Um amigo meu, acabadinho de ser pai pela primeira vez, não consegue dar ao seu filho o nome que o seu pai lhe deu a si nos anos 70: Tomaz. O Estado agora só admite o plebeu Tomás. Espero, então, que a Lyonce Viiktórya, para além de encher de alegria a sua família e ter uma vida longa e feliz, também derrote este desacordo ortográfico.
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O que este bandalho disse
O homem que, no dia em que Portugal estava no centro da atenção mundial por ir enfrentar o impiedoso juízo dos mercados em nome da Europa e sua moeda, andou a exibir-se para os jornalistas – primeiro dizendo que sabia tanto como o Governo, depois dizendo que sabia mais do que o Governo, por fim dizendo que estava farto do Governo, tudo isto em poucas horas – é o mesmo homem que diz agora ao eleitorado que Portugal deve abdicar da democracia para não perturbar os mercados.
Não temos vernáculo com riqueza semântica suficiente para adjectivar o que este bandalho disse. Futuros Camões, Vieiras e Pessoas, juntos e com esforço, talvez o consigam criar.
Não é matematicamente possível tratar-se de uma coincidência
É o mínimo
Tendo andado por aqui a vasculhar nos meus papéis, e a rever todas as entrevistas que dei ao Mário Crespo, e não encontro provas, ou meros indícios, de ser eu o responsável por termos os intragáveis candidatos presidenciais que temos. Há rumores, certamente, boataria que deposita em mim essa culpa, mas vou fingir que sou sério e não dar ouvidos.
Excelentes pessoas têm excelentes razões para votar neste ou naquele. Os restantes, um grupo de tamanho indefinido, estão completamente à nora. Apenas uma certeza os une: não votariam Cavaco nem que nascessem duas vezes. Pois para esses é tempo de dar uma palavra de esperança: queridos amigos, tanto faz onde acabemos por votar, já que vai dar tudo ao mesmo – contribuir para que haja uma 2ª volta seja lá com quem for. Não votar, votar em branco ou nulo é estar a contribuir para a vitória de Cavaco logo à primeira, coisa que a acontecer seria um atestado de menoridade cívica que teríamos de carregar durante 5 anos. A 2ª volta sempre viria dar alguma racionalidade ao panorama político nacional, onde Cavaco se revelou o pior Presidente da República desde o 25 de Abril; para além de ser política e moralmente responsável por uma tentativa criminosa de interferência nas eleições legislativas e autárquicas.
Se fosse eu a mandar nisto, a 2ª volta seria disputada entre Defensor de Moura e José Manuel Coelho, de longe os candidatos que estão melhor preparados para o cargo. Mas só voto no Defensor, uma eventual 2ª volta sem ele será uma roleta russa que não contará com a minha cruz.
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Adenda: acabo de ler o texto do Rui Tavares que diz exactamente o mesmo no essencial, mas com uma muito maior riqueza de conteúdo.
Uma outra forma de trabalhar para o bronze

O rosto da esquerda representa o efeito da pele bronzeada pelo Sol. O do meio, a tonalidade natural. O da direita, o efeito de se consumirem mais carotenóides. Segundo dizem os bacanos que estudaram a cena, o rosto da direita é o que parece mais saudável – logo, mais atraente – ao olhar exterior.
Que achas, é tanga ou devemos começar o dia a comer cenouras e talhadas de abóbora?
Peripatéticos
Primeira figura
Barbara
Tudo o que Sócrates faz é ruinoso ou criminoso
Tudo o que a direita faz é ter inveja de Sócrates
Tudo o que a direita gostaria de fazer é ruinoso ou criminoso
Celarent
Nenhum membro do Governo é honesto ou competente
Todos os tipos da direita querem ir para o Governo
Nenhum tipo da direita é honesto ou competente
Darii
Todas as pessoas de bem votam Cavaco
Alguns escroques são pessoas de bem
Alguns escroques votam Cavaco
Ferio
Nenhuma realidade é fantasia
Algumas coelhas são reais
Algumas coelhas não são fantasia
Enchidos Nobre
E ainda, imperdível: do peito às balas, passando pelo suicídio por ordem da Segurança Social e chegando aos seus pares, Gandhi, Martin Luther King e Nelson Mandela.
«I’ve been to Sugar Town, I shook the sugar down»
João Pedro da Costa, o melhor blogger do Mundo e um dos melhores em Portugal, alguém que heroicamente moldou o destino para me permitir ser seu primo por afinidade antroponómica, voltou às lides com estrondoso aparato académico: mv flux
Para além do objecto da sua investigação, vídeos musicais na Web, ele está a desenvolver um estudo que abarca toda a cultura digital contemporânea. Absolutamente precioso para vários públicos, de cientistas a jornalistas, passando pelos simples (ou complexos) curiosos.
