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Egiptologia

Quero dirigir uma palavra aos jovens portugueses. Lutem pelo vosso futuro, vocês são a geração da mobilidade, do Erasmus e das redes sociais. Não fiquem parados. Lutem por uma nova forma de fazer política. Mais transparência e fundamentação nas decisões, mais ética, mais respeito pela dignidade das pessoas. Menos espectáculo e mais verdade no discurso. Podem contar comigo.

Cavaco

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Se o primeiro discurso de Cavaco na noite eleitoral foi uma vergonha, o segundo foi chocante. Pelo meio, os comentadores tentavam entender o que tinha passado pela cabeça do homem para ter continuado a atacar os adversários mesmo depois de ter sido reeleito e esperavam que ainda fosse a tempo de dar uma palavra de concórdia e pacificação ao País. Acontece que o segundo discurso não foi só ainda mais persecutório, foi também desvairado e violento. No final, havia um sentimento de inaudita incredulidade; ninguém teria sido capaz de imaginar nada sequer parecido, quanto mais ter ainda de o comentar sabendo-se que se estava perante o actual e futuro Presidente da República.

Entre as várias infâmias proferidas por Cavaco, a maior de todas é esta invocação dos jovens somente para continuar a espalhar o seu fel. É o cúmulo da sonsice. O tal que patrocinou e alimentou uma golpada eleitoral, e que é cúmplice moral e directo beneficiário da golpada do BPN, vem dizer aos jovens para exigirem mais transparência, mais ética e mais respeito pela dignidade das pessoas – metas para as quais anuncia poderem contar com o mesmo que as ofende e despreza sem o mais leve sinal de remorso.

Estamos perante um grau de hipocrisia que merece uma pirâmide 10 vezes maior do que a de Gizé para lhe fazer homenagem.

Como são bonitos os portugueses

Trata-se de um formato produzido em vários países, cuja versão portuguesa foi lançada na RTP em Junho passado. O conceito é o da apresentação turística de uma cidade, mas com a originalidade de convidarem imigrantes do país onde se exibe o programa para servirem de guias amadores. Ao mesmo tempo que falam da cidade, contam a sua história.

O exemplo que trago, apesar de estar em condições visuais muito deficientes, permite apreciar o grande talento com que se faz esta série, e, acima de tudo, o excepcional casting. As pessoas escolhidas parece que nasceram para fazer televisão tal a naturalidade, fluência e boa onda com que falam do que está fora ou dentro de si. Algo completamente atípico para o português que nunca saiu da terrinha. Mas também os exemplos de vida mostrados são apelativos, até aspiracionais – e não por razões meramente monetárias (que não se referem), mas por ficarmos com a impressão de que estão todos a fazerem o que querem, que se estão a realizar. Não têm qualquer comparação com a imagem estereotipada do emigrante português, polarizada entre as figuras do rústico analfabeto que vai para a construção civil e o filho-família que vai para uma carreira de topo. Estes estão no meio, e são do nosso meio.

O Pedro Caleiro é a simpatia em pessoa. A Bárbara Neves é uma sósia da Catarina Furtado, mas mais descontraída e natural, por isso ainda mais agradável. O João Pamplona é a portugalidade no seu melhor. A Alexandra Cruz é uma queque com quem apetece passar férias, almoçar, jantar e tomar o pequeno-almoço. E o João Friezas é um cromo prototípico que merecia um programa inteiro sobre a sua pessoa – a star is born.

Não sei se sabes, mas alguns dos seres humanos mais bonitos do mundo têm trinta e tal anos e são portugueses.

