Esta direita está torta

Os programas de debate político, televisivos ou radiofónicos, são espaços que prometem análise e reflexão; mas que raramente ultrapassam o nível primeiro, e primário, do entretenimento. Fenómeno que não tem mal algum, the show must go on e quem quiser que se informe e pense pela sua cabecinha. Pessoalmente, só lamento não saber quanto é que os bacanos ganham. Que pena não termos acesso a uma tabela comparativa, descobrir se a SIC paga mais do que a TVI ou se num mesmo programa há quem ganhe mais do que o colega. Como estamos perante uma indústria da opinião, já era tempo de se tornar público o pilim envolvido, pode despertar vocações.

A característica mais irritante nalguns deles é o amiguismo compulsivo e ostensivo, isso de não se controlar a excitação de estar ali a debitar sentenças para a populaça. Desatam a mandar piadinhas uns aos outros, felizes da vida por poderem festejar os seus laços de ternura em palco. Neste particular, talvez não exista programa mais insuportável do que o Governo Sombra, na TSF, de si já um híbrido falhado entre a política e o humor. O Eixo do Mal é outro que tal, mas o que me interessa agora destacar é o A Torto e a Direito.

O programa da Constança reúne 3 figuras da direita, ela incluída, e um independente do centro-esquerda (presumo) sem qualquer contaminação socrática (bem pelo contrário). A falsa moderadora está ali para fazer coro e bater no engenheiro, sendo que as intervenções do Francisco Teixeira da Mota são o que torna o espectáculo suportável. Do lado de João Pereira Coutinho e Francisco José Viegas temos a banal má-fé e desonestidade intelectual que se aceita, e espera, em posições sectárias. Não parece haver investigação de ninguém, muito menos da produção do programa, e as opiniões têm a qualidade das que seriam emitidas numa conversa de café cerimoniosa com aquelas mesmas pessoas. Os participantes exibem um genuíno prazer por se encontrarem em estúdio num ambiente descontraído.

Ora, qualquer um destes programas, pese a sua essencial irrelevância, representa uma parte do País que é educada, culta, informada e se envolve cívica e politicamente com intensidade. Através da amostra dos publicistas e comentadores respectivos, podemos inferir o que pensam e dizem os grupos neles representados. Acresce o poder de influência, os mimetismos que geram, os exemplos que deixam com a atitude, as reacções. Ora… quando a temática da corrupção ao mais alto nível do Estado é tratada em registo debochado, como aconteceu na última edição do A Torto e a Direito, algo de absolutamente corrosivo está a ser lançado para a audiência. Aquelas celebridades televisivas vendem a sua impotência e cobrem-na com gargalhadas e difamações cínicas, validando a desistência ética de todos, tanto corruptos como vítimas da corrupção. Será que eles não se dão conta, será que são imunes à autocrítica?

Dando o exemplo mais grave a que assisti de uma derrelicção cívica inacreditável tendo em conta o perfil intelectual do grupo, sempre que no programa da Constança se fala da comissão de inquérito parlamentar ao caso PT\TVI e putativa mentira no Parlamento, é unânime a opinião de que o único objectivo dessa iniciativa é contribuir para manter Sócrates em permanente desgaste, tudo o resto até ridículo ou absurdo. O par Viegas-Coutinho delicia-se com essa visão do Primeiro-Ministro entalado por comissões parlamentares, jornalistas caçadores, juízes e procuradores com muitos segredos para contar. Todavia, se fosse alguém do PSD que estivesse a ser alvo de comissões parlamentares e campanhas de devassa pessoal para ser queimado em lume brando, ou ser derrubado nos jornais, estes dois bem-dispostos e bem-pensantes comentaristas apareceriam furibundos a cuspir anátemas contra os carrascos do Estado de direito, os vândalos da imprensa, os criminosos da Justiça, os indignos deputados que recorriam a manobras tão baixas.

A direita que é de direita não se deixa entortar, não serve a dois senhores. Só a direita que finge ser de direita é que tem esta maleabilidade, é bicéfala.

19 thoughts on “Esta direita está torta”

  1. Aposto que para não dizeres nada te tinha bastado o “silêncio”
    Como podes tu criticar quando te comportas da mesma forma?

