Internetismo

Quem quiser conhecer a verdade – repito: a verdade; insisto: a verdade – sobre aquilo que diz e faz o Presidente da República, basta ir à página da Internet da Presidência da República. Lá, está a verdade.

Cavaco Silva

*

Foi em Sobral de Monte Agraço, entre canhões e soldadinhos, que Portugal ficou a saber onde está a verdade presidencial: não nas palavras e actos do Presidente, não nas suas decisões políticas, muito menos nalgum porta-voz dado à frequência de pastelarias, mas num certo sítio da Internet. 6 meses após este oráculo, acumulam-se os sinais de que Cavaco terá mesmo fundado uma nova religião – o Internetismo. Perfeitamente adequado aos tempos celerados que vivemos, este novo credo já não se filia nas chamadas religiões do Livro e sua pesada herança veterotestamentária, antes inaugura uma nova categoria: as religiões da Página. A verdade cabe numa página, nem sequer precisamos de recorrer a uma folha, agradeçam e venerem uma das mais estonteantes revelações que nos foi transmitida pelo profeta Cavaco.

Contudo, não se pense que esta modernice da verdade paginada diminui o aparato exegético e hermenêutico necessário à plena fruição da mesma. A verdade continua a ser para poucos, apesar de muitos serem chamados. Tomemos como exemplo algo simples, com três letrinhas apenas: SLN. Onde se encontra, no corpus digital do Internetismo, essa misteriosa trindade? Recordemos as palavras do profeta:

Recentemente foi noticiado que eu tinha tentado esconder que da minha carteira de títulos e da minha mulher faziam parte acções da SLN. Não é verdade. E se eu digo que não é verdade é porque estou perfeitamente seguro que o posso dizer.

Eis uma das mais valiosas bênçãos para quem funda uma religião, a capacidade de separar a verdade da mentira com perfeita segurança. E a faculdade que permite o acesso à contemplação da verdade é a simples leitura:

Quem diz que procurei ocultar que da carteira de títulos minha e da minha mulher faziam parte acções da SLN não está a dizer a verdade ou então não soube ler o comunicado que eu fiz.

A alternativa é entre a falta de carácter ou o analfabetismo e a iliteracia, no Internetismo não há espaço para mistelas. Estamos perante um socratismo, por mais paradoxal que possa parecer, em que se admite uma via racional para a verdade a partir do próprio ser cognoscente e sua natureza ontológica. Há só uma condição: saber ler comunicados. Pois bem, no comunicado em causa, guardado no templo da verdade, vemo-nos face a 2.199 caracteres que, curiosamente, em nenhuma das suas configurações acabam por formar a troika SLN. Será isto causa suficiente para dizer que se ocultou a fugidia sigla? Nada mais longe da verdade, a tal verdade verdadeira, visto a chave do enigma consistir no que o profeta Cavaco indicou claramente: saber ler.

Por exemplo, tomemos este passo do comunicado:

As aplicações feitas pelos bancos gestores constam, detalhadamente, da referida Declaração de Património, entregue no Tribunal Constitucional – assim como o número de todas as contas bancárias do casal, excepto uma, aberta no Montepio Geral, por acolher apenas depósitos à ordem – a qual, repete-se, pode ser consultada.

Aqueles que sabem ler comunicados – portanto, os ungidos que não mentem – encontram aqui a SLN em tudo o que é palavra ou espaço entre as letras. E a mensagem é a seguinte: a SLN foi despachada numa Declaração de Património para as masmorras do Tribunal Constitucional. É lá que ela se encontra e até pode ser visitada pelos familiares ou curiosos. Mas porquê tal triste fado? Porque a SLN não cabe numa página, aquilo são caixotes e caixotes de revelações. Ora, se não cabe numa página, não faz parte da verdade.

O Internetismo, como se vê, ainda vai salvar muita gente.

13 thoughts on “Internetismo”

  1. Então é fácil!!
    Em vez de escolhermos para Presidente um Ser Humano…escolhemos um PC ou um Portátil! Fantástico, Cavaco, fantástico!!
    Olha, eu escolho para Presidente um Fabuloso e Verdadeiro Toshiba Satellite (já com Anti-Vírus e tudo! Assim não sou escutado ou vasculhado pelo Sócrates!).