Segunda parte

Vos estis sal terrae

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Para além da escrita relevante, acutilante e entusiasmante, que é a sua marca, qualquer livro com palavras da Fernanda é também muito útil para chatear aqueles que nos aborrecem. Por exemplo, aquele ranhoso que até calha ser nosso cunhado, que em todos os jantares de família insiste em repetir o que papou no Sol ou no Correio da Manhã, assim perturbando a saudável deglutição das entradas e postres. Por exemplo, aquele imbecil que até calha ser nosso primo, que vai para os casamentos e baptizados atiçar a luta de classes e espalhar o seu ódio à burguesia, assim estragando a festa à tia e ao avô. Por exemplo, aquele pulha que até calha ser nosso colega de trabalho, que se vangloria de fugir aos impostos, enganar os incautos e desprezar os políticos, assim promovendo o cinismo à sua volta. Por exemplo, aquele bandalho que vemos na televisão a envenenar a democracia, que se toma como uma sumidade moral mas que não passa de um farrapo de gente, assim usando o seu poder para perverter a opinião pública.

Para todos eles, o envio deste livro – mesmo que nunca venha a ser compreendido ou sequer lido – é um sermão que enche de gozo a quem o dá.

Segredos mal guardados das presidenciais

Cavaco deixou assustados os seus mais fiéis apoiantes.

Passos deixou assustada a sua oposição interna.

Portas entregou o ouro ao bandido.

Louçã partiu um dos pés de barro.

O PCP continuará a tentar ser Presidente da República.

Nobre não resistiria mentalmente a mais uma semana de campanha.

Coelho começou o ataque ao poder no arquipélago pela conquista dos selvagens.

Sócrates foi o único vencedor.

Chegámos à Madeira

Mais do que a percentagem nas eleições, para a qual há fáceis explicações, é esta entrevista que consagra José Manuel Coelho como a maior revelação da política nacional dos últimos anos. O seu discurso está estruturado e fundamentado, reina o princípio de realidade (mesmo que a derrapar nas curvas) e tem já pronta uma estratégia eficaz para pressionar PCP, BE e PS na Madeira. Aliás, ficamos até perplexos por ser necessário aparecer uma figura tão marginal para ouvirmos uma crítica a Jardim com esta radicalidade.

Também chamo a atenção para o modo como termina a entrevista, onde o jornalista, perante uma justíssima acusação, tem uma reacção corporativa e paternalista. O jornalista, obviamente, fez ali de palhaço.

Atacar o Defensor

Neste vídeo, a partir do minuto 4.30, Defensor de Moura alega que, aquando da sua declaração na noite eleitoral, foi impedido pelos jornalistas de explicitar o que pretendia dizer com aquilo de não felicitar Cavaco pela sua reeleição. E o que pretendia ter dito, afinal, não era o que acabou por dizer mas exactamente o seu contrário, pois, naturalmente e tal, é das normas democráticas felicitar o vencedor, e terá sido só por intempestiva falta de tempo, e calma, que não o conseguiu fazer, devendo-se culpar os jornalistas pelo insucesso da comunicação, prontos e esqueçam lá isso. E neste vídeo, a partir do minuto 1.20, vemos a famigerada declaração, onde com toda a calma – e tempo, que o exigiu aos jornalistas – diz, num tom de voz audível e aprazível, não felicitar Cavaco, tendo ainda o cuidado de explicar porquê com algum detalhe.

Estamos perante uma desilusão, tecnicamente falando, pois fora criada uma ilusão de frontalidade e coerência, agora desmentida pelo próprio. Entretanto, o João Pedro da Costa abriu uma fértil discussão quanto ao juízo moral a fazer do antigo Defensor de Moura, efémero mas bravo desbocado, a qual me deixou a pensar em algo que nunca antes tinha ocupado o meu bestunto: a fascinante problemática das felicitações aos adversários políticos. E o cerne da questão está aqui: que se está a fazer ao felicitar alguém? Independentemente das inúmeras respostas que obteríamos num inquérito, tantas quantos os participantes, o seu ponto em comum teria de ser algo como isto: felicitar é reconhecer a bondade de um dado evento passado e de um dado evento futuro, ambos representados na pessoa que se felicita. Ou seja, ao felicitarmos estamos a declarar que nos submetemos à liberdade de outrem, no que à esfera do estatuto alcançado concerne. Assim, quando um político derrotado envia felicitações ao político vencedor, o primeiro está, acto contínuo e sem carência de sinceridade ou estima, a reconhecer publicamente que a vitória do segundo é fundamentalmente boa. Boa para os dois.
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Don’t fuck with Mr. Zero

