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Good food for good thought

Faced with pandemics, security crises, threats of global terrorism and crime, climate change and many other looming threats, new approaches to global governance are required. This does not mean that nation-state governance will become less relevant, but rather that effective governance is required at both the national and global level. The stakes for getting global governance right have never been so high.

The omens, however, are not good. If past decades are any guide, new problems will be thrown at old and outdated institutions. Finance is the best equipped and most institutionally developed of the global governance regimes, yet the Bretton Woods, Central Banks and many other financial institutions failed to predict, prevent, or understand the endemic systemic risks in the system. Moreover, these institutions have yet to elicit the structural changes needed to proactively manage future systemic risks. Systemic risks ultimately require systemic responses. However, the pace of technological innovation may be expected to continue to outpace regulation, and even the best-equipped institutions will struggle to adapt to the rapidly evolving complexity of systemic risks.

On Systemic Risk

Internetismo

Quem quiser conhecer a verdade – repito: a verdade; insisto: a verdade – sobre aquilo que diz e faz o Presidente da República, basta ir à página da Internet da Presidência da República. Lá, está a verdade.

Cavaco Silva

*

Foi em Sobral de Monte Agraço, entre canhões e soldadinhos, que Portugal ficou a saber onde está a verdade presidencial: não nas palavras e actos do Presidente, não nas suas decisões políticas, muito menos nalgum porta-voz dado à frequência de pastelarias, mas num certo sítio da Internet. 6 meses após este oráculo, acumulam-se os sinais de que Cavaco terá mesmo fundado uma nova religião – o Internetismo. Perfeitamente adequado aos tempos celerados que vivemos, este novo credo já não se filia nas chamadas religiões do Livro e sua pesada herança veterotestamentária, antes inaugura uma nova categoria: as religiões da Página. A verdade cabe numa página, nem sequer precisamos de recorrer a uma folha, agradeçam e venerem uma das mais estonteantes revelações que nos foi transmitida pelo profeta Cavaco.

Contudo, não se pense que esta modernice da verdade paginada diminui o aparato exegético e hermenêutico necessário à plena fruição da mesma. A verdade continua a ser para poucos, apesar de muitos serem chamados. Tomemos como exemplo algo simples, com três letrinhas apenas: SLN. Onde se encontra, no corpus digital do Internetismo, essa misteriosa trindade? Recordemos as palavras do profeta:

Recentemente foi noticiado que eu tinha tentado esconder que da minha carteira de títulos e da minha mulher faziam parte acções da SLN. Não é verdade. E se eu digo que não é verdade é porque estou perfeitamente seguro que o posso dizer.

Eis uma das mais valiosas bênçãos para quem funda uma religião, a capacidade de separar a verdade da mentira com perfeita segurança. E a faculdade que permite o acesso à contemplação da verdade é a simples leitura:

Quem diz que procurei ocultar que da carteira de títulos minha e da minha mulher faziam parte acções da SLN não está a dizer a verdade ou então não soube ler o comunicado que eu fiz.

A alternativa é entre a falta de carácter ou o analfabetismo e a iliteracia, no Internetismo não há espaço para mistelas. Estamos perante um socratismo, por mais paradoxal que possa parecer, em que se admite uma via racional para a verdade a partir do próprio ser cognoscente e sua natureza ontológica. Há só uma condição: saber ler comunicados. Pois bem, no comunicado em causa, guardado no templo da verdade, vemo-nos face a 2.199 caracteres que, curiosamente, em nenhuma das suas configurações acabam por formar a troika SLN. Será isto causa suficiente para dizer que se ocultou a fugidia sigla? Nada mais longe da verdade, a tal verdade verdadeira, visto a chave do enigma consistir no que o profeta Cavaco indicou claramente: saber ler.

Por exemplo, tomemos este passo do comunicado:

As aplicações feitas pelos bancos gestores constam, detalhadamente, da referida Declaração de Património, entregue no Tribunal Constitucional – assim como o número de todas as contas bancárias do casal, excepto uma, aberta no Montepio Geral, por acolher apenas depósitos à ordem – a qual, repete-se, pode ser consultada.

Aqueles que sabem ler comunicados – portanto, os ungidos que não mentem – encontram aqui a SLN em tudo o que é palavra ou espaço entre as letras. E a mensagem é a seguinte: a SLN foi despachada numa Declaração de Património para as masmorras do Tribunal Constitucional. É lá que ela se encontra e até pode ser visitada pelos familiares ou curiosos. Mas porquê tal triste fado? Porque a SLN não cabe numa página, aquilo são caixotes e caixotes de revelações. Ora, se não cabe numa página, não faz parte da verdade.