Escuta, Cavaco

MA – [atabalhoada, confusa, errada, inepta apresentação do caso das escutas]
JS – Cavaco Silva, quer responder?
CS – Quero responder e mais do que isso… O sr. candidato anda muuuito distraído. Um candidato não pode andar distraído quando tem todos os seus meios à disposição. Pode ir consultar a página da Internet da Presidência da República e está lá tudo aquilo que eu devia dizer – e que é a verdade! Sabe, a verdade é muito fun-da-men-tal, principalmente para a resolução dos problemas de um país. Porque um cidadão in-for-mado, um povo informado, enfrenta melhor os problemas do País. A verdade gera confiança, enquanto a ilusão o que faz é gerar descrença.
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Debate – minutos 20 e 21, a resposta de Cavaco dura 30 segundos e o assunto não volta a ser falado.
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Um dos acontecimentos mais extraordinários da minha vida adulta, como cidadão para quem a política é parte constitutiva da identidade, é a Inventona de Belém. O espanto não está tanto no facto de ter acontecido, conhecendo nós cada vez melhor o calibre dos seus mentores e executantes, mas no facto de ter desaparecido sem qualquer consequência, seja ela qual for. E se o Governo, portanto o PS, nada podia fazer naquele contexto – com eleições daí a semanas quando a conspiração foi lançada ou a dias quando foi desmontada, e com a obrigação de formar um novo Executivo agora sem maioria parlamentar e no meio de uma desvairada crise económica – é inacreditável como o tema não foi aproveitado por nenhum dos candidatos presidenciais que se propunham derrotar Cavaco. Nenhum, pois o que fez Alegre no debate é igual a nada. E ainda se deixou tratar de forma ignóbil, como um farrapo onde se escarra e manda ao chão.
Qual a razão que justifique não ter o Ministério Público aberto um inquérito-crime neste caso? Não estaremos, deixa cá pensar meio segundo, perante um retinto atentado ao Estado de direito?
Vantagens de passar pela TPA Internacional
Esgoto a céu fechado
A questão dos comentários, nas caixas dos jornais… Quer dizer, eu acho que começa a ser preciso arranjar meios de meter mão naquilo, porque aquilo basicamente é ódio atrás de ódio… Quer dizer, já vai muito além de qualquer razoabilidade de liberdade de expressão.
João Miguel Tavares
Eu, nada que apareça nas caixas de comentários dos blogues, ou dos jornais, me espanta porque eu acho que é uma sarjeta. [Alguém lhe chamou “esgoto a céu aberto”! – Carlos Vaz Marques] Sim, sempre foi, e não percebo como é que os jornais continuam a defender isso.
Pedro Mexia
Eu não sei se é mau isto de haver sarjetas nos blogues e nos sites dos jornais. Eu acho que devia haver mais estudos sobre a utilização das novas tecnologias pelo homem de Neandertal. Isso é uma coisa que me surpreende sempre: gente que eu suponho que vive em cavernas, por aquilo que diz e pelo modo como o diz, mas que está com um computador à frente, com um teclado.
Ricardo Araújo Pereira
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Vários jornalistas e publicistas, alguns deles acumulando com longa experiência como bloggers, neste período das reacções à morte de Carlos Castro voltaram à ladainha contra as caixas de comentários. Na sua entusiasmada opinião, as mais graves patologias psíquicas e morais que podemos detectar na sociedade correm soltas nessas fossas infectas a que se acede pela Internet para deixar conjuntos de caracteres.
Esta atitude, vinda daqueles que, por boas ou aleatórias razões, fazem parte da elite intelectual que intervém no espaço público, nasce de um triplo erro. Começam por não perceber o poder simbólico do crime em causa – onde a mutilação sexual, precisamente por ter sida feita por um homem noutro homem, cria uma situação de trauma colectivo que obriga a um difícil, e para muitos impossível, exercício de doação de sentido. Até isso acontecer, alguns homens, mais uma vez, ficarão predispostos para explosões de violência emocional, consequência do stress em que se encontram. Depois não entendem as noções básicas da comunicação na Internet, onde o vazio somático e o uso da linguagem escrita são factores inevitáveis de equívocos interpretativos (não temos a expressão facial e o tom de voz, o que pode levar a que uma piada seja tomada como uma ameaça, por exemplo e etc.) e de pulsões justiceiras (as flame wars como folclore das comunidades digitais desde o começo da Web). Há inúmera literatura científica sobre o fenómeno. Por fim, não compreendem que a sua verrina contra o povo abrutalhado que berra e larga caralhadas é uma declaração de desprezo pela democracia. Particularmente em Portugal, país sem tradição recente de cidadania, debate político elevado ou estima pela intelectualidade. Naturalmente, há milhões de portugueses que só agora estão a aprender a discutir com o vizinho, tenham eles 17 ou 71 anos. Os excessos, as falhas, a exposição crua das misérias que cada um de nós carrega, fazem parte do nosso destino comum. São a matéria de que somos feitos. A matéria com que se cresce.
