Minority report

Passos Coelho surpreendeu pelo tino do discurso. É cedo para saber se é o resultado de uma aprendizagem ou de um qualquer acaso, posto que ainda há duas semanas andava a largar bacoradas acerca do FMI e do Governo. É bizarro como algo que devia ser evidente, as vantagens de uma pose de estadista e uma estratégia de captação do centro, tem sido olimpicamente ignorado no PSD por todos os líderes pós-fuga de Barroso e queda de Santana. As razões merecem investigação académica, dada a persistência do fenómeno até num político com a tipologia de Passos Coelho, de quem se esperaria muito maior inteligência sociológica. Se o PSD finalmente aceitar entrar em territórios que lhe são actualmente desconhecidos, os sectores mais dinâmicos da sociedade, e trouxer de lá ensinamentos, então estará em condições de preparar equipas governativas de grande qualidade.

Em flagrante contraste com este posicionamento, Portas e Louçã mostraram que são políticos serôdios e esgotados. Discursaram como parlamentares, usando uma retórica tão primária quanto as suas ideias: um, a dizer que vai para o Governo daqui a nada; o outro, a dizer que fará a revolução com o grupo de amigos que tem lá guardado no partido. Devem agradecer ao Cavaco por não terem ficado nesta noite eleitoral como o exemplo maior do que é a decadência política.

Num plano ainda mais inferior, temos Nobre e Francisco Lopes. Há várias similitudes na forma como os dois candidatos moldaram um universo paralelo onde foram ambos vencedores, apenas se distinguindo na magnitude da vitória. Chico Lopes, sem nada de objectivo a que se agarrar, despejou a cassete. Nobre, possuído por uma variante da Síndrome de Jerusalém, projectou um filme. Ambos são pastores de seitas.

Alegre era um derrotado ambulante bem antes de ter assumido a derrota. Foi ao tapete com a entrevista de Correia de Campos, que lhe serviu um gelado com sabor a fel. As sondagens finais acabaram com o que restava, e já não restava nada.

Defensor de Moura, ao se recusar a felicitar Cavaco, introduziu uma lhaneza política que nunca tínhamos visto. De facto, este candidato, noutras circunstâncias, teria abalado ainda mais Cavaco.

José Manuel Coelho é tosco demais para perceber a sua popularidade fora da Madeira. Nem tudo nele é desaproveitável, mas o homem não tem condições para ir mais longe.

E Sócrates esteve impecável, na forma e no conteúdo. Para quem o quis ouvir, voltou a explicar por que se meteu nesta barca condenada ao afundanço: mais ninguém se chegou à frente, Alegre secou as potenciais candidaturas dentro do PS.

36 thoughts on “Minority report”

  1. Estou de acordo contigo em quase tudo, excepto, no caso do Correia de campos, homensinho que não perde a primeira oportunidade para se vingar.

    Não foi seguramente isso que levou Alegre ao tapete. Achas que os ecos da entrevista chegaram à maioria dos eleitores? Não me parece!

  2. eu acho que dentro do que estava em cima da mesa e descontando milagres, isto correu bem para o país. Assim o presidente percebesse que, sendo o mesmo, perdeu quase um em quatro dos seus votantes anteriores, e portanto saiu diminuído na força de representação, o que se devia traduzir em menos ímpeto e mais moderação. Enfim tolices de um idealista pragmático. E claro, ainda há o BPN que importa em não sei quê.

  3. Tendo em conta o evidente desinteresse que mais de metade dos potenciais eleitores tiveram para com estas eleições e que o homem do “pogresso” foi também penalizado no número de eleitores e que foi o causador de se terem batido quase todos os records de que há memória (abstenção, votos nulos, votos brancos…) é uma vitoriazinha, mesmo considerando que ele não é digno dela, pois não soube vencer. Foi arrogante, azedo, bronco, sem perspectivas de futuro, em suma: – sem nada que o recomende.
    Estou para ver se os jornalistas que ele diz que ampliaram os “casos” de que não gostava de abordar, vão continuar ou se por “encanto” vão ser diluídos. Há matéria suficiente para que não seja só o “Câmara Corporativa” a falar do assunto. Assim o espero.

