O sucesso do PCP é estritamente do foro religioso, uma crença acrítica e messiânica, daí o conservadorismo do partido – mudar é morrer. O sucesso do BE é estritamente do foro do marketing, o apelo conjuntural e corporativo, daí a plasticidade do partido – mudar é viver. Estas forças não admitem ser parte de nenhuma solução governativa que inclua um PS democrático, só com um PS que ceda à tirania ideológica que professam admitem partilhar responsabilidades e trabalhar em conjunto. E não se vislumbra alteração no fanático marasmo.
Como é que se sai deste desperdício de votos? É preciso ter em conta que a imbecilidade da esquerda imbecil leva a que nada de fundamental tenham alterado, ou influenciado, no modo como os poderes fácticos operam. Portugal não é menos corrupto, mais justo ou mais produtivo por qualquer acção ou proposta que associemos directa ou exclusivamente ao PCP e BE. O desfasamento entre as exigências grandiloquentes e a recusa em negociar desvela uma lógica de barricada e boicote. Pelo seu ideário, PCP e BE olham para um regime democrático como uma anomalia histórica a ser superada. Eles não admitem misturas com o inimigo.
Portanto, voltemos à puta da pergunta: como é que podemos sair desta funesta inércia à esquerda? Paradoxalmente, a solução passaria por um muito maior conhecimento das doutrinas, dirigentes e activistas do PCP e BE. O Bloco até nem se pode queixar, pois tem sido levado ao colo pelo capital que domina a comunicação social, mas só conhecemos enlatados para consumo fora de casa. Sem a coesão garantida pela vedeta mor, rapidamente o partido se fragmentaria em querelas fratricidas em tudo iguais à que existe entre BE e PCP. Quanto ao PCP, é uma reserva de dinossauros cada vez mais básicos, como se pode ver pelas novas caras que vão aparecendo. Quando o Bernardino tomar conta daquilo, até G-3 voltarão a ser armazenadas pelos camaradas. Estudar o programa do PCP, ouvir as suas figuras mais importantes, detalhar o mundo que se sonha e ambiciona no partido comunista mais ortodoxo da Europa, são actividades que ajudariam decisivamente a alterar o mapa eleitoral.
O discurso destes dois partidos esconde uma postura que diminui o real poder daqueles que alegam representar e defender: os mais fracos, os mais pobres, os trabalhadores. Acontece que os mais fracos, os mais pobres e os trabalhadores não querem diabolizar Sócrates, derrotar o PS e dar o coiro pela revolução. Quem ocupa o seu calendário com esses jogos é a imbecil elite partidária, e por esta ancestral razão: tem tempo para isso.