João Miguel Tavares, publicista que fez do ódio a um governante a catapulta para a fama, mostra-se disponível para acabar com o ódio dos pestíferos anónimos que andam por aí a ameaçar o seu lugar. E não admira: é que o Correio da Manhã, para onde se mudou depois de ganhar o prémio Calúnia 2009, não pode acolher todos os que mostram ter algum talento para achincalhar figuras públicas. Aquilo é um esgoto a céu fechado e já está cheio de merda.
Rui Vitória
Deusa
Micro-fábulas
A foggy day in Lisbon town
Quinta-feira. Estupidamente cedo. O nano-anão dentro do rádio garante que Lisboa está coberta por nevoeiro. Penso que está a mentir. Penso que, a ser verdade, é noutro local. Penso que me quero levantar. Há nevoeiro à minha espera.
O único problema com o nevoeiro é a rapidez com que desaparece. Quase nunca chega ao meio-dia, poucas vezes aparece à noite. E não é possível acontecer em excesso. Que seria isso de um nevoeiro catastrófico? Algodão doce.
Quinta-feira foi um dia lindo. Porque o nevoeiro não partiu no final da manhã, ficando cada vez mais denso com o passar das horas. À noite, atravessando a cidade a pé, as luzes eléctricas abriam portões e fendas para a entrada em reinos encantados, ali mesmo ao virar da esquina ou por detrás daquela árvore. Tudo era outra coisa, humidamente irreal. Um tempo fora do tempo.
O nevoeiro existe para nos dar a ver o que está demasiado perto.
Apelo à Direita
Bom povo da direita lusitana,
Sabemos como têm sofrido prejuízos colossais e indignidades atrozes por causa dos bandidos que usurparam a governação, oprimem quem trabalha, perseguem os que criam riqueza e roubam a fazenda pública. A vós, que guardais as nossas melhores tradições e as mais elevadas aspirações, que estudastes em famosos colégios e reputadas universidades, que possuis estantes repletas de tratados, ensaios e florilégios de moral, que sois os mais viajados e sofisticados, que exibis enciclopédico conhecimento sobre restaurantes sublimes, vinhos raros e perdizes de perder a cabeça, que tendes os pais mais cultos, os tios mais altruístas, os primos mais honestos, os amigos mais inteligentes e as amigas mais giras e liberais, em verdade vos digo: haveis uma vocação inata, um direito natural, para mandar nesta merda toda.
Perguntas simples
Why deadlines don’t matter any more
Paulo Querido cita um artigo de Alan Mutter que está cheio de bons conselhos para quem gosta de fazer e ler jornais. O segredo para a captação da relevância perdida, acrescento às ideias do texto, será também a recuperação da ligação política à comunidade na sua universalidade, não aos grupos particulares que calhem estar a condicionar um dado órgão de informação (accionistas, directores, facções partidárias na redacção). Isso pedirá um tipo de jornalista que acredite no lado idealista da profissão, para além de ter a força para resistir às tentações narcísicas e venais do meio. Aves raras, pois.
Esperemos que um dia se faça essa experiência em Portugal. Para que volte a ter o prazer de comprar um jornal de referência. Um jornal de eleição. De paixão.
Clube dos amigos do FMI
Há longos meses que um grupo de portugueses acorda e vai para a caminha com a esperança de que o FMI já esteja a aterrar na Portela. Qualquer sinal que permita alimentar esse sonho internacionalista, sejam números ambíguos, notícias inventadas ou as vísceras frescas de um borrego, é festejado como uma vitória. E compreende-se bem o entusiasmo: se não for o FMI, eles não se salvam da bancarrota mental. Sozinhos, apenas com os seus partidos, os seus grupos de comunicação social, os seus empresários, os seus administradores públicos, os seus magistrados extrovertidos, estão condenados à indigência política que arrastam há décadas.
Não estávamos era a contar descobrir que o presidente deste clube acumulava com o cargo de Presidente da República, mas estes últimos dias, e estas últimas horas, obrigam a essa conclusão. Para quem ainda tinha dúvidas, aí está: Cavaco Silva é o chefe da oposição ao Governo e o cabecilha da próxima golpada institucional já em andamento.
Alice#5
A primeira Alice do ano oferece Pedro Mexia, Eduardo Salavisa, Tiago Albuquerque, Ricardo Miranda e Maria João Vasconcelos. E até final de Fevereiro oferecerá muitos mais.
Esta revista digital vive em permanente superavit de talento.