  2. Valupi: à medida que esta campanha avança, mais lamentável acho que o Manuel Alegre tenha objectivamente impedido o PS de apresentar outra candidatura (se o PS queria ou não, era uma questão a analisar friamente, digo eu, tendo em conta as argoladas e as fragilidades de Cavaco, assim não sentisse a possante e desafiadora figura do bardo ali especado e expectante). Surpreendentemente, Manuel Alegre percebe pouco de política, aliás percebe muito pouco do mundo desde há 30 anos. Nada tem feito de positivo/relevante para o desenvolvimento do país nos últimos anos e, suspeito, nos penúltimos também não. Basicamente, em matéria política, só tem feito asneiras. Tem sido falado nas televisões e nos jornais, é certo, e usado por quem quer combater o governo. Seria isso que queria? Esta sua campanha de rua, com os apoios envergonhados de inimigos como o Bloco e o PS, é simplesmente patética! Li hoje que lamenta não ter as cúpulas dos dois partidos a acompanhá-lo. Lamenta? A sério? Ah.

    É que, de tão medíocre e de tantos flancos expostos, Cavaco Silva seria facilmente derrotável e ficaria na história da democracia como o primeiro PR a não ser reconduzido no cargo. Merecia-o, por muitos e variados motivos já aqui sobejamente apontados, pelas coisas ridículas como a que expões laboriosamente neste post, mas sobretudo pelo despudor a que chegou neste mandato com a inventona das escutas. Foi grave. Qualquer figura respeitável o teria derrotado agora, se quisesse com ele competir.

    Estou pessimista. A perspectiva de mais 5 anos de Cavaco Silva na presidência é decepcionante. O homem é do passado, devia ter ido pelo cano com os amigos do BPN. Acontece que, dada a inépcia total de Alegre e o desconhecimento de Defensor Moura, quais acções, quais escutas! Cavaco pode até assaltar um banco ou pôr uma bomba em São Bento amanhã. Aumentaria a abstenção certamente, mas nem assim penso que os chocados ou revoltados com o acto fossem a correr votar em Alegre!

  3. «Cavaco pode até assaltar um banco ou pôr uma bomba em São Bento amanhã. Aumentaria a abstenção certamente, mas nem assim penso que os chocados ou revoltados com o acto fossem a correr votar em Alegre!» Ou em outro qualquer, acrescento eu.
    O homem não diz coisa com coisa, por vezes até parece senil, tal a convicção com que diz aquelas banalidades, tenho a certeza de que o homem se julga verdadeiramente naquilo que diz. O trágico de tudo isto é a absurda tolerância dos media que entram descaradamente neste jogo, e nesta incongruência, como se isto fosse a coisa mais natural deste mundo.
    Vais ser assim tão difícil perceber que o rei vai nu, ou dará mesmo jeito eleger alguém tão desnudado?
    Será que alguém com um mínimo de sentido crítico poderia votar em semelhante criatura,de perfeita consciência?

  4. Exegese cavaquista. Internetico = entre os netos. Daí o argumentario infantil e fabulista.
    É um igrejeiro avô que nos há-de levar à derrota.

  5. Brilhante, Penélope!

    Só que, agora, já está. Por mim, repito, o meu voto será primeiro que tudo Nobre. Mas depois, se tiver mesmo que optar entre um Alegre e um Pateta, não haverá qualquer hesitação.

  6. Caro Valupi,

    seguindo a passada de quem me antecede, isto é, não me desligar do “bando” como nas corridas de meio fundo, devo acrescentar ao tom geral um ângulo de análise sobre o qual ainda ninguém elaborou.

    Na primeira eleição de Mário Soares, já existiam várias cabeças muito brilhantes no PS, apresentou-se também um “irmão inimigo” de seu nome Salgado Zenha. Se o Soares tivesse perdido as eleições, seguramente que os destinos do país seriam bem diferentes, é ciência segura que as duas correntes íam cada uma para seu lado.E que muito boa gente não chegaria nunca a lado algum, muito menos a ministro.

    Só um milagre salva o país deste calvário, estamos perante um dilema, cadeia ou hospital? Venha o diabo e escolha.

    O Alegre vai seguramente fazer a vida negra a muito boa gente dentro do PS, o que até não é nada mau, depois da derrota bem amarga e bem merecida. Não há quem diga a este génio da comunicação oral, para deixar o “fantasma em casa” e escrever e ler uns poemas, é o melhore que sabe e pode fazer.

    O PS que fabricou este candidato está podre, pode ser tudo menos um partido político, aquilo é de alguns, são os “pais de Alegre” mais os que “deixam correr o marfim”, são todos culpados, devem ser julgados e condenados pelo mal que conscientemente provocam.

    Eles fabricam a seu belo prazer os lideres, os candidatos para isto e aquilo, eles jogam no mal menor, não querem brigas, o tempo é dinheiro e este é poder, a máquina não pára de auto-manter-se, é uma lástima, raramente acertam.

    É só definhar em simpatia popular, ampliar o castramento de vontades. É lamentável.

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