O Internetismo, como se vê, ainda vai salvar muita gente.

Viva o Presidente da República Portuguesa!

Temos duas semanas para fazer destas eleições presidenciais algo que não nos envergonhe. Por exemplo, escolher em quem votar. Quanto a isso, a solução para o meu problema chama-se Defensor de Moura. Se existir uma segunda volta com Alegre, passaremos para uma nova eleição, um problema diferente. A bipolarização tratará de impor a sua lógica, acabando com as dúvidas para a enorme maioria; embora eu, nessa eventualidade, vote em branco. Cohérence oblige. Mas há muito em jogo para além da contagem dos votos.

A mais urgente tarefa é a de limpar a tralha que messiânicos, decadentes e patarecos lançam para o meio da rua. Eles repetem, sem mostrarem sinais de fadiga, que o Presidente da República, no actual regime, é uma figura sem poder, logo sem importância nem consequência. Quem assim fala não tem estado em Portugal desde Março de 1986, altura em que Soares começou o ciclo das magistraturas de influência. Mas quem primeiro mostrou toda a força que a Constituição deposita no Presidente foi Sampaio. Começou com a decisão de permitir a continuação de um Governo cujo anterior primeiro-ministro tinha fugido esbaforido, e consumou-se com a decisão de afastar um Governo cujo eleitorado tinha debandado assustado passados 120 dias de Santana Flopes. Para quem pensava que Sampaio apenas ambicionava pôr este Planeta a dormir com os seus indecifráveis discursos, as duas decisões fizeram História. E seguiu-se Cavaco, um Presidente que alimentou as mais variadas insídias contra o Governo, desde o permitir ensejos de aumento dos poderes presidenciais e formação de Governos nessa esfera até à obscena aliança com a estratégia negra do PSD no consulado de Ferreira Leite, passando por uma manipulação da comunicação social para efeitos de perversão de actos eleitorais. Coisinhas menores, como sabemos.

Para além de reconhecermos que os equilíbrios entre Presidente da República e Parlamento, estabelecidos na Constituição, permitem intervenções presidenciais de importância absolutamente decisiva para o nosso futuro colectivo, é também evidente que o papel do inquilino de Belém pode ser agregador de vontades e inspirador de coragem e liberdade. Para tal, porém, tem de dar o exemplo. Todos os meios e condições lhe são oferecidos em contrapartida. Não faltam oportunidades para um Presidente influenciar a comunidade, seja na relação com o Governo, seja na relação com o Povo. Se os concidadãos que chegam a essa tão alta honraria não realizam todo o potencial do cargo em favor do País, é só porque não o podem fazer por falta desse destino, não porque não o desejem. Da nossa parte, a melhor forma de os respeitarmos é permanecermos sem vacilar na muralha que os defende e julga – apesar de poderem ser figuras tão nefastas como, por exemplo, um Cavaco Silva, o valor da sua função continua intocável. Precisamos de um Chefe de Estado de quem nos orgulhemos e não podemos descansar enquanto não o encontrarmos.

Cavaco não é nenhum Sócrates

Sócrates foi alvo de investigações pela Judiciária, inquéritos pelo Ministério Público, averiguações pela Câmara da Guarda, escutas pelo DIAP de Aveiro e deliberações do Supremo Tribunal, a que se soma a perseguição implacável da imprensa e da oposição. Nada se provou contra ele, sequer alguma vez foi considerado suspeito fosse do que fosse aos olhos da Lei ou meramente constituído arguido. Sócrates, portanto, oferece boas razões para o considerarmos um dos cidadãos mais honestos que moram e trabalham em Portugal, posto que a sua vida tem sido virada do avesso e devassada publicamente, nada se encontrando de ilícito.

Já Cavaco, como dizem convictos e informados os seus apoiantes, é diferente de Sócrates em tudo e mais alguma coisa.

Fim do mundo

Qual achas que é o mais forte sinal de estarmos perto do fim do mundo, a enigmática queda de pássaros em diferentes locais do globo ou Ferreira Leite ter revelado que os políticos vivem num “mundo à parte”?