  4. Ó Teixeira, você não não acha que o “desinteresse dos potenciais eleitores” é um voto muito concreto e palpável contra a totalidade dos gabirus da política, tanto aqueles de que você gosta como os de que não gosta? É que as tiranias de grupo a atirarem para cleptocracias assumem diversas formas e tonalidades; esta, para consumo dos lusotoinos, cópia de muitas outras como numa fornada de pão, é das que deu em armar-se em democrática – coitado do adjectivo que não tem culpa nenhuma do uso que lhe dão.

    E daí que a “sua” opinião não tenha, também, nada de recomendável. O que está longe de ser crime, não me desentenda.

  5. Somos poucos eleitores e a dividir por 5 já viste, o Cavaco apenas passa um restinho acima dos 50 por cento, porque o Defensor ao desistir da sua campanha repassaou um esse restinho para ele.

    Quase tinhamos a II volta se o DEfensor não cedesse aqueles pontos.

  6. Ele (CS) já era frágil, agora ficou fragilizado. É um catálogo de doenças e não são (infelizmente) imaginárias. São reais.

  7. o nobre será o futuro candidato do bloco nas próximas presidenciais e até lá vai mostrar serviço ao anacleto, portantes preparem-se para o pilha galinhas

  8. Sócrates nunca disfarçou o incómodo que representava a candidatura de Alegre. Deve, por isso, estar satisfeito com a sua derrota. Escrever que o melhor discurso foi o de Sócrates, só por cinismo. Estão bem uns para os outros, os Alegres e os Sócrates deste partido “socialista” que, no governo, nem sequer conseguiu dar a informação correcta aos eleitores, para poder poupar 1 milhão de euros. Cambada de incompetentes!

  9. Mais uma «análise» previsivel e sem nada de novo à la Valupetas: Louçã e Portas são uns «primários»; Lopes é uma «cassete»; Alegre é um traidor que merece a derrota e a vingança dos socretinos que o deixaram sozinho ou que apoiaram o candidato soarista; o Pinto de Sousa, sempre «impecável» nos seus fatos Armani, é o maior ( é até o algo maior do que o qual nada se pode pensar, como o Valupetas nos vai revelando); e – uma quase «novidade», mas apenas para quem ainda não topou quem são os adeptos da «esquerda» moderna – o Passos Coelho começa a apresenta-se como uma alternativa de «qualidade» aos olhos do(s) Valupetas. Os socretinos, habituados a aplaudirem a prosa do situacionista de serviço, estão de acordo (como não podia deixar de ser) com o «mestre», o que torna muito provável a concretização do velho sonho do Sá Carneiro: um presidente, uma maioria, um governo… e uma imensa carneirada com base de suporte.

  10. João onde vê vergonha, veja coerência. Pelo menos respondeu às perguntas dos jornalistas. Vergonha é ter o presidente que temos.

  11. Val,

    o teu retrato é a preto e branco mas certeiro, vamos tentar dar um pouco de cor ao assunto que tristezas não pagam dívidas.

    O impulso do comportamento “carneirada” ficou mais encolhido na grande área do Cavaco. Nos outros partidos é o facto mais relevante que se deve trabalhar para melhor conhecer os efeitos de mudança.(na carneirada desobediente)

    Muita “gentinha” que se julgava os donos da marabunta anda às “aranhas” com estes resultados.

    Quanto ao “nosso amigo” Sócrates, tens razão, vou cumprimenta-lo brevemente pelo estilo, é na realidade insuperável. Não há no reino outro igual, como todos os fatinhos lhe cai bem é um político que nunca se amarrota, e aquela cara de santo de menino que vê Deus. Acredito que um destes chora. O nosso amigo Almeida Santos, um dos donos da obra “Alegre” esteve desamparado do seu (dele) amigo Costa, seu sócio nesta bisonha tarefa, que se não deixou ver.

    Como podes ver somos todos bons amigos.

    O pior esta mais à frente.(de nós claro está)

  12. VM: não felicitar o vencedor legítimo de umas eleições democráticas não é coerência, meu caro. É apenas a demonstração de uma total ausência de responsabilidade cívica, cultura democrática e espírito republicano. Repito: nunca me arrependi tão depressa do exercício do meu direito a votar.

    Ter o Cavaco como presidente não é uma vergonha: é um facto. Tendo sido eleito pela maioria dos meus concidadãos é, doravante, também o meu Presidente. Por muito que considere a figura detestável.

    Ter de explicar coisas tão básicas é que é assustador.