A prestação do Ministro da Administração Interna, nesta terça-feira no Parlamento, foi insuficiente. Para além da abertura do inquérito, que é o mínimo dos mínimos, a sua mudez – 48 horas passadas e muitas declarações feitas pelos responsáveis dos serviços em causa depois – acrescenta descredibilização governamental ao episódio.

Estamos perante uma situação onde não é possível invocar factores desresponsabilizadores, apesar de alguns poderem ser legítimos (como a incúria cívica de quem não tratou de saber qual era o seu número de eleitor antes da eleição). Do que se percebe vendo de fora, há duas falhas inadmissíveis: (i) um sistema informático desadequado ao fluxo que seria previsível num cenário de picos de pedidos e (ii) a ausência de um aviso individual com a informação respectiva ou uma campanha pública que tivesse alertado para a necessidade de acautelar a aquisição do novo número para aqueles que tinham mudado para o Cartão de Cidadão.

Não é só a oposição que tem toda a razão em malhar nos responsáveis governamentais, é a comunidade inteira. Podia ter acontecido uma catástrofe eleitoral, caso a segunda volta tivesse sido alcançada ou evitada por uma pequena margem. Provavelmente, as eleições teriam de ser impugnadas, e tudo o que se seguisse seria imprevisível e desgraçado.

Esta questão é de tal ordem fundamental para o funcionamento das instituições do Estado que até o visionamento deste bandalho – que vai para a televisão largar com perfídia uma insinuação conspirativa contra o Governo, sendo ele conselheiro de Estado – tem de ser suportado sem um vagido de protesto.

O que andam a fumar no Cachimbo?

Um homónimo de um antigo presidente do Benfica, que não conheço de lado algum e a quem nunca me tinha referido até hoje, usou um texto meu para fazer uma graça contra Sócrates. É simpatia que agradeço. Contudo, ele sentiu a necessidade de informar a audiência que, concomitantemente, achava banal o material por si aproveitado. Ora, concordo muito com ele. É que eu ignoro qual seja a sua definição de banalidade, e qual a percentagem de textos escritos em blogues que este perito literário considera banais, mas não ignoro que eu teria muita dificuldade em encontrar algo escrito por mim que não considerasse banal. E desconfio que a situação não vai melhorar.

Já o que ele escreveu me parece tudo menos banal. Na verdade, acho-o extraordinário; dado que só existem duas razões que expliquem a reunião daquelas palavras num composto que se quer lógico: ou não consegue identificar um uso básico da ironia ou só pretende ser lido por quem sofra de iliteracia. E até parece que o estou a ver, feliz da vida a escolher uma imagem curtida para ilustrar a pilhéria, assolado por explosões neuronais de auto-satisfação por ter apanhado – e com tanta facilidade! – um xuxa no ritual diário de adoração do grande líder. Assustador.

Em Dezembro passado, tinha sido um outro colega de blogue a passar pela mesma figura; e exactamente nas mesmas condições: nunca dele tinha falado, não me nomeia e só disse parvoeira da grossa. E em Maio de 2009 ainda outro colega usando o mesmo protocolo, num duvidoso exercício de humor que não saiu do registo pastiche. Para completar o ramalhete, este blogue acolhe o sinistro Paulo Pinto Mascarenhas, uma mente brilhante que desenvolveu a teoria de que o Valupi era (ou ainda é, sei lá…) o Rogério da Costa Pereira, entre outras maravilhas saídas da sua alucinada cabeça.

Pelo que vos deixo este conselho: o que quer que seja que andem a fumar, não o façam antes de escrever.