Problem solving

O modo como Alegre transformou um assunto irrelevante numa exibição de inépcia política e fragilidade cognitiva – ao apresentar três versões diferentes em poucas horas para explicar a sua relação com o BPP e a BBDO, e deixando ficar no ar crescentes dúvidas quanto à propalada tentativa de devolução do dinheiro; posto que ninguém sabe onde pára esse tal cheque, a começar pelo próprio – é só a última ilustração do triste facto de ter prestado um péssimo serviço ao País ao se candidatar a estas eleições. Pura e simplesmente, não tem condições intelectuais para o cargo. Isso viu-se no debate com Cavaco com dolorosa clareza, onde nem sequer foi capaz de dar um murro na mesa e exigir respeito pelos portugueses perante o chorrilho de insultos à democracia que o marafado despejava. E vê-se em todos os actos da sua campanha pior do que amadora, sem qualquer rumo estratégico nem sentido táctico.

Do outro lado, temos igualmente um colosso de vaidade, mas a que se acrescenta a perfídia. Cavaco acredita ter uma superioridade moral que o deixa imune à responsabilização. Nada precisa de justificar porque se sabe já justificado perante a sua consciência. Estamos num território diabólico, ou bipolar, onde as declarações de probidade são sinceras, sentidas e violentas. Servem para atirar ao adversário. E permitem as manobras palacianas onde vale literalmente tudo, do conúbio com escroques à conspiração para viciar eleições. O mal é feito em nome do bem.

Alegre é ingénuo e Cavaco é hipócrita. Ambos estão a causar prejuízos incalculáveis à comunidade nestas presidenciais, pois nenhum deles merecia estar em Belém. Mas quão mais depressa aceitarmos que o problema não é deles, mais depressa descobriremos que a solução é nossa.

A direita mais burra da Europa e arredores

Não passa de uma dupla coincidência sem qualquer significado, mas que partilho por vir a calhar: estava na BBDO quando foi criada a campanha do BPP na berlinda, e era account da conta. Trata-se de uma das melhores campanhas de imprensa que Portugal já viu, abundantemente premiada, e deve-se ao Pedro Bidarra – sem protestos, o criativo português mais influente e aplaudido dos últimos 20 anos. Embora seja impossível defender que ela se presta a equívocos de estatuto, pois consistia numa dupla página no Expresso que exibia todos os códigos convencionais de que é um anúncio publicitário, tal não impede que Alegre esteja a dizer a verdade ao invocar que desconhecia qual seria o destino do texto que lhe encomendaram; com elevada probabilidade, se não foi contactado pela agência.

Mas passemos ao que interessa: a direita burra que nos calhou em sorte. Teresa Caeiro, ao trazer este episódio à lembrança, alcançou o extraordinário feito de piorar a situação de Cavaco. É que, de repente, Alegre surge como alguém que se responsabiliza pelas suas acções, as tenta corrigir e até devolve (ou tenta devolver) os tostões em causa num assunto sem qualquer interesse para além de servir de palha para alimentar burros. Alegre revelou ter consciência ética, é a moral da história. Resultado? Cavaco, na comparação, aparece agora como aquele que lucrou à grande numa instituição onde ocorriam actos anómalos – que se garantem ser criminosos por inúmeras figuras públicas, ainda antes do julgamento – e nem sequer é homem para explicar o que andou a fazer nem para devolver o ganho também anómalo. Isto é algo que os fogareiros não vão deixar passar.

Claro que na direita, a verdadeira, estão alguns dos portugueses mais brilhantes, até geniais, que esta terrinha já conheceu. Apenas se dá o infausto fenómeno dos burros os terem afastado ao coice e aos pinotes dos partidos da dita. E as alimárias não descansam enquanto não conquistarem o monopólio da asneira.

Win-win situation

Seria mais provável ser convidado para presidente-treinador do Sporting (ou treinador-presidente, podemos discutir isso com calma) do que ser chamado a dar conselhos a candidatos presidenciais interessados em derrotar essa desgraça chamada Cavaco. Todavia, sei bem o que lhes diria. Por exemplo: não toquem no BPN. Aquilo que está a fazer Alegre, e com surpreendente sucesso a avaliar pelo pânico provocado no Cavaquistão, não passa de mais um erro da sua campanha. Por um lado, porque o assunto não é matéria para um candidato a Presidente da República; por outro, porque mesmo que ganhe a batalha fica condenado a perder a guerra, o tema só consegue reforçar convicções já criadas. Apontar o óbvio, que Cavaco é o político mais hipócrita desde o 25 de Abril, não nos abre o futuro, apenas sela o passado.