  13. Defensor de Moura não foi fingido nem de moralidades politicamente correctas, mas foi, isso sim, inteiramente honesto consigo e sua postura na campanha, onde era evidente que não acreditava na “verdade”, “honestidade”, “honorabilidade”, e quase auto-proclamada santidade de Cavaco.
    E Cavaco, no seu ressabiado discurso de victória, só lhe deu razão. A um Presidente em exercício e acabado de reeleito, que diz querer ser Presidente de todos portugueses, exige-se respeito a esses todos portugueses.
    Logo não pode dizer que: – “Hoje ganhou a honra e perdeu a infâmia”-. E outras frases de igual calibre e sentido ou piores ainda que já tinha tirado da sua cartilha de mestre-escola porque proclamar tal enorminade é chamar infames a todos que não votaram nele: uma ofensa inqualificável.

  14. Discordo de ti, primo. Não felicitar significa que não se reconhece proveito no facto, mas não diz nada do respeito que se tem pelo cargo e seu representante enquanto exercendo a função. Nesse sentido, presumo eu, o Defensor de Moura poderá ser inexcedível na correcção com que tratará no futuro o futuro Presidente da República, mas não pode ignorar que considerava imoral a vitória do candidato – mesmo imoral a sua mera recandidatura.

    Quanto a ser o Presidente legitimamente eleito, e por isso o Presidente de nós todos, é absolutamente indiscutível.

  15. Irra, saibam perder. Não gosto dele, mas é o meu presidente, por mérito próprio. Isso ninguém lhe tira. Não reconhecer isso é dar-lhe razão quando os acusa de “infames”, e apenas reconhecer a democracia quando ganham os nossos. Isso é para o PC, não para os democratas.

    Totalmente de acordo com o João Pedro da Costa.

  16. Defensor de Moura era o que menos teria a perder, o que menos ilusões tinha acerca dos seus resultados. Tanto que praticamente nem fez campanha. Por isso, é o que menos razões teria para exibir mau perder. Creio é que ele levou a sério o que andou a dizer de Cavaco, o que explica esta originalidade protocolar.

    Contudo, em matéria de não saber lidar com os resultados, ninguém baterá Cavaco durante décadas ou séculos.

  17. O que não quer dizer que eu desça ao nível a que o percepciono. Que é o que faço se não lhe der os parabéns pela justa vitória. Dispenso, e levo a mal quem assim faça. Detesto mau perder. Reconhecer a derrota, dar os parabéns ao vencedor e, com a legitimidade de o ter feito, atacá-lo se for necessário a partir do dia seguinte. Chamo a isso cultura democrática, para não dizer boa educação básica.

  18. edie, não houve batotas, quem se seu ao trabalho de votar fê-lo em consciência depois de ouvir os argumentos esgrimidos na campanha, a maioria preferiu Cavaco, por uma margem que não dá espaço a dúvidas e a uma distância dos restantes que ainda menos. Em todas as freguesias, creio eu. E dadas as alternativas, não lhes posso levar a mal. Ganharam, dou-lhes os parabéns. Agora posso passar os restantes 5 anos a explicar-lhes porque é que foi uma má decisão, se me quiserem ouvir. Mas foi legítima, democrática, logo justa.

  19. Ao contrário de opiniões que por aqui vi, não penso que seja uma vergonha a reacção de Defensor de Moura. Muito pelo contrário. Foi a reacção honesta de alguém que não está disposto a aceitar os hipócritas “rodriguinhos” de circunstância! Quanto ao Cavaco, cá teremos de aturá-lo maila “sua senhora” por mais cinco anos. Enfim… que havemos de fazer?! Talvez seguir o que um dia disse James Joyce referindo-se à sua Irlanda: “se não podemos mudar o país … mudemos de assunto”

  20. em todas não! Aqui onde moro ganhou o Alegre por um voto, que engraçado. Aliás acho que ele safou-se menos mal do que estava previsto e ainda bem, para o rescaldo. Quanto ao tudo junto e dentro do país dos possíveis, veio um cartão amarelo da abstenção, o que com estes imbróglios à vista, e outros, se calhar é bom. O capitalismo financeiro de saliva espumosa não larga as presas, cabrões.

  21. Para mim, Vega, legítimo não equivale a justo,dou um carácter mais ético do que formal (maioria na contagem de votos) ao termo. O facto de ter tido uma maioria de eleitores a votar nele, torna a vitória legítima; o facto de nada no seu carácter ou acções, enquanto presidente e pessoa política justificar a reeleição, torna-a injusta.