Eu, alguém e três mil

Tenho a honra, o prazer e a sorte de ser amigo do Virgílio Castelo. É alguém que ama Portugal, razão suficiente para despertar o meu afecto mesmo que não o conhecesse pessoalmente, e até escreveu um livro acerca desse seu destino: O Último Navegador. Como as suas ideias são politicamente incorrectas para o ar do tempo – um ideal monárquico que vou ter a liberdade poética de rotular como um pessimismo optimista de recorte romântico e pragmático – o livro passou em silêncio pela crítica política, nem um laivo de discussão ou polémica suscitou. Mas a sua carreira está no teatro, a literatura foi um grito de alma, e é de teatro que venho falar.

Na próxima sexta-feira, sábado ou domingo, pelas 21.30, o cidadão de bom gosto que esteja nas redondezas pode usufruir das magnificentes condições do Tivoli para participar num dos acontecimentos públicos mais entusiasmantes que é possível conceber: ir ao teatro. Trata-se do último romance de Pirandello, talvez uma súmula ou culminância da sua obra, onde se viaja até ao espelho partido que todos transportamos e que todos somos.

Esta produção não tem qualquer subsídio estatal, é uma aposta na paixão pelo teatro. E trata-se de encontrar 3×1088 apaixonados – nem mais, nem menos.

Correspondência

O José Albergaria, há dias, pegou num texto que escrevi a respeito dos ataques às caixas de comentários e acrescentou-lhe esta reflexão. Para além de recomendar a leitura das suas pertinentes interrogações a quem se interessar por essa vexata quaestio, aproveito para corrigir, ou esclarecer, uma informação que ele dá a respeito do Aspirina B: neste blogue aceitam-se quase todos os comentários, mas não todos. As regras começam por ser aquelas que cada autor instituir para as suas caixas de comentários, posto que este é um colectivo sem colectivismo editorial. Quem quiser, pode começar a publicar sem possibilidade de receber comentários, por exemplo, ou apagar o que lhe apetecer, ou impor moderação. Mas a esta responsabilização individual ainda se acrescenta o mero bom senso. Patologias sociais (racismo, nazismo, promoção de discriminações, cultos de violência, etc.) e patologias psicológicas (obsessões, perseguições, hostilidade personalizada, desvario comportamental prolongado) estão sujeitas ao regime da tolerância zero a partir do momento em que são identificadas. O que significa que poderá haver períodos em que formas ambíguas, ou incipientes, destas patologias ainda persistam por não ser evidente qual é a sua natureza, mas ao continuarem estão a acelerar a sua detecção e consequente apagamento e exclusão. Por fim, qualquer pessoa pode reclamar contra uma qualquer informação que seja publicada nas caixas de comentários (ou pelos autores) que considere de alguma forma lesiva para os seus direitos e interesses. Nesses eventuais casos, reinará também o bom senso e a defesa das vítimas, escusado será dizer.

Resumindo, e falando apenas por mim, é um prazer e uma honra poder comunicar com tantos amigos de tertúlia digital, os quais me enriquecem, e parto sempre do princípio que estou a lidar com adultos na posse de todas as suas faculdade mentais. Por isso não gosto da moderação, a qual introduz um elemento de disfunção na experiência e tolhe a fruição da espontaneidade das conversas e dos diálogos. Se me enganar com este ou aquele, aqui ou ali, não virá daí grande mal ao mundo nem conto perder muito tempo com o assunto. Apenas garanto que tudo farei para resolver o problema com a maior brevidade.
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Minority report

Passos Coelho surpreendeu pelo tino do discurso. É cedo para saber se é o resultado de uma aprendizagem ou de um qualquer acaso, posto que ainda há duas semanas andava a largar bacoradas acerca do FMI e do Governo. É bizarro como algo que devia ser evidente, as vantagens de uma pose de estadista e uma estratégia de captação do centro, tem sido olimpicamente ignorado no PSD por todos os líderes pós-fuga de Barroso e queda de Santana. As razões merecem investigação académica, dada a persistência do fenómeno até num político com a tipologia de Passos Coelho, de quem se esperaria muito maior inteligência sociológica. Se o PSD finalmente aceitar entrar em territórios que lhe são actualmente desconhecidos, os sectores mais dinâmicos da sociedade, e trouxer de lá ensinamentos, então estará em condições de preparar equipas governativas de grande qualidade.