Contudo, o BPN entrou na campanha pela boca do próprio Cavaco. Francisco Lopes e Defensor de Moura, que levaram o assunto para os debates televisivos e conseguiram deixar o boliqueimense à beira de um ataque de nervos, não tinham força para inscrever o BPN na agenda mediática. Foram tão-só escaramuças inconsequentes, embora permitindo detectar fragilidades na muralha. E o assunto estaria agora morto, depois da inane prestação de Alegre no debate, não fora a jogada magistral de Cavaco. Ao planear um ataque demolidor sobre Alegre, a sua contribuição acerca do BPN funcionava como o ás de trunfo na manga que intentava cortar definitivamente a vaza ao adversário – e ainda permitir-lhe passar de acossado a acusador. Correu demasiado bem. No final, até os cegos viam por que razão aquele homem era o político há mais tempo em actividade. Tinha sido brilhante na estratégia e levado apoiantes e críticos para um rendido aplauso. Havia só um pequenino problema: oficialmente, e para todos os efeitos, o BPN tinha entrado na campanha.

Sendo assim, que não doam as mãos a quem quiser malhar no Cavaco. O tal que prevê crises económicas com 7 anos de avanço, e que é um dos cidadãos com mais poder em Portugal desde meados dos anos 80, seguramente sabia o que se passava na SLN e BPN de trás para a frente. É o próprio que publicita os seus superlativos conhecimentos de finanças e excepcionais capacidades intelectuais, para além da sua indubitável paixão pela verdade, não há como duvidar. Ora, até o braço-direito de Oliveira e Costa levou para o Conselho de Estado, tamanha a confiança que ele lhe suscitava, como poderia Cavaco ignorar uma realidade tão próxima e cheia da sua gente mais estimada? Mas se não sabia, se tudo ignorava, se era enganado por aqueles a quem dava cargos e honrarias, se Cavaco não passa de um pobre diabo que, sem se aperceber do que lhe fazem, é utilizado para dar cobertura aos mais gulosos bandidos da banca e da alta finança, o País também terá proveito em descobrir.

Ainda não chegámos a Aveiro

Quanto ao BPN, posso dar uma contribuição: eu aprovei a nacionalização do BPN face a uma lei que a Assembleia da República aprovou. Em relação a essa lei manifestei muitas dúvidas e o Governo, e o Banco de Portugal, disseram-me que era a única alternativa para que não acontecesse um descalabro no nosso sistema financeiro e para proteger os depositantes. Eu tenho toda essa documentação na minha mão, na minha mão, e o que me surpreende é que em Inglaterra tenham ocorrido perturbações grandes, grandes prejuízos em bancos, tenham sido nomeadas administrações profissionais independentes e tenham conseguido recuperações notáveis. O que me surpreende é que esta administração do BPN não tenha conseguido fazer aquilo que fizeram as administrações em Inglaterra. Era bom ouvir o doutor Horta Osório, que conhece bem essa matéria.

Cavaco Silva

Eu vou ser muito claro, read my lips, como dizia o outro. O que eu percebi daquilo que o prof. Cavaco Silva estava a dizer não era que a competência técnica das pessoas que lá estavam estava em dúvida, não era isso. Era a interferência do Poder, de interesses que não eram simplesmente os interesses da recuperação económica do banco. E que o banco foi encarado pelo Poder não exclusivamente como uma empresa que tinha de ser profissionalmente recuperada a todo o custo, evitando mais encargos para os contribuintes, mas, provavelmente, como uma fonte de poder, como receptáculo de informações que poderiam ser usadas no combate político.

Lobo Xavier

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O melhor 2011 das nossas vidas

Experiências feitas com rãs – na Estação Espacial Internacional, onde nada parece ter gravidade – mostram que não voltará a existir um 2011 tão bom como este. É aproveitar, pois.

Claro que nem todos dão o devido crédito à ciência, preferindo os estreitos limites da subjectividade e as múltiplas ilusões do senso comum. Esses estão zangados com um país onde desfrutam das mais avançadas leis em matéria de liberdades e direitos. Ter hospitais, escolas, esquadras, estradas e uma imensa panóplia de serviços públicos a funcionar, a que se junta a oferta de todo o tipo de mercadorias e produtos de consumo, não chega. A meta é o crescimento fulminante dos salários e regalias laborais, o desaparecimento do desemprego e da pobreza por decreto, mais a imunidade absoluta contra convulsões económicas ou meteorológicas. A perfeição, o Céu na Terra.