  2. no teu lado também levamos diariamente com a má fé e desonestidade intelectual, de alguém que se diz de esquerda e defende o primeiro ministro mais liberal da nossa história, que tem governado mais á direita que os governos do PSD e tem dado cabo de uma boa parte dos direitos e garantias dos trabalhadores.

    nunca existiu tanta precaridade no trabalho como nos nossos dias, graças às políticas do estado socrático.

  3. luis eme, telefona para o Google e pede-lhes para te enviarem, por fax, aquela parte da Internet onde aparece um conjunto de caracteres em que eu esteja a dizer que sou de esquerda. Ou de direita, já agora.

  4. Luís, exactamente. Bater merda com dois paus, para usar uma expressão de um amigo meu que foi estudante de Coimbra, é uma actividade muito sobrevalorizada.

  5. Mas olha que citaste e muito bem o eixo do mal e quando lá ouço a eminência parda da esquerda bloquista até me arrepio.
    Por estas e por outras é que começo mesmo a saturar-me deste binómio que acaba por ser uma mama porreira para os ideólogos preguiçosos raciocinarem em círculos e ninguém surgir com uma ideologia à medida dos desafios que o mundo coloca agora e que acabe com estes falsos extremos de uma corda tão apodrecida pelo ruminanço de ideias de gajos do tempo do comboio a vapor que não tardará a partir.

  6. Atenção trotskystas de uma figa.Os recentes casos de abusos na igreja catolica e a queda do avião com os governantes polacos fazem crer que Stalin fez um putsch no céu e desalojou Deus do pedestal.Deus perdoa Ele não.
    Nobody fucks with tovarisch Youssif Vissarionovitch Djugashvili.

  7. Gosto muito é daquele pograma em que o CAA canta em uníssono com a Joana. Por vezes fica um bocadinho estridente e quase me rebenta os ouvidos. É quando eu passo para o modo mudo para não me estilhaçar as vidraças. Mas até só a coreografia é linda.

  8. Sim, é melhor nem comentar o belo serviço que o Rangel presta à televisão na RTP-N.. Ou para o mesmo efeito, o que Val faz aqui. Aliás, vê-lo a falar de sectarismo de um pedestal é toda uma comédia..

  9. A TSF tem pouca qualidade, à tarde passam programas onde se perde tempo a entrevistar astrólogos, ou gajos que fazem tratamentos de saúde com música, e onde o entrevistador mal preparado não faz pergunta nenhuma a apertar os aldrabões, é uma vergonha, fracote.
    Depois temos o Carlos Vaz Marques, com o seu risinho de puta, armado em esperto, mas que é o que temos para aí na área da cultura. Noutro dia comecei a notar que há muitos escritores entrevistados pelo Carlos, no Pessoal e Transmissível, que são da editora Quetzal. Fui ver a lista e nos últimos 12 escritores, 4 são da Quetzal (contando com o próprio FJV). É só ir lá e confirmar. Os outros são de editoras diferentes. Parece amiguismo, não parece? Reparei neste pormenor porque vejo a cumplicidade que há lá para os lados da revista Ler onde escreve o FJ Viegas (editor da Quetzal) e o CV Marques.
    O FJV é um opinador fraco, não sabe analisar dados e manda altas bacoradas, no que toca a questões de sociedade e política. De futebol também se vê que devia estar quietinho e largar a pena. O JPC é um gajo que gasta quase metade duma crónica a gabar-se que esteve aqui ou ali e viu isto ou aquilo e só depois é que se dedica a mandar a baixo quem lhe apetece e com as razões que lhe dão na tola. São uns gajos que do que gostam é de dar showoff, o resto que se foda.
    Acho piada é que estes gajos vão para ali tratar-se por você quando é nítido que quase de certeza bebem copos juntos e atutadamente. Deve ser para tentar passar a ideia que Lisboa é grande e grandiosa. Mas mesmo cá de cima, do norte interior e obscuro (brilhante só quase o excelente fumeiro), se nota que não é assim, Lisboa é tão pequenina e pobrezinha, valha-vos deus. Lá se vão safando as Câncios e mais duas ou três almas penadas que andam para aí pós lados dos terreiros dos pântanos.

  10. Concordo luís. Nada justifica que se continue a utilizar estes candelabros para iluminação pública.

  11. larga o vinho , V. e esse que bebes é perigoso , sui generis , em vez de veres a dobrar só vez metade. é que tanto a direita como a esquerda estão tortas. tudo o que dizes se aplica a qualquer programa de vender peixe , seja robalo ou cherne.

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