Em flagrante contraste com este posicionamento, Portas e Louçã mostraram que são políticos serôdios e esgotados. Discursaram como parlamentares, usando uma retórica tão primária quanto as suas ideias: um, a dizer que vai para o Governo daqui a nada; o outro, a dizer que fará a revolução com o grupo de amigos que tem lá guardado no partido. Devem agradecer ao Cavaco por não terem ficado nesta noite eleitoral como o exemplo maior do que é a decadência política.

Num plano ainda mais inferior, temos Nobre e Francisco Lopes. Há várias similitudes na forma como os dois candidatos moldaram um universo paralelo onde foram ambos vencedores, apenas se distinguindo na magnitude da vitória. Chico Lopes, sem nada de objectivo a que se agarrar, despejou a cassete. Nobre, possuído por uma variante da Síndrome de Jerusalém, projectou um filme. Ambos são pastores de seitas.

Alegre era um derrotado ambulante bem antes de ter assumido a derrota. Foi ao tapete com a entrevista de Correia de Campos, que lhe serviu um gelado com sabor a fel. As sondagens finais acabaram com o que restava, e já não restava nada.

Defensor de Moura, ao se recusar a felicitar Cavaco, introduziu uma lhaneza política que nunca tínhamos visto. De facto, este candidato, noutras circunstâncias, teria abalado ainda mais Cavaco.

José Manuel Coelho é tosco demais para perceber a sua popularidade fora da Madeira. Nem tudo nele é desaproveitável, mas o homem não tem condições para ir mais longe.

E Sócrates esteve impecável, na forma e no conteúdo. Para quem o quis ouvir, voltou a explicar por que se meteu nesta barca condenada ao afundanço: mais ninguém se chegou à frente, Alegre secou as potenciais candidaturas dentro do PS.

Aquela coisa do 5 contra 1

O Cavaco rancoroso e vingativo que apareceu a dar início à sua última fase como político é a manifestação de um homem doente. Está doente de solidão, ao ponto de ter estilhaçado o respeito próprio. À sua volta só vê inimigos, e nem no actual PSD pode confiar. Para além de temer enviar mensagens pela Internet, falar ao telefone ou frequentar jantares na Madeira, vira-se agora num frenesim alucinado contra os jornalistas, que tão bom serviço lhe tinham prestado quando as baixezas e vilezas foram – durante anos! – dirigidas para Sócrates. Isto também quer dizer que Cavaco consome as drogas duras do Pacheco, por sua vez traficadas por arraia-miúda sem escrúpulos, acerca da mão do Governo na campanha suja. O que permite antecipar, portanto, que um dia destes Cavaco virá apontar o dedo na direcção do blogue Câmara Corporativa e identificá-lo como o grande inimigo da verdade.

Esse momento será a justa consumação do Cavaquismo – o clímax para uma casta de onanistas.

O festim dos luditas

Voto numa das freguesias mais populosas do País, e fui lá marcar um voto anónimo por volta das 5. Tirando a estranha ausência dos vendedores de castanhas, estava o ambiente normal de outros actos eleitorais. Dentro do pavilhão escolar onde funcionava a Junta de Freguesia, porém, havia confusão maior do que o costume, resultante de uma bicha com algumas 50 pessoas que afectava a mobilidade naquele espaço exíguo. Ao entregar o boletim à mesa, ouvi o diálogo em que uma eleitora sexagenária (?) descobria que tinha de se deslocar à Junta, a funcionar no andar de baixo, para descobrir onde conseguiria votar. Ela respondeu que não o faria, que já lhe tinha custado a deslocação quanto mais ter ainda de estar à espera. A presidente da mesa despachou-a com indiferença, largando um impaciente Pois, lamento, mas nós aqui não podemos fazer nada. Nem sequer a tentou convencer a aguentar o último esforço para poder cumprir o seu direito, tratou-a ao pior estilo do funcionalismo público e revelando uma absoluta ausência de espírito republicano e dever de cidadania. À saída, nos grupos que estavam à conversa ou se afastavam pelo passeio, ouviam-se comentários de protesto contra os atrasos e confusão resultante.

Para além daqueles que não votaram apesar de terem ido até à assembleia, muitos outros ficaram em casa por lhes terem pintado retratos de caos em primeira mão. Não sei se será possível fazer um cálculo com alguma legitimidade científica acerca do impacto dos problemas técnicos na abstenção, mas mesmo que só tivessem afectado um eleitor continuariam a ser inadmissíveis. O que sei é que uma parte do problema teria solução simples: aumentar os pontos de informação nos locais de voto. É que bastava alguém com um portátil e uma ligação à Internet, não parece que as Juntas de Freguesia tivessem dificuldade em montar tal extensão aos seus serviços. Quanto à ausência de uma campanha informativa que preparasse os eleitores para os problemas que se verificaram, parece agora óbvia a sua necessidade.

Nas próximas horas, e dias, ouviremos ataques ao Simplex, ao Cartão de Cidadão, à Internet, aos computadores, à electricidade e à água canalizada, obras maléficas do Governo. Sócrates será acusado, enfim, de ser um dos principais responsáveis pela civilização – e isso, convenhamos, não está muito longe da verdade.

Interrupção Voluntária do Cavaquismo

Recordo-me do primeiro referendo sobre a despenalização do aborto como se tivesse sido há 12 anos e meio. Fazia parte das mesas eleitorais, tal como acontecia ininterruptamente desde meados dos anos 80, e nunca tinha visto tão pouca gente num acto eleitoral. Aliás, nunca tinha visto o fenómeno de faltarem tantos elementos para as mesas e de não se encontrar ninguém para os substituir, ao ponto de se ter de juntar mais do que uma mesa eleitoral na mesma sala de voto. Isto foi no tempo em que ainda não se pagava nada pela presença, assim que os membros das mesas começaram a receber dinheirinho nunca mais recebi a carta a convocar-me para prestar esse nobre serviço à República e presumo que acabaram as carências em matéria de recursos humanos. Sim, o entusiasmo com a cidadania e a celebração da democracia também têm o seu preço.

Nesse referendo, o calor mandou a esquerda para a praia. Aquela que se dizia ser uma vitória certa, de acordo com as sondagens e a constatação empírica de cada um, resultou numa das maiores surpresas políticas em Portugal. Hoje, o frio poderá fazer o exacto simétrico à direita: não a deixar sair de casa. E sabemos que qualquer aumento da abstenção só penaliza Cavaco, podendo pôr em causa o seu plebiscito.

Os políticos

Aqueles que fogem da política, que abominam os políticos, são os que mais precisam dela. São os ignorantes, no sentido ontológico da expressão. Ignoram qual é a sua natureza, e que não a poderão abandonar. Porque só há um caminho para os humanos, ir em direcção à Cidade.

Aqueles que exploram estes miseráveis, alimentando a sua menoridade e impotência, usando a sua desorientação e dores para as lançar contra o Governo e as autoridades – seja quem for que esteja no Governo ou nas autoridades – são tiranetes codiciosos. Não são de esquerda ou direita, independentemente do lado onde surjam e que simulem assumir. A fonte do seu poder é o medo que vem dos medrosos arrebanhados.

Aqueles que nos lembram ser a Cidade a dimensão onde a liberdade se realiza, porque é lá que nos encontramos uns aos outros, são os políticos. Os políticos, estejam ou não nos partidos, dizem-nos que a liberdade no vazio, sem empatia e mistério, é a definição mesma de loucura. Os políticos reconhecem-se pela coragem de que dão provas. E pela coragem que inspiram. Os políticos amam.