Mas há um problema com os paraísos. É que até neles aparece quem se aborreça, quem sinta falta de qualquer coisa que ainda não provou. Um certo tipo de fruta, por exemplo. Para esses, todos os anos são maus. Eles sabem-no para lá de qualquer dúvida porque o sentem. Sentem-se mal. Seja porque não almoçam nem se cruzam nos aniversários e casamentos com os bandidos que estão na governança, seja porque precisam de inventar inimigos para se levantarem da cama, seja porque a vida é madrasta e eles já passaram há muito a idade das ousadas esperanças. Cresce-lhes o azedume, uma infecção na alma que só a realização da sua megalomania faria desaparecer. O abismo chama o abismo.

Vamos ter o melhor 2011 de sempre, essa é que essa. Os que disserem o contrário não pertencem a este tempo, apesar de ocuparem o mesmo espaço. É deixá-los entregues às suas dilectas neuroses e tratarmos do que mais importa: a incomparável beleza do acontecer.

Resolução de Ano Novo

A minha resolução para 2011 é ambiciosa, à altura dos tempos muito difíceis que enfrentamos. Consiste em tentar descobrir ao longo dos próximos 12 meses o que significa a expressão vale o que vale. É fórmula usada amiúde, já um cliché se o tema é relativo a sondagens, mas tem vasta aplicação. Ao limite, qualquer coisa pode receber a sentença: vale o que vale. Por exemplo, Paulo Sérgio vale o que vale, a ida da Moura Guedes para a SIC vale o que vale, o esquecimento da Judiciária de Aveiro acerca da existência de cópias das escutas a Sócrates vale o que vale e até o dinheiro, feitas bem as contas, vale o que vale. Assim, preciso saber do que anda tanta gente a falar.

E as tuas resoluções, quais são?

És patético, Pacheco

Acabo de ouvir o Pacheco, na Quadratura, a fazer a enésima ameaça de que um dia tudo se saberá acerca do terrível Gabinete de Sócrates e suas diabólicas malfeitorias. O costume é ficar-se pelo registo canalha de nada concretizar, largando risadinhas boçais para telespectador ver. Desta vez, a repto do António Costa, atreveu-se a indicar umas pistas soltas. E o que era? Pois nada mais, nada menos, do que o material que o Carlos Santos e o Paulo Pinto Mascarenhas andaram a espalhar acerca dos anónimos, do Simplex, dos emails de membros do Governo com informações para bloggers, das agências de comunicação ao ataque na Internet e, portanto, também a celebérrima teoria conspirativa da frente da calúnia e seu trio de blogues onde pululam empregados do Governo.

O Pacheco tem neste par de infelizes, Santos e Mascarenhas, a sua fonte para a construção da grande cabala socrática, afinal. Inacreditável o ponto a que se chega quando se perde a auto-estima intelectual. Contudo, um artista da política-espectáculo tem de ter conteúdos para apresentar, e a necessidade acaba por esfarelar a lucidez. Agruras da profissão.

Só espero que um dia também se saiba quanto se ganha nessa indústria onde vale tudo, até mesmo a exibição crua da indigência moral. Desconfio que não compensa.

Rex tremendae

Nas duas vezes que Alegre debateu com Cavaco vimos a mesma cena: um homem ingénuo, sem vocação política, a sonhar-se nas Cortes de Lamego à espera da aclamação. Transbordando magnanimidade, tratou o seu opositor com impecável elevação e indisfarçável estima. Afinal, tratava-se de um correlegionário, um par do Reino.

Não lhe podemos levar a mal tão humana fraqueza, porém. Antes devemos agradecer-lhe as batalhas que travou fogoso e heróico contra os verdadeiros inimigos da democracia – primeiro em 2005, contra Soares, e de 2007 a 2009, contra o Governo e a sinistra Maria de Lurdes Rodrigues. Também não podemos ignorar os sacrifícios suportados durante os 5 anos em que arrastou sozinho 1 milhão de votos. É um desafio titânico, especialmente quando chove e os votos ficam todos empapados. Naturalmente, chegou a estas eleições esgotado. É tempo de desfrutar o merecido repouso.