvairam.

Entretanto, os snobes de esquerda e direita estão com a pança cheia de riso porque descobriram a realidade arquitectónica da paisagem rural da Guarda nos idos de 80. Não perdoam a Sócrates o triste espectáculo que fere as meninas dos seus olhos. Se fossem eles os artistas, só teriam vendido projectos capazes de concorrerem ao Pritzker. E ai dos bimbos que quisessem as coisas lá à moda da terrinha.

Os snobes de esquerda e direita, quando toca à arquitectura, querem tudo em grande, espaçoso e bonito. São velhos hábitos.

Inseguro

Em fase de enormes dificuldades e de exigência de sacrifícios aos portugueses, é incompreensível como se atingem estes valores remuneratórios. É uma imoralidade!

Um António aborrecendo outro António

*

Como é que ganhar dinheiro a trabalhar pode ser uma imoralidade? O que Seguro diz é absurdo e só serve para obter um lucro demagógico. Caso contrário, que estabeleça o valor do salário e prémios do Mexia. Deve existir um número qualquer que lhe pareça moral. Qual é?

De seguida, uma vez estabelecido o valor, que se apresentem os critérios através dos quais se chegou a esse novo número. E, por fim, que se substituam os accionistas da EDP pelo Seguro, o qual chega e sobra para gerir aquilo a custos módicos.

Vantagens do inglês

Uma delas, a de poder assistir ao canal Bloomberg, o qual nos chega sem legendas. Pois a experiência é desconcertante: os problemas do défice e da dívida também andam a deixar o Tio Sam à beira de um ataque de nervos, chegando a fazer comparações com a Grécia; apenas se diferenciando a conversa televisiva das nossas discussões nacionais nisso de os especialistas americanos não tentarem mandar areia para os olhinhos da audiência – dizem que o fenómeno é global, causado pela global crise.

Outra informação preciosa foi dada por Michael Lewis, a de que a grande especulação internacional estava agora a ser feita através das agências de rating, e pelos mesmos que tinham explorado a bolha do imobiliário nos EUA.

Muito se aprende em inglês.

Se não se interessam, porque perguntam?

Que pretendem as pessoas saber quando nos perguntam pelo Natal, Passagem de Ano, Carnaval, Páscoa, férias? Se gostámos, se foi bom? Raios. E se não tiver sido? E se a Páscoa acabou por ser uma merda, o Carnaval uma chachada, a Passagem de Ano um aborrecimento, o Natal uma tristeza e as férias um sarilho, que estão elas dispostas a fazer por nós? Têm abraços, filosofia ou dinheiro para nos consolarem?

Génio de Carvalhal

Mais uma chapa 3 com guarnição, a centésima da era Carvalhal se contarmos com os golos marcados nos treinos. Esta vitória também serviu para calar todos aqueles que estiveram contra a contratação do genial treinador alegando que ele nunca seria capaz de ganhar ao Rio Ave em Alvalade. Tomem, embrulhem e levem para a terra.

Segue-se o Benfica. O lampiões já sabem o que os espera, melhor seria que perdessem por falta de comparência. Sempre evitavam o bailarico que está a ser preparado na genial cachimónia do genial Carvalhal, um leão ferido no seu engulho.

A Igreja na Cruz

A posição da Igreja no escândalo da pedofilia é indefensável. Literalmente. Não tem como se defender e não devia esboçar a mínima defesa. Foi esse o sentido da homilia de D. José Policarpo na Paixão do Senhor, nesta sexta-feira, pese a ausência de referência directa à situação.

Policarpo era o reitor da Universidade Católica de Lisboa quando lá estudei no final dos anos 80 e parte dos 90. Lembro-me bem da reacção da comunidade académica aquando das notícias de abusos de menores e relações pedófilas adentro da Igreja surgidas nesses anos: nenhuma. E estávamos numa UCP, desaparecida entretanto para dar lugar à supremacia da Economia e Gestão, onde as Faculdades de Teologia e de Filosofia tinham presença e voz, já para não falar no prestígio e poder da Faculdade de Direito. Para cúmulo, testemunhei nesse tempo o modo como a Igreja lidava com um sacerdote abusador; as famosas transferências que, aparentemente, se limitavam a deslocar o problema. A lição era clara: a Igreja tinha de ser muito mais do que a sua disfuncional hierarquia, senão já teria desaparecido tão infames eram as contradições à vista.
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Algo de novo na frente ocidental

Quando bato no Pacheco Pereira, sei que o estou a fazer. Estou convencido de que é uma das pessoas que fazem pior à democracia portuguesa. Não é bom ter uma pessoa que tenta ser a referência moral do regime, quando no fundo é uma pessoa que vive da polémica. A contrapartida é o tempo de antena. Um tempo que não é gracioso como o meu. É um tempo de antena profissionalizado.

Há um grupo no PSD a que chamo ‘geração Fox News’: uma simbiose entre os ex-leninistas e os miúdos muito conservadores que têm no Pacheco Pereira uma espécie de ídolo.

Nogueira Leite

Patético

Henrique Monteiro é patético. Um gajo que trata Sócrates por tu, que diz ter estado com ele hora e meia ao telefone, e que se diz pressionado exclusivamente por essa situação, é patético. Pressionado foi o Primeiro-Ministro, a parte fraca. Um político perde sempre contra a comunicação social, tenha ele a posição que tiver na hierarquia do Estado, para mais se esta disparar a partir da fortaleza Balsemão.

Que ganhou Portugal com a devassa à volta da licenciatura de Sócrates? Valeu a pena levar o caso para a Procuradoria? Acaso o Monteiro dos jornais tem dificuldade em entender que a exploração política dessa suspeição justifica todos os esforços do visado para conter os danos e anular a ameaça? Ir para a Comissão de Ética nomear a ocorrência telefónica como uma pressão do Primeiro-Ministro exibe uma ausência de sentido do ridículo. O mesmo Sócrates com quem se bebeu copos e disse caralhadas, o mesmo com quem se conviveu civilizadamente no passado, talvez até se tenham trocado confidências, transformava-se no Primeiro-Ministro opressor porque cada um tentou convencer o outro das suas razões. É assim a pressão em Portugal, conversas de homem para homem, vejam só.

Seguiu-se o telefonema do primeiro-ministro – e, de facto, foi bem pior do que eu contei na Comissão de Ética: além de me ter pedido para eu não publicar o texto em causa, o telefonema decorreu no meio de berros exaltados por parte do chefe do Governo.

90 minutos de berros exaltados? Afinal, as corridinhas não servem só para a propaganda, também promovem uma saúde pulmonar admirável. E que lhe ias dizendo tu, Monteiro? Ou ficaste calado o tempo todo devido à pressão auditiva?

És patético.