    A história está cheia de escolhas legítimas e injustas.

  22. Pois, ф, se tivesse sido tudo como aqui em Lisboa, o Cavaco tinha ido mais encolhidinho à segunda volta. Mas agora não é uma questão de ses, mas de quando será o próximo golpe.

  23. pois é Edie, as vantagens práticas do injusto perverso que parece justo, sobre o justo. Socrates na pena de Platão discutia bem isso na Republica e já não me lembro como se safava mas amanhã a ver se consigo. Por falar nisso lembrei-me finalmente do nome do leão flamejante que inspirava o guerreiro espiritual no seu caminho pacífico: Garuda!, poça que demorou, mas como sempre lá chega um dia.

    Bom, mas agora como isto anda aviso já convoco raios num ápice se me coisam.

  24. Talvez, edie, mas é preferível a escolhas justas mas ilegítimas, e eu sou um grande adepto da imperfeição. A vida não é justa, a democracia reflecte isso, suponho, e os sacanas às vezes ganham. Mas eu acredito na sociedade, e na capacidade desta de escolher o rumo certo, mesmo que não seja evidente. E pensa lá, sem Santana não tinhas Sócrates, tal como sem Bush não tinhas Obama. E tenho cá a sensação que ontem, o capítulo da revolução teve o seu epílogo, e uma certa tese suícida no PS foi derrotada. Enfim, food for thought…

  25. Só muitos anos depois de Zeus se tornar o deus racional e juiz moral da sociedade, e das Erínias se transformarem em Benevolentes é que Sócrates pela pena do discípulo Platão disse: “É preferível sofrer uma injustiça que praticá-la”.
    Cavaco, além de, pelas frases rancorosas que proferiu ter chamado implicitamente os adversários de “infames”, “mentirosos”, “caluniosos” e outros mimos de calibre semelhante, não me consta que, também ele, tenha agradecido e reconhecido a participação dos outros candidatos, parece que perpassou pela sua mente retorcida que os portugueses lhe deviam quase uma sagração pública pela sua persona.
    Defensor de Moura não praticou nenhuma injustiça mas apenas uma descortesia contra alguém que ele, no seu entender, considera que foi desonesto de facto e não merece a sua consideração. A função presidencial de CS é uma questão acidental que não entra na apreciação que faz do seu opositor.
    Defensor de Moura exerceu plena e frontalmente sem ambiguidades ou fingimento social o seu direito à indignação. A função não tem direito a reverências e as personas são o que são.

  26. vuuuuuuuuuuumm! Pois, mas tenho ali um plano de trabalhos para acabar. Não vejo tv, estou fora dos timbres e dos esgares, mas acho bem que alguém tenha tido a irreverência frontal de Defensor de Moura. O contrário da hipocrisia nacional, que ainda hoje, a bem das conveniências e para não parecer mal, em particular para não anular as cortes de Tomar, mantém que Sebastião morreu em Alcácer Quibir, a caminho de 5 séculos depois, que coisa insólita e tremenda.

  27. Defensor entrou numa disputa politica de sua livre e espontânea vontade, conhecendo contra quem se candidatava. Mandam as regras da civilidade que se cumprimente o vencedor, por muito má opinião que se tenha deste. Disto não abdico, é destas regras que se faz a vida em sociedade. O facto de Cavaco ter sido ainda mais descortês é perfeitamente irrelevante, porque o dia em que eu ponha em causa os meus valores e educação por causa do que Cavaco faz ou deixa de fazer é o dia em que me torno igual a ele. E isso não quero.
    Isto não é sobre quem é Cavaco. É sobre quem nós somos.

  28. João: Antes de mais quero deixar claro que nunca me passou pela cabeça pôr em causa a legitimidade democrática de quem quer que seja.
    Depois quero apenas acrescentar que D. Moura poderia ter dado os parabéns ao candidato vencedor, optou por não o fazer, seguindo a essência do que foi a sua candidatura, compreendo-o perfeitamente e não vejo mal nenhum na sua atitude.
    Quanto à vergonha, dou-lhe razão, escrevi sem pensar, não tenho nem um pingo.
    Espero, sinceramente, que não tenha apanhado mais um